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Andrea Tonacci (1944-2016)

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Morre Andrea Tonacci, um dos grandes do cinema marginal brasileiro – e se você não o conhece, pare tudo o que está fazendo para assistir ao seu clássico Bang Bang, um dos grandes filmes da nossa cultura.

Pin Ups rumo a 2017

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Lenda-viva do rock independente brasileiro, os Pin Ups anunciaram sua despedida no final de 2015, mas o show derradeiro e a recepção de um novo público foi tão boa que eles resolveram repensar os planos. E voltam à ativa em 2016 (com Adriano Cintra no lugar da Elaine, que está morando em Londres) para começar a pensar em viajar pelo Brasil no ano que vem. O grupo liderado por Zé Antônio e Alê toca nesta sexta no Z Carniceria (mais informações aqui), em comemoração dupla: além da exibição do documentário Time Will Burn, sobre a cena indie paulista do início dos anos 90 (que foi iniciada pelos Pin Uos), o show também celebra a chegada da banda às plataformas digitais. O Rodrigo Lariú, do Midsummer Madness, estará vendendo camisetas da banda (veja abaixo), adesivos e as últimas cópias do compacto “Guts” / “You Shouldn’t Go Away” em vinil vermelho (os produtos entram à venda na loja do Midsummer a partir deste sábado). O grupo ainda não tem outro show marcado, mas, como conversei anteriormente com o Zé, a ideia é percorrer várias cidades e até gravar músicas novas no ano que vem. O Lariú antecipou que está cogitando uma parceria com a Assustado Discos para reprensar o Lee Marvin em vinil e lançar uma coletânea digital com todos as faixas não oficializadas da banda – inclusive as das demo Not For Sale e Acoustic Rehearshal – com apresentações ao vivo de épocas diferentes.

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Abaixo, a discografia completa do grupo:

Os três primeiros + 2 em vinil

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A gravadora Luaka Bop, de David Byrne, vai lançar os três primeiros discos que Domenico Lancelotti, Moreno Veloso e Kassin gravaram na década passada – discos que têm pela primeira vez sua edição em vinil. O Máquina de Escrever Música, lançado no ano 2000 e capitaneado por Moreno, passou para o inglês e agora chama-se Music Typewriter (perdendo parte do charme do título), o Sincerely Hot do Domenico, que saiu em 2003, não precisou de tradução e o Futurismo de Kassin (meu favorito), de 2006, felizmente manteve seu título em português. Três discaços, que ainda não estão nas plataformas de streaming.

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Pare tudo para ouvir as Rakta!

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Perdi o show das Rakta no Coquetel Molotov porque fiquei preso no trânsito a caminho do festival pernambucano, por isso não tinha como perder a apresentação desta que é a melhor banda nova de rock do país. Uma espécie de Warpaint do mal, o trio formado por Paula (vocais e teclados), Natha (bateria) e Carla (vocais e baixo) encarna uma psicodelia dark que é parente tanto dos primeiros discos do Black Sabbath quanto dos discos pós-Syd Barrett do Pink Floyd, com doses cavalares de krautrock e pós-punk na mistura – e cantado em português. Filmei algumas músicas, eis uma delas:

O show no Sesc Belenzinho foi o primeiro que elas fizeram após a bem sucedida turnê pelos Estados Unidos, onde puderam gravar uma ótima apresentação na rádio KEXP, onde mostraram toda sua força.

Grande nome, vai crescer muito no ano que vem, anotem aí. Dá pra ouvir o disco novo delas (o ótimo III) logo abaixo:

2016 is dead

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Escrevi no meu blog no UOL sobre a colagem que viralizou reunindo os mortos de 2016 em uma capa ao estilo de Sgt. Pepper’s.

Como resumir um sentimento em uma imagem? Esta é a premissa básica que reúne fotógrafos e artistas em uma busca que pode sintetizar emoções a uma única visão. O diretor de arte inglês Chris Barker coseguiu fazer isso ao reunir, enquanto matava o tempo, fotos de personalidades que haviam morrido em 2016 em uma paródia da clássica capa do disco Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, que os Beatles lançaram em 1967.

