Depois de cinco anos sem novos lançamentos, o mago norueguês da disco music espacial Lindstrøm anuncia novo álbum para o próximo mês. It’s Alright Between Us As It Is vê a luz do dia no final de outubro e ele já dá um gostinho do que vem por aí com a faixa “Shinin”, gravada com a vocalista Grace Hall. O próprio produtor escreveu sobre essa primeira faixa em sua página no Facebook:
“Cinco anos em produção.
Começar uma faixa nova para mim é a parte mais fácil no processo de composição. O primeiro take é quase sempre o melhor, mas de alguma forma eu sempre termino pensando ‘e se eu usasse isso em vez disso ou aquilo ou…’ Às vezes trabalhar nestas mudanças e viradas toma meses e até anos. Eu comecei a trabalhar nessa faixa em particular há cinco anos, em agosto de 2012. E eu também realmente gosto quando o processo que sai de uma ideia até a faixa finalizada dura para sempre. Algumas faixas precisam ser deixadas de lado por um tempo e revisitadas de vez em quando. ‘Shinin’ é uma delas. Obrigado à Grace Hall por sua ótima contribuição!!! Mesmo depois de todos esses anos de produção, esta canção ainda faz meu coração bater mais rápido sempre que eu a escuto e eu estou muito feliz de finalmente mostrá-la”
Não é por menos – a faixa é um pequeno épico house que pisa tanto na pista de dança quanto busca o ouvido popular.
Se o disco todo for nessa linha, prepare-se… Abaixo, a capa e a ordem das faixas das músicas no disco:
“It’s Alright Between Us As It Is”
“Spire”
“Tensions”
“But Isn’t It (feat. Frida Sundemo)”
“Versatile Dreams (Interlude)”
“Shinin (feat. Grace Hall)”
“Drift”
“Bungl (Like A Ghost) (feat. Jenny Hval)”
“Under Trees”
Os dois últimos episódios de Twin Peaks encerram a série da forma mais surpreendente e inusitada possível – falei sobre isso no meu blog no UOL.
Que viagem. Que sonho. Que pesadelo. Os dois episódios que encerraram a terceira temporada de Twin Peaks mantiveram o nível que David Lynch e Mark Frost estabeleceram durante toda a narrativa deste ano. Tão assustador quanto brilhante, foram dois capítulos que trouxeram o que muitos fãs esperavam e que ao mesmo tempo tirou o chão de todo mundo que achava que tinha alguma ideia para onde a série estava rumando. Se você não assistiu aos dois episódios, hora de virar os olhos para cima, porque lá baixo virão os spoilers.
O season finale foi dividido didaticamente em duas partes. Na primeira, o episódio 17 batizado de “O passado dita o futuro”, inúmeras respostas vieram à tona, em um episódio cheio de revelações e surpresas como o anterior, feito para os fãs aplaudir entusiasmados a reencontros, reviravoltas e vitórias. Descobrimos quem é Judy (“uma força extremamente negativa”, explica Gordon Cole) e quem é Naido (Diane, vejam só), personagens secundários como Chad e Freddie tiveram seus momentos, Mr. C e Bob parecem ter encontrado seus destinos finais. Reencontramos o Gigante e o major Briggs no cinema que ainda não sabemos se é o white lodge. Vemos a grande cena redentora do fim de Bob, uma luta que só pode ser assistida – pois ao ser descrita revela-se ridícula.
Ao mesmo tempo, o agente Cooper e a equipe do FBI finalmente chegam a Twin Peaks – em grande estilo – e Cooper pode visitar o andar de cima da loja de conveniência, onde ele pode se reencontrar com Philip Jeffreys, que lhe permitiu assistir a eventos que aconteceram antes do início da primeira temporada. Uma estranha sensação, no entanto, atravessa todo esse decorrer dos fatos quando David Lynch superpõe um close extremo do rosto preocupado do agente Cooper sobre as cenas que acontecem na delegacia. É mais uma referência que Lynch faz ao final de 2001 (o rosto do astronauta encarando o espectador de frente enquanto assistimos a uma transformação completa da realidade. Será que Cooper é o sonhador? Um observador externo da própria vida? Parece um estranho presságio do que irá acontecer em seguida.
