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Ahmad Jamal (1930-2023)

Seja à frente de seu longevo trio, de orquestras ou de salas de aula, o pianista de Chicago que morreu neste domingo foi um dos primeiros músicos afrodescendentes dos EUA a assumir a fé muçulmana como forma de mostrar a importância de suas opiniões e um dos grandes nomes a forjar uma tradição clássica no jazz.

Aparelho: A profanação do templo dos valetes

Entre o método de curadoria de discos de Emerson Gasperin e a rotina de sono de Vladimir Cunha, aproveitamos mais uma edição mensal do Aparelho para fazer um balanço sobre os primeiros dias de 2023, misturando impressões culturais sobre China e Cuba com um seriado sobre a história do Poderoso Chefão, o Steven Seagal como lastro de confiança, seriados de acumuladores, fuscas voadores, o melhor cabelo do heavy metal, oito milhões de discos de vinil e terminamos com o questionamento sobre o efeito teia no vocalista do Judas Priest…

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O próximo passo de Tim Bernardes

Mais um passo importante dado por Tim Bernardes nesta escalada que é sua carreira solo ao lotar o Espaço Unimed – o antigo Espaço das Américas – e domar o público tão grande com uma destreza que poucos artistas conseguem atualmente, especificamente puxando para o silêncio, o ponto oposto mais extremo da regra do mercado de música contemporâneo. Conduzindo a apresentação com a mesma delicadeza – e virulência – que toca seus instrumentos (seja a guitarra, o violão ou o piano), Tim regeu as expectativas da plateia como um diretor de cinema, transformando tensão e expectativa em sentimento por quase duas horas de apresentação, que seguiu o padrão de seus shows recentes, à exceção de uma leve mudança na paleta de cores graças a um telão de led (além do verde temático, houve mais branco, azul e até um bem-vindo laranja). Tenho cá minhas reservas por ele ter mantido o mesmo padrão de disco e show entre sua excelente estreia Recomeçar e o Mil Coisas Invisíveis do ano passado, mas justapostos no show deste último, os dois álbuns transformam o show numa longa sessão de terapia em conjunto com o público e foi bonito ver o compositor segurar sussurros e suspiros (sem contar o serviço de bar, suspenso durante o show, só isso já valeu metade da noite) de um público completamente entregue. Ao atingir esse novo patamar mantendo essa formação única, sozinho no palco, resta saber quais os próximos passos que Tim irá dar – mas ele mesmo deu a dica durante este show: trabalhar com mais músicos no palco e voltar a tocar rock com O Terno. A dúvida é saber em qual escala ele irá operar. Até aqui, tudo ótimo.

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Tim Bernardes às vésperas de seu maior show

Neste sábado, Tim Bernardes faz seu maior show solo até hoje, quando apresenta-se no Espaço Unimed, o antigo Espaço das Américas, em uma noite que já tem ingressos esgotados. São mais de 3.300 lugares, mais gente do que as 3.200 que reuniu em duas sessões distintas no Theatro Municipal de São Paulo no fim do ano passado. Claro que Tim já tocou pra mais gente, afinal, além de tocar em vários festivais pelo Brasil e exterior, também abriu a turnê dos Fleet Foxes nos Estados Unidos no ano passado. Mas é a primeira vez que ele reúne tanta gente ao mesmo tempo para vê-lo em uma única apresentação. Aproveitando este marco em sua carreira, o vocalista d’O Terno disponibilizou para download a íntegra de seu EP The Lagniappe Sessions, em sua conta no Bandcamp. Gravado no passado para o blog norte-americano Aquarium Drunkard, o disco reúne versões para músicas de Gilberto Gil, Dirty Projectors e Beatles, e Tim comentou suas escolhas em texto que reproduzo abaixo.

Ouça aqui.  

O disco perdido do Som Imaginário

Um dos principais grupos de rock progressivo do Brasil está prestes a ver sua discografia aumentar consideravelmente, quando a gravadora londrina Fat Out anunciou o lançamento do quarto disco do Som Imaginário, gravado ao vivo em 1975, mas arquivado desde então. Formado para acompanhar Milton Nascimento em sua turnê de 1970, o grupo era liderado pelo tecladista Wagner Tiso e acompanhou, tanto em estúdio quanto ao vivo, nomes como Gal Costa, Marcos Valle, MPB4, Taiguara, Odair José e Simone, entre outros, além de contar com sumidades da música instrumental brasileira em suas diferentes formações, como Naná Vasconcelos, Zé Rodrix, os guitarristas Toninho Horta, Fredera e Vitor Biglione, o violonista Tavito, o baterista Robertinho Silva e o baixista Luiz Alves. O grupo lançou três discos ainda no começo dos anos 70, culminando com o clássico Matança do Porco, que completa meio século este ano, mas quando propôs lançar o quarto, gravado ao vivo em Brasília, teve seu lançamento engavetado. Banda da Capital vê a luz do dia quase 50 anos depois de sua gravação, no dia 4 de outubro de 1976, em Brasília (no colégio que eu mesmo estudaria alguns anos depois!), e traz Tiso acompanhado pelos cobras Nivaldo Ornelas (sax, flauta e violão), Jamil Joanes (baixo e vocais) e Paulinho Braga (bateria e percussão). O disco traz oito faixas, entre elas “Cafezais Sem Fim”, disponibilizada nesta sexta-feira, gravadas naquela apresentação, além de duas outras, “Armina” e a então inédita “Manuel, o Audaz” (de Toninho Horta), gravadas pelo grupo um ano antes, no dia 6 de outubro de 1975, em um show no Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro. Banda da Cidade será lançado dia 2 de junho e já está em pré-venda no site da Far Out.

