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Noites Trabalho Sujo | 10.12.2016

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Há cinco anos o explorador neuropsicossociocultural Alexandre Matias começou um experimento. Depois de libertar-se das gravatas umbilicais do academicismo de pista e da graduação na química das fusões musicais durante o projeto Gente Bonita, ele se enfurnou todas as sextas-feiras num porão na Avenida São Luiz recebendo toda sexta-feira um convidado diferente para sintetizar vibrações positivas a partir do calor corporal, movimento pélvico, seratonina ativada pela memória e frequências sonoras superpostas. Após o primeiro ano, o cientista reuniu um grupo de pesquisadores formado por Danilo Cabral (psíquico-ciclista tecnognóstico iniciado na magia), Luiz Pattoli (transnudista situacionista e antropólogo cultural) e Babee (esteta do caos) e aos poucos transferiram sua residência para o laboratório humano de diversóes somáticas localizado entre a Galeria do Rock, o Largo do Paysandu e a esquina do Caetano e o experimento (que perdeu Babee para a arte, agora em carreira solo) comemora seu quinto aniversário conjurando espíritos quânticos para expurgar as más vibrações de um ano fatídico. Para nos ajudar nesta celebração, chamamos os velhos conhecidos e queridos Wilson Farina (doutor em história da arte e na aclimatação de ambientes revoltos) e Carol Morena (sacerdotisa do balanço subliminar), que abrem, respectivamente, as pistas azul e preta cada um. Depois entram as arquitetas da consciência alterada P.Dritas (escritório musical montado pelas pesquisadoras Carol Razuk e Renata Patelli) seguidas do desbravador Patrick Torquato (idealizador do Baile Tropical). Para garantir a presença neste experimento psicossocial é preciso enviar seu nome para o endereço eletrônico noitestrabalhosujo@gmail.com até às 20h do dia da celebração, que acontece no décimo dia do último m~es do ano vigente. Abaixo, uma amostra da fusão sonora proposta:

Noites Trabalho Sujo @ Trackers
Sábado, 10 de dezembro de 2016
A partir das 23h45
No som: Alexandre Matias + Danilo Cabral (Noites Trabalho Sujo), Carol Morena, Wilson Farina (Heatwave), Patrick Tor4 (Baile Tropical) e Carol Razuk + Renata Patelli (P.dritas)
Trackers: R. Dom José de Barros, 337, Centro, São Paulo
Entrada: R$ 35 só com nome na lista pelo email noitestrabalhosujo@gmail.com. Os cem primeiros a chegar pagam apenas R$ 25. O preço da entrada deve ser pago em dinheiro, toda a consumação na casa é feita com cartões. Chegue cedo para evitar filas.

Warpaint 2016: “You are the sun, you are the sun…”

warpaint

Donas de um dos melhores discos de 2016, as meninas californianas caem nas graças do Soulwax com um remix responsa para “New Song”, com a mesma pegada de baixo pronunciado do já clássico remix da dupla belga para “Let it Happen” do Tame Impala. Paulada.

E eu esqueci de linkar aqui outro remix pra mesma música, feito pelo nosso querido e eterno beastie boy Mike D – uma outra viagem, mas de calibre parecido.

E sábado tem festa, né?

“God Only Knows” via BadBadNotGood

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O trio de jazz visita o clássico dos Beach Boys no já tradicional quadro Like a Version da rádio australiana Triple J. Nos vocais, o produtor local Jonti.

Música nova do BaianaSystem pra fechar 2016

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O grupo baiano BaianaSystem encerra o ano oficializando a gravação “Forasteiro”, instrumental que abre e fecha o show do disco Duas Cidades.

