Não eram singles esparsos: as músicas que Kieran Hebden lançou nos últimos meses – “Two Thousand and Seventeen” e “Planet” – fazem parte de um novo disco de seu Four Tet, chamado de New Energy, cujo lançamento ele anunciou para o fim deste mês. A capa acima ele publicou em sua conta no Twitter, embora não tenha confirmado que eternizará a fonte Comic Sans em sua discografia.
A MC brasiliense Flora Matos é apontada como promessa do rap nacional desde que despontou no já clássico EP que ela dividiu o Stereodubs em 2010, mas vem trabalhando em seu primeiro álbum numa velocidade que ia ficando mais lenta à medida em que aumentava a expectativa. Eis que ela lança agora o sensacional Eletrocardiograma, que já desponta como um dos melhores discos deste ano, puxado pelo clipe de “Bora Dançar”:
A saga de Twin Peaks foi encerrada no fim de semana passado num episódio duplo que pegou a todos de surpresa. O filme de dezoito horas imaginado por David Lynch e Mark Frost chegou ao final deixando fãs impressionados e divididos, ao cogitar um final ainda mais surpreendente do que todo o impacto da temporada, que já tinha garantido seu espaço como o grande feito cultural deste ano. Com a conclusão apresentada nos episódios 17 e 18, a série avança ainda mais em sua ousadia narrativa ao convidar o público para montar o quebra-cabeças a partir das peças oferecidas durante toda a temporada. E em menos de uma semana, inúmeras teorias surgiram explicando como o encerramento enigmático tinha finalmente resolvido toda a trama sobre a morte de Laura Palmer. A partir daqui o texto vem cheio de spoilers, por isso vire os olhos para outro lado se não quiser saber de algo sobre o final da temporada.
Ao contrário do que muitos poderiam prever, o penúltimo episódio da temporada trouxe várias explicações e conclusões para o seriado. Que Naido era, na verdade, Diane num disfarce. Que Judy era, na verdade, uma entidade maligna – e Gordon sempre soube disso. O tão esperado confronto entre o agente Cooper e Mr. C não aconteceu, deixando para Lucy a tarefa de liquidar com o doppelganger de nosso protagonista, numa cena tão inusitada quanto ágil. E, claro, a luva mágica do novato Freddie foi a arma usada para acabar com Bob, o espírito do mal responsável pelo sofrimento e morte da outra protagonista da série, Laura Palmer.
O mais impressionante do episódio, no entanto, foi o encontro entre estes dois personagens principais, separados inevitavelmente por suas condições básicas: o agente Cooper nunca poderia encontrar Laura Palmer pessoalmente pois ele só soube de sua existência – como nós – devido ao fato de ela ter sido morta. Mas eis que a mágica de Twin Peaks transforma o personagem de David Bowie (o agente Philip Jeffreys, agora encarnado em uma espécie de chaleira) em uma espécie de máquina do tempo e leva Cooper para 1989, fazendo com que o agente do FBI encontre a adolescente perturbada minutos antes de seu assassinato, puxando-a pela mão e lhe trazendo de volta para “casa”.
Em mais uma das várias referências que David Lynch faz ao Mágico de Oz, um de seus filmes favoritos, Cooper a retira de sua realidade mundana – espertamente revisitada em preto e branco, a estética escolhida por Lynch para representar o passado no já clássico episódio 8 desta temporada – e a cena se colore, dando uma profundidade à situação que mostra a gravidade dos acontecimentos. Como o próprio Jeffreys havia mencionado ao mostrar o número 8 para Cooper e como todo fã de ficção científica sabe, não dá para mudar o passado sem que necessariamente se afete o futuro. “O passado dita o futuro”, explica Cooper em um dos últimos momentos do penúltimo episódio, na frase que o batiza.
Ao salvar Laura Palmer, Cooper deleta seu cadáver de sua realidade, mudando todo o curso da história. Sem o assassinato de Laura, o próprio Cooper não precisa ir para Twin Peaks, o que torna sua despedida de todos os personagens logo após a destruição de Bob ainda mais dramática. Ele sabia que ao fazer o que estava fazendo necessariamente mudaria seu passado e assim ele esqueceria que um dia teria conhecido todas aquelas pessoas.
