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A Sétima Efervescência em vinil

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A gravadora goiana Monstro está comemorando vinte anos na ativa e resolveu começar as festas colocando o pé na porta ao anunciar que irão lançar o clássico A Sétima Efervescência, obra-prima do gaúcho Júpiter Maçã, em edição luxuosa em vinil como sendo o primeiro volume de sua Série Ouro, dedicada a recuperar lacunas da discografia brasileira que ainda não tiveram versões neste formato. O marco psicodélico que Júpiter lançou em 1996 vem como um álbum duplo, como capa gatefold, encarte com texto escrito pelo Cristiano Bastos (autor do livro Gauleses Irredutíveis, sobre a história do rock do Rio Grande do Sul, e do documentário Nas Paredes da Pedra Encantada, sobre o mítico disco Paebirú, de Zé Ramalho e Lula Cortes), com fotos inéditas da época do álbum e já pode ser encomendado no site da Monstro. A Sétima Efervescência é apenas o primeiro destes lançamentos: a Série Ouro da gravadora também deve relançar Ties of Blood, do Korzus; Com Todo Amor e Carinho do grupo brasiliense Oscabeloduro; e Jumentor, do grupo campineiro Os Muzzarelas, além de estarem negociando um dos discos do Mundo Livre S/A e o Tarde na Fruteira, também do Júpiter Maçã, que a Monstro lançou originalmente em CD.

Luedji Luna: Bom Mesmo é Estar Debaixo D’Água

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A cantora e compositora baiana Luedji Luna é a dona das terças-feiras de abril no Centro da Terra, sessão ainda sem nome que abre a possibilidade para artistas expandirem obras em temporadas curtas. Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água é o nome de sua temporada, em que experimenta, ao lado de um baixista, músicas de seu novo repertório, para além do disco Um Corpo no Mundo, lançado no ano passado. A temporada é batizada com o título de uma dessas novas canções (que ainda incluem faixas chamadas de “Chororô”, “Khadja”, “Bença”, “Tudo que brilha”, “Eu sou um Árvore Bonita” e “Seta”, entre outras), todas mostradas pela primeira vez no pequeno grande palco do bairro do Sumaré, em São Paulo. São canções compostas ao lado do músico François Muleka, que participará de uma das apresentações, e o repertório deve variar de um show para o outro. As apresentações acontecem em todas as terças de abril, à exceção do dia 10 (mais informações aqui). Mas ela nem sabe se as novas músicas darão origem a um novo disco: “Nesse momento eu quero somente compor mais canções…”, como ela me conta na entrevista a seguir.

Como é começar a pensar em músicas novas no momento em que seu álbum está decolando?
Eu não pensei, essas canções simplesmente vieram! Tenho refletido muito sobre afetividade de mulheres negras, tenho pensado muito sobre meus próprios afetos e experiências amorosas, que acabaram virando letras, boa parte delas musicadas por François Muleka, que será convidado a cantar comigo em uma das terças. Nesse momento eu quero somente compor mais canções…

As canções têm algum ponto em comum? Elas estão em qual estágio?
Sim, eu sou letrista na maioria das canções e o François musicou boa parte delas, todas trazem como elemento comum a temática do amor ou a ausência dele. O formato será voz e baixo. Elas podem estar no estágio inicial ou final, não quero gerar expectativas.

Você mostrará músicas do seu disco atual?
Não, eu quero me experimentar cantando essas novas canções e ver a reação do público. Apesar de entender que quero trazer essa mesma temática no novo disco, não necessariamente essas serão as canções que estarão no próximo trabalho. Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água é uma experiência!

Rico Dalasam: Elefantes, Mantras e Trava-Línguas

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Em abril, as datas do Segundamente – temporada mensal que acontece às segundas-feiras no Centro da Terra com minha curadoria musical – são do rapper Rico Dalasam, que está finalizando o ciclo do EP Balanga Raba, lançado no meio do ano passado, e sai em busca de novas sonoridades. Assim ele embarca na temporada Elefantes, Tramas e Trava-Línguas (mais informações aqui), quando, acompanhado apenas dos músicos Moisés Guimarães (guitarra) e Dinho Souza (teclados), apresentando músicas novas e recriando antigas, buscando espaços musicais que possam levar suas canções para além da pista de dança. Influenciado pela moderna música africana e por artistas tão diferentes quanto Nicolas Jaar e Bon Iver, ele começa a mexer em seu repertório sem intenção de transformar o trabalho em um disco. “A palavra experimental é a que mais reverbera em minha cabeça”, explica o rapper. “Abrir as músicas e entregar mantras a partir de suas melodias e trava-línguas das rimas. É o único desejo dentro desse projeto.” Conversei com ele sobre esta etapa de sua carreira e como ele pensa em repensar sua carreira a partir deste experimento.