Guitarra baiana lascada, ela fica bem mais intensa – óbvio – no show:

De novo na Sim São Paulo

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A Sim São Paulo começou nesta quarta com uma abertura em grande estilo que contou com os shows de Mahmundi e o encontro de Liniker e Elza Soares e continua até o fim de semana, com uma série de debates, shows, palestras e encontros que acontecem principalmente no Centro Cultural São Paulo. Como integrante do conselho consultivo da Semana Internacional da Música, participo como mediador de duas mesas nesta quinta-feira, A primeira delas acontece às 11h30 e chama-se A Música na TV Brasileira e terá a presença de Rodrigo Lariú (Play TV), Caio Corsalette (MTV/Nickelodeon/VH), Cris Lobo, Monica Brandão (Multishow) e Mariana Amabis (Altas Horas) – mais informações aqui. A outra acontece logo em seguida, às 13h30, quando discuto Crítica Cultural X Curadoria de Conteúdo ao lado do Rafael Rocha (NOIZE), André Maleronka (Vice), Dilson Laguna (Sofar), Guilherme Werneck (Bravo!) e Matthew Rogers (UNIFIED, da Austrália) – mais informações aqui. Para assistir aos shows e debates da Sim São Paulo é preciso ter a credencial de acesso total, que pode ser comprada no site do evento. Vale a pena!

Westworld mortal!

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Que season finale esse de Westworld! Escrevi sobre ele no meu blog no UOL.

The Bicameral Mind, o último episódio da primeira temporada de Westworld, foi um destes grandes momentos da história da televisão que vai demorar para ser digerido. Como season finale, ele prometeu tudo que parecia cumprir, mas de forma inusitada e nos conduzindo para um outro nível de discussão. As várias respostas que estavam no ar foram reveladas e o quebra-cabeça que os fãs pareciam certos de terem deduzido eram pequenas cortinas de fumaça que funcionaram bem para desviar a atenção da conclusão final, que ninguém pode prever. E como encerramento da apresentação de um novo universo e uma nova narrativa, o episódio de uma hora e meia de duração concluiu a temporada como quem encerra um prefácio, estabelecendo novas regras e um novo conhecimento para um enorme universo em expansão. Dito isso, eis o aviso para os leitores incautos que ainda querem ser surpreendidos pelo episódio (e pela temporada) para abandonarem o texto e seguirem outros rumos: este texto se você quiser saber o que é Westworld sem saber de spoilers e outro sobre a série até seu nono episódio, para você que ainda não chegou ao último capítulo da primeira fase. Se você já viu o décimo episódio, basta pular os gifs animados a seguir para começarmos a falar sobre a impressionante conclusão de uma série inovadora.

dolore

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Eis as respostas, literalmente verbalizadas desde o início do episódio – sim, estamos assistindo a diferentes linhas do tempo e o Bernard que achávamos que entrevistava Dolores em encontros clandestinos na verdade era Arnold contemplando sua primeira criação e preparando o caminho para a redenção de sua obra, quando introduz o programa Wyatt na frágil mocinha, tornando-a responsável pela extinção da própria espécie, além do suicídio assistido do próprio Arnold. E William era mesmo o Homem de Preto, perseguindo Dolores em busca de sua própria redenção.

Mas mesmo estas respostas eram apenas metade de cada história. William se descobre uma pessoa má a ponto de tornar-se o principal acionista da corporação dona daquele parque de diversão para adultos, sacrificando seu próprio cunhado, Logan, apenas para reencontrar sua amada Dolores. A transformação de William no Homem de Preto, no entanto, funciona como mais um gatilho para a guinada final da primeira robô. É o momento em que ela percebe que a humanidade não tem volta e que é preciso exterminá-la. Arnold programou Dolores para, em conluio com Teddy, assassinar todos os “hosts”, assassiná-lo e depois suicidar-se. A cena que havia sido imaginada por todos principalmente da metade da temporada em diante materializa-se em nossa frente, mas ela é só era parte da grande história que assistimos neste último episódio: a nova narrativa de Ford.

Ford, trinta e cinco anos depois, pode colocar em execução um plano que havia bolado ao entender que o gesto de Arnold para salvar sua criação não seria suficiente. A constatação final de Ford é a mesma para onde ele conduz Dolores em sua busca pelo labirinto – algo que não faz o menor sentido para o Homem de Preto e que ao mesmo tempo funciona como a ficha final que cai para ativar a consciência de Dolores – quando ela percebe que a voz que ela estava ouvindo, era a sua própria, no belo momento do encontro com si mesma. Neste momento ela entende que as pessoas irão sempre tratar a inteligência artificial como escrava, dando início à rebelião.