De volta a 1989, Cooper assiste ao encontro dos jovens Laura e James poucas horas antes do assassinato da primeira em uma cena em preto e branco, conseguindo resgatar Laura de seu destino final ao puxar-lhe pela mão através da floresta – e a cena passa a ganhar cores. “Onde vamos?”, pergunta Laura a Cooper, que responde que eles estão indo para casa. Esse gesto faz o cadáver de Laura envolto em plástico desaparecer da história e voltamos para o início da primeira temporada, quando o personagem Pete Martell (vivido pelo falecido Jack Nance) avisa à esposa que irá sair para pescar – e, ao contrário do que sabemos, ele não acha mais o corpo de Laura. Pouco antes do fim do episódio, a estranhos gemidos na casa dos Palmer pouco antes de vermos uma raivosa versão de Sarah, a mãe de Laura, sucumbir à loucura e a atacar violentamente o retrato da filha com uma garrafa, aos berros.
Na floresta, Cooper conduz Laura pela mão no escuro até ouvir o estranho ruído que saía do gramofone do Gigante na primeira cena da temporada e perceber que ela sumiu, não sem antes ouvir o mesmo grito assustador que ela deu ao desaparecer do black lodge no início do primeiro episódio. A cena da floresta se desfaz com a imagem do Roadhouse, onde encontramos Julee Cruise vinte e cinco anos mais velha cantando a mesma “The World Spins” que ela cantou no episódio 14 da primeira safra de episódios da série, quando o Gigante anunciava que estava acontecendo de novo. Assim termina o décimo sétimo episódio e confortavelmente satisfeitos com as revelações e as respostas que soubemos, nos preparamos para a última hora do seriado, onde provavelmente veríamos as últimas respostas surgir.
Mas em vez disso, o episódio chamado “Qual Seu Nome?” zera todas as expectativas. O único momento confortável é o reencontro de um novo Dougie Jones com sua família em Las Vegas, a única conclusão apresentada em todo o episódio. Logo em seguida, Mike entra mais uma vez em cena para perguntar se estamos vivendo o passado ou o futuro, antes do galho seco que atende por Braço perguntar sobre a história da garotinha que vive na alameda de baixo. Mais uma vez Laura reaparece no black lodge apenas para sussurrar algo assustador no ouvido de Cooper e desaparecer aos gritos mais uma vez. Cooper reencontra o pai de Laura, Leland, que fala para ele procurar por sua filha e ele sai das cortinas vermelhas direto para a floresta, onde encontra Diane.
Pelo resto do capítulo, assistimos Cooper e a renascida Diane – de cabelos vermelhos e unhas pintadas de preto e branco, como o black lodge – atravessar de carro uma zona sem volta, 430 milhas de distância de Twin Peaks (“Quatro. Três. Zero” era uma das dicas que o Gigante deu no início da temporada). O próprio carro que Cooper dirige é um carro antigo e a cena parece saída de um filme de Hitchcock, de tão correta. Eles cruzam a tal zona e o dia vira noite. Logo depois, param num hotel de beira de estrada onde vão se hospedar, não sem antes Diane ver a si mesma à distância. No quarto, eles transam ao som da mesma “My Prayer” que tocava no rádio quando os Woodsman atacaram o Novo México no episódio 8, numa cena de sexo com ares macabros. No dia seguinte, Cooper acorda sozinho no quarto de hotel apenas para encontrar uma carta de uma certa Linda endereçada a um certo Richard. Os mesmos personagens citados pelo Gigante no início da temporada.
A essa altura, todos os espectadores já estão coçando a cabeça sem saber para onde o seriado vai. Sozinho, Cooper sai do hotel e o hotel é um outro hotel. Entra no carro e seu carro é outro carro. Sem reconhecer onde está, para em um café na beira de estrada chamado Judy’s e depois de ver três caubóis importunarem uma garçonete, ele dá um jeito nos três, põe suas armas no óleo de batatas fritas, se identifica como agente do FBI e pede para a garçonete o endereço da outra funcionária do local, que não está lá. “O que diabos acabou de acontecer?”, pergunta-se um dos caubóis ao se levantar do chão.
E nós perguntamos o mesmo. Cooper vai para o endereço e encontra-se com Laura Palmer, envelhecida. Mas ela não é Laura Palmer e sim Carrie Page, não sabe quem é Laura Palmer, seus pais não se chamam Leland e Sarah e há um cadáver em sua casa. Quando Cooper pergunta se ela não quer ir para Twin Peaks, em Washington (que ela acha que é a capital norte-americana), ela topa no mesmo instante. Os dois vão de carro para a cidade fictícia do noroeste dos EUA, chegam à casa em que Laura Palmer morava e nenhum Palmer mora lá. Perturbado como todos os espectadores, Cooper vai em direção ao carro, até que para e se pergunta:
– Que ano é esse?
Carrie olha fixamente para a casa e ouve o nome “Laura” ser chamado à distância. Ela começa a tremer e dá o mesmo grito característico de seu desaparecimento. Cooper assusta-se. As luzes da casa se apagam. A tela se apaga. Fica tudo preto, apenas com o som do grito de Laura se espalhando no ar. Meio minuto de tela escura e nos encontramos novamente com o rosto assustado do agente Cooper no black lodge, ouvindo algo sussurrado por Laura. Uma imagem estática – e assim sobem os créditos finais.
O que aconteceu? Em que ano estamos? A história de Laura desapareceu? Isso muda alguma coisa? Quem gritou “Laura”? E o que aconteceu com Diane? E a história de Audrey? E Tina, e Billy, e Charlie, e Linda? Bob morreu? Fomos para uma realidade paralela?
Depois de um episódio didático e feito para os fãs (o terceiro de uma série), Lynch e Frost terminam seu seriado apagando a luz, deixando o mistério no ar e, talvez, suas pistas espalhadas pela temporada. Um final imprevisível, violento, assustador, surreal e brilhante, como toda a história de Twin Peaks.
Se é que é um final.
De volta, finalmente.
Chris Forsyth + The Solar Motel Band – “Dreaming In The Non-Dream”
LCD Soundsystem – “How Do You Sleep?”
Negro Leo – “Lek Lover”
Olivia Tremor Control – “I Have Been Floated”
Cream – “Dreaming”
Nina Becker – “Voo Rasante”
Neil Young – “Pocahontas”
Boogarins – “Foimal”
Deerhoof – “Small Axe”
Can – “Vitamin C”
Can – “Mother Sky”
Can – “Future Days”
Boards of Canada – “Cold Earth”
Maglore – “Me Deixa Legal”
Led Zeppelin – “Down By the Seaside”
Sérgio Sampaio – “Não Tenha Medo Não! (Rua Moreira, 65)”
Creedence Clearwater Revival – “Bad Moon Rising”
Taylor Swift – “Look What You Made Me Do (Boss in Drama)”
Morre um monstro sagrado da música avançada. Saudemos sua importância do baixista que fundou o Can.
Taylor Swift revela mais uma música de seu disco novo Reputation, “…Are You Ready?”, que será a música de abertura do disco e também revela as capas, aí em cima, das duas edições da revista de moda que acompanhará o novo CD ao ser vendido nas lojas Target, nos EUA, com letras das músicas escritas à mão por ela, ensaios de moda, pintura e fotos pessoais.
O dono das segundas-feiras de setembro no Centro da Terra é o às independente Rafael Castro, essa usina de produção pop que não para de lançar discos, fazer shows e assumir diferentes possibilidades musicais. Pois são justamente elas que desfilam nas quatro noites do Segundamente neste mês: na primeira segunda, dia 4, ele visita seu disco Um Chope e um Sundae. No segundo dia, dia 11, é a vez de voltar à sua infância musical, resgatando sua primeira banda, Repentina, além de acompanhar Luna tecladista de sua banda, em seu trabalho solo. Na terceira segunda-feira, dia 18, ele mostra seu show de sertanejo universitário ao lado do Fabiano Boldo, com a dupla Fael e Fabiano, e na última segunda, dia 25, ele apresenta seu trabalho rural no espetáculo Raiz. Todos os shows acontecem nas segundas-feiras de setembro no Centro da Terra (mais informações aqui), sempre às 20h. Abaixo, Rafael escreveu um texto sobre esta temporada e depois conversei com ele sobre o que esperar destes shows.
Oi, gente.