“Que ano, pensei, primeiro David Bowie, o Brexit e agora isso”, escreveu em seu site ao revelar que a ideia da montagem surgiu durante a madrugada da apuração do resultado das urnas para a eleição norte-americana, que de uma hora para outra mostrava Donald Trump disparando rumo à Casa Branca. “Muita gente especulou que Bowie era a cola que mantinha o universo reunido. Certamente tem sido um tanto diferente depois de sua trágica morte. Por isso pensei que já que eu teria de ficar acordado por horas e que minha mulher e os filhos estavam dormindo, poderia fazer uma colagem que resumiria como este ano foi estranho. Não era para ser uma montagem de celebridades mortas no estilo de Sgt. Pepper’s, no começou. Na verdade, o elemento Sgt. Pepper’s veio bem depois.”

Entre os integrantes da capa fúnebre estão Prince, David Bowie, Muhammad Ali, Gene Wilder, Kenny Baker (o ator que interpretava o robô R2D2), Anton Yelchin, Leonard Cohen, Robert Vaughn, Maurice White, Alan Rickman, entre outros (além de referências ao Brexit e à eleição de Trump). No meio da capa, o vocalista do Motörhead, Lemmy, surge como um dos mortos neste ano – só que ele morreu ao final de 2015. Barker preferiu manter o erro a consertá-lo, pois acredita que ele tenha sido responsável pela viralização da imagem: “Isso me fez perceber que as pessoas gostam de coisas imperfeitas. Se está perfeito, eles não têm nada a dizer”, escreveu em seu site, “a verdadeira beleza está em permitir que o espectador ser metido a inteligente. Sempre digo que se você quer que seus amigos respondam uma mensagem em grupo sobre um encontro, basta deixar um erro de digitação de propósito e ninguém conseguirá resistir a responder apontando-o. Foi assim que Lemmy me ajudou a me tornar viral.”

Psicodelia brasileira clássica

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A psicodelia brasileira é um gênero bem específico da música lisérgica mundial que pouco a pouco ergue-se como um cânone de respeito. Se antes ela era referida basicamente pela obra dos Mutantes e da psicodelia naïf dos discos de Ronnie Von, hoje ela já responde por um volume de artistas e discos que, em sua maioria desconhecidos do grande público, formam a base de uma tradição sólida dentro da cultura brasileira. Se antes eram bicho grilos doidões tocando som alto, hoje respondem por uma linguagem e uma estética própria, bem definida e completamente brasileira.

Esta é a constatação ao ler o ótimo Lindo Sonho Delirante – 100 discos psicodélicos do Brasil (1968-1975), livro bilíngue escrito pelo Bento Araujo, editor do já clássico Poeira Zine, bravo foco de resistência do jornalismo musical impresso no Brasil. Com o foco original em resumir a cronologia brasileira a cem discos, ele teve de optar por limitar-se ao período da psicodelia original, entre 1968 e 1975. Conversei com ele sobre o livro, que pode ser comprado no site do Poeira Zine com frete gratuito.

Antes de falar do livro, queria que você contasse um pouco sobre o Poeira Zine – como ele começou, como ele se sustenta, como tem crescido e, enfim, como ele te fez se aproximar do assunto do livro.
A Poeira Zine é um fanzine independente sobre música que eu edito há treze anos. Na verdade a pZ está hibernando atualmente, pois em abril deste ano eu interrompi – temporariamente – a sua produção bimestral para me dedicar 100% ao livro. A publicação se manteve principalmente graças aos fieis leitores e assinantes e aos anunciantes, que são lojas de discos. A publicação começou da necessidade de falar sobre bandas e artistas que ninguém falava no Brasil e, com os anos, foi natural todo aquele contingente de informação abrir caminhos para o livro.

Como surgiu a ideia de transformar esta fase em um livro?
Costumo dizer que esse livro na verdade começou por volta de 1999, quando eu trabalhava na loja de discos Nuvem Nove, e descobri os discos psicodélicos do Ronnie Von. Luiz Calanca havia dado a dica e ficamos malucos. Na mesma época saiu o Tecnicolor dos Mutantes e aquela mítica Bizz com eles na capa e um pouco da história da psicodelia nacional. Desde então fiquei com isso na cabeça e passei a estudar o assunto. De dois anos pra cá eu decidi colocar o livro em prática, pra valer. Aquela palestra que eu assisti com o Fernando Rosa, organizada por você, também me ajudou na fase final do livro, fechando uma linha de raciocínio que eu comento na introdução.

