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Quando Bob Dylan tocou no Japão pela primeira vez

Massacrado e ironizado pelos críticos da época, o disco que registrou a primeira aparição ao vivo de Bob Dylan no Japão será relançado no final do ano reunindo não apenas as canções lançadas à época como o duplo Live at the Budokan, como todas as outras faixas que o bardo norte-americano tocou ao vivo nas duas apresentações que fez naquele país, nos dias 28 de fevereiro e 1° de março de 1978. O disco que completou 45 anos no mês passado agora surge com o título de The Complete Budokan 1978 tanto como uma caixa quádrupla de CDs como um box com oito vinis – além de reproduções do pôster e ingressos originais, fotos da turnê e um encarte colorido com 60 páginas. Na epoca de seu lançamento o disco foi ridicularizado nos Estados Unidos pois Dylan estava justamente forçando a barra em algo que consolidou-se em sua carreira: não tocar as músicas como elas foram gravadas nos discos. Mesmo com um repertório de encher os olhos de qualquer fã, muitos desdenharam da forma como o autor dessacralizava suas próprias criações – sendo que era justamente isso que ele queria. O novo disco não faz parte da série Bootleg Series e será lançado no dia 17 de novembro – suas versões físicas já estão em pré-venda no site do mestre, que ainda oferece um disco chamado Another Budokan em vinil apenas com as músicas inéditas. Ele ainda antecipou uma das muitas inéditas do disco, a versão que fez para “The Man in Me”, com sax e coral que fizeram os fãs xiitas reclamar… Que bobagem. Abaixo você ouve a faixa inédita e vê a caixa com todas as músicas que entraram nessa nova versão:  

A praça é nossa: Beastie Boys Square

É oficial: a esquina anônima de Nova York que estampa a capa de um dos discos mais clássicos da história – não apenas do rap – agora leva o nome do trio que a colocou no mapa. O cruzamento das ruas Ludlow e Rivington, no Low East Side nova-iorquino, está na capa do segundo disco dos Beastie Boys, o revolucionário Paul’s Boutique, e foi palco neste sábado para a celebração que viu a transformação do endereço oficialmente em Beastie Boys Square – a praça dos Beastie Boys. É a conclusão de um processo inicial após a morte de um de seus fundadores, o rapper Adam “MCA” Yauch, em 2012, quando um fã chamado LeRoy McCarthy resolveu tentar mudar o nome do endereço por vias oficiais. A tramitação burocrática levou todo esse tempo e os dois beastie boys remanescentes, Michael “Mike D” Diamond e Adam “Ad-Rock” Horovitz, estiveram presentes na inauguração. “Agradeço a Nova York por nos ensinar o que ver, o que ouvir, o que vestir, como amar, como viver”, disse Ad-Rock durante o evento, “me deixa muito feliz saber que daqui a uns 50 anos algum moleque vai olhar pra cima e dizer: ‘que porra é um beastie boy? Por que eles têm uma praça?”. A cerimônia foi transmitida pela YouTube do grupo e pode ser assistida abaixo:  