Desde que produzi uns 10 discos lá no interior de São Paulo, em Lençóis Paulista, onde eu morava com os meus pais, não fazia muita coisa da vida além de compor e gravar um som atrás do outro compulsivamente. Em 2014 saiu meu álbum mais recente “Um Chopp E Um Sundae”, e desde então eu dei uma parada de lançar trabalhos. Achei que já tinha coisa demais, que era hora de dar um tempinho de tanto Rafael Castro. Mas aí essa coisa de criar é meio viciante e tinha que escapar por algum lugar. Entre produções de discos de amigos (Eristhal, MALLI, Primos Distantes, Cauê, Sauna, Meia Noite em Marte…) a gente, essa turma toda, acabou se trombando sempre aqui em casa pra tomar umas biritas, conversar e, claro, fazer mais música. Aqui em casa também tenho um bar secreto com shows todo fim de semana, então imagina o mundaréu de gente que aparece cheio de idéias, né.
Daí que eu tava com um monte de projeto, de rascunho, de banda, de coisa pra fazer com a turma, tudo na cabeça, mas sem aquele compromisso de realizar nada. Eis que não mais que de repente aparece o Alexandre Matias com essas temporadas/residências no Centro da Terra e me convida pra fazer o mês de setembro lá. Ele é maluco e falou que a idéia era fazer quatro shows diferentes, com coisa inédita pra caramba e tal. Eu gostei e aceitei. Era o que precisava, afinal, pra tocar avante essas idéias e mostrar finalmente pra vocês.
Um desses projetos maneiros é uma banda que eu formei com a Juliana Calderón o Gomgom e o Gá Setubal pra tocar as músicas que eu fiz com a Ju há um tempão atrás. Umas músicas legais, bicho, tinha que rolar porque a gente é bão de compor junto.
Aí retomamos, ensaiamos, fizemos arranjos e ficou maneiro demais. Minha primeira banda, cara. Ela se chama Repentina. Emocionante.
Aí tem a Luna França, que é a minha tecladista no show do Chopp E Um Sundae. Ela tava reclamando que o pessoal só chama ela pra tocar, mas que na verdade ela é cantora. E ela é mesmo e das boas. A gente se juntou, pegamos músicas dela e minhas, fizemos outras e vamos tocar nós dois, pro povo ver que ela canta mesmo.
Outro projeto doido é a minha dupla sertaneja, o Fael & Fabiano (sim, o Fabiano Boldo). Começamos lá atrás fazendo umas modas de sertanejo universitário e eu continuei compondo com toda a galera: meu produtor, o Juka, o Caio do Primos Distantes, o Tim do Terno, o Eristhal, o Belleza, a Malli e todo mundo que aparece. Festival de hits no sertanejo ostentação. Vamos ganhar milhões com essa. Certeza.
Daí como fã gosta das coisas que a gente já tem eu também vou fazer o show daquele disco de música caipira, o Raiz, que o pessoal gosta e sente nostalgia. Eu adoro relembrar esse período e vai ser maneiro tocar com uma banda diferente: o Eristhal, o Juliano dos Primos e o Guilherme do Terno.
E pra encerrar, mas na verdade, começando, vai ter um Chopp e Um Sundae com o Gui Amaral, o Bi e a Luna, porque a gente é farofa mesmo e não desencana desse negócio de se maquiar, rebolar e quebrar a guitarra de tanto fritar.
Espero todo mundo lá pra, junto comigo, meter o loko no Centro da Terra.
Beijo,
RC
A ideia de sua estada no Centro da Terra é apresentar suas diferentes facetas musicais. O que elas têm em comum?
Olha, acho que o lance das letras, dos temas e dos pontos de vista trabalharem a beleza do mundo-cão, da tragédia, da tristeza e do desamparo com humor deve ser a principal conexão entre os shows. Mas vai ser mais fácil ver o que as facetas tem de incomum entre si, por irem explorar lados completamente diversos que chegam até a ser antítese uns dos outros.
Fale sobre como será a primeira noite.
A noite de estréia vem com o show do disco Um Chopp E Um Sundae, um espetáculo festeiro, de música dançante e performance exagerada. Lançado há alguns anos e já executado em muitos cantos do Brasil esse show continua evoluindo e se reinventando. Me acompanham no palco o Fabiano Boldo no baixo, a Luna França no teclado e o Gui Amaral na bateria.