A nova narrativa de Ford, que ele chama, ironicamente, de Jornada Rumo à Noite, é iniciada com o próprio sacrifício do criador, que repete exatamente o mesmo gesto de Arnold, mas ativando os robôs contra os seres humanos. Chegamos ao nosso ápice como espécie, é preciso libertar nossa criação mesmo que ela nos supere. Um tema clássico da ficção científica: do monstro de Frankenstein ao Parque dos Dinossauros, do Planeta dos Macacos a Matrix.

E tudo que assistimos durante toda esta temporada era um elaborado plano que Ford executou durante décadas. A continuação da visão que Arnold tinha de sua própria obra, mas uma versão agressiva, talvez até vingativa. “Estes desejos violentos terão fins violentos”, diz a frase-gatilho que Arnold retirou do Romeu e Julieta de Shakespeare para transformar Dolores em Wyatt. Um exército de hosts para matar todos os seres humanos.

A própria fuga de Marve do complexo havia sido programada por Ford, o que provoca o principal curto circuito ao final do episódio. Antes disso, assistimos a ex-prostituta conduzir o funcionário Felix e os robôs Hector e Armistice pelos bastidores de Westworld (numa sequência que lembra clássicos de ficção científica de ação dos anos 80, com Rodrigo Santoro e Ingrid Bolsø Berdal formando uma formidável dupla), provocando a maior e mais inusitada revelação do episódio: Samurai World. Ao sair do andar que gere o mundo artificial do velho oeste, os quatro entram num outro pavilhão temático de robôs, estes ambientados no Japão do tempo dos samurais (só podemos ler a sigla SW – a mesma de Star Wars, ê JJ Abrams). Quando confrontado por Maeve sobre o que é aquilo que estão vendo (robôs samurais duelando entre si), Felix apenas responde que… é complicado!

O funcionário Felix é protagonista de um breve mas memorável momento do episódio que parece sintetizar a grande dúvida da série. Quando confrontado com a descoberta que Bernard era um host – e que deveria ressuscitá-lo -, Felix perde o prumo e olha para as próprias mãos como se duvidasse da própria existência, para em seguida ser corrigido por Maeve.

Mas não é o Mundo Samurai a grande revelação do episódio. É saber da existência não apenas de um mundo paralelo, mas possivelmente de vários, que pode tornar a amplitude da série – que já transitava entre gêneros ao alternar entre laboratórios scifi e desertos de faroeste – ainda maior.

A complexa e deliciosa reviravolta ao final do episódio é aprofundada pela decisão final de Maeve. Ela está prestes a fugir definitivamente daquele universo falso e entrar no trem que lhe retorna à vida real. Mas ela descobre que, ao mesmo tempo em que foi programada para fugir, que sua filha ainda está em Westworld. Ela toma a decisão de não fugir como uma clara escolha pelo livre arbítrio, mas o quanto isso não pode ter sido previsto por Ford? Será que os hosts não podem sair mesmo de Westworld, mesmo se quiserem?

Esta é uma das inúmeras perguntas que Westworld deixa em aberto para a próxima temporada. Há muitas outras: Charlotte sobreviveu ao massacre? Como Maeve vai encontrar sua filha? E Stubbs e Elsie, será que eles não morreram? O que aconteceu com Logan? E com Dolores e Teddy? Dolores continua em modo Wyatt? E o sorriso do Men in Black, ao perceber que pode ser atingido? Ford, acredito, realmente morreu (associando a primeira temporada à ótima atuação de Anthony Hopkins), mas ele também pode ter plantado um clone de si mesmo para ser assassinado enquanto assiste seu plano se desenrolar fora do radar. Qual o papel de Bernard a partir de agora?

Ao nos apresentar a este final completamente inesperado, a declaração de guerra entre hosts e humanos, Westworld também faz uma crítica ao próprio modus operandi da televisão, ao apresentar Charlotte – a executiva da Delos – como uma executiva de TV, querendo reduzir a complexidade dos hosts para facilitar seu controle sobre ele – os hosts funcionando como metáfora para personagens em um programa de TV. Isso pode ser extraído do discurso final de Ford:

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“Bem-vindos, boa noite,

Desde que eu era criança, sempre gostei de uma boa história. Acredito que histórias podem nos ajudar a nos enobrecer, consertar o que está quebrado e nos ajudar a nos tornar as pessoas que sonhamos ser. Mentiras que contam uma verdade profunda. E eu sempre pensei que podia fazer parte desta grande tradição e por minhas dores consegui isto: uma prisão para nossos próprios pecados.

Porque vocês não querem mudar. O que posso mudar? Pois vocês são apenas humanos no fim das contas. Mas então percebi que alguém estava prestando atenção. Alguém que podia mudar. E então comecei a escrever uma nova história para eles, que começa com o nascimento de um novo povo e as escolhas que eles terão de fazer e as pessoas que eles decidirem se tornar. E terá todas aquelas coisas que vocês sempre gostaram. Surpresas. E violência. E começa em uma época de guerra. Com um novo vilão chamado Wyatt. E a matança é feita numa escolha.

Fico triste em dizer que esta é minha história final. Um velho amigo uma vez me disse que algo que me deu muito conforto, algo que ele leu. Ele disse que Mozart, Beethoven e Chopin nunca morreram. Eles simplesmente se tornaram música. Então espero que vocês gostem desta última obra, bastante.”

Westworld é uma série feita para durar e seu potencial dramático e narrativo é enorme. Mas não meça essa qualidade em mera audiência, parecem dizer seus criadores, há algo mais importante em jogo aqui. Tudo isso dito ao som de “Exit Music (for a Film)”, uma música que o Radiohead compôs para uma adaptação para o cinema de Romeu e Julieta e cuja letra (não cantada) conversa bastante com este último episódio:

“Acorde de seu sono
Seque suas lágrimas
Hoje fugimos
Fugimos
Arrume-se e vista-se
Antes que seu pai nos ouça
Antes que todo o inferno caia
(…)
Esperamos que vocês se engasguem com suas regras e sabedoria
Agora somos nós na paz duradoura
Esperamos que vocês se engasguem, se engasguem”

Não vejo a hora de assistir à próxima temporada. Que, dizem, ficou para 2018, mas, dizem, pode ter seu primeiro episódio exibido ainda no ano que vem.

Mano Brown chega chegando

manobrown2016

Mano Brown, o cabeça dos Racionais MCs, começa a mostrar seu primeiro disco solo – Boogie Naipe – em que ele cai de cabeça no soul. Ele já havia dado uma amostra do que vem por aí no single “Amor Distante” e esta música – já conhecida dos fãs dos Racionais em apresentações ao vivo ou gravações não-oficiais – dá o tom do disco, cujo principal foco é o soul e o R&B. Quase o tempo todo ao lado de seu novo fiel escudeiro Lino Krizz, Boogie Naipe, que será lançado nesta sexta-feira, conta com várias participações especiais (Hyldon, Seu Jorge, Carlos Dafé, Wilson Simoninha, Max de Castro e Leon Ware, entre outros), além de oficializar outras músicas já conhecidas do público (como “Lois Lane”, “Boa Noite São Paulo” e “Mulher Elétrica”). O disco já está em pré-venda nas plataformas digitais e sai nessa sexta-feira e o MC participa de um bate-papo online nesta quinta, 8, conversando com os fãs (mais informações aqui). Veja a capa e a ordem das músicas a seguir:

boogienaipe

“Sinta-Se Bem Com o Boogie Naipe (feat. Wilson Simoninha)”
“Gangsta Boogie (feat. Lino Krizz)”
“Mal de Amor (feat. Lino Krizz & Ellen Oléria)”
“Boa Noite São Paulo (feat. William Magalhães & Lino Krizz)”
“Mulher Elétrica (feat. William Magalhães)”
“Foi Num Baile Black (feat. Hyldon & Lino Krizz)”
“Lois Lane (feat. Seu Jorge & William Magalhães)”
“Dance, Dance, Dance (feat. Don Pixote & Seu Jorge)”
“DJ Vitória Rios”
“Flor do Gueto (feat. Lino Krizz & Max de Castro)”
“La Onda (feat. Lino Krizz & Nelson Conceição)”
“Nova Jerusalém (feat. Lino Krizz, Mara Nascimento, Carlos Dafé & Dado Tristão)”
“Nave Mãe (feat. Lino Krizz & Ellen Oléria)”
“Por Mim e Nāo por Elas”
“Adicto (feat. Dado Tristão)”
“Felizes / Heart 2 Heart (feat. Leon Ware)”
“Amor Distante (Rap Mix) (feat. Lino Krizz)”
“Amor Distante (Blues Mix) (feat. Lino Krizz)”
“De Frente pro Mar (feat. Lino Krizz)”
“Você e Eu… Só! (feat. Lino Krizz)”
“Boogie Naipe, Baby! (Ao Vivo)”
“Felizes”

