Bárbara Eugenia está nos finalmentes dos trabalhos de seu ótimo Frou Frou, lançado em 2015, e começa a despedir-se lentamente do disco – o último show do álbum em São Paulo aconteceu durante a Virada Cultural e ela tem passagens agendadas para Brasília, Porto Alegre e Florianópolis nos próximos meses – e depois dedicar-se ao disco Vida Ventureira, gravado ao lado de Tatá Aeroplano, que deve chegar às plataformas digitais no início de junho. E para marcar o fim desta fase, ela lança o clipe de “Só Quero Seu Amor”, dirigido por sua amiga Yera Dahora, que estreia com exclusividade aqui no Trabalho Sujo.
Thiago França dá início à sua invasão do Centro da Terra chamando o velho compadre Kiko Dinucci para tocar, de forma improvisada, a mística melodia Ngoloxi (cuja primeira versão pode ser baixada no site de Thiago, como todas suas obras), uma sequeência específica de notas que é repetida de várias formas e intensidades apenas com o saxofone e o violão. Thiago contou o conceito por trás de suas quatro segundas aqui outro dia e fala mais sobre a apresentação desta segunda, dia 6, e de sua amizade com Kiko no papo abaixo (mais informações sobre o primeiro espetáculo aqui).
Como você conheceu o Kiko Dinucci?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/thiago-franca-depois-a-gente-ve-como-voce-conheceu-o-kiko-dinucci
Como essa parceria evoluiu para o Metá Metá?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/thiago-franca-depois-a-gente-ve-como-essa-parceria-evoluiu-para-o-meta-meta
Fale um pouco sobre Ngoloxi, tema da primeira apresentação.
https://soundcloud.com/trabalhosujo/thiago-franca-depois-a-gente-ve-fale-um-pouco-sobre-ngoloxi-tema-da-primeira-apresentacao
Vocês têm intenção de realizar novas gravações deste tema?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/thiago-franca-depois-a-gente-ve-voces-tem-intencao-de-realizar-novas-gravacoes-deste-tema
Eis mais uma tradução de minha lavra, A Vingança dos Analógicos, que está saindo pela Editora Rocco. Seu autor, o jornalista canadense David Sax, traça paralelos entre a volta do vinil, os cadernos Moleskine, o resgate da película para filmes e fotografia e dos efeitos especiais sem computação gráfica, publicações impressas, a sala de aula, o comércio tradicional, os jogos de tabuleiro e outras manifestações aparentemente isoladas como parte de uma grande onda que busca alternativas à overdose digital que vivemos hoje. Um alívio para quem está de saco cheio dessa parafuso que gira em falso que se transformou nossa vida online. Mais informações aqui (a foto veio do Instagram da editora Rocco).
Lançado há quarenta anos, Exodus, de Bob Marley, foi fruto de um atentado e o primeiro disco político do reggae – escrevi sobre ele no meu blog no UOL.
“As pessoas que estão tentando piorar este mundo não tiram um dia de folga. Como é que eu vou tirar?”, respondeu Bob Marley quando o perguntaram como ele havia feito um show dois dias depois de sofrer um atentado que quase lhe tirou a vida – bem como de sua mulher, Rita Marley, e de seu empresário, Don Taylor. Bob Marley foi alvejado quando ensaiava com sua banda, os Wailers, em seu endereço jamaicano, no número 56 da rua Hope da cidade de Kingston, no dia 3 de dezembro de 1976, dois dias antes do festival Smile Jamaica, onde era a atração principal.
O festival, organizado pelo primeiro-ministro jamaicano Michael Manley, era uma tentativa de responder à guerra entre facções rivais que tirava vidas por toda antiga colônia britânica. Bob Marley, como o primeiro-ministro, era dos poucos jamaicanos proeminentes que preferia não tomar partido de nenhum lado e concordou em puxar um evento para tentar levantar a bandeira da paz entre seus conterrâneos. Quando vários homens armados invadiram o ensaio, Bob foi atingido logo abaixo do coração e no braço, sua mulher e vocalista de apoio Rita teve a cabeça atingida por outra bala e seu empresário Don levou cinco tiros no abdômen. Milagrosamente, todos sobreviveram ao atentado sem nenhuma sequela – tirando o projétil alojado no braço esquerdo de Marley, que subiu no palco do Smile Jamaica mesmo naquelas condições. O evento, conhecido até hoje como “Woodstock jamaicano”, reuniu 80 mil pessoas.
O atentado não marcou Marley apenas em termos de saúde. Foi o início de um processo de transformação artística, que o fez mudar de país e de atitude. Voou para Londres e passou os próximos seis meses no número 34 da rua Ridgmount Gardens, no bairro de Candem. Lá começou a entrar em contato com o ainda incipiente movimento punk londrino e começou a gestar seu disco mais político, a obra-prima Exodus, lançada exatamente há 40 anos, no dia 3 de junho de 1977.
A conexão de Bob Marley com o punk começou quando ele ouviu a versão que o Clash fez para o hoje clássico hino reggae de Junior Murvin, “Police and Thieves”. “Políciais e bandidos nas rua, assustando a nação com suas armas e munições”, cantavam tanto seu conterrâneo quanto a banda inglesa, o que lhe fez perceber que as referências comuns a ambas cenas iam além de estéticas ou artísticas: viviam num mundo confuso e tenso, o que levou Bob Marley a mudar radicalmente as letras de suas músicas. Uma de suas primeiras novas composições – “Punk Reggae Party”, que havia saído no lado B do single de “Jamming”, citava nominalmente o levante musical tanto no título quanto na letra, mencionando até algumas bandas: “New wave, new craze/The Jam, The Damned, The Clash/Wailers still be there/Dr Feelgood too”. Era o início da transformação do reggae em gênero político, cujas cores passaram a ter fortes significados sociais.
Essa é a principal contribuição de Bob Marley ao gênero que o tornou astro. Não foi ele quem inventou o reggae (este foi o produtor Leslie Kong, de quem Bob se aproximou logo que entendeu que aquela novidade sonora iria mudar os rumos da ilha onde nasceu e de sua própria carreira) bem como não foi seu primeiro popstar internacional (este foi Jimmy Cliff, impulsionado pelo sucesso da trilha sonora do filme The Harder They Come), mas Marley sintetizou uma série de outras qualidades que ajudaram a estética jamaicana dominar o mundo. Foi ele quem popularizou o rastafaranismo através do gênero (vertente religiosa que ligou para sempre o reggae aos dreadlocks e à maconha) e quem suavizou a produção originalmente crua daquela musicalidade para as massas (com a contribuição sagaz do produtor Chris Blackwell, da gravadora Island, que havia antevisto o gênero como o próximo rock’n’roll e tratando musicalmente Bob Marley como um astro de rock, tanto em termos de marketing quanto de gravação). Mas ao mudar a temática do gênero de contos do faroeste jamaicano para uma visão política holística e global, Bob Marley mudou a cara do gênero, sua própria importância como artista e a cultura popular do final do século passado.
Exodus – “o movimento do povo de Jah”, como cantava a faixa-título do disco – é um álbum tão perfeito que parece uma coletânea. Começa em silêncio absoluto e vai crescendo muito devagar, o que leva o ouvinte a aumentar o volume antes de ser contagiado pelo balanço sincopado da primeira faixa, “Natural Mystic” – “Há uma mística natural soprando no ar / Se você ouvir com atenção vai perceber”, cantava suavemente o mestre. O disco continuava como a urgente – embora sem nenhuma pressa – “So Much Things to Say”, passava pela tensa “Guiltiness”, tornava-se ainda mais pesado com “The Heathen” até terminar o lado A com os quase oito minutos de sua esplendorosa faixa-título. A carga política do disco, no entanto, era suavizada por um lado B dedicado apenas ao amor, que começava em “Jamming”, continuava em “Waiting in Vain”, seguia por “Turn Your Lights Down Low”, “Three Little Birds” para terminar com a antológica “One Love”, que emendava com uma versão de Bob Marley para “People Get Ready”, de Curtis Mayfield.
Foi uma sacada de gênio, ao dividir o álbum entre política e amor, Bob Marley deixava claro que sua política era a do amor e que uma coisa era indistinguível da outra, mesmo separando-as cada uma em um dos lados do disco. Uma visão que nasceu motivada por um atentado à sua vida, consolidada na capital do antigo império que havia colonizado a ilha em que havia nascido e envernizada com as cores do novíssimo movimento punk. Exodus é a obra-prima de Bob Marley – seu melhor e mais importante disco – e, em 1999, foi eleito pela revista Time como o melhor disco do século passado. Vamos acender as velas para parabenizar este disco por quatro décadas de eternidade musical – e saudar Bob Marley como um dos artistas mais importantes de nossa era. Tuff Gong, indeed.
Há cinquenta anos, os Beatles mudavam a cultura pop com seu magnífico Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band – escrevi sobre o disco clássico no meu blog no UOL.
Se houve um marco que determinou os rumos da cultura que vivemos hoje, este foi o disco que os Beatles lançaram há exatamente meio século, no dia primeiro de junho de 1967. Ao desvendar Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band para o resto do mundo, a banda do norte da Inglaterra que transformou-se no maior fenômeno das massas dos anos 60 reescreveu a história da civilização contemporânea a partir de um simples disco. O impacto do disco mais emblemático da história dos Beatles e da história da música gravada pode ser sentido até hoje e reverberará ainda por muitos anos.
Sua onipresença e unanimidade é tão recorrente que é fácil reduzi-lo como um trabalho menor ou superestimado. Mas nenhuma obra de arte na história da humanidade provocou tantas transformações e causou tanto furor e discussões quanto o oitavo disco da carreira dos Beatles. Vários outros acontecimentos históricos provocaram desdobramentos tão ou mais radicais do que este que é o álbum mais clássico da música moderna, mas nesta categoria entram eventos violentos, drásticos e complexos, como invenções tecnológicas, conceitos teóricos, guerras, conquistas esportivas, epidemias, tragédias e catástrofes naturais. Outras obras de arte tiveram um impacto tão duradouro ou revolucionário quanto este disco, mas nunca de forma tão simultânea e global. Até hoje, cinquenta anos depois de seu lançamento, gerações inteiras, contemporâneas dos Beatles ou não, lembram da revelação provocada pelo disco.
E não apenas de sua audição. Sgt. Pepper’s provocava o crítico, o especialista, o fã e o ouvinte para além do conjunto de suas treze canções. A transformação ia para além do próprio repertório e ia para o conceito artístico, a produção sonora, a embalagem gráfica, a apresentação visual. Diferentes desdobramentos – da evolução da cultura de massas do século vinte ao amadurecimento da ainda infante indústria fonográfica, passando pela consolidação do modernismo e ascensão da cultura pop ocidental – convergiam naquele único disco hoje mitológico.
Mas o mais impressionante é que não havia modelo de negócios, estratégia de marketing, conceitos intelectuais ou manifestos artísticos – tudo foi feito por quatro rapazes entre seus vinte e trinta anos que, fartos de serem tratados como produto de consumo, abandonaram a própria natureza do mercado em que estavam inseridos e a motivação básica que os uniu durante toda uma década (tocar música ao vivo) para conseguirem se reinventar artística e comercialmente. A transformação acontecia basicamente pelo fato de quatro filhos da classe operária de um antigo império colonizador em decadência começarem a agir como uma única mente, um único corpo. Talvez o melhor retrato desta nova fase do grupo foi o fato de que, depois de tirarem férias uns dos outros após anos se vendo diariamente de forma incessante, os quatro se reencontraram com a mesma transformação estética – todos estavam trajando bigodes que nunca haviam cogitado sem nem sequer terem combinado nada entre si.
Por um semestre, no início de 1967, eles embarcaram em uma viagem que começou de forma nostálgica e logo descambou para a alegoria. John Lennon e Paul McCartney, a força-motriz e principais compositores da banda, voltaram para sua cidade-natal em forma de canção e, cada um deles, escreveu uma música que lhes trazia de volta às suas respectivas infâncias – John voltava ao orfanato próximo da casa de sua tia Mimi, onde passou parte de sua infância, e Paul ao terminal de ônibus por onde transitava diariamente quando ia para a escola. Strawberry Field (sem o “s”) e Penny Lane eram lugares mundanos e sem charme, que foram transformados em monumentos às respectivas juventudes dos dois, que logo entrariam para a história como a dupla de compositores mais antológica da cultura popular recente. “Strawberry Fields Forever” e “Penny Lane” fariam parte do novo disco de seu grupo, mas foram escolhidas para, no início daquele ano, serem lançadas como um compacto para mostrar o que os Beatles estavam aprontando no estúdio de Abbey Road. Um prefácio sensacional para uma obra-prima.
Não era pouca coisa. O single de duplo lado A parecia a continuação natural dos experimentos musicais e sonoros que o grupo vinha conduzindo a partir dos dois discos anteriores – Rubber Soul e Revolver, de 1965 e 1966, respectivamente -, mas agora parecia haver uma mesma temática, uma amarra conceitual. Ao mirar em sua Liverpool no ponto de partida do novo disco, os Beatles entenderam que era preciso transcender o formato LP – uma novidade mesmo ainda naqueles primeiros anos da música pop, um conceito que não tinha nem meio século de idade em 1967 – e transformar o álbum em um gesto artístico autoral.
A ideia original veio de Paul, a partir de um trocadilho infame durante um voo sobre o Atlântico. Viu o saleiro e pimenteiro dispostos próximos ao prato de comida e, brincando com as palavras, transformou “salt and pepper” (sal e pimenta) em um personagem fictício – Sargent Pepper -, maestro de uma banda inventada de um clube imaginário, o Clube dos Corações Solitários. A brincadeira evoluiu para um conceito ousado para a época, que aquele não era um disco dos Beatles e sim daquela banda enigmática. E foi vestindo roupas alheias – depois metamorfoseadas em fardas de uma fanfarra psicodélica – que os Beatles pularam num abismo de experimentações.
Logo estariam experimentando colagens sonoras e líricas, instrumentos alheios à música pop tradicional, drogas alucinógenas, temas distantes da alegria pueril dos primeiros dias, jogos de palavras, incursões geográficas, temporais e poéticas. Fugiam para o extremo oposto da beatlemania que havia lhes popularizado em todo o planeta, recriando o próprio universo de forma épica e, sem perceber, forçando o amadurecimento de toda sua geração e dando pistas para as gerações seguintes. Não fundaram a psicodelia, mas trouxeram-na para a pauta do dia, fundindo-a com seus recentes interesses por música erudita, alta cultura, pós-modernismo, música indiana, técnicas de gravação. Sob a batuta do produtor/professor George Martin, acompanhados de seus fiéis escudeiros George Harrison e Ringo Starr e a bordo de um estúdio que permitia apenas a gravação de míseros quatro canais simultâneos, John e Paul viraram a cultura do avesso, trazendo para fora todos seus ímpetos e instintos primários, mas envernizados pela curiosidade, pelo senso de exploração e de aventura e pelo salto no desconhecido.
A capa, hoje icônica, parecia traduzir todas as inquietações que o grupo sentia: era uma colagem ideológica de personalidades díspares – Oscar Wilde e Ghandi, Aleister Crowley e Shirley Temple, Mae West e Lawrece da Arábia, Bob Dylan e Karl Marx – que perfilavam-se a duas versões dos Beatles – uma retirada do museu de cera de Madame Tussauds (que parecia sinalizar que aqueles Beatles, em preto e branco, haviam ficado no passado) e outra multicolorida, sorridente e desafiadora. Aquela colagem visual conduzida por um dos grandes nomes da recente pop art, o inglês Peter Blake, traduzia tanto a ousadia comercial quanto a aventura estética encapsulada naquele disco, reforçada pelo fato de ser o primeiro álbum da história a vir com as letras impressas.
A quantidade de trunfos de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club é imensurável. Sem ele, a cultura perderia o impacