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Loki

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O título do post saiu do brinde que o Marvio fez no recente encontro com poucos e bons em Nova York, mas vale para saudar um 2012 de encontros de verdade, olho no olho. Além dos eventos sociais que colocavam semanalmente nestas situações (terças no Sesc, sextas no Alberta), fiz questão de sacramentar os encontros de verdade, tão raros nestes tempos de amizades digitais (ilustram este espaços os encontros com o Cardoso – quebrando finalmente o tabu”nunca na cidade-base”, uma vez que ele mudou-se para São Paulo; e com a Roberta, contados um a um). E pressinto que só o início de uma redescoberta offline que tem a ver com festas, fartos almoços e shows. Um brinde!

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Começou pelo simples fato de que o Gardenal já tinha passado da conta. O antigo condomínio digital gerido pelo Pablo Miyazawa foi pioneiro em hospedar perdidos pelos Blogspot e Geocities da vida, mas em 2007 começou a desandar e, pilhados pelo Bruno, que eu havia levado junto com o Arnaldo do Blogspot para o Gardenal, começamos a pensar num outro portal de blogs, anos depois do termo ter saído de moda. A princípio apenas nos reunimos ao Mini, que tinha seu Conector também preso no publicador de blogs do Google, e no dia 8 de agosto de 2008, inauguramos OEsquema. Só há pouco mais de um ano, deixamos de ser “o portal do Matias, do Bruno, do Mini e do Arnaldo” para começar um processo de expansão que reuniu bambas amigos de todos os fundadores dOEsquema. Foram mais de vinte novos blogs, quase trinta publicações centralizadas em torno de indivíduos, todos brasileiros e falando em português, que não se prendem a gêneros ou a classificações de áreas de trabalho. Uns puxam mais pra música, outros pendem pro design, mais uns pra cinema ou quadrinhos e todos falam da rua, da vida, de si mesmos – mesmo que às vezes não em primeira pessoal. É a idéia original do blog enquanto diário pessoal, mas filtrado pelo fato de que hoje temos mil redes sociais para nos expressarmos de formas diferentes com grupos diferentes. O blog nOEsquema é uma voz que fala para o resto do mundo, cada um de nós editando sua própria realidade para a posteridade e para um público que é menos leitor e mais comentarista. E a expansão não para em 2012 – alguns dos novos nomes já podem ser vistos em nossa grade… 2013 promete mesmo!

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Muitos pegam no meu pé devido ao meu apreço por Lana Del Rey. Não acho-a propriamente gata nem que sua voz seja grande coisa – e nem que esses critérios importem quando o assunto é música pop. A graça de Lana Del Rey começa por sua própria reinvenção – que começa depois que ela desiste de ser batizada de Lizzie Grant, se reinventando como uma cruza de Jessica Rabbit com personagem de David Lynch a partir de vídeos do YouTube. É um processo atravessado por qualquer artista que aspira à grandeza – a constatação de que, sem tomar conta da própria imagem, é muito fácil ser esquecido, na era da arte em escala industrial – e Lana é uma das personagens mais complexas nesse novo cenário em 2012. Se ela é cria de uma gravadora, se seu pai é milionário e comprou seu sucesso, se ela saiu em blogs de moda e de MP3 por causa dos bastidores de sua carreira, se ela está no comando ou é apenas a cria de um mercado que, mesmo decadente, ainda dá as cartas – isso tudo é secundário. E se o fim de 2011 tinha assistido ao início de sua carreira erguida ao redor de “Video Games”, 2012 viu a consagração de um álbum inteiro, Born to Die – até sua versão expandida, Paradise Edition – se espalhar por todo um ano, em clipes épicos, revelando camadas nada agradáveis do tal sonho americano, que Lana resolveu encarnar. Assim, deixou de ser um truque de espelhos e fumaça feito para funcionar na internet para assumir uma escala épica, como se o Grande Gatsby do Baz Luhrmann se encaixasse em uma pessoa; como se o Grande Romance Americano fosse um livro do Hunter Thompson ou do Tom Wolfe sobre como os anos 50 foram parar nos anos 70. Em um ano, Lana deixou de ser uma curiosidade cult para se tornar uma estrela de primeira grandeza – sempre caminhando sobre canções sólidas e graves, cantadas com o tom monocórdico e fúnebre da triste constatação sobre o fim do Império Americano; uma caricatura de Marilyn Monroe que se recusa a se suicidar e morrer linda; um livro de Gore Vidal adaptado para o cinema por Oliver Stone. Lana Del Rey não é o último ícone pop norte-americano, mas parece ser o último a se levar a sério. Se ela fosse o personagem de alguém, não seria tão divertida – e trágica.