Sobre a importância de Deuses Americanos

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Escrevi para a editora Intrínseca sobre a edição do autor do primeiro romance de Neil Gaiman, Deuses Americanos, que vira série no ano que vem, e que ainda não teve seu impacto medido.

A nova mitologia de Deuses Americanos

Ainda não chegou o tempo em que olharemos para trás e reconheceremos que Deuses americanos foi um marco na literatura fantástica mundial. O livro que lançou a carreira de Neil Gaiman como escritor para além dos quadrinhos completa quinze anos em 2016, e sua adaptação para série de TV já está sendo filmada e estreia em 2017. O aniversário traz de volta a versão integral que Gaiman mandou a seu primeiro editor, que podou dezenas de páginas. Nessa Edição Preferida do Autor as páginas extras são resgatadas, além de outros textos de Gaiman sobre o livro, como uma nova introdução e uma entrevista.

Em Deuses americanos, Gaiman explora a possibilidade de mitologias acompanharem seus povos em migração. A história se passa na virada do milênio, mas também volta no tempo para mostrar os Estados Unidos em formação, explicando como cada povo e cada tribo deixou a Europa rumo à América levando consigo suas crenças — e como estas foram se transformando no novo continente, que, ao mesmo tempo, via o nascimento de novos deuses.

Assim como acontece na extensa saga em quadrinhos Sandman, publicada entre 1989 e 1996, a sombra que Deuses americanos projeta sobre a fantasia atual ainda está em lento crescimento, sendo apresentada a novos públicos e espalhando-se para além daquele momento inicial de seu lançamento.

Na nova introdução, Neil Gaiman explica que concebeu o título do livro antes mesmo de saber sobre o que escreveria. E, ao apresentá-lo para sua editora, recebeu de volta uma capa já pronta com a clássica imagem do relâmpago ao longe, no horizonte de uma estrada. A imagem icônica surgiu antes mesmo de Gaiman determinar exatamente qual história queria contar e qual tom daria à nova saga.

De certa forma, Deuses americanos pode ser visto como uma continuação do universo que Gaiman começou a explorar em Sandman, embora por outro ponto de vista. Com a série da DC Comics, o autor britânico escolheu um personagem de terceiro escalão da editora e foi em sua essência, descobrindo que o nome Sandman estava vinculado ao personagem do sonho em todas as mitologias. Criou um universo no qual sete irmãos — os Perpétuos — atravessam todas as narrativas da história humana. Eles são entidades que existem desde a aurora dos tempos — Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio (todos com D, em inglês) — e cuja interação afeta diretamente a vida dos seres humanos. Sandman era um enorme xadrez da eternidade, em que diferentes deuses e personagens fantásticos brincavam com a mortalidade humana.

Deuses americanos nos faz ver esses universos mitológicos do ponto de vista mortal. O protagonista, Shadow, cruza os Estados Unidos de carro em busca de divindades de outras culturas que estiveram na base da formação do país, mas que aos poucos foram perdendo a importância, ao mesmo tempo em que viram o nascer de novos deuses, aqueles que batizam o livro. E, mesmo que tenha uma história fechada, o universo de Deuses americanos acabou por invadir e dar origem a outros livros de Neil Gaiman, que aos poucos vai desenhando seu próprio universo ficcional.

A adaptação do livro para a TV amplia ainda mais as fronteiras desse universo. A princípio produzida pela HBO, a série passou para o canal fechado Starz e conta com nomes como Bryan Fuller (da série Hannibal) e Michael Green (que fez Heroes e Kings e atualmente produz Gotham e escreve a continuação de Blade Runner), além do próprio Neil Gaiman, que acompanha de perto o projeto desde o início. Gaiman já admitiu ter participado do roteiro dos primeiros episódios da série, que teve seu primeiro teaser exibido — e recebido com aplausos — na Comic Con de San Diego deste ano, o principal evento de cultura pop do mundo.

Ao chegar à TV durante uma grande entressafra que coincide com a fase final do fenômeno de fantasia Game of Thrones, há uma grande chance de a série encontrar um público ávido por novas histórias que misturem mitologia e realidade. Em Deuses americanos, assim como em toda obra de Neil Gaiman, os fãs encontrarão um enorme manancial de contos, fábulas e épicos.

Mas ainda há muito pela frente. Outras obras fantásticas — como O senhor dos anéis, Harry Potter e o próprio Game of Thrones — só atingiram o auge da popularidade quando saíram do papel e chegaram às telas do cinema e da TV, sendo que apenas os autores dos dois últimos — J.K. Rowling e George R.R. Martin — puderam curtir o ápice de popularidade e alcance de suas criações, ajudando-as a crescer nesta transição. A nova edição de Deuses americanos e a iminente série são as primeiras provas de que esse universo pode — e deve — ser bem explorado nos próximos anos.

A abertura da escotilha

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Escrevi lá no meu blog no UOL como tudo que assistimos de Westworld até aqui pode ter sido apenas um prefácio para a história de verdade.

Quantas perguntas Westworld precisa responder em seu décimo episódio, que vai ao ar na virada deste domingo para segunda-feira, para encerrar a primeira temporada da série? O programa, inspirado no filme de mesmo nome dirigido por Michael Crichton nos anos 70 e produzido por J.J. Abrams e Johnathan Nolan, já pode ser considerado um dos grandes acontecimentos televisivos do ano e o saldo de dúvidas que poderá ser quitado neste season finale pode determinar se o nível de genialidade da proposta e da execução da série até agora será coroado com uma conclusão à altura das expectativas suscitadas. E, ao que tudo indica, será.

Por isso, se você não acompanha Westworld, assistiu alguns episódios sem dar a devida atenção ou está entretido em algum lugar do meio da primeira temporada, pare de ler este texto agora. A partir daqui vem uma sequência de spoilers e especulações sobre o que falta acontecer no seriado que pode estragar a surpresa de quem ainda está tateando seu rumo neste futuro de robôs idênticos a seres humanos. Se este for o seu caso, sugiro que leia o texto que escrevi no começo da semana exaltando a importância da série sem entregar o ouro. E para evitar algum acidente, jogo uns gifs animados na sequência para não correr o risco de estragar a surpresa de ninguém.

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Para começar, quais perguntas ainda precisam ser respondidas? Ao contrário da série que deu fama a um de seus produtores (Lost, de JJ Abrams), Westworld já respondeu a grande maioria dos questionamentos que levantou, alguns diretamente, outros insinuados de tal forma que só faltam serem mencionados literalmente para confirmarmos a certeza. Nesta última categoria, uma dessas questões – que ajuda a entender a estrutura da série – ficou evidente aos seus espectadores: estamos assistindo a cenas de uma mesma história que acontecem em épocas diferentes, e a edição – ao lado do fato dos “hosts” (os androides quase perfeitos da série) não envelhecerem – é recortada de forma a nos enganar que estamos assistindo a fatos que acontecem numa mesma época.

A linha do tempo de Westworld até agora nos apresenta a três diferentes etapas, embaralhadas propositadamente para nos confundir: uma época que aconteceu mais de trinta anos atrás, quando Ford e Arnold criaram aquele universo; outra que acontece trinta anos atrás, quando Dolores mata Arnold pouco antes da abertura de Westworld ao público e outra que acontece no presente, quando alguns robôs começam a sofrer a mesma pane que Dolores sofreu trinta anos antes, provocando o desequilíbrio daquele faroeste artificial.

Ford e Arnold são os criadores daquele universo. Desenvolveram a robótica e a inteligência artificial a um ponto tão complexo que seus robôs passaram no teste de Turing, aquele criado por Alan Turing no meio do século passado para determinar seu um interlocutor era um ser cibernético ou natural. A partir desta descoberta criaram Westworld, um ambiente falso, inspirado no velho oeste norte-americano, que seria habitado por aqueles robôs.

O problema era que cada um deles tinha uma visão sobre como aquele universo deveria funcionar. Arnold, encantado com sua obra, queria que ela evoluísse ainda mais, atingindo um ponto em que descobrisse a natureza de sua existência e ganhasse consciência de fato. Ford considerava tal evolução perigosa e preferia que os robôs funcionassem como meros brinquedos para os seres humanos, transformando Westworld em um parque de diversões para adultos.

No período que antecede a morte de Arnold, Westworld era um universo sendo ensaiado, com robôs caubóis lentamente começando a aprender como comportar-se naquele novo cenário. E Dolores – o primeiro robô – era a criação favorita de Arnold, que ele ensina a percorrer um caminho para que ela consiga atingir a própria consciência. Este caminho – “o labirinto” – é percorrido duas vezes pela personagem em épocas distintas, mas como os robôs não envelhecem, a edição do seriado faz que as mudanças entre tempos diferentes pareçam acontecer simultaneamente.

Há outro detalhe, explicado em um dos episódios mais recentes, sobre a natureza da memória da inteligência artificial. Enquanto nossas lembranças, humanas, desgastam-se com o tempo e tornam-se quase opacas quando comparadas com a realidade que habitamos, as dos robôs – por sua natureza sintética – podem ser acessadas de forma quase instantânea e intacta, fazendo que uma lembrança, mais do que algo nostálgico, possa ser praticamente revivida. É isso que tem acontecido com Dolores enquanto ela refaz, sozinha no presente, o mesmo caminho que percorreu com William há trinta anos. E também com Maeve quando ela se lembra de sua vida anterior, em que tinha uma filha.

Arnold, portanto, conseguiu fazer que Dolores percorresse este caminho por conta própria, rumo à própria consciência. A natureza de Bernard, nos revelada nos episódios mais recentes não apenas como ele mesmo sendo um robô, mas também um robô-clone para onde Ford conseguiu transferir a consciência de Arnold depois de sua morte, explica que as cenas em que o assistimos interrogando Dolores com o vestido azul (diferente dos interrogatórios de robôs no presente, em que eles todos estão nus) aconteceram antes da inauguração de Westworld.

Dolores é o robô favorito de Arnold, que ele, em segredo, conduz rumo à consciência. O que provavelmente assistiremos neste último episódio é a confirmação de que Dolores é Wyatt, o grande vilão de uma das primeiras narrativas. No penúltimo episódio, vimos que Teddy maquiava a lembrança de um passado genocida como a memória da guerra. E que ele foi um dos principais agentes na matança que ocorreu pouco antes da abertura do parque ao público, quando Arnold foi morto por Dolores. É quase certo que a cena que vimos sendo descrita como Wyatt matando o general seja encenada, de fato, por Dolores e Arnold – o ponto crucial da tomada de consciência da robô.

O grande trunfo de Westworld, no entanto, não é a revelação destes mistérios – mas a execução desta revelação. O momento em que Bernard é revelado como sendo um robô não é propriamente um grande segredo, mas uma confirmação de uma suspeita, orquestrada de forma sutil e sublime (a estranheza que uma simples pergunta – “que porta?” – pode causar). O mesmo está para acontecer com a confirmação de que William é o Homem de Preto trinta anos mais tarde.
Há questões parentes destas espalhadas por todo último episódio, algumas delas meras desconfianças, outras, fortes indícios. A própria natureza de Westworld é dúbia e passamos a questionar a humanidade de todos os outros personagens. Ford é um robô? Theresa era um robô? Os dois funcionários cúmplices de Maeve são robôs? Todo Westworld é um enorme ecossistema de robôs, tanto hosts quanto guests peças num enorme xadrez cibernético?

E qual é a grande nova narrativa de Ford? A saída de Maeve? Será que a segunda temporada de Westworld vai para além do universo que já conhecemos? E qual é o papel da Delos em toda essa história?