Quando o Fleetwood Mac era a maior banda dos EUA

A história dá voltas: Rumours, o álbum que consagrou o Fleetwood Mac como a maior banda dos EUA no final dos anos 70 (vendendo absurdos 40 milhões de discos), aos poucos foi sendo apenas lembrado como um dos discos mais caros já feitos e os bastidores das tretas entre os integrantes da banda, que culminou com o divórcio dos dois casais que eram quatro quintos da banda, transformou a trajetória do grupo em uma tragédia de erros que o fez ser lembrado por muito tempo apenas como uma caricatura dos excessos do rock do período. Mas um meme fez mais do que uma geração redescobrir seu maior hit (a eterna “Dreams”) e aos poucos a reputação da banda vai sendo reestabelecida. O próximo passo é o soberbo Rumours Live, disco duplo ao vivo que foi lançado na sexta passada e registra o grupo norte-americano na noite de abertura das três datas que fez para celebrar o disco em Los Angeles, no dia 29 de agosto de 1977. Apenas duas músicas das dezoito faixas do show já haviam sido mostradas oficialmente pelo grupo, quando o grupo incluiu “Gold Dust Woman” e “World Turning” na coletânea Live: Deluxe Edition, lançada em 2021. Agora podemos ouvir uma hora que consagra a segunda formação, considerada a mais clássica, da banda, quando os fundadores Mick Fleetwood, John McVie e Christine McVie receberam as novatas Stevie Nicks e Lindsey Buckingham. Rumours Live não apenas traz o disco de 1977 na íntegra como também a maioria das canções do disco anterior, que mostrava os novos integrantes. De todas as faixas deste disco ao vivo, apenas uma (“Oh Well”) fazia parte do repertório do grupo em sua encarnação anterior, e durante sua uma hora e meia de duração, o quinteto mostra porque foi uma das maiores bandas de rock da história. E se você ainda não acredita que eles sejam tudo isso, sugiro que pule os hits (além de “Dreams”, outros clássicos são “Landslide”, “Go Your Own Way” e, minha favorita, “The Chain”) e caia direto em “Rhiannon”, que evolui devagar de um blues dançante para se tornar uma catarse épica sobrenatural que faria Patti Smith sorrir.

Ouça abaixo:  

De dentro de um sonho

Me acordem que ainda não sei se estava sonhando. A apresentação que os Yeah Yeah Yeahs fizeram nesta sexta-feira no Cine Joia foi um dos melhores shows do ano e prova que não é preciso muito mais que três músicos num palco para encantar uma plateia devota. Tudo bem que o grupo usou de elementos cênicos durante sua apresentação, como o gigantesco balão em forma de globo ocular e os lança-confetes disparados pela vocalista Karen O, mas bastava a presença do trio para fazer nossas personalidades grudarem na parede de trás do cérebro, tamanho impacto ao vivo. Eles são certamente a banda de sua geração que melhor envelheceu (a cena dos Strokes, Interpol, Liars etc), em grande parte por conta da presença magnética da vocalista. Karen O é um espetáculo, uma aula de estética misturada com uma sedução sobrenatural, e apesar de ser a mais baixa do trio (fui checar no seu google), ela se agiganta de forma soberba. Vestindo um maravilhoso vestido cheio de franjas brilhantes que, junto com seu cabelinho la garçonne, remetia imediatamente às melindrosas dos anos 20 do século passado, Karen dominava o público como se tivesse combinado uma coreografia com todos os presentes – e se divertindo demais. “É noite de sexta-feira em São Paulo com os Yeah Yeah Yeahs!”, gritava sorrindo. Mas esses momentos pedestres logo desapareciam quando ela começava a cantar e sua voz hipnótica vinha acompanhada de um domínio corporal que transformava o show no surgimento de um personagem mitológico, como se assistíssemos uma lenda secular descortinando em frente aos nossos olhos. E mesmo que as músicas do disco do ano passado não sejam memoráveis, a parede instrumental, sendo demolida entre tambores rufando e eletrochoques de microfonia, só emoldurava a imagem transcendental da deusa. Um show curto, pouco mais de uma hora, mas que pareceu durar eras dentro da bolha mágica inflada pelo trio – ainda estou preso no momento em que o grupo enfileirou “Gold Lion”, “Maps” e “Heads Will Roll”. E sem contar que esses shows de bandas indies deste século que já podem ser consideradas clássicas são sempre oportunidades perfeitas de encontrar TODO MUNDO. Uma noite perfeita.

Assista aqui:  

De volta às bandas

Um dos motivos que me fizeram criar o Inferninho Trabalho Sujo foi a percepção de que há uma mutação acontecendo no cenário musical brasileiro. A tragédia pandêmica que nos isolou por tanto tempo fez com que voltássemos de forma muito viva aos encontros presenciais. Shows, peças, blocos de carnaval, jantares de família, restaurantes, botecos, casas de amigos: todo mundo está se encontrando muito mais e de forma mais intensa do que fazia antes da praga, talvez por uma questão de compensação ou mais provável por uma sensação de que perdemos algo que tínhamos como certo, então ninguém quer perder a oportunidade de estar junto com outras pessoas.