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A segunda década da filmografia de Quentin Tarantino não repetiu a atuação esplendorosa da primeira. Foi quando ele resolveu sair dos anos 70 de Scorsese, da blaxploitation e de Peckinpah para dedicar-se a filmes de gênero, em épicos de mentira como Kill Bill, À Prova de Morte ou Bastardos Inglórios. Por melhores que sejam estes filmes, eles não deixam escapar uma sensação de que tudo ali é de mentirinha, inclusive as altas aspirações cinematográficas. O excesso de referências pop tira o ar de filme japonês que deveria atravessar os dois volumes de Kill Bill, Deathproof celebra o filme de quinta categoria e Bastardos Inglórios é mais divertido porque você sabe quem é o Brad Pitt fora do cinema de Tarantino. Tudo que antes aspirava ao primeiro escalão em seu cinema nos anos 90 (a cena da tortura ou o Pietá de Cães de Aluguel, a edição rápida de Pulp Fiction, a abertura de Jackie Brown) cai para a paródia, a caricatura, a desfaçatez. Não que Django Unchained não tenha seus momentos de puro humor idiota ou escolha o lado para quem torce, mas sua fotografia classuda, seus personagens densos e, principalmente, sua longa saga de vingança mostram que o velho Quentin entrou em uma nova fase. Se Bastardos Inglórios partia do grande cinema (segunda guerra mundial, Sergio Leone) para transformar tudo – literalmente – numa sessão da tarde, Django faz o caminho inverso e mexe nas entranhas do faroeste mais vagabundo para içá-lo ao patamar de John Huston. Longas tomadas em ritmo lento dão o tom de todo o filme, bem como o sangue de desenho animado que explode a cada vilão alvejado e a dor agressiva imposta a seus protagonistas negros. A quantidade de “niggas” – uma palavra que, para o público norte-americano, pesa muito mais que o “preto” dito em português – dita pelas quase três horas de Django é suficiente para constranger qualquer aspirante a bom moço, mas assisti ao filme em uma sessão no dia da estréia, coalhada de negros nova-iorquinos num cinema no Village, e todos riam alto – inclusive do maldito personagem de Samuel L. Jackson, talvez em sua melhor atuação. E ao cutucar um tema complicado (a escravidão) com toques de ultraviolência (perceba a referência à Laranja Mecânica na cena em que toca “Für Elise”), Tarantino finalmente deixa de ser um enfant terrible para colocar em si mesmo a coroa do primeiro escalão. Isso sem abandonar suas marcas registradas, como o copy+paste cinematográfico, uma trilha sonora tão presente quanto um novo personagem e diálogos extensos, cheios de referência, humor adolescente e o prazer em representar graficamente a dor. Antes de assisti-lo, os melhores filmes do ano (Drive, Cosmópolis e Holy Motors) tinham o carro como personagem central – todos ultrapassados pelo galope firme de um espécime exemplar dessa raça chamada cinema. Não foi à toa que a sessão terminou com aplausos.

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E no meu segundo ano como curador dos shows do Festival da Cultura Inglesa, conseguimos o feito de trazer o Franz Ferdinand de graça para o Brasil, num show memorável, que trouxe músicas inéditas de um quarto disco que não viu a luz do dia em 2012. Fora a confusão com a polícia fora do Parque da Independência logo na hora em que o Franz subiu ao palco (lamentável), o show coroou um domingo no parque exemplar, que conseguiu ser ainda melhor que a vinda do Gang of Four ao mesmo evento em 2011. Em 2013 não consigo repetir a dose na curadoria, por isso despeço-me da função com o orgulho de ter organizado um dos grandes eventos de São Paulo no ano que termina.

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Acho meio irônico o fato de a primeira foto que postei no Instagram ser a da imagem uma versão 8-bits para o jogo Angry Birds (acima). Até o lançamento do aplicativo com filtros de fotos vintage para o Android, meu app favorito era o joguinho dos pássaros e eu achava que o Instagram era só isso – um jeito de tirar onda de fotógrafo cool com a câmera de seu celular. Ledo engano. Ao me embrenhar na versão orkutizada do aplicativo antes restrito para iPhone, descobri que os filtros das fotos são o de menos. O que importa no aplicativo é o elemento de rede social minimalista, onde as longas discussões do Facebook e bate-bocas do Twitter ficam em segundo plano em detrimento de monólogos contemplativos de alto astral. Com um celular no bolso e a internet móvel, começamos a experimentar a sensação de independência do desktop, com seu teclado e mouse tão impositivos como grilhões com bolas de ferro ao tornozelo. O Instagram é o primeiro ambiente digital e social em que o celular é o protagonista e o texto é acessório. Não por acaso desbravei uma das únicas áreas da comunicação que ainda não tinha explorado (a da fotografia), ao entender que o recorte oferecido pelo aplicativo-rede social era um ponto de vista introspectivo e bem pessoal, bem diferente do coro de links e opiniões repetidos em outros ambientes digitais. Não dá pra discordar no Instagram (a fonte de todas imagens desta retrospectiva).

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Antes de 2012 eu fazia coro com o Fred e sempre que alguém falava em Bloody Mary, eu já cogitava a carne moída pra agilizar o molho à bolonhesa. Mas foi durante alguma ressaca que o drink bateu – e se havia passado 2011 aprimorando as técnicas do Caju Amigo, entrei em 2012 disposto a descobrir o gótico mundo do Bloody Mary – que de gótico só tem o nome. Descobri um gaspacho alcoólico que pode ser temperado de diferentes formas, mas, principalmente, um drink bom para os sábados pós-Noites Trabalho Sujo e para os fins de tarde nos dias de licença médica. De certa forma, o gosto de 2012, pra mim, é apimentado, salgado e forte – e descendo redondo mesmo assim.

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Nunca abandonei o vinil (nem os CDs, livros ou revistas, guardo-os todos como relíquias pessoais mais do que registros musicais), mas 2012 me fez retomar o velho affair com os discos pretos com mais paixão na medida em que a indústria fonográfica e toda uma geração de artistas se dispunham a voltar ao velho formato. Assim, foi mais fácil ceder aos impulsos do eBay (que vinha evitando há uma década, por saber de seu potencial de caixa de Pandora) como aos encantos da PopMarket (talvez a melhor idéia da velha indústria do disco em tempos digitais para voltar a vender, inclusive CD, ao oferecer “free shipping worldwide”) quanto a reorganizar a velha coleção de discos (o tempo da licença médica ajudou nesse quesito) e até a deixar a velha vitrola portátil em segundo plano para finalmente comprar um tocadiscos profissa. Meus discos sorriem toda manhã, de felicidade. Eu também.

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Por muito tempo eu gostei de música a sério – de discorrer sobre discos, dar a maior importância do mundo para listas e critérios de avaliação musicais, a busca do equilíbrio entre o jornalismo e a crítica, do peso de uma resenha -, mas desde que comecei a discotecar de verdade, com o surgimento da Gente Bonita, em 2006, que deixei essa preocupação em segundo plano e passei a me dedicar aos ímpetos mais primitivos da canção, ao aspecto mais passional e primevo da música – a celebração, o êxtase, a dança, a transcendência coletiva. E sempre agradeço por isso – a copiosa tarefa de enumerar argumentos para justificar a ênfase em artista tal ou no disco xis é quase mesquinha, se comparada ao transe grupal atingido durante uma sexta-feira à noite. E se 2011 já tinha se destacado com o surgimento das nababescas ANALÓGICODIGITAL (em que, ao lado do Veneno Soundsystem, promovemos nosso primeiro baile de carnaval e uma festa com a presença do ícone Don Letts nas picapes), este ano foi a vez das Noites Trabalho Sujo me ajudar a enfiar o pé na jaca da história da noite paulistana com uma sexta-feira inacreditável, que pintou de um convite descompromissado do grande Ivan Finotti para se tornar uma festa célebre pela vibe de acabação feliz. O formato de long set ao lado de um amigo convidado surgiu quase sem querer e ajudou a dar o tom dessas noites incríveis – afinal, quem discoteca vai entrando em alfa junto com o público. E ao lado de amigos e comadres consegui expandir a noite de São Paulo para além do espaço-tempo, misturando hits de todas as épocas, de todos os países e de todos os gêneros em momentos de puro delírio na pistinha do Alberta 3. Até os limites da tolerância do próprio Ivan eram testados, quando ele via a pista de sua casa noturna – batizada como uma música do Dylan, com fotos do Mick Jagger e os Ramones espalhados pela casa – se acabando ao som de alguma axé music tocada pelas Awe Mariah, ou quando a Carol Morena tocou A Cor do Som, ou quando Pattoli ou Danilo tocavam “Gangnam Style” ou quando eu desenterrava “I Saw You Saying” dos Raimundos. Mas a infâmia é apenas um dos ingredientes destas noitadas, que ainda contaram com altas doses de 2012 (“Flutes” do Hot Chip tocou desde que apareceu online, além de novas da Cat Power, Nicki Minaj, Frank Ocean, Poolside, remixes da Lana Del Rey, Grimes e Chromatics) e outras tantas da história do rock (quando Rage Against the Machine, Strokes, Cure, Led Zeppelin ou Queen tomavam o controle), equilibrando hits de todas as épocas com clássicos da música brasileira (ah, “Sereia” do Lulu Santos…) – e sempre com o dedo no volume pronto pra abaixa-lo e deixar a galera cantar tudo sozinha. Tudo em prol de uma noite em que a dança, os sorrisos, o xaveco e a catarse tornam-se uma coisa só (basta ver as fotos). Quem conhece, sabe – e pode ir esperando que 2013 promete!

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Por mais que profecias maias, furacões, eleições e o show de volta das Spice Girls possam ter marcado o ano que termina, pessoalmente ele vai ser sempre o ano em que consertei meu braço. Quebrado num acidente de trânsito nos idos dos anos 60, meu úmero direito ganhou uma tala de titânio interna para tentar voltar a ser um só, mas por décadas ele resolveu não calcificar, me privando de pegar peso com o braço direito e de dirigir. Depois de anos de procrastinação física, resolvi dar um jeito nisso e, durante dois meses de licença médica, voltei à ativa em uma nova realidade. Aproveitei a cirurgia pra botar a vida nos trilhos (“projeto verão”, riem os amigos – “projeto 80 anos”, falo sério de volta) e esse movimento sincronizou-se tanto na vida diurna – quando, ao comandar o Link remotamente por dois meses, eu consegui provar pro Filipe e pra Tati que eles conseguiriam tocar o caderno como editores (o que acabou acontecendo após a minha ida para a editora Globo, outra prova da conspiração cósmica , convite que recebi na última semana da licença médica – quanto na vida noturna – quando Pattoli, Babee e Danilo me ajudaram a manter a Noite Trabalho Sujo semanal, como seguirão fazendo no ano que vem. Por isso o início do segundo semestre de 2012 não foi apenas crucial para meu entendimento do ano, mas também como marco zero de uma nova fase que começa agora (sem contar a possibilidade de finalmente arrumar as coisas em casa – aquela outra procrastinação que envolvia organizar livros, discos, arquivos digitais, fotos – enfim, o escritório). Meus amigos sabem bem como o fim dessa história era importante pra mim – e agora vamos à mais uma fase desse jogo chamado vida.