Num gesto simples e mágico, o agente do FBI simplesmente apaga todas as temporadas de Twin Peaks da existência – tanto as duas primeiras exibidas há um quarto de século quanto a que estava terminando. A única realidade daquele universo que existiria seria a do filme Os Últimos Dias de Laura Palmer (Fire Walk With Me, que Lynch dirigiu após o cancelamento da série original), que mostra o ponto de vista da garota que seria assassinada. Cooper parece finalmente ter derrotado Judy, que descobrimos naquele mesmo episódio ser uma entidade mais poderosa que Bob, e assim as peças exibidas durante a temporada – a caixa de vidro do primeiro episódio, o monstro que “vomita” o ovo de Bob no oitavo e a possessão de Sarah Palmer, explicada lentamente em outros três capítulos – vão formando o quebra-cabeças. A constatação final acontece com a cena em que a mãe de Laura, Sarah, sai de seu quarto em direção à sala depois de passar alguns segundos gemendo de forma horripilante. Ela entra no cômodo, pega o retrato da filha sorridente, um dos principais ícones representativos da série, atira no chão e passa a agredi-la com garrafadas. É ali que descobrimos que Sarah estava possessa por Judy, que não aceitava que Cooper tivesse mudado o curso da história. O fato da cena em si não evoluir – a imagem fica indo e voltando repetidas vezes, o vidro da garrafa e do porta-retrato sendo estilhaçado e voltando a se recompor num loop que pode ser eterno – mostra que aquele era o final da série e daquela realidade. Sem o assassinato de Laura Palmer, aquela realidade não existiria. Mas Judy estaria disposta a perder tudo de uma forma tão simples?
E é aí que entra o último episódio. O décimo oitavo episódio. O episódio que certamente mais dividiu os fãs de Twin Peaks e que mais encantou os fãs de David Lynch – mais até que o oitavo. E é aí que começam as teorias imaginadas por fãs da série em todo o mundo, cogitando possibilidades para explicar o que acontece a partir do momento em que Cooper salva Laura.
A principal delas – e que ganha mais adeptos e mais pistas para justificar sua existência – é a de que Cooper e Diane foram para uma outra realidade para aprisionar Judy nela. Sendo uma força tão maligna, ela só seria contida com a destruição de todo o universo em que ela habitava. E é isso que Diane e Cooper fazem ao mudarem de realidade segundo as pistas dadas pelo Gigante logo no início da temporada – depois de quatrocentas e trinta milhas, eles cruzam de uma realidade para outra e se transformam em Richard e Linda. A incômoda cena de sexo entre os dois faz parte deste ritual de mudança de realidade e quando Cooper – ou Richard? – se descobre sozinho em um quarto de um outro motel, ele sabe exatamente o que fazer. Descobre o paradeiro de Laura Palmer nesta nova realidade – Carrie Page é seu novo nome – depois de passar por um café chamado Judy’s e a leva de volta para Twin Peaks. Ao confrontá-la com seu antigo endereço e não tirar nenhum tipo de reação, na última cena, o agente do FBI parece hesitante, como se perdesse o equilíbrio e o rumo de tudo que estava fazendo. Pergunta então a questão que ecoará para sempre nas cabeças dos fãs da série: “Que ano é esse?”
Logo em seguida, ouvimos a voz da mãe de Laura chamar seu nome exatamente como no primeiro episódio da série, o que faz que ela reconheça e lembre-se de tudo, dando o grito que também já é um clássico para a série. Vemos então a casa dos Palmer, que fica sem energia e a luz acaba, deixando a tela em preto por uns bons segundos (como outro final controverso de outra série clássica, que não vou mencionar o nome aqui para não estragar a diversão de quem não sabe do que estou falando). Segundo esta mesma teoria que menciona a possibilidade de aprisionar Judy em uma realidade alternativa para depois destruí-la, as luzes se apagando na casa dos Palmer são a prova que Judy foi derrotada e que aquela nova realidade parou de existir. Laura e Cooper voltariam então para o Black Lodge não mais como pessoas e sim como entidades – e a cena final, dos créditos, é quando Laura explica para Cooper o plano (que é do dele mesmo, de Gordon Cole, Major Briggs e Philip Jeffreys – com a ajuda do Gigante) para deter Judy – um plano kamikaze em que os dois se sacrificariam para conter aquela presença maligna.
De carona nesta mesma teoria, outra cogita a possibilidade dos dois últimos episódios serem espelhos um do outro, sendo feitos para serem assistidos simultaneamente. A principal pista para essa sincronização seria a imagem do rosto de Cooper superposta sobre quase toda a cena após a batalha final do episódio 17, quando ele diz com a voz distorcida que “vivemos dentro de um sonho”. A sincronia inclusive justificaria o ritmo de cada episódio – enquanto o 17 (que seria o final pensado por Mark Frost) é cheio de situações, de reviravoltas e de explicações, o 18 (que seria o final pensado por David Lynch) é lento, sem diálogos e quase sem texto, com pouca ação e muita dúvida no ar. É claro que esse tipo de sincronia é sempre suscetível à aceitação do espectador – e talvez aí esteja o recado dado aos espectadores da série. É claro que alguém já sincronizou os dois episódios e os colocou juntos como um só online (“duas aves com uma só pedra” então não significaria apenas o fim de Bob e Judy com uma só tacada como os dois episódios sendo vistos como um só):
Uma outra teoria ainda diz que a realidade paralela visitada por Cooper e Diane no episódio 18 é, na verdade, a nossa realidade (confirmado por uma série de detalhes – desde a população da cidade de Odessa ao fato de que a dona da casa dos Palmer ser vivida pela própria moradora da casa atualmente). Isso conversaria com o sonho de Gordon Cole com Monica Belucci, em que ele (vivido pelo próprio David Lynch) é confrontado com a pergunta sobre quem é o sonhador do sonho em que vivemos, pouco antes de ele olhar para trás e quebrar a quarta parede, olhando para o espectador!
Mas quem é o sonhador? Esta versão diz que somos nós mesmos, que sonhamos com Twin Peaks: o episódio 17 seria o final de sonho, com tudo do jeito que a gente imaginava (o final do confronto entre Freddie e Bob parece um desenho do Scooby-Doo) e o episódio 18 seria o pesadelo, enigmático, hermético, sem respostas. Outra versão diz que o sonhador é Laura, que teria sonhado todas as três temporadas da série, acordando com a voz de sua mãe no primeiro e no último episódio. Outra versão diz que o sonhador é Cooper, preso até hoje no Black Lodge e imaginando como seria voltar e colocar as coisas em ordem (daí a cena final seria Laura Palmer sussurrando ao seu ouvido que “é tudo um sonho”).
Há ainda os que leram a terceira temporada da série como a despedida cinematográfica de Lynch, aproximando seu maior momento de popularidade com sua filmografia, nada popular. Assim, o discurso final de Cooper poderia ser entendido como o adeus de Lynch a todos seus fãs, tanto os de seus filmes como o de Twin Peaks.
Inúmeras outras versões circulam online (a maioria delas enraizada no subdiretório da rede social Reddit dedicado ao tema), cada uma delas pegando pontas soltas e pistas aleatórias que surgiram nos dezoito episódios da temporada, nas duas primeiras temporadas e no filme Fire Walk With Me. Da mesma forma tantos outros brigam sobre a quantidade de histórias deixadas em aberto, especificamente a de Audrey, bem como o fato de que a temporada não avança muito na história e acrescenta uma série de personagens que são irrelevantes para o desfecho final. Mas alguém consegue imaginar Twin Peaks: O Retorno sem os irmãos Mitchum? Sem os diálogos berrados de Cole? Sem Dougie Jones? Sem Janey-E? Sem Chad e Red? Sem Hutch e Chantall? Sem o ataque na caixa de vidro, a senhorita Dido, as discussões de Audrey com Charlie, a tulpa de Diane, os diálogos sem pé nem cabeça e os shows do Roadhouse? Sem a trama envolvendo as investigações sobrenaturais de Bill Hastings? Sem os Woodsmen, a bomba atômica, o andar de cima da loja de conveniência ou o besouro-sapo?
Nem tudo na vida é explicado. Muitas de nossas dúvidas existenciais são sanadas simplesmente pelo fato de serem esquecidas. Pessoas vêm e vão em nossas vidas e é a sensação que sentimos ao atravessá-las é o que realmente importa. Uma das teorias mais legais sobre o final de Twin Peaks diz respeito ao nome original de Judy, que pode ser entendido como “jiāo dài”. O termo (交代 em mandarim) quer dizer “explicar”, “conceder”, “ilustrar”. Ao cogitar a possibilidade de que a explicação seja uma “força extremamente negativa”, Lynch e Frost optam pelo mistério como o sentido da vida, deixando-o no ar para que o nome de sua maior obra atravesse o tempo, em vez de ser consumida rapidamente numa simples reviravolta definitiva. Um final em aberto, raro no mercado de entretenimento atual, mas não raro nas melhores produções de TV recente (The Wire, Sopranos, as primeiras temporadas de True Detective e Westworld e Lost), uma lista que parece ser encabeçada por esta última temporada de Twin Peaks, a melhor série deste século.
Entre 1975 e 1977 Neil Young reunia-se com o produtor David Briggs para gravar demos em noites de lua cheia. “Acho que vou abrir a torneira”, dizia ao anunciar que iria trazer músicas novas para serem testadas no estúdio. Briggs sentava-se à mesa de gravação no estúdio Indigo Ranch, em Malibu, na Califórnia, nos EUA, e o músico canadense empunhava seu violão rascunhando versos e acordes que tornavam-se canções na frente do produtor. Uma dessas sessões, gravada na noite do dia 11 de agosto de 1976, finalmente vê a luz do dia com o lançamento do disco Hitchiker.
Composto originalmente como uma coleção de demos para ser mostrada para os executivos da gravadora Reprise, o disco não impressionou a gravadora e Neil Young preferiu guardá-lo por considerar-se “meio chapado” nas gravações, um longo take noturno em que os dois paravam de tocar e gravar apenas para fumar maconha, beber cerveja ou cheirar cocaína.
A grande maioria das canções reapareceriam em vários outros discos de Neil: “Powderfinger”, “Ride My Llama” e “Pocahontas” formam parte da espinha dorsal do clássico Rust Never Sleeps, que gravaria ao vivo com sua banda fiel escudeira o Crazy Horse no final de 1978 (sendo que a gravação da última usaria o mesmo vocal que Young registrou no disco que foi arquivado). “The Old Country Waltz” foi parar no American Stars ‘n Bars, “Captain Kennedy” é a última faixa de Hawks & Doves, a faixa-título foi registrada no disco Le Noize de 2010 e “Campaigner” apareceu na compilação Decade, lançada em 1977. As únicas inéditas de fato são “Hawaii” e “Give Me Strenght”.
Mas reunidas numa mesma tacada – e ainda mais sabendo que elas foram gravadas na mesma noite -, as canções de Hitchiker transformam o disco em um registro cru e delicioso de um dos principais compositores de nossos tempos, forjando suas canções com a força de um ferreiro e a delicadeza de um jardineiro. Discaço.
Já se passaram sete anos desde que a carioca Nina Becker lançou músicas com seu próprio nome – no disco duplo Azul e Vermelho. De lá pra cá, ela gravou o disco Gambito Budapeste, em dupla com o hoje ex-marido Marcelo Callado, e participou do segundo disco da Orquestra Imperial (ambos trabalhos de 2012) e lançou o disco-tributo a Dolores Duran em 2014. Agora ela prepara-se para o lançamento de Acrílico e antecipa o disco com a faixa “Voo Rasante”, incendiariamente pós-tropicalista, da guitarra psicodélica ao groove meio roqueiro setentista. A faixa – como o disco, previsto para o fim deste mês – foi gravada ao lado de Pedro Sá (guitarra), Rafael Vernet (teclados), Alberto Continentino (baixo) e Tutty Moreno (bateria) e mostra que ela não está pra brincadeira.
O primeiro som que se ouve é uma frequência elétrica distorcida, a microfonia de uma guitarra posta em primeiro plano como um manifesto, parede de ruído intensa e palpá- vel, que se estica por alguns dez segundos antes do ritmo começar — primeiro pela repetição de um riff entrecortado, depois pela entrada da frenética guitarra base, seguido pelo galope torto do baixo junto com a bateria e finalmente com a entrada dos vocais sincopados, agudos e agressivos de Tulipa Ruiz e Juçara Marçal. De repente, a música para — e o dono do disco entoa uma melodia acompanhado nota a nota por seu instrumento, a guitarra.