Isso também está acontecendo do ponto de vista artístico. A profissionalização do mercado de música brasileiro dos últimos anos colocou o artista solo (seja ele intérprete, músico, DJ, cantautor, produtor) como unidade básica do mercado. Os motivos são fáceis de entender (é mais fácil gerir a carreira de uma pessoa do que de um grupo), o que fez com que as bandas parassem de surgir, pode reparar.

Mas isso mudou depois da pandemia. Ter uma banda hoje não pressupõe gestão de carreira, gastos de produção, divisão de cachê e de tarefas. Comecei a notar bandas surgindo pelo motivo que sempre deveriam ter surgido: porque é legal tocar junto com outras pessoas. As bandas voltaram a ser turmas de amigos, mais do que CNPJs da indústria do entretenimento. E bandas que tocam em qualquer quintal, qualquer buraco, qualquer lugar em que elas possam ser ouvidas. E do mesmo jeito que não são empresas, fogem das tendências de mercado, inclusive estéticas. Estão buscando rumos artísticos novos e diferentes só porque é legal fazer isso. E bastou que eu começasse a frequentar o Picles para saber que aquele era o palco perfeito para uma festa pensada para essas bandas.

A edição desta quinta-feira do Inferninho Trabalho Sujo era exatamente o que eu havia pensado quando o conceituei. Duas bandas novíssimas, quase desconhecidas, fazendo música de um jeito muito pessoal e particular, ambas melódicas e barulhentas na mesma medida. E lembro ter conversado com integrantes das duas bandas (especificamente a Anna d’Os Fadas e a Stéfanie do André Medeiros Lanches), mesmo antes de começar a festa, sobre a necessidade da existência de um lugar como esse. De alguma forma é o antônimo do trabalho que estou fazendo no Centro da Terra, mas paralelo e complementar. Ver as duas bandas tocando para um público feliz e lotado mostrou as coisas estão dando certo. Que venham os próximos!

Assista aqui:  

A força de uma mulher

Que beleza esse trailer do documentário Joan Baez I Am a Noise, que mistura a turnê de despedida que Joan Baez fez em 2019 com a trajetória de sua vida, misturando entrevistas, cenas de época e dos shows finais que a musa e força-motriz de uma geração realizou antes da pandemia. O documentário é conduzido por três diretoras (Karen O’Connor, Miri Navasky, e Maeve O’Boyle), é coproduzido por Patti Smith e estreia nos EUA no mês que vem, mas não tem previsão de ser lançado por aqui.

Assista abaixo:  

Uma curadoria única


Hélio Menezes,Grada Kilomba, Diane Lima e Manuel Borja-Villel (Foto: Divulgação)

Mais uma matéria que fiz para o site da CNN Brasil sobre a 35ª Bienal, que começou nesta quarta-feira, desta vez falando sobre o time curatorial da edição (os pesquisadores Diane Lima, Grada Kilomba, Hélio Menezes e Manuel Borja-Villel) e a relação deles entre si e em relação ao tema que propuseram, Coreografias do Impossível.

Leia abaixo:  

Chora, piano

Foi lindo o batismo de fogo de Paola Lappicy no palco do Centro da Terra nesta quarta-feira, em seu primeiro espetáculo autoral, Que Mágoa é Essa Que Me Chama?. Apresentando as músicas que se tornarão seu disco num palco pela primeira vez, ela deixou o lugar de instrumentista e musicista convidada para abrir seu coração com suas próprias músicas – e o resultado foi um show, literalmente, de chorar. Acompanhada de Dustan Gallas, Caio Chiarini, Léo Carvalho, Rogério Roggi e Luciana Rosa (além da participação surpresa e arrebatadora de Raquel Tobias), ela passeou por seu repertório quase todo ancorado na sofrência e na tristeza, com variações do termo “choro”, espalhadas pela noite, e deslizou pelo piano, seu instrumento-natal, mas também foi para o violão, sempre segurando com sua bela voz aquelas canções tão tristes, que ainda foram salpicadas por versões de outros temas de fossa, como a clássica “Espumas ao Vento” e a cortante “Alvejante” que reuniu Priscila Senna e Zé Vaqueiro, para encerrar sua apresentação. Chora, peito.

Assista aqui: