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Loki

Triste saber da morte de James Chance nesta terça-feira. Um dos grandes nomes da cena nova-iorquina do final dos anos 70, ele primeiro fez parte do grupo Teenage Jesus and the Jerks, que projetou a carreira de sua então companheira, a madre superiora do pós-punk norte-americano Lydia Lunch, como depois de terminar o relacionamento por diferenças artísticas (ele queria um som mais expansivo e solar, ela mais introspectivo e noturno), lançou sua própria banda liderando o James Chance and the Contortions. Figura central na cena no wave, começou tocando versões de Velvet Underground e Stooges numa banda chamnada Death em Michigan, quando mudou-se para Nova York abraçando, ao mesmo tempo, duas vertentes musicais distintas da cidade – o free jazz e o punk. Com seus Contortions (que ganharam esse nome pois o crítico Robert Christgau disse que ele não tocava, mas “se contorcia”), alternava suas performances entre os vocais berrados e o sax estridente, quase sempre saindo na porrada com o próprio público. A banda foi escolhida para participar da primeira edição da coletânea No New York, produzida por Brian Eno (ao lado dos próprios Teenage Jesus and the Jerks, Mars e da primeira banda de Arto Lindsay, DNA) e seu primeiro álbum, Buy, é um dos principais registros daquela cena, inspirou artistas como Sonic Youth, Birthday Party, Swans, Konk, Big Black, Jon Spencer Blues Explosions, Liars, LCD Soundsystem, Black Midi, entre outros, além de seguir atualíssimo até hoje.

Tô falando disso há um tempo: há uma nova geração de músicos e bandas vindo aí que está vindo com mais força e criatividade do que podemos esperar. E nesta sexta-feira, reuni dois exemplares desta nova safra, quando o palco do Inferninho Trabalho Sujo recebeu as bandas Skipp is Dead e Tangolo Mangos. Liderado e concebido pelo amapaense Alejandro de Los Muertos – o próprio Skipp, que também faz os flyers do Picles, entre outras mil atividades -, o Skip is Dead mistura indie rock do início deste século com trilha sonora de videogame e guitarradas do norte do país e rotulando-se como space pirate synth rock e ainda conta com o baterista Marco Trintinalha, o guitarrista Colinz, o tecladista Leon Sanchez (sintetizadores) e o baixista Vinicius Scarpa. Mas o show foi além dos músicos no palco e com uma direção de arte afiadíssima, ainda mais para os padrões do Picles, elevou a apresentação para o nível de espetáculo, com uma instalação que incluía dois telões, figurino e maquiagem num show multimídia que ainda contou com a participação da Yma em uma das canções.

Depois deles foi a vez do grupo baiano Tangolo Mangos mostrar seu disco de estreia Garatujas pela primeira vez em São Paulo e o público era formado por um verdadeiro quem é quem de nomes dessa mesma novíssima geração, entre cantoras, instrumentistas e agentes culturais que estão se conhecendo e reconhecendo como uma mesma turma à medida em que fazem seus trabalhos. Liderados pelo carismático guitarrista Felipe Vaqueiro, o Tangolo era nitidamente uma inspiração para essa parte do público que também é artista e idolatrado pelo pequeno mas firme fã-clube que ergueram em São Paulo, que não só sabia as letras do grupo de cor como estavam prontos para sair quebrando tudo ao menor sinal da banda. Esta, além de Vaqueiro, ainda conta com o baterista João Antônio Dourado, o baixista João Denovaro e o percussionista Bruno “Neca” Fechine, exímios músicos versados tanto em rock clássico, MPB, indie rock e música baiana e a fusão destes gêneros musicais aparentemente contraditórios encaixava-se como um quebra-cabeças a cada nova canção que o grupo mostrava. Com o paulista Caio Colasante fazendo a segunda guitarra como convidado, a banda ainda contou com participações especiais durante a noite, como o pernambucano Vinícius Marçal (da banda Hóspedes da Rua Rosa), o conterrâneo Matheus Gremory (mais connhecido como Devil Gremory, cujo trabalho musical mistura trap e heavy metal) e a mineira Júlia Guedes, neta de Beto Guedes, que também está preparando seu primeiro trabalho solo e tocou teclado com o grupo reverenciando sua linhagem, quando a Tangolo passeou por dois clássicos compostos quando o grande Lô Borges ainda era da sua faixa etária: “Trem de Doido”, do clássico disco Clube da Esquina, e “Você Fica Melhor Assim”, de seu mitológico disco de estreia. Uma noite marcante que ainda contou com duas estreias: a da jornalista Lina Andreosi como DJ, que tocou antes das duas bandas, e a da quase-parente Pérola Mathias dividindo a discotecagem comigo na pista do Picles – quando seguimos o fervo misturando Stevie Wonder com Slits, Beyoncé com Jamiroquai, Gloria Groove com Can, Rita Lee com (claro que não podia faltar) Mariah Carey. Quem foi sabe: a nova geração está chegando!

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Skowa (1955-2024)

Que triste a notícia da passagem do Skowa, uma lenda da cena musical paulistana, que sempre teve o suíngue como principal arma, para circular em territórios tão diferentes quanto o funk, o samba rock, o choro, o rock e ritmos latinos. Nascido Marco Antônio Gonçalves dos Santos ganhou o apelido devido ao penteado black power que por muitos anos foi sua marca registrada e tocava na noite da cidade ainda nos anos 70, quando montou o grupo de salsa Sossega Leão, que tinha em sua formação integrantes dos Titãs (Paulo Miklos e Nando Reis) e do Ira! (André Jung) que tocaram com Skowa antes mesmo das bandas que lhes deram fama existirem. Passou pelo Premeditando o Breque, pela Gang 90 e pela banda de Itamar Assumpção nos anos 80 e atingiu o sucesso nacional quando fundou sua banda Skowa e a Máfia ao lado de outras lendas da cena da cidade como Lelena Anhaia, Tonho Penhasco e James Muller, e entrou no inconsciente coletivo brasileiro com a imortal “Atropelamento e Fuga”, versão funky para uma música do grupo pós-punk Akira S & As Garotas Que Erraram. Foi um dos entusiastas do samba rock quando ninguém dava bola pro gênero ao criar o Grêmio Recreativo Amigos do Samba, Rock, Funk & Soul nos anos 90, que dividiu músicas com Jorge Ben. Além da versatilidade musical era um dos nomes mais queridos da cena paulistana, transitando por diferentes círculos e abrindo portas e possibilidades para vários artistas em início de carreira. Além da música, trabalhou com teatro, cinema, televisão e rádio e foi o responsável pela volta do Trio Mocotó no início do século, quando assumiu o lugar do fundador Fritz Escovão, quando este resolveu sair da banda, e, depois de uma pausa, estava aos poucos retornando para os palcos com o lendário trio que acompanhou Jorge Ben. Deixa uma lacuna enorme no coração de muita gente. Obrigado, mestre!


(Foto: Ilana Bar/Divulgação)

O nome da banda Quartabê foi inspirado no humor de fundo de sala de aula de seus integrantes, mas serviu como molde para seus trabalhos, cada um deles uma aula que fazem em relação a um compositor. E como fizeram no primeiro Lição #1, em homenagem ao pernambucano Moacir Santos, quando, depois do lançamento do disco, fizeram um EP a partir do que ficou de fora da primeira obra, agora repetem a recuperação de Lição #2, lançando um EP a partir do que fizeram ao costurar a obra de Dorival Caymmi. O EP Repescagem, que lançam nesta quinta-feira e que mostram em primeira mão no Trabalho Sujo, muda um pouco a estrutura do disco inicial, como explica Maria Beraldo. “No Lição #2 a gente fez uma escolha de estrutura que, em vez fazer arranjos de cada música, a gente resolveu fazer uma grande composição, uma suíte de 40 minutos, uma peça só – tudo ali é Dorival mas também é uma composição nossa, de alguma maneira”, conta a musicista. “E nesse processo a gente teve várias ideias de arranjos que ficaram de lado porque não cabiam no Lição #2 na ideia que a gente queria – e agora essas ideias voltam no Repescagem, à moda Quartabê, com uma visão distante das versões originais e ressignificando essas músicas que pra gente são das coisas mais valiosas e preciosas que a gente tem na música.” Além disso, Beraldo, Chicão, Joana Queiroz e Mariá Portugal recebem duas participações preciosas, ídolos do grupo: “A Mart’nália faz nosso reggae descompassado, nosso balanço diferente”, continua Maria, “e a Ná Ozzetti vem na nossa versão de ‘Maricotinha’, que mistura com a nossa conexão com o Zé Celso. É um disco muito ritualístico pra gente, costurado com a canção ‘Quem Vem Pra Beira do Mar’, que aparece em três sessões.” O grupo lança o disco no próximo dia 28, no Sesc Vila Mariana.

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Mais uma segunda-feira atordoante dentro da temporada Curadoria do Medo que a dupla Test está fazendo no Centro da Terra – e se na primeira noite, João e Barata passearam sua avalanche de ruído acompanhada da surra de imagens aleatórias proposta pela VJ Carol Costa, na segunda sessão foi hora de transitar entre a iluminação, por vezes etérea e difusa e por outras frnética e energizante, conduzida por Mau Schramm e pelos ruídos manipulados por Douglas Leal, que começou a noite com gravações da própria banda antes mesmo de ela subir no palco, para depois misturar e remixar outros ruídos emitidos pela dupla enquanto os dois tocavam, funcionando como um eco de outra dimensão. Foi intenso.

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E era isso mesmo: o anúncio que David Lynch havia programado para fazer no dia 5 de junho foi o novo disco em parceria com a atriz e cantora Chrystabell (que viveu a agente do FBI Tamara “Tammy” Preston na terceira temporada de Twin Peaks e já havia trabalhado com o diretor anos antes) e como previsto, além do anúncio, também surgiu dirigindo o clipe do primeiro single do disco, “Sublime Eternal Love”, que não muda a vida de ninguém, mas conta com aquele clima tenso característico das obras do diretor – além de teclados além-túmulo do eterno Angelo Badalamenti, colaborador frequente de Lynch, que morreu em 2022 (veja o clipe abaixo). Mas não é a única novidade de Lynch: nosso amado diretor está aproveitando o aniversário de 15 de seu David Lynch Interview Project para lançar todos os 120 episódios em alta definição em seu canal do YouTube. Durante 70 dias em 2009, Lynch atravessou os Estados Unidos entrevistando pessoas comuns que encontrava pela estrada, num road movie existencialista dividido em capítulos em que perguntava às pessoas que abordava questões como “você tem algum arrependimento?”, “quando você experimentou a morte pela primeira vez?”, “o que você tem mais orgulho” e “como você gostaria de ser lembrado?”. Veja o trailer deste projeto abaixo: Continue

Ano passado comentei que a RTP, o canal público de TV em Portugal, havia disponibilizado em seu site a íntegra do clássico programa Discorama que em 1969 recebeu os Mutantes em Lisboa, um dos principais registros audiovisuais de uma das principais bandas da história do Brasil, que já circulava por outros meios em versões de baixa qualidade. Além de tocar ao vivo quatro músicas (“Panis et Circensis”, “A Minha Menina”, “Caminhante Noturno” e “Banho de Lua”, além de uma versão criminosamente cortada pela metade de “Trem Fantasma”), o programa ainda acompanha o grupo passeando pela capital portuguesa ao som de músicas do disco Tropicália ou Panis et Circensis, além de entrevistar Arnaldo Baptista e Rita Lee. E era inevitável que o programa fosse parar no YouTube, como dá para ver abaixo: Continue

E ao que tudo indica, o anúncio que David Lynch agendou para este cinco de junho não é de uma obra propriamente sua, já que parece antecipar apenas o novo disco da cantora e atriz Chrysta Bell, produzido pelo próprio Lynch. Cellophane Memories é o sexto disco da cantora norte-americana, que conheceu Lynch em 1998 e só foi colaborar com ele quase dez anos depois, quando o diretor incluiu uma parceria dos dois na trilha sonora de seu Império dos Sonhos. Depois, em 2011, Lynch produziu um disco em parceria com ela (This Train), em que a cantora musicou seus poemas, colaboração que continuou quando ela cantou “Sycamore Trees”, da trilha de Twin Peaks, na abertura de uma mostra australiana em homenagem ao diretor em 2015, chamada David Lynch: Between Two Worlds, e depois no EP Somewhere in the Nowhere, em 2017. Seus discos seguintes foram produzidos por John Parish e Chris Smart, mas a parceria com Lynch continuou quando ele a convidou para participar da terceira temporada de Twin Peaks fazendo o papel da agente do FBI Tamara “Tammy” Preston. O novo disco de Bell, que agora assina Chrystabell, é mais uma parceria com Lynch e será lançado no dia 8 de agosto e um link para o serviço de streaming da Apple na Nova Zelândia acabou entregando que o disco será anunciado nessa quarta-feira, provavelmente com o anúncio do primeiro single, que parecer ser a última faixa do disco, “Sublime Eternal Love”. Além da data de lançamento, também apareceram a capa do disco, o nome das músicas e um link com o áudio do primeiro single, que mantém aquele climão típico das cenas de encerramento de alguns episódios-chave da série. Resta saber se o single terá um clipe e se este será dirigido por Lynch, que prometeu na semana passada que algo que estava vindo para ser visto e ouvido. A capa do disco, o nome das músicas, Bell cantando “Sycamore Trees” e o link para “Sublime Eternal Love” podem ser vistos abaixo: Continue

Impacto fulminante

A primeira noite da temporada que o Test está fazendo no Centro da Terra durante este mês foi só um aperitivo da experiência sônica que a dupla formada por João e Barata irão proporcionar neste mês de junho. Sem participações musicais, a rigor foi um show semelhante aos que a banda vem fazendo, mas a convidada da noite deu um tempero extraordinário para a apresentação. A vídeo-artista Carol Costa cobriu o show dos dois com um amálgama de imagens que misturava filmes educativos de antes da Segunda Guerra Mundial, comerciais dos anos 70, documentários sobre a natureza e cenas de cirurgias criando uma colagem visual aparentemente díspare que ia criando um sentido à medida em que era sincronizada com as cadênciais em que os dois alternavam intensidades de velocidade e ruído. E ao fazer isso num teatro, com o público sentado, o trio criou uma sensação de cinema imersivo que deixou a plateia emudecida por quase uma hora sem parar, vítima de um impacto fulminante. E se pensarmos que os próximos shows terão a presença de outros músicos e manipuladores de som, o céu da experimentação é o limite para eles. Impressionante.

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Baita prazer receber no palco do Centro da Terra o Test, projeto musical que já transcendeu os limites do grindcore e do death metal para abraçar a plenitude do barulho extremo, tratando os limites do ruído como fronteiras a serem desbravadas por sua vanguarda noise. A dupla formada por João e Barata toma conta das segundas-feiras de junho em uma temporada chamada de Curadoria do Medo, em que, a cada nova apresentação traz diferentes formatos a partir de seu disco mais recente, o Disco Normal. Na primeira segunda, dia 3, recebem a videoartista Carol Costa, que traduz em imagens a sonoridade do grupo. Na segunda, dia 10, recebem a iluminadora Mau Schramm, o vocalista Carlos James e Douglas Leal, que dispara efeitos e recombina o som, para manipular o ruído da dupla em tempo real. No dia 17, a terceira segunda, eles destróem as paredes do barulho numa noite que contará com uma orquestra noise formada por Leandro Conejo, Rayra Pereira, André Damião e Fabio Gianelli. A última segunda do mês é dedicada ao elemento mais livre de sua música, quase free jazz, quando recebem os músicos Miazzo, Bernardo Pacheco, Sarine, Flavio Lazzarin, Tomas Moreira, Alex Dias e Chris Justtino. As apreentações comeeçam sempre pontualmente às 20h e os ingressos já estão à venda na bilheteria e no site do Centro da Terra.

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