Quando você determinou o escopo do livro? A ideia sempre foi falar deste primeira fase apenas?
Não, o intuito original era abordar a cena psicodélica brasileira como um todo, dos primórdios até hoje. Obviamente o lance saiu do controle… Então precisei parar em 1975 para ter os 100 discos desta “primeira fase”.

A ideia do livro sempre foi viabiliza-lo via crowdfunding? Como foi sua experiência no processo?
Sim, isso foi prioridade. Durante a minha carreira, eu passei pela experiência de oferecer livros para algumas editoras, mas geralmente o que eles oferecem ao autor é quase uma ofensa. Então, desde sempre, o crowdfunding me pareceu a melhor opção. Como eu vinha de mais de uma década trabalhando totalmente independente com a pZ, a base estava criada. A experiência foi bem bacana, estudei bastante a ferramenta e foi prazeroso. Em dez dias a meta inicial foi batida e foi quase dobrada ao final da campanha. Fiquei bem feliz.

O livro é bilíngue porque há um interesse estrangeiro por essas informações ou você acha que é preciso divulgá-las ainda mais?
As duas coisas. A demanda é grande lá fora, até maior que no Brasil, mas acho que ainda há um enorme terreno a ser percorrido.

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Você comenta na introdução do livro que foi na virada dos anos 90 para o século 21 que a psicodelia brasileira se reconheceu como cânone – e de lá pra cá é muito mais fácil identificar e reconhecer grupos e discos psicodélicos, mesmo que não necessariamente façam referência a esta primeira fase. Mas entre essas duas – a original e a atual – o que foi produzido de psicodelia no Brasil? Um volume 2 do livro, que abrange entre 1975 e 1996 (ano do Sétima Efervescência) conseguiria reunir 100 discos?
Certamente, acho que seria possível esse recorte em um segundo volume. No final da década de 70, e até mesmo pelos anos 80, existiu uma grande cena – ainda obscura – de folk psicodélico, com nomes como Quintal de Clorofila, etc. Isso sem contar outros grandes grupos psicodélicos, como o Violeta de Outono, etc.

Você está pensando em fazer um volume 2?
É uma ideia que me ocorre constantemente, mas no momento estou pensando apenas em surfar essa onda gerada pelo “volume 1”.

Quais são suas bandas psicodélicas brasileiras favoritas – de hoje e de sempre? E o grande disco psicodélico brasileiro, aquele que você apresenta tanto pro discófilo que desconhece essa cena quanto para o ouvinte iniciante em geral? E o seu disco psicodélico de cabeceira?
As favoritas são Mutantes, Liverpool, Ave Sangria, Som Nosso – mais chamado de prog, mas com temática totalmente lisérgica. Quanto ao disco, é o Paêbirú: o discófilo pira com a raridade e a história, o gringo fica maluco com a música e a temática, e o iniciante já tem a letra se vai segurar a barra da viagem, ou não. Já o meu disco psicodélico de cabeceira, eu fico entre Forever Changes, do Love, e Odessey and Oracle, dos Zombies.

O livro tem um potencial de virar algo audiovisual – uma série de vídeos sobre cada disco, um documentário e até uma ficção. Você já cogitou ou foi procurado para fazer isso?
Sim, são ideias que andam orbitando também. Algumas produtoras me procuraram e estamos estudando a melhor maneira de viabilizar algo do tipo. Tem também a parte das aulas, cursos, encontros e workshops, que eu curto bastante, como o que está rolando no Sesc. O mais bacana é contar essa história e trazer sempre um convidado que viveu aquilo tudo.

Daminhão Experiença (1935-2016)

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O cantor e compositor Daminhão Experiença, o nome mais radical e extravagante da música brasileira volta ao seu Planeta Lamma – este texto no Yahoo (que acho que é do Alex Antunes, me corrijam se estiver enganado) fala mais da importância do sujeito, mais uma vítima de 2016.

Inverno nos EUA

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O produtor português Luis Clara Gomes, que atende por Moullinex, mexeu um grauzinho pra cima no triste relato que Gil Scott-Heron e o flautista Brian Jackson deram na metade dos anos 70, quando um clima pesado baixou sobre a política local (e, por consequência, do mundo), e traz “Winter in America” para a aurora dos anos Trump. Salve-se quem puder.

E pra quem não conhece o original…

E esse disco novo do Neil Young, hein…?

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Pode ir dando a devida atenção a esse Peace Trail do velho Neil Young, que apesar do pouco alarde no lançamento, parece ser um dos grandes discos de sua nova fase.