“No escuro, no escuro / Uma pedra vira um muro.” As primeiras palavras ditas por Kiko Dinucci em seu primeiro disco solo, Cortes Curtos, lançado por conta própria no início deste ano, resumem a tensão política, urbana e estética contida não apenas nesta obra, mas em toda sua carreira musical. Na verdade, antes mesmo da entrada da voz, o primeiro som emitido pelo disco já sintetiza a natureza de sua musicalidade: agressiva, suja, elétrica e feroz. A sonoridade encarnada por Kiko e sua guitarra não é apenas uma assinatura sonora, mas uma mão que esmurra a mesa antes de virá-la, uma carta de intenções que vai muito além do som. Ninguém disse que ia ser fácil.
Kiko é a arma secreta do grupo de músicos que começou a causar na cena de São Paulo na virada da primeira para a segunda década do século. Referido como nova vanguarda paulista, samba sujo ou Clube da Encruza, o grupo formado por Juçara Marçal, Rodrigo Campos, Rômulo Froes, Thiago França, Sergio Machado, Marcelo Cabral e o próprio Kiko Dinucci, desdobra-se em grupos como Sambanzo, Metá Metá, Passo Torto e Sambas do Absurdo, além de reunir agregados como Tulipa Ruiz, Ava Rocha, Ná Ozzetti, Gui Amabis, eventuais parceiros e as carreiras solo de cada um de seus integrantes. Membro mais prolífico da turma, Kiko, no entanto, nunca tinha lançado um disco solo — embora já somasse quase duas dezenas de discos em que participou, em dez anos de carreira ininterrupta.
Uma trajetória que começou no apertado Ó do Borogodó, tradicional bar de samba entre a Vila Madalena e o bairro de Pinheiros, em São Paulo, quando começou sua carreira fonográfica liderando o Bando Afromacarrônico com o disco Pastiche Nagô, de 2008 (relançado em vinil no ano passado, pelo selo Marafo Records). O Kiko sambista já era uma reinvenção do primeiro Kiko musical, o Kiko punk, que traduzia o cinza e os pixos da São Paulo da virada do século com a mesma virulência e poluição de sua cidade natal. Ao descobrir a natureza marginal do samba paulistano, ele aos poucos foi dominando esta nova linguagem e a partir do Bando Macarrônico começou a aproximá-las.
Cortes Curtos é o ápice dessa junção — e por isso mesmo o disco que assina sozinho. Embora toda a turma esteja presente — a banda base é Kiko, o baixo de Marcelo Cabral e a bateria de Sergio Machado, a mesma cozinha do Metá Metá, e pelos créditos surgem vários nomes conhecidos, como Tulipa, Juçara, Ná, Thiago e Rodrigo, além de novos agregados como Guilherme Held, Suzana Salles, Rafa Barreto e Guilherme Valerio —, o disco é uma obra inteira de Kiko. E é mais do que uma obra apenas visual — é um filme sonoro.
As referências vão além do título, tradução literal de Short Cuts — Retratos da Vida, o filme multifacetado de 1993 em que Robert Altman fez as pazes com Hollywood. Cortes Curtos reúne, em suas canções, uma série de cenas que flagram humores diferentes, todos paulistanos. Da melancolia ao escracho, da putaria à solidão, das ruas cheias de transeuntes às calçadas vazias da noite, o disco perambula por São Paulo como faz o próprio Kiko, um flaneur pessimista, um vagabundo desconfiado, um punk niilista, capturando uma fauna bizarra de emoções e personagens que parecem ainda mais estranhos quando observados isoladamente — mas que integram um paisagem ao mesmo tempo pesada e invisível, o mosaico cinzento que forma São Paulo, “terra de um beijo só”, como cantarola o verso da poetisa Anna Zepa que batiza a faixa de mesmo nome.
A natureza cinematográfica do disco não é acidental, afinal Kiko já tem dois longa-metragens nas costas, entre eles a ode aos cinemas de rua Breve Em Nenhum Cinema, de 2016, além de manter o blog cinéfilo O Olho Derramado, que atualiza de forma bissexta, mas que contrapõe textos sobre O Iluminado de Kubrick, o Melancolia de Lars Von Trier, Branco Sai, Preto Fica de Adirley Queirós e O Som Ao Redor de Kleber Mendonça Filho.