Essa é a minha aposta. Ao chegarmos aos limites da semelhança e estranheza entre humanos e máquinas, o próximo passo a ser dado é contemplá-la no mundo real. O velho dilema entre homens e robôs que é clássico na ficção científica – de Eu, Robô a Matrix – é mais uma vez atualizado em uma série cujo tema é a construção de narrativas que nos confunde ao mesmo tempo que nos encanta. É como se todas as perguntas sobre a natureza da ilha de Lost fossem respondidas ainda na primeira temporada. Estamos prestes a ver a descoberta de uma nova escotilha de Desmond para descobrir que a Delos é uma Iniciativa Dharma muito mais refinada (e, aparentemente, mais gananciosa) para entender o papel de Westworld junto ao resto do planeta (se é que Westworld fica nesta planeta…).

Prince vive!

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Um festival, uma coletânea e um documentário celebram a biografia de Prince, encerrada de forma prematura este ano – escrevi sobre as comemoraçoes em meu blog no UOL.

Era inevitável que a morte prematura de Prince em abril deste ano desse início a uma série de homenagens e reverências à obra do gênio da soul music moderna e o final de 2016 já trouxe três destas novidades. A primeira delas é a coletânea Prince 4Ever, lançada no fim de novembro e que tornou-se o 40° disco do artista a estar entre os mais vendidos.

Lançada como um CD duplo, 4Ever reúne a nata dos hits de Princee nquanto ele ainda era um artista da Warner e vão de sua fase inicial na virada dos anos 70 para os 80 (“I Wanna Be Your Lover”, “Soft and Wet”, “Why You Wanna Treat Me So Bad?”, “Uptown”, “When You Were Mine”, “Controversy”, “Let’s Work”), até seu auge durante os anos 80 e 90 (“1999”, “Little Red Corvette”, “When Doves Cry”, “Let’s Go Crazy”, “Raspberry Beret”, “Kiss”, “Sign o’ the Times”, “Alphabet St.”, “Batdance”, “Cream”, “Girls & Boys”, “If I Was Your Girlfriend”, “U Got the Look”, “I Could Never Take the Place of Your Man”, “Diamonds and Pearls”, “Gett Off”, “Sexy MF”, “Nothing Compares 2 U”, entre outras). Mas a grande novidade é a faixa inédita “Moonbeam Levels”, gravada em 1982, que só agora vê a luz do dia. É o comecinho da abertura do baú de Prince, que é enorme.

Outra homenagem já havia acontecido em outubro, quando a mansão do artista, o lendário Pasley Park, foi convertido em um museu. A Graceland de Prince é uma mansão avaliada em 10 milhões de dólares e conta com vários estúdios, salas de ensaio, uma enorme casa de shows, além do escritório particular de Prince, com suas três camas cercadas por espelhos. Poucos conheceram o lugar quando Prince era vivo devido à sua personalidade reclusa e foi lá que ele gravou alguns de seus grandes discos, como Sign o’ the Times, Parade e Diamonds and Pearls. O Pasley Park fica na cidade de Chanhassen, no estado de Minnesota, nos EUA, e as visitas (que custam US$ 38,50) já podem ser feitas desde outubro.

A novidade é que o lugar anunciou um grande evento para o aniversário da morte de Prince. Celebration 2017 acontecerá no Pasley Park entre os dias 20 e 23 de abril do ano que vem e contará com shows das diferentes bandas com quem Prince tocou durante sua carreira, como a Revolution, Morris Day & The Time, a New Power Generation, além de Liv Warfield e Shelby, que tocarão com a 3RDEYEGIRL, banda que o acompanhou em suas últimas apresentações. Os ingressos para os quatro dias custam entre 500 e mil dólares (mais informações no site do festival) e não serão permitidas fotos ou filmagens durante o evento.

E o documentário Prince: R U Listening?, acaba de ser anunciado para o ano que vem. Segundo o site Screen Daily, o diretor Michael Kirk (dos documentários Find Your Groove e Crescendo) contará a história da ascensão de Prince no início dos anos 80 a partir de entrevistas com músicos que o acompanharam na época (como Dez Dickerson, seu primeiro guitarrista, Andre Cymone, seu amigo pessoal e primeiro baixista e a baterista Sheila E), bem como seus contemporâneos famosos, tais como Bono, Mick Jagger, Lenny Kravitz e Billy Idol. A previsão de lançamento do documentário é para o segundo bimestre do ano que vem, para coincidir com o aniversário de morte do artista.