Quem achava que o Bonde do Rolê nem chegaria ao segundo disco (como eu), deve ter se espantado (como me espantei) quando ouviu a versão anglófona do trio curitibano para “Baby Doll de Nylon”, do Robertinho do Recife. Contando com o auxílio luxuoso dos Poolside (grande nome deste ano) e de Caetano Veloso, verteram o xaveco pernambucano em um carimbó indie praiano, “Baby Don’t Deny It” faz muito sentido em um planeta que fica mais quente a cada segundo e dentro do bem sucedido TropicalBacanal, um disco que dá uma sobrevida improvável à existência do Bonde.

2012 foi um ano de entressafra para os Arctic Monkeys, que, mesmo sem disco novo, lançou dois singles bem sucedidos (a ponteaguda “R U Mine?” e o cover que fizeram para “Come Together”, do Beatles, por ocasião dos Jogos Olímpicos em Londres). Mas ao regravar “Katy on a Mission“, o single que colocou a irrelevante Katy B no mapa pop britânico, num especial para a BBC que o grupo de Alex Turner reforçou seu papel de principal banda de rock da Inglaterra no século 21, trazendo o hit insosso da pista de dança rumo ao palco de pub tão afeito ao grupo. Eles ainda vão longe…

A versão pós-rock instrumental que o grupo curitibano submete a triste constatação de Renato Russo ao final do segundo disco do Legião Urbana dá outra leitura ao clássico dos anos 80, que atinge níveis de grandeza, melancolia e desespero apenas cogitados em teoria nas letras do grupo de Brasília, mas nunca sonicamente falando. Até 2012.

Apesar do foco de 2012 ter ficado nas travessuras com seu Major Lazer (que além de emplacar uma das músicas do ano, ainda teve tempo de levar Snoop Dogg à Jamaica), Diplo não deixou o pop mais tradicional de lado e, ao lado de um desconhecido de sobrenome famoso (não são parentes), cometeu essa pequena pérola perfeita para tardes ensolaradas e manhãs na praia. Ele pode até ser picareta, mas quando acerta, acerta em cheio.

Céu saiu do fumacê de seu segundo disco rumo a uma trip no deserto acompanhada de uma trupe de ases instrumentais, mas “Falta de Ar” talvez seja o momento mais jamaicano desse road album chamado Caravana Sereia Bloom.

Um feeling africano de verdade, não apenas superficial como o de muitos hipsters que seguem a trilha turista dos Paralamas do Sucesso em “Alagados”, Sinkane encorpa o freak folk com o mesmo groove que o Toro y Moi descobriu no EP Freaking Out. “Lovesick” chacoalha escorregadia e ensolarada, mesmo que tímida e preguiçosa – afinal, hispters são indies, em sua essência – e nem é o grande momento de sua estréia, Mars.

A voz que encantou o mundo com “American Boy” começou 2012 trazendo a clássica Motown para o século 21, numa parceria com a hipster p-funk Janelle Monae em que é impossível ficar parado. Fora que “you don’t know where I am going, and so you think I am lost”, senhor verso, poderia ser subtítulo para o ano inteiro.

Como foi de feriado de ano novo, conseguiu descansar, tudo certinho, São Paulo tá ótima nessa época, esse frio não tem nada a ver com verão e… sexta-feira é dia de Noites Trabalho Sujo, que retomam seus trabalhos este ano com a ilustre presença da vocalista do Copacabana Club, Camila Cornelsen – a Cacá – que divide os CDJs comigo para receber 2013 em 220 volts, puro verão pop! Para não se perder, é só seguir as coordenadas no site do Alberta e na página do evento no Facebook. E é claro que rola de incluir nome na lista de desconto, claro. É só mandar o seu nome e os de seus amigos o email noitestrabalhosujo@gmail.com até às 20h. Vamos começar bem o ano?

Nos encontramos no ano que vem, quando a lista das 75 melhores músicas de 2012 começa em contagem regressiva no dia 2 de janeiro. Boa virada!

Com terças e sextas comprometidas com saídas de casa semanais, 2012 acabou, por outro lado, sendo um ano bem indoor, em que além de organizar as coisas em casa, consegui dar cabo em várias pendências televisivas que não consegui acompanhar em tempo real. Matei séries inteiras que acabaram faz tempo (My Name is Earl, Arrested Development, Freaks & Geeks, o longo débito com The Wire) e consegui acompanhar hits atuais para acompanhar em tempo real (Sherlock, Parks & Recreation, Homeland, Modern Family, Mad Men, Louie, Ancient Aliens, Breaking Bad, Dexter, Newsroom) – que passaram a acompanhar a única série atual que sigo desde o início, Fringe. Com esse intensivão, comecei a encarar as séries como encaro sagas em quadrinhos – e em vez de acompanhá-las semanalmente, prefiro digeri-las às temporadas (no caso dos quadrinhos, aos volumes dos TPBs). Já havia feito isso em anos passados, assistindo Sopranos, A Sete Palmos e Battlestar Galactica às tijoladas enquanto criava um ranking interior, mas 2012 me ensinou que esteve talvez seja o melhor jeito de consumir estes seriados, que devem estar entre as principais obras de arte pop da atualidade (mesmo que eu não tenha nem conseguido começar a acompanhar coisas como Games of Thrones ou Walking Dead). O que também dá uma sensação ímpar ao final de qualquer série – o ar de dever cumprido e o astral de ser uma pessoa melhor, como Earl ao final de cada episódio em que riscava um item de sua lista.