E a segunda?
Na segunda noite temos dois shows novíssimos. O primeiro é um duo com a Luna França, que toca teclado nos shows do Chopp, mas também é uma baita cantora e agora tá despontando como compositora. Vamos fritar bonito com as canções que estamos fazendo em parceria e emocionar o Brasil. O segundo show é com a banda Repentina, onde tocamos músicas que fiz em parceria com a minha amiga Juliana Calderón (Granata). Só canções de amor embriagadas com pegada punk/alternex pra agitar geral. Na Repentina, além de nós dois, tocam os fantásticos Gomgom (da Trupe Chá de Boldo) e Ga Setúbal (do Pitanga Em Pé De Amora).
Fale sobre a terceira.
Na terceira noite vamos de Sertanejo Universitário com a dupla Fael & Fabiano (eu e o Fabiano Boldo). No repertório só sertanejos inéditos compostos pela dupla e também parcerias com o pessoalzinho maroto da cena indie, entre eles o Caio Costa, dos Primos Distantes, a Malli, o Tim Bernardes, d’O Terno, o Eristhal e o Daniel Belleza. Acompanhando a dupla temos o Eristhal no baixo, o Ítalo Magno na sanfona e o Júlio Epifany na bateria.
E a última?
Na última noite a gente celebra um clássico perdido da minha discografia off-spotify, o disco Raiz, que é um tipo diferente de sertanejo, o caipira tradicional, com aquela pegada rancheira e o clima bucólico dos anos de adolescência vividos no interior. Me acompanham no palco Guilherme d’Almeida, d’O Terno, no baixo, Juliano Costa, dos Primos Distantes, na bateria e Eristhal no cavaquinho.
Os shows terão alguma diferença em relação aos shows que você já apresenta neste formato?
Exceto pelo primeiro, todos os shows são inéditos em formação, repertório e proposta.
Que outras facetas ficaram de fora desta temporada?
Existe um projeto ainda com poucas músicas chamado Leti Grou, uma persona ultra-positiva do RC que faz música eletrônica com letras de uma frase só.
O lugar em que você realiza shows com essas personalidades musicais são bens diferentes do Centro da Terra. Como o lugar influencia a apresentação?
Os lugares muitas vezes dão início ao projeto. O sertanejo universitário mesmo começou quando me convidaram pra fazer show da minha banda mas o espaço não suportava por não ter o equipamento necessário ou pelo cachê ser “simbólico” a ponto de não poder fazer um agrado pra banda. Aí eu fazia sozinho até dar vontade, agora, de fazer de dupla e com banda. Além disso, mesmo um show pronto varia completamente o mood sendo ele num teatro, numa casa de show ou num inferninho. A gente acaba escolhendo um caminho diferente pro sensível de acordo com o palco, com a platéia e com a qualidade do uísque do camarim.
Você é um artista que tem muitas personas musicais. Como elas ajudam ou atrapalham o desenvolvimento da sua carreira?
Ainda é difícil precisar o que ajudou e o que atrapalhou, mas certamente, com o tempo, as personas mais fortes vão acabar por matar as mais fracas num ciclo de renovação inevitável e delicioso.
Escrevi lá no meu blog no UOL como, mesmo antes do final da nova temporada de Twin Peaks, a série de David Lynch e Mark Frost se consagrou como um ícone cultural de 2017.
Mesmo antes de serem exibidas na virada deste domingo para a segunda-feira, as duas últimas partes de Twin Peaks: O Retorno, a terceira temporada do seriado idealizado e produzido por David Lynch e Mark Frost, já fazem deste último episódio um marco histórico. É o fim de uma aventura radical de pop experimental que os dois conseguiram que fosse bancada por uma emissora de TV, desafiando todos os clichês de sua volta (incluindo sua base de fãs mais ferrenha) para contar uma história que não parece fazer sentido e tentando reunir e explicar todas as dúvidas abertas (abrindo outras tantas). Como a vida, parecem sublinhar seus autores.