Qual o conceito por trás desta temporada no Centro da Terra?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/rico-dalasam-2018-qual-o-conceito-por-tras-desta-temporada-no-centro-da-terra

Descreva como serão as apresentações – qual será a formação dos shows?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/rico-dalasam-2018-descreva-como-serao-as-apresentacoes

Você ficará apenas músicas novas ou novas versões das antigas?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/rico-dalasam-2018-voce-ficara-apenas-musicas-novas-ou-novas-versoes-das-antigas

Quais são suas principais influências para esta temporada?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/rico-dalasam-2018-quais-sao-suas-principais-influencias-para-esta-temporada

Como os shows mudarão entre si?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/rico-dalasam-2018-como-os-shows-mudarao-entre-si

A temporada é um ensaio para o novo disco ou algo que funciona por si só?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/rico-dalasam-2018-a-temporada-e-um-ensaio-para-o-novo-disco-ou-algo-que-funciona-por-si-so

Gangrena Gasosa no CCSP

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A banda carioca Gangrena Gasosa, que misturou terreiro e heavy metal ao fundar o gênero saravá metal, traz o show de lançamento de seu disco mais recente, Gente Ruim Só Manda Lembrança pra Quem Não Presta, neste sábado, às 19h (mais informações aqui).

Karol Conká ♥ Sabotage

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Em mais uma colaboração para a Trip – ou, melhor dizendo, para sua revista-irmã TPM -, conversei com a rapper curitibana Karol Conká sobre o primeiro sinal de vida de seu aguardado segundo álbum, Ambulante, quando, sexta que vem, ela lança sua versão para a música “Cabeça de Nego”, do Instituto com o Sabotage, produzida pelos próprios Tejo e Rica do Instituto ao lado do produtor do novo disco de Karol, Péricles “Boss in Drama” Martins. Um trecho da conversa:

Regravar uma música do Sabotage no Brasil de 2018 tem um teor político. Qual seu papel nessa história?
É mostrar força pra quem pensa em sucumbir. As mensagens que recebo diariamente são muito tristes. Depois da morte da Marielle Franco muita gente está sem esperança. Conversei com a MC Carol, que foi candidata à vereadora e ela estava muito em choque, até fez uma música sobre isso. A gente se perguntou o que podia fazer. Chorar só escondido. Não dá pra ficar mostrando abalo, não é isso que a Marielle queria. É força, luta. É uma perda muito grande, a dor é imensa, fico arrasada, mas a gente tem milhares de pessoas que nos usam como referência. Não somos protagonistas à toa. Agora é a hora da gente juntar mais força ainda, focar realmente na solução. So-lu-ção. Mas como fazer isso? Mantendo contato com pessoas que têm essa mesma disposição, que estão quase sucumbindo. Como artista, também fico numa posição de risco, por ser porta-voz. A morte de Marielle foi tipo um aviso, foi um cala-boca pra todo mundo, “parem de encher o nosso saco”. Nunca me envolvi com política, não falo sobre isso, mas as pessoas sabem qual é a minha posição, tá escancarado na minha cara.

A íntegra da entrevista você lê no site da TPM.

Noites Trabalho Sujo | 30.3.2018

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Sexta-feira é dia de se acabar de dançar com gosto, quando enfileiro músicas de todos os gêneros musicais e todas as épocas para não deixar ninguém parado. Do indie rock à música brasileira passando pela dance music, rock clássico e pelo pop de diferentes décadas, as Noites Trabalho Sujo desrespeitam os limites entre os gêneros musicais para fazer todo mundo dançar sem parar. Coisa fina.

