Os Boogarins já estão em turnê pelo exterior, colhendo os frutos de seu impressionante Manual (já ouviu?) e aproveitam a viagem para lançar mais um clipe do disco, desta vez em trânsito, da viajandaça “6000 Dias”.
Sua dose diária de psicodelia – meia hora de imagens da estrela mais próxima de nosso planeta em altíssima definição. A Nasa leva dez horas para renderizar cada minuto deste vídeo, filmado em 4K e que captura o movimento que eles chamam de “vento solar”. É meia hora de um visual de derreter o cérebro – assista em tela cheia e substitua a trilha sonora por aquela que te faz viajar melhor.
O curso, ministrado por Fernando Rosa, do site Senhor F, conta a trajetória do gênero musical no Brasil desde a Tropicália até os dias de hoje. Ele acontece nesta terça-feira, dia 3 de novembro, às 20h, e para garantir sua vaga gratuita basta acessar este link, escolher o número de ingressos e na hora de realizar o pagamento, incluir o código promocional “unibescultural” (sem as aspas, claro) para reservar sua vaga na aula. As inscrições podem ser feitas através do email inscricao@unibescultural.org.br. Dá para se inscrever na hora do curso, mas como as vagas são limitadas, é melhor garantir com antecedência.
Conheci pessoalmente Fernando Rosa no dia em que conheci Rogério Duprat – nós dois nos conhecíamos apenas online e a apresentação ao vivo aconteceu aos pés do pequeno predinho em que o maestro tropicalista morava, quando fomos entrevistá-lo para a falecida Bizz em uma edição dedicada à psicodelia em 1999 (quando, sob a batuta do velho compadre Emerson “Tomate” Gasperin, pela primeira vez uma revista pôs os Mutantes na capa, trinta anos depois do grupo nascer). De lá pra cá, o respeito e a admiração pelo trabalho de Fernando só aumentam e não é exagero dizer que ele é ponto-chave tanto no resgate pela psicodelia brasileira (um dos estandartes da linha editorial de seu site, o já tradicional Senhor F) quanto pela revitalização da cena brasiliense a partir dos anos 2000, quando mudou-se para a cidade e passou a organizar o festival de integração latina El Mapa de Todos.
Tanto que ele foi um dos primeiros nomes que cogitei quando comecei a rascunhar esta série de aulas que se tornaram o curso O Outro Lado da Música, que acontece como parte das comemorações dos 20 anos do Trabalho Sujo. Além do curso ministrado por Fernando ainda teremos, neste mês, aulas sobre hip hop e black music no Brasil (com Ramiro Zweistch do Radiola Urbana e o mestre KL Jay) e sobre Rita Lee (com a fundadora do bloco de carnaval sobre a cantora, Alessa).
Para se inscrever na aula sobre psicodelia brasileira, basta acessar este link, escolher o número de ingressos e na hora de realizar o pagamento, incluir o código promocional “unibescultural” (sem as aspas, claro) para reservar sua vaga na aula. A aula acontece às 20h desta terça-feira e eu conversei com Fernando sobre o tema de sua apresentação e como andamo seus outros projetos pessoais.
O que podemos esperar da aula que você dará sobre psicodelia no Brasil?
Inicialmente, uma contextualização histórica de como surgem as primeiras manifestações do “gênero”, a partir das influências inglesas, em um primeiro momento, e depois americanas. As bandas de garagem, o Tropicalismo, Mutantes, o maestro Rogério Duprat, o guitarrista Lanny Gordin, a psicodelia regional do Liverpool, o Festival Ibirastock – que não houve – etc. Desse período em diante, as manifestações posteriores ao longo das décadas, como a psicodelia nordestina dos anos 70, especialmente com Paebiru, depois Violeta de Outono nos anos 80, Júpiter Maçã e Chico Science & Nação Zumbi nos anos 90. E. por fim, o que rolou nos anos 2000, em vários estados do Brasil, de Mopho a Boogarins, passando por StereoVitrola, Pipodélica e Efervescing Elephant, entre dezenas de outros.
Desde quando você se interessa pelo tema?
Desde sempre. Sempre tive um ouvido “torto”, mesmo quando ouvia música pop, nos anos sessenta, os detalhes, as pequenas variações dos arranjos, me chamavam a atenção. Na adolescência, o meu mundo, e dos meus amigos, tinha forte presença das bandas psicodélicas, como 13th Floor Elevators – para mim, o marco zero -, Jefferson Airplane, Grateful Dead, Pink Floyd – ainda dos anos sessenta. No Brasil, claro, o despertar foi com Mutantes, com sua sonoridade fora dos padrões, aquelas capas doidonas dos últimos discos. Outro momento importante foi a curiosidade despertada com o disco Avohay, de Zé Ramalho, que me levou até a psicodelia nordestina que originou aquele e outros discos. Ainda os shows do Liverpool, que assisti várias vezes ao vivo.
É difícil achar discos de psicodelia brasileira clássica hoje em dia?
Olha, a maioria dos discos mais importantes foi relançado de alguma forma, em vinil ou CD, no Brasil ou no exterior. Para quem quer apenas ouvir e conhecer, também praticamente a totalidade deles está “full album” no YouTube. Mas, claro, encontrar os discos originais, os compactos, os LPs, com capas, encartes da época, se tornou mais difícil com o “hype” criando em torno do gênero a partir de algumas histórias e discos. Por exemplo, os discos do Ronnie Von (1968) rolavam nas lojas nos noventa a preço de banana, o que atualmente não acontece mais. Em compensação, as reedições em vinil são uma boa saída para quem quiser ouvir no formato original, mesmo que relançado atualmente.
Na sua opinião, quais as bandas psicodélicas mais importantes do Brasil?
Bem, vou fazer um esforço para não cometer injustiças, pois são vários os critérios para chegar a um ou outro nome. Mas, vamos lá então, considerando as várias décadas em que o gênero se desenvolveu, com mais ou menos visibilidade. Mutantes, Liverpool, Spectrum, Módulo 1000, Ave Sangria, A Barca do Sol, Violeta de Outono, Chico Science & Nação Zumbi, Júpiter Maçã, Mopho. Além das bandas, tem artistas importantes que eventualmente, ou de forma aleatória, errática, produziram temas e/ou discos clássicos do gênero, como Lula Cortes & Zé Ramalho, Ronnie Von, Erasmo Carlos, Serguei, Damião Experiência.
E a psicodelia brasileira hoje em dia, como anda?
Da mesma forma que o rock, sem espaço claro no cenário musical, mas persistindo com algumas bandas importantes, inclusive com projeção mundial, como é o caso dos Boogarins, de Goiânia. Existem grupos interessantes surgindo em vários pontos do país, como Baby Budas em Porto Alegre, Almirante Shiva em Brasília, entre outros. Apesar disso, existe uma produção dos anos 2000 que ainda merece uma maior atenção histórica. Muitas bandas deixaram registros importantes do gênero, que aos poucos vão sendo incorporadas na discografia da psicodelia brasileira. Grupos como Mopho, Plástico Lunar, Supercordas, Skywalkers, Pipodélica, StereoVitrola, Laranja Freak deixaram obras que merecem uma audição mais atenta.
Queria que você falasse do Senhor F – como o site foi criado, como evoluiu e como ele funciona atualmente.
Bem, a história da Senhor F começa no final dos anos noventa, em 1998, quando a conexão era basicamente discada, o site de busca top era o Alta Vista, o software de edição era o Front Page e não existia Facebook, nem Twitter. Surgiu com uma cara de zine, baseada em um tripé editorial, que garantiu um crescimento muito rápido em torno dos anos dois mil até meados da década. De um lado, o resgate da história do rock brasileiro, principalmente seu lado B, por outro uma conexão muito estreita com a emergente cena independente, suas bandas, novos selos, festivais. E no terceiro ponto, uma abordagem ainda inicial da música latino-americana, tratando especialmente das cenas sessentistas nos vários países. A partir da criação do Festival El Mapa de Todos, a publicação cresceu a cobertura editorial latina, que passou a ser principal a partir de 2013, com um novo formato visual e de navegação. Atualmente, o portal investe prioritariamente nos temas latinos, mas aos poucos começa a retomar o acompanhamento da cena nacional.
Aproveitando, fale sobre o Mapa de Todos. A quantas anda o festival?
Em sua sexta edição neste ano, dias 12, 13 e 14 de novembro, em Porto Alegre, o Festival El Mapa de Todos, afirmou-se como uma referência para a conexão Brasil – América Latina no terreno da música. Já participaram do festival artistas do porte de Babasónicos, Bomba Estéreo, Xoel López, La Vela Puerca, Los Mentas, Juan Cirerol e Bareto, entre outros. O festival tornou-se conhecido, respeitado, em boa parte pela curadoria ousada, pela manutenção do conceito artístico-cultural-político (no sentido da busca da integração) e pela organização e infra-estrutura de qualidade. Neste ano, o festival passou a ser realizado integralmente em teatros, para nós um facilitador da melhor relação entre artistas e público. Nesse período, contamos com o patrocínio-master da Petrobras, exigente em seus critérios de seleção, o que também demonstra o acerto do trabalho realizado. Neste ano, uma das noites do festival – Milongas Extremas + Vitor Ramil + Onda Vaga – teve “sold out” trinta dias antes.
Que imagem! Vi aqui.
Tarantino é conhecido por reciclar temas e cenas de outros filmes nos seus próprios, criando uma colcha de retalhos de referências que funciona tanto se você as capta ou não. Seu primeiro filme – Cães de Aluguel, de 1992 – logo chamou atenção pelas referências a Sam Peckinpah e Scorsese, além de surrupiar pontos da história de O Segredo das Jóias, de John Huston, e O Grande Golpe, de Kubrick. Mas eu não conhecia a extrema semelhança deste filme com Perigo Extremo, Lung Fu Fong Wan no original e City on Fire na tradução para o inglês, filme de 1987 do diretor de Hong Kong Ringo Lam que é praticamente o filme de Tarantino cuspido e escarrado, como mostra Mike White, do blog Projection Booth. Saca só:
PJ Harvey ainda era uma estrela em ascensão quando tocou uma de suas músicas-chave – a irresistível “Rid of Me” – no metrô de Chicago, em 1993.
Que sonzeira.
Os Yoga Joes começaram como uma brincadeira via Kickstarter para traçar um paralelo entre soldadinhos de brinquedo e a prática não-violenta da ioga – e deu tão certo que já está vendendo normalmente na Amazon.
Fui à minha terra natal no fim de agosto e pude ver mais um ótimo show da Céu, que me inspirou a escrever minha coluna do mês passado na revista Caros Amigos. Filmei parte do show também:
Céu em Brasília
O show da cantora na minha cidade natal abriu diversas intersecções entre o estado do Brasil e da música brasileira hoje
Visitei Brasília, minha cidade natal, no final do mês de agosto, e, mais de duas décadas distante, já me acostumei com os pequenos sustos que a transformação da cidade me causa. Era inevitável a ocupação dos intermináveis terrenos baldios por onde caminhava ou andava de bicicleta, sempre em bando, na adolescência. Mas no lugar do hoje quase extinto ecossistema do cerrado surgem prédios que parecem astronaves cubistas de concreto, arremedos caricatos da arquitetura simples e megalomaníaca de Niemeyer. Os pontos cardeais que serviam para separar as asas do Plano Piloto entre Norte e Sul e nomear as avenidas – que nem mesmo este nome tem – W3 e L2 hoje abrem-se em setores Sudoeste, Noroeste e afins ocupando o horizonte do belo mapa de avião idealizado por Lucio Costa, fazendo-o refém de um entorno de prédios que podem, aos poucos, engolir o horizonte 360 graus da cidade. O gigantismo de Águas Claras com suas dezenas prédios de 30 andares de uma cidade-satélite que simplesmente não existia no século passado numa capital famosa por só poder ter prédios de no máximo seis andares.
Há uma estranha leveza em Brasília que vem do simples fato de ela não ser uma cidade natural. Este ponto do planalto central nunca foi entreposto comercial, missão religiosa, abrigo contra intempéries – e sim uma estratégia para evitar levantes populares contra o governo de um país ainda rural e de levar a urbanização e industrialização para além das capitais em seu extenso litoral. Sua localização foi determinada num sonho de um padre católico que virou santo quando Mussolini comandava a Itália e a cidade foi erguida por um presidente mineiro que se via como uma reencarnação do faraó Akhenaton. Não é, de forma alguma, uma cidade normal.
E por ter sido imaginada e desenhada antes mesmo de existir, Brasília, como qualquer condomínio fechado, foi pensada para ser um lugar aprazível, bucólico, para se viver com qualidade de vida antes do termo virar prateleira de consumo. Mas ela não é um condomínio fechado, suas superquadras não têm grades nem muros, transita-se livremente por quase toda a cidade. Essa faceta foi se tornando mais plástica e artificial à medida em que atravessamos os anos 90 e os anos 00, quando a ostentação e o consumo passaram a ditar regras e determinar status. Mas, justamente por não ter muros, há uma vida que sobrevive longe da programação oficial e do funcionalismo público, especialmente a vida social e cultural da cidade.
Enquanto parte dos clubes à beira do Lago Paranoá (que, como a cidade, também não existia antes de 1960), das festas nas embaixadas e os restaurantes são habitados por políticos e empresários de todo o país e pelo colunismo social da cidade, há uma movimentação artística que passa longe dos clichês que definem a cidade como mera “ilha da fantasia”. Repito aqui um conselho que falo para todos que dizem querer conhecer a cidade: conheça algum amigo que seja residente para lhe dar as coordenadas do que fazer. Chegar em Brasília só com informações turísticas e guias de viagem vão lhe apresentar a uma cidade linda com um céu espetacular, mas aparentemente vazia e estéril.
E nem estou falando de circular pelo submundo estético ou urbano da cidade. Brasília sempre teve festas e bandas, festivais e shows, programas de rádio e sites, peças e saraus. Do Clube do Choro ao Cult 22, do blog Quadrado Brasília à PicniK, do Quinto à Balada em Tempos de Crise, do FestClown à Play, do falecido Gate’s Pub à Criolina, do Porão do Rock à Moranga – diferentes épocas tiveram diferentes ímãs de atração que reuniam todo mundo que não se encaixava no estereótipo do playboy funcionário público que parece ser a população média da cidade para quem não conhece ninguém em Brasília.
Pois cheguei na terrinha em plenas comemorações dos 20 anos do festival de teatro Cena Contemporânea, que também conta com uma faixa de shows gratuitos. Meu irmão me levou para a Esplanada dos Ministérios e a alguns metros da Catedral, ao lado do Museu da República (também conhecido pelo apelido de Estrela da Morte, pois seu formato circular lembra a terrível arma de Guerra nas Estrelas), estava acontecendo um show da Céu.
Quando me refiro à música brasileira do século 21 não estou falando em um movimento consciente ou a uma safra específica de músicos, intérpretes, compositores e instrumentistas que apareceu ao mesmo tempo. Me refiro a uma mudança de mentalidade que expande os horizontes da mutante música brasileira para além da caixinha restrita que a trancaram quando criaram o rótulo de MPB. E o marco zero desta mudança, na minha opinião, é Céu.
Uma cantora que não é apenas intérprete, mas também compõe, e que não veio da matriz básica da MPB atual, que é a bossa nova. Ela passa longe do clichê da cantora de barzinho ao requebrar sua musicalidade suavemente entre o samba, o dub, a soul music, a música africana e o reggae.
Seu trânsito por diferentes gêneros também acontece ao compor com diferentes parceiros – Lucas Santtana, Beto Villares, Siba, Gui Amabis, Thalma de Freitas, Fernando Catatau, Jorge Du Peixe, Anelis Assumpção são alguns dos nomes que já compuseram com ela – e ao selecionar as versões para seu repertório, que vão de Erasmo Carlos a Jimi Hendrix. No show que aconteceu num domingo à noite, ela passeou pela versão que Caetano Veloso fez no disco Transa para o samba de Monsueto “Mora na Filosofia”, o molejo original de “Visgo da Jaca” imortalizada por Martinho da Vila, no gingado da irresistível “Piel Canela” do Trio Los Panchos e na deliciosa visita a Pepeu Gomes em “Mil e Uma Noites de Amor”.
Com nova banda – formada por Vítor Gottardi na guitarra, o fiel escudeiro Lucas Martins no baixo e o mago do ritmo Pupilo, da Nação Zumbi -, Céu também mexeu bem com músicas já conhecidas. “Comadi” perdeu completamente seu sotaque reggae para ganhar um baixo pontiagudo de levada funk setentista. “Cangote” faz uma conexão caribenha com Belém e requebra na batida do carimbo. E pouco antes de cantar uma música do baterista Tony Allen, a usina de ritmo do nigeriano Fela Kuti (“Don’t take my kindness for weakness” – não ache que minha bondade é fraqueza), ela entregou-se à imortal “Concrete Jungle” de Bob Marley e entre versos que falavam de ilusão, corrupção e poluição, ela desabafou com o público.
“Vamos aproveitar que o Brasil está passando por uma limpeza e vamos pensar muito bem nos nossos atos, nossos votos e desconfiar de certas mídias e de coisas que aparecem, vamos analisar”, disse sem sair do ritmo. “Eu vejo isso como uma coisa muito positiva. A gente vai conseguir. Eu realmente acho difícil o que a gente tá passando agora, mas vamos pra frente, porque não tem nada igual ao Brasil, tamo junto”.
E vendo aquela pequena multidão em transe ao som dos doces vocais da paulistana, sob uma enorme Lua crescente e ao lado de imagens projetadas na parede abobadada do Museu, só conseguia pensar em uma onda de esperança que caminha sob as más notícias que pode finalmente mudar a cara de um país sempre em desenvolvimento. Não há nada igual ao Brasil – e estamos todos juntos nessa.
O show que Iggy Pop fez no festival do Lúcio já está inteirinho no YouTube, saca só:
Esse foi o setlist:
“No Fun”
“I Wanna Be Your Dog”
“The Passenger”
“Lust for Life”
“Skull Ring”
“Sixteen”
“Five Foot One”
“1969”
“Sister Midnight”
“Real Wild Child (Wild One)”
“Nightclubbing”
“Some Weird Sin”
“Mass Production”
“Search and Destroy”
“Raw Power”
“I’m Bored”
“Funtime”
“Neighborhood Threat”
“Down on the Street”
“Dum Dum Boys”