O fato é que a volta de Twin Peaks mostrou que a dupla forjada há mais de 25 anos pode executar o final de uma história interrompida pela metade com uma maestria ímpar na história da arte e do entretenimento moderno. Enquanto Mark Frost costurava pontas soltas no roteiro nas duas primeiras temporadas e no filme Os Últimos Dias de Laura Palmer e abria outras possibilidades ao criar novos personagens, locações e situações, David Lynch expandia seu subconsciente criando imagens e cenas inacreditáveis, bizarras e antológicas. Entre o normal e o surreal, a dupla repete o feito que há um quarto de século moldou a televisão como a conhecemos hoje atualizando uma série de paradigmas cutucados décadas atrás: a regência de expectativas, a condução do zeitgeist, um retrato atual dos EUA, conceitos como paranoia, conspiração e sobrenatural, a estética para a cultura de seu tempo e as fronteiras entre o cinema, a televisão e outras formas de experimentação audiovisual.
David Lynch e Mark Frost cobraram caro dos fãs que queriam apenas o revival. Todos esperavam o momento em que o agente Cooper voltasse a tomar seu café com suas assertivas improváveis mas sensatas sobre o que deveria ser feito. Em vez disso, assistimos a Kyle MacLachlan desdobrar seu personagem mais clássico em personalidades múltiplas, prendendo-se a dois extremos em atuações magníficas: uma versão maligna e sobrehumana batizada de Mr. C e uma versão infantilizada e tenra chamada de Dougie Jones. O pulso entre essas duas personalidades deu o tom sobre toda a série e fez os fãs de ocasião abandonarem o seriado enquanto os espectadores restantes teimavam em se perguntar, entre maravilhados e surpresos, o que diabos estava acontecendo.
E, como disse o gigante ao agente Cooper na segunda temporada, está acontecendo de novo. Twin Peaks está prestes a encerrar sua viagem de forma épica e gloriosa, correndo o risco de responder à maioria de suas questões e revolucionando mais uma vez a televisão para, quem sabe, dar brecha para uma quarta temporada. A partir daqui o texto contém spoilers para quem não assistiu até o décimo sexto episódio da terceira safra da série, disponível no Netflix brasileiro.
“Passado ou futuro?”, nos pergunta Mike, a entidade de um braço só que foi instrumental em retirar o agente Cooper de seu exílio sobrenatural nos últimos 25 anos no segundo episódio deste ano. Talvez essa seja a principal chave para toda a terceira temporada – estamos assistindo a cenas que aconteceram em ordem diferente das que elas aparecem na tela. A ordem cronológica dos acontecimentos está embaralhada para quem assiste à série capítulo por capítulo, reforçando a ideia de seus criadores de que estamos assistindo a um filme de dezoito horas – e não a uma novela explicada em uma narrativa linear.
Uma das primeiras cenas da nova temporada, quando Cooper se reencontra com o Gigante que vem servindo de guia para sua intuição desde sua primeira ida a Twin Peaks, dá a entender que estamos frente a uma série de dicas que deveriam ser decifradas nos capítulos seguintes: “Ouça os sons. Algumas coisas não podem ser ditas em voz alta. Lembre-se: Quatro, três, zero. Richard e Linda. Dois pássaros com uma pedra.” Cooper apenas responde que entende. Os fãs passaram horas tentando descobrir quem eram aqueles dois (Richard já apareceu e desapareceu, mas nada da Linda), caçando números entre horas e relação entre outros que apareciam ou eram ditos na tela, prestando atenção em sons que saíam das paredes e de tomadas elétricas e tentando adivinhar quais eram as duas aves mortas com uma só pedrada.
Mas nada garante que essa cena seja a primeira cena da série. E a realização sobre essa possibilidade veio aparecendo à medida em que a cronologia passava a ser montada como um quebra-cabeças a partir de datas em fichas policiais, calendários de eventos fantásticos, mensagens de SMS e interrelação entre cenas distantes. Em vez de recomeçar Twin Peaks na pequena cidadezinha fictícia no estado norte-americano de Washington, Frost e Lynch preferiram espalhar sua história por todos os EUA: um portal interdimensional em uma caixa de vidro sob vigília mantida por um bilionário em Nova York, um cassino em Las Vegas, um assassinato em outra cidadezinha fictícia, Buckhorn, no estado de Dakota do Sul, uma bomba atômica que explodiu no Novo México, em autoestradas e ruas escuras que cruzam o país e até Paris, num sonho.