Ouça o primeiro single aqui.  

Para além do Can

“Essa é a base do fazer musical: dar forma ao tempo”, assim, Irmin Schmidt, único músico fundador do grupo alemão Can ainda vivo, define sua labuta no documentário Can and Me, de Michael P. Aust e Tessa Knapp, primeiro filme confirmado na edição de 2023 do festival de documentários sobre música In Edit. O filme traz várias cenas raras e inéditas do transgressor grupo em ação, incluindo cenas de shows e apresentações ao vivo em programas de TV (além de um inusitado encontro entre seus dois vocalistas, o norte-americano Malcolm Mooney e o japonês Damo Suzuki, que assumiram os vocais de diferentes fases da banda após sua fundação), mas ultrapassa o período em que Schmidt esteve com a banda. O vemos fazendo trilhas sonoras para seriados de TV, filmes de Wim Wenders, óperas com ênfase em música eletrônica e colaborações com DJs e produtores contemporâneos, além de comentar sua filosofia musical. Também traz cenas da infância e da adolescência do músico e maestro, incluindo sua relação conflituosa com o pai, que era militar nazista na Alemanha de Hitler, e quando conheceu a nata da música de vanguarda de seu tempo (incluindo Karlheinz Stockhausen, La Monte Young e até John Cale antes deste vir fundar o Velvet Underground), antes de criar o Can, um dos grupos mais importantes da cultura alemã da segunda metade do século passado. Can and Me é uma boa amostra do que o In Edit, que acontece entre 16 e 25 de junho, vai trazer na edição deste ano. Ainda hoje, anunciam mais lançamentos de sua programação, que será revelada integralmente na primeira semana de maio.

Assista ao trailer de Can and Me aqui.  

Bom Saber #097: Amanda Ramalho

Mais um programa sobre saúde mental – e dessa vez chamei a Amanda Ramalho, que já toca há anos o Esquizofrenoias, para falar sobre o tema de um filhote de seu podcast, criado um ano após ela ter sido diagnosticada como pertencente ao espectro autista. Em seu novo programa, Amanda no Espectro, que estreia no dia 24 deste mês, ela fala sobre a sua experiência com essa descoberta e chama uma série de convidados para falar sobre o que é o autismo e como o que conhecíamos sobre o tema era apenas uma visão estereotipada e caricatural de algo que muitas pessoas têm e sequer sabem, como aconteceu com ela mesma.

Acompanhe o Esquizofrenoias aqui.

Assista aqui.  

O outro lado de Mari Tavares


(Foto: Louie Martins/divulgação)

A brasiliense Mari Tavares vem aos poucos preparando o campo para seu primeiro trabalho solo e lança nesta sexta-feira seu segundo single autoral, o samba à moda antiga “Tapa de Pelica”, que ela revela em primeira mão aqui no Trabalho Sujo, onde já havia lançado a primeira faixa, “Laca Espanada” e ela pesa as semelhanças e discrepâncias entre estas duas faixas, como se ambas se complementassem para demonstrar melhor seu trabalho. “Essas duas faixas dialogam entre si, funcionando como um compacto, embora tenham sido produzidas e lançadas separadamente”, me explica a cantora e compositora por email. “‘Laca Espanada’ traz um tom mais confessional, mais autorreferencial, ‘Tapa de Pelica’ já tem um personagem, uma narrativa em terceira pessoa construída a partir de uma grande metáfora, mas ambas as canções bebem da mesma fonte, a representação de uma busca por um equilíbrio interior”. De sua lavra, Mari só gravou a voz dessa canção, deixando a produção e toda a instrumentação (desde a percussão à guitarra, violão e synths) a cargo de seu companheiro e parceiro, Rodrigo Campos. Além dos dois, a faixa conta com um coro com vários suspeitos de sempre, entre eles Romulo Froes, Anaïs Sylla, Fernanda Broggi, Victória dos Santos, entre outros. ” O resultado desse trabalho vem influenciando muito a maneira que tenho pensando composição e estética, norteando o caminho que sigo daqui pra frente”, conclui, ressaltando que já está trabalhando em seu primeiro álbum.

Ouça aqui.  

Trupe Chá de Boldo 2023: “Água um dia o asfalto fura”


(Foto: Adelita Ahmad/divulgação)

A Trupe Chá de Boldo está lentamente voltando. Depois do período pandêmico, o grupo paulistano começa a mostrar as cores do novo disco, Rua Rio, inspirado pelo bairro do Bixiga, que tornou-se tão central para a banda, que há anos ensaia num estúdio na rua 13 de maio. “Saracura”, composta por Remi Chatain e Gustavo Galo, celebra um dos inúmeros rios sufocados pela cidade, justamente que passa pelo bairro eternizado por grandes nomes do samba paulistano, lar de teatros clássicos como o Oficina e o Sérgio Cardoso e amálgama de culturas que se encontram em suas ruas, seja italiana, nordestina ou negra. “Sabíamos da existência do Rio Saracura no bairro por conta dessa proximidade, mas também pela memória do samba, de composições do Geraldo Filme, por exemplo”, explica a banda em uníssono. “E, de repente, em meio a descoberta do sítio arqueológico onde se pretende construir a estação do metrô – ‘pretende’ pois há resistências populares a esse projeto -, a canção veio a tona como um modo de afirmar as águas, a força irrefreável dos rios em uma cidade com tanto asfalto, com tanta destruição de vitalidades.” “Saracura” é a primeira faixa de Rio Rua a vir a público, nesta sexta-feira, mas o grupo liberou pra ser ouvida em primeira mão aqui no Trabalho Sujo.

Ouça abaixo.