Noites Trabalho Sujo no Clube V.U.
Toda sexta-feira, a partir das 22h
No som: Alexandre Matias
Rua Lavradio, 559, Barra Funda
R$ 10 ou R$ 50 de consumação
Entrada gratuita até à meia-noite
Tel. 3661-2095

Lorde ♥ Kanye West

“Obrigado Chicago! Deve ser legal ser do mesmo lugar que o Kanye West”. Assim Lorde saudou o público de seu show no Alstate Arena na terça, dia 28, antes de emendar duas homenagem a um de seus ídolos, primeiro cantando o hit “Love Lockdown” sozinha, sem nenhum instrumento acompanhando:

Depois colocando “Runaway” no final de sua “Liability“:

Ficou bonito.

Guizado e Negro Leo juntos no CCSP

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Guizado está prestes a finalizar seu novo álbum e começa a mostrar as novidades a partir desta quinta-feira, às 21h, no Centro Cultural São Paulo, reunindo uma banda de cobras (Regis Damasceno na guitarra, Zé Ruivo nos teclados, Meno Del Picchia no baixo e Richard Ribeiro na bateria), além de contar com a presença ilustre do mago Negro Leo (mais informações aqui). Vamos lá?

Herzegovina e a continuação de um legado independente

Foto: Tatiana Ferreira

Foto: Tatiana Ferreira

Um dos nomes mais ativos da cena faça-você-mesmo brasileira, o guitarrista Rafael Crespo vive a doce contradição de ser mais lembrado por seu trabalho mais comercial (ter fundado o Planet Hemp nos anos 90) do que por seus inúmeros projetos e bandas independentes com os quais atravessou a virada do século transformando a cara da cena paulista. Integrou e fundou bandas como Polara, Aspen, Elroy, Deluxe Trio e várias outras, além de também tocar a clássica gravadora Spicy Recs, que lançou pedras fundamentais do rock independente brasileiro recente como Againe, Garage Fuzz e Pin Ups. Sua nova encarnação é o trio Herzegovina, que fundou ao lado de Mario Mamede, ex-baterista do Moptop, e Marcello Fernandes. Lançados com a fita cassete 5AM no ano passado, agora o trio estreia o clipe de “Ego Arcade” em primeira mão no Trabalho Sujo. “A letra fala sobre como as redes sociais viraram jogos de ego, onde um tenta ‘lacrar’ mais do que o outro”, me explica Rafa em entrevista por email. “Usamos como linguagem videogames dos anos 70 e 80, que eram, na época, a expressão máxima da sofisticação e tecnologia do entretenimento, uma analogia para o uso atual das redes sociais, e como elas serão vistas daqui a alguns anos – algo ultrapassado, datado e tosco, assim espero.” Conversei com ele sobre a nova banda e sobre como ele encara a cena que ajudou a construir.

Conte a história do Herzegovina.
Tudo começou quando eu voltei a morar no Rio no final de 2015. Conheci o Mario, que tocava bateria, e conversando descobrimos que estávamos escutando e querendo fazer o mesmo estilo de música. O Mario conhecia o Marcello e chamou ele pra tocar baixo com a gente, e em março de 2016 começamos a ensaiar e compor. Pensamos em um nome, algo que soasse estranho e familiar ao mesmo tempo e que tivesse a ver com a proposta da música, chegamos em Herzegovina. Pra quem está familiarizado com o nome, sabe que é um país com uma longa história de guerras e conflitos, algo que tentamos refletir em nossa música. Não necessariamente conflitos armados, mas todos os tipos de conflitos existentes, e cada vez mais ampliados pelas redes sociais: políticos, existenciais, sentimentais, de ego, de opiniões, etc. Pra quem não está familiarizado com o nome, pode soar como coisa meio “Proust” como Vovó Herzegovina.

Você já atua há muito tempo na cena independente brasileira. Como vê a evolução do rock independente atual?
Não sei, eu vejo, infelizmente, a música independente seguindo os mesmos caminhos e repetindo os mesmos erros da industria musical. Eu vim de uma escola essencialmente punk, não só musicalmente mas em termos de idéias e concepções. Sempre acreditei que era possível criar e se expressar artisticamente livre dos padrões e moldes comerciais impostos pela indústria. Mas era preciso criar e fortalecer esse “espaço” pra que fosse um lugar livre para todos.
O que eu vi, ao longo desses anos, foi muita gente se aproveitando dessas idéias pra se promover, falta um espirito de comunidade. No meu modo de ver, música alternativa, indie, etc, acabou virando uma caricatura, no fundo parece que todo mundo quer fazer parte da indústria e que esses rótulos só servem pra tentar gourmetizar e diferenciar o trabalho do artista. Respondendo sua pergunta, música independente, alternativa, etc, deveria ser algo inovador, desafiador, subversivo e ousado, mas musicalmente, vejo tudo muito chato, igual e repetitivo, embora existam as exceções.

Dá para traçar um paralelo entre as cenas de rock independente de São Paulo e do Rio de Janeiro, já que você conhece bem ambas?
Acho que eu não saberia dizer. Apesar de ser do Rio, 90 por cento da minhas relações e interações são em São Paulo. Sei que tem muita gente no Rio ralando duro e tentando criar um espaço e fomentar uma cena de música independente e eu admiro e respeito muito essas pessoas. Mas existe uma cultura carioca que precisa ser revista e transformada pelo bem da cultura e da cidade. Quando me mudei para lá, lembro que minha primeira impressão foi “como falta uma postura e uma atitude mais punk na cidade”. Explicando melhor o que eu quero dizer com “atitude e postura punk”, não estou falando sobre estilo musical, mas sobre se organizar, ser mais pró ativo, participar mais, apoiar mais os artistas e os lugares. Acho que tem muita gente talentosa e criativa no Rio, mas como a cidade não é tão grande como SP, falta as pessoas se unirem e se aproximarem mais.

Vermes do Limbo rumo ao outro lado

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“Não estamos indo atrás do ocultismo, nós somos ocultos, frequentadores obscuros da música”, respondem em conjunto Guilherme Pacola (bateria, efeitos e voz) e Vinícius “Cebola” Patrial (baixo, voz e efeitos), que juntos são o lendário duo de improvisação noise paulistano Vermes do Limbo. Seu novo disco, O Sol Mais Escuro, lançado nesta segunda-feira em primeira mão no Trabalho Sujo, foi inspirado na enciclopédia ocultista Ciências Proibidas, lançada nos anos 80 pela editora Século Futuro em bancas de jornais, que trazia títulos como “Os Símbolos Secretos: Simbologia e Interpretação”, “Magia: Os Poderes Secretos”, “Astrologia: O Código das Estrelas”, “Iniciação ao Espiritismo”, “Morte e Reencarnação”, “Grandes Mistérios de Nosso Tempo”, entre outros.

A inspiração veio do lixo. “Achamos na rua alguns volumes da enciclopédia Ciências Proibidas e pegamos para fazer colagens com as ilustrações”, explicam. “Nos livros haviam muitas frases legais principalmente sobre viagens transcendentais, espaço-tempo, coisas do nosso cosmos e da nossa mente. Na real essa enciclopédia leva ‘proibidas’ no nome porque a religião dominante e a sociedade condenavam essas praticas e ainda condenam essas formas não tradicionais de entender coisas da natureza humana que ainda são tabus. A partir daí resolvemos construir um disco baseado nisso.” O resultado é um disco mais tenso e lento que o ruído tradicional dos Vermes, com algumas doses pesadas de bad vibe.

A dupla acha que a escolha quase aleatória reflete a fase deprimente que vivemos no país. “Esse nome ocultismo é puro preconceito com varias formas não convencionais de se entender a mente humana e sua espiritualidade, foi uma coincidência que veio a calhar nesse período obscuro em que vivemos, onde o sol mais escuro ainda não deixou de brilhar. Queremos luz, raio, estrela e luar… Para evitar que arte se transforme em ciência proibida”, explicam, citando Wando.

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A dupla contou com o guitarrista Fabio Fujita, que fazia parte da formação original da banda, e o disco foi gravado em três sessões. “Como se fossem EPs”, explicam. “Tudo foi criado do zero sem saber exatamente o que fazer até o momento do registro e depois fomos lapidando com overdubs. Tínhamos a vontade de tocar uma enciclopédia como inspiração de onde saíram as letras, nomes das músicas e o astral cósmico.” Além de Fujita, o disco também conta com as mãos de Adauto Mang na mixagem e Nick Smith na masterização. “Sempre que gravamos convidamos pessoas para participar, no dia a dia Vermes é baixo e batera, mas sempre cabe mais um, dois, três…”

Ao vivo as coisas podem fugir do riscado. “No show a ideia é tocar o disco na integra com alguns convidados especiais pro lance virar uma festa… E aí a coisa pode debandar pro improviso também.”