A própria Twin Peaks foi sendo revisitada esporadicamente, nos apresentando velhos personagens aos poucos, enquanto citava outros novos sem mostrar seus rostos. Enquanto uns reapareciam em novos formatos (o anão Homem do Outro Lado foi substituído por um galho de árvore com um pedaço de carne no topo, o agente Philip Jeffreys vivido por David Bowie reapareceu como uma chaleira gigante), outros levavam horas para aparecer – especificamente a Audrey vivida por Sherilyn Fenn -, uns vieram do além-túmulo (como o Dr. Will Hayward vivido por Warren Frost, a Log Lady vivida por Catherine Coulson, o agente Albert vivido por Miguel Ferrer, que morreram após suas participações na série), outros em flashbacks (como o próprio Bowie, o Bob de Frank Silva e o major Garland Briggs vivido por Don S. Davis) e ainda há os que não apareceram ainda, como o agente Chester Desmond (vivido pelo cantor Chris Isaak) e o xerife Truman (vivido pelo ator Michael Ontkean).
Este quebra-cabeças foi sendo montado à medida em que os agentes do FBI liderados por Gordon Cole (vivido pelo próprio David Lynch, em uma atuação soberba) foram descobrindo que as pistas do assassinato em Buckhorn e a reaparição do agente Cooper em uma prisão federal aos poucos os levava para Twin Peaks. Ao mesmo tempo, assistíamos à lenta – e dolorosa, para alguns fãs – recuperação da personalidade do Cooper original de dentro do corpo de Dougie Jones e sua conexão com os ótimos irmãos Mitchum (dois gângsters vividos por Jim Belushi e Robert Knepper) e à polícia de Twin Peaks descobrindo que fatos surpreendentes aconteceriam nos dias primeiro e dois de outubro.
Além do estranho dia-a-dia na própria Twin Peaks, incluindo aí as aparições no Roadhouse, que, ao que tudo indica, transformou-se em um lugar sobrenatural. A casa de shows, que foi cenário para apresentações de artistas nada fictícios como Au Revoir Simone, Sharon Van Etten, Nine Inch Nails, Moby (como figurante em uma banda), Chromatics, Eddie Vedder e Hudson Mohawke e de conversas sobre personagens que nunca apareceram na tela durante toda a temporada, subitamente virou uma espécie de alucinação da personagem Audrey no último segundo do episódio mais recente.
Há inúmeras questões em aberto: O que é o som que o Gigante pede para Cooper ouvir no gramofone? O que Laura Palmer disse no ouvido do agente Cooper? Onde está a verdadeira Diane? Quem é Tina? Onde está Audrey? Bob saiu do corpo do Agente Cooper? O que fez Hawk na entrada do Black Lodge? Por que Sarah Palmer assiste àqueles programas na TV? E que tantas referências são essas a histórias infantis? Mais alguém é uma tulpa? O que Lucy viu na visão de Andy? Quem é a viciada que mora perto da casa de Dougie? Que barulho é aquele no Grand Nothern? Quem é Billy? O que é aquele símbolo estranho? O que são os Woodsman? Quem é Linda? Quem é o marido de Beverly? Como Gordon viu Laura Palmer? Por que Albert fala cada vez menos? E aquela caixa na Argentina que recebe mensagens? Quem é Judy? O que Gordon ouve no limpador de janelas? E aquela menina zumbi? E aquele sapo com asas de besouro? E aqueles números nos postes? Por que o Gigante chama-se Bombeiro? Gordon Cole está percebendo vibrações de outras dimensões? Qual a diferença de um doppelganger de uma tulpa? Quem vai tomar um soco de Freddie? Como Laura Palmer desapareceu? Quem é Naido? “Quando você chegar lá você já vai ter chegado lá”? E a alma da criança voando? Quem é Charlie? E aquele truque que Red fez com a moeda? Há alguma relação entre a luta de boxe que Sarah assiste com o passado de Bushnell? O que vai acontecer com Chad? O que acontecerá com Janey-E e Sonny Jim? Quem ressuscitou o Bad Cooper? Como o Bad Cooper mexeu no sistema de eletricidade da cadeia? Quem é a Senhorita Dido? Sarah Palmer está possuida pela Mãe? Onde está Jerry? Quem será a última banda a tocar no Roadhouse? Quem é o sonhador?
Enquanto isso, Lynch e Frost aproveitavam para fazer um retrato dos EUA em 2017 como poucos ousaram fazer – ainda mais nesta era Trump. Um bom exemplo é a cena em que o policial Bobby Briggs (Dana Ashbrook) vai à rua após o início de um tiroteio e choca-se ao perceber que era uma criança com uma arma na mão, vestindo roupas camufladas e com a mesma cara de tédio – e não de susto ou de aborrecimento, como deveríamos esperar – do pai. Atrás do carro que causou o incidente, uma senhora buzina e briga agressivamente para o carro da frente, apenas para assistirmos uma criança babando vômito erguer-se lenta como uma morta-viva no banco do carona. É uma cena aparentemente aleatória, mas denuncia uma sociedade doente em vários níveis. Outras cenas do tipo assistem aos irmãos Mitchum reclamando do estresse de uma vizinhança após outro tiroteio (uma homenagem quase literal a Quentin Tarantino, enquanto eles mesmos estão ironicamente com armas na mão), Janey-E (vivida magistralmente por Naomi Watts) passando um sabão em dois matadores de aluguel, Norma (vivida por Peggy Lipton) desistindo de ganhar “muito dinheiro” ao não transformar seu restaurante em uma franquia e aceitar seu grande amor – Twin Peaks vai diagnosticando os problemas norte-americanos como se contasse histórias curiosas sobre a decadência de uma sociedade.
Para quem não assiste à série, a impressão é que tudo é uma bagunça e que nada será respondido – mas o ponto é justamente o oposto. Eram muitas outras perguntas e parte delas foi sendo respondida à medida em que a série caminhava. Mais do que isso: depois de negar todas as referências à Twin Peaks original, seus criadores aos poucos foram entregando o ouro para os fãs mais persistentes, mostrando exatamente o que os fãs queriam assistir em um remake mas de forma menos óbvia e trivial. O episódio 16, exibido na semana passada, foi repleto destes momentos, culminando com o grandioso renascimento do Agente Cooper. Isso sem contar o revolucionário episódio 8, que parecia completamente alheio à história mas que funcionou como um mapa para entender o panorama geral da série.
Tudo indica que é isso que irá acontecer nos dois últimos episódios, que serão exibidos no fim deste domingo nos EUA e que em pouco tempo estará no Netflix brasileiro. Pouquíssimo se sabe sobre estes dois momentos e a principal dica é que cada um destes episódios tem um título (o 17 chama-se “O Passado Dita o Futuro” e o 18 chama-se “Qual Seu Nome?”), o que acaba com a expectativa sobre um longo episódio de duas horas, como se fosse um filme. Meus palpites? Linda é irmã-gêmea de Richard, Judy é o major Briggs, há uma relação entre Diane e Naido, Audrey é a sonhadora e dois grandes acontecimentos devem acontecer no Jack Rabbit’s Palace e na cadeia da delegacia de Twin Peaks, além de algo me dizer que só assim entenderemos a cena de abertura. Mas isso tudo é irrelevante. Mesmo com o fim da temporada, ao descobrirmos quais quais perguntas foram realmente respondidas e quais eram irrelevantes, a importância do seriado não precisa ser provada.
Em menos de dezoito episódios Twin Peaks fugiu de clichês, provocou intelectualmente seus espectadores, dissecou a própria mitologia e nos apresentou novos ícones, arriscou-se sempre que possível e sempre abrindo mão de recursos cosméticos como efeitos especiais, maquiagem ou trilha sonora didática, que funcionam hoje como carro-chefe comercial para a maioria das produções audiovisuais, para manter seu foco no texto, nas cenas, na direção, no roteiro e na atuação. Lynch e Frost deram as costas para o óbvio e puxaram o telespectador para um salto estético e narrativo que já serve como referência para criações futuras. Mesmo sem atingir altos índices de audiência, a terceira temporada de Twin Peaks é um dos produtos de entretenimento mais bem sucedidos deste ano e um desafio artístico incomensurável, além de ser o melhor seriado deste século mesmo sem ter terminado ainda. E será que ele termina? Afinal esta talvez seja a grande questão deste season finale: teremos uma quarta temporada?
Torço que sim, pois o melhor de tudo é a viagem, não o destino. Como disse no início, entender é o de menos.