A referência à sétima arte também é parte da construção do cânone paulistano pessoal de Kiko, que junta os sambistas da velha guarda (como Paulo Vanzolini, Geraldo Filme, Adoniran Barbosa) a cronistas clássicos do submundo da cidade (como o dramaturgo Plinio Marcos, o músico Itamar Assumpção, o escritor João Antônio), cineastas da Boca do Lixo e do cinema Marginal (Carlos Reichenbach, Luiz Castelini, Julio Bressane, Rogério Sganzerla, Ozualdo Candeias, Andrea Tonacci, Walter Hugo Khouri) e o punk rock e o hardcore local (de bandas como Ratos de Porão, Olho Seco e Cólera, entre outros), a vanguarda do Lira Paulistana (Ná Ozzetti, Arrigo Barnabé, Língua de Trapo, Rumo, Itamar, Premeditando o Breque e Cida Moreira) e sua própria geração. Tudo se encontra em Cortes Curtos.
Que, ao contrário do que se poderia supor, foi apresentado ao público como um único take, tanto na versão para download em seu site www.kikodinucci.com.br, como em sua versão no YouTube. Nos dois formatos só é possível ouvir as quinze faixas que compõem o disco de uma vez só. Se você quiser pular as faixas, deve comprar a versão em CD. Ninguém falou que seria fácil.
Fui convidado pela banda Maglore para escrever sobre seu recém-lançado Todas as Bandeiras, seu disco mais coeso.
Maglore – Todas as Bandeiras
O século vinte e um parece estar virando o mundo do avesso. São tantas mudanças, rupturas, surpresas, sustos, tragédias e revoluções acontecendo simultaneamente que todos temos a nítida sensação de não estarmos entendendo nada, à medida em que vemos os referenciais que ajudaram a nos entender como gente desfazendo-se entre novos comportamentos, novas tecnologias e novas visões de mundo.
Essa sensação de despertencimento não é estranha à carreira do Maglore. Rock demais para quem gosta de música pop, pop demais para quem gosta de rock; líricos demais para quem gosta de peso e barulhentos demais para os mais poéticos, mainstream para os que não gostam de música comercial e underground para os que fazem pouco do mercado alternativo, o grupo baiano também encontra-se num limbo etário – é o irmão caçula de uma geração de artistas que se firmou nos últimos dez anos e é o irmão mais velho de uma nova geração de bandas que vem se estabelecendo de alguns anos para cá. Mas isso não desencoraja o público, cada vez maior e mais ávido pelas considerações levantadas pela banda em seus shows, em suas músicas, em seus discos.
E no início deste ano passou por uma turbulência interna que a obrigou a reinventar-se a partir da saída do baixista Rodrigo Damati, que deixou a banda sem atritos pouco antes da gravação do sucessor de III, o primeiro trabalho da banda como um trio. À sua saída, o líder e principal compositor da banda, o guitarrista e vocalista Teago Oliveira, achou que era hora da banda voltar a ser um quarteto, convocando o ex-integrante Lelo Brandão, o Lelão, para assumir a segunda guitarra e convidando o guitarrista mineiro radicado em São Paulo Lucas Oliveira, da banda Vitreaux, para assumir o baixo. A bateria, como sempre, ficou com Felipe Dieder.
O novo repertório já estava composto antes da mudança na formação, o que obrigou o grupo a reinventar-se musicalmente sobre as novas canções. Mas o que parecia um processo que poderia ser conturbado na verdade funcionou como um choque de realidade que fez a banda chegar a seu disco mais preciso e definitivo.
Todas as Bandeiras, seu quarto álbum, é o momento em que as indecisões anteriores parecem ter cessado para chegar ao ápice da própria sonoridade, melancólica e esperançosa ao mesmo tempo. É sua obra mais madura, mais autoral e até mesmo mais política, embora as bandeiras citadas no título não tenham vertente ideológica, falando sobre verdades e buscas pessoais do que falam sobre a política de fato – a individual.
Todas as Bandeiras abre com sua principal assinatura sonora: o casamento das guitarras de Teago e Lelão, senssentistas, cruas e quase sem efeitos de distorção, sendo que o vocalista empunha um instrumento de doze cordas. O timbre dos dois instrumentos é solar e inspirador, acalentando o ouvinte para as letras nada felizes do vocalista. “Aquela Força”, a primeira faixa, parceira de Teago com o mineiro Luiz Gabriel Lopes, da banda Graveola, fala de superação pessoal sem maniqueísmos simplistas, usando belas imagens para retratar a sensação que quer passar: “Conservar a força que faça crer que o futuro seja nosso amigo/ A mesma força que tem o grito do tigre quando corre perigo/ A fé e a força que a águia tem no alto quando vai mergulhar/ A força é essa.” Enquanto descreve este sentimento, a banda cresce em volume e peso até chegar aos versos que talvez resumam a sensação do álbum: “Você só vai saber vivendo/ Você só vai saber sendo”, canta, arrebatador, Teago.
É essa política individual que o grupo busca por todo o disco, seja na dançante faixa-título (“O tempo passa e o herói fica sozinho/ Mas em qual herói devo acreditar?”), na excelente “Clonazepam 2mg”, feita para a estrada (“O problema é o passado que bagunça a nossa visão e a noção de tempo e espaço”) ou na praiana “Você Me Deixa Legal”, com seus “uh-uhs” entre a Bahia e o Havaí. O onipresente timbre cristalino das guitarras inevitavelmente remete ao pós-punk mais melódico dos anos 80, a psicodelia dos anos 60 e a primeira surf music, mas também ecoa a guitarra baiana e a melodia elétrica dos Novos Baianos.
As deliciosas “Jogue Tudo Fora” e “Hoje Vou Sair” são irmãs conceituais e ambas falam de mudança – a primeira vira a mesa da vida e a segunda vira a mesa do dia. E até as tristes “Eu Consegui” (“eu consegui perder meu grande amor”) e “Quando Chove no Varal” (“O seu rosto tá sumindo…”) ganham ares de redenção, a primeira ao resvalar no breque do samba, a segunda nos ecos esperançosos dos acordes. “Calma” e “Valeu, Valeu!” encerram Todas as Bandeiras certas da missão cumprida.
Um trabalho multifacetado mas coeso, que contou apenas com dois agentes externos na gravação, repetindo a produção da dupla formada pelo guru do pop brasileiro deste século Rafael Ramos e o produtor – e único músico de fora da banda em Todas as Bandeiras – Leonardo Marques, os mesmos do álbum antecessor, no estúdio carioca Tambor. A mixagem ficou por conta de Otávio Carvalho, no estúdio Submarino Fantástico e a masterização é de Felipe Tichauer, feita no Redtraxx Music, na Flórida. A arte de Azevedo Lobo, que forma imagens a partir de cores diferentes, espalha-se pelas páginas do encarte e por sua capa, mostrando que diferentes tonalidades podem coexistir sem atrito. Um resumo da conexão perfeita encontrada pela banda no disco que consagra sua maturidade e abre um novo capítulo em sua saga. Os fãs, atentos, se identificam e agradecem.
E se eu te dissesse que os dois últimos episódios de Twin Peaks se forem sincronizados conversam entre si? Alguém cogitou essa teoria no Medium e outro alguém a executou num vídeo no YouTube. E o resultado está aí – com spoilers, claro, para quem não viu toda terceira temporada da série.
“Dois pássaros com uma pedra”: e assim o season finale ganha mais uma camada de significado.
O período mais frio do ano está passando e para acelerar este processo repetimos uma agenda já testada e bem resolvida em nosso experimento, quando reunimos os esforços do centro de pesquisas Noites Trabalho Sujo ao instituto de formação Roots Rock Revolution para uma noite de emoções intensas, vibrações sonoras, fricção de corpos e desintoxicação mental através de frequências de áudio, sempre conspirando para deixar o clima mais leve e saudável e o astral mais para cima e contagiante. A experiência também recebe a presença da cientista júnior Julie Teixeira, que celebra mais uma volta ao redor do sol hipnotizando nossos voluntários com som. Reforçando que a participação no evento só ocorre mediante o envio do nome – e de seus colegas – para o correio eletrônico noitestrabalhosujo@gmail.com até às 20h deste sábado.
Noites Trabalho Sujo @ Trackers
Sábado, 9 de setembro de 2017
A partir das 23h45
No som: Alexandre Matias e Danilo Cabral (Noites Trabalho Sujo), Fabio Smeili e William Mexicano (Roots Rock Revolution) e Julie Teixeira
Trackers: R. Dom José de Barros, 337, Centro, São Paulo
Entrada: R$ 40, só com nome na lista pelo email noitestrabalhosujo@gmail.com. Aniversariantes da semana não pagam para entrar (avise quando enviar o nome no email, por favor). Os cem primeiros a chegar pagam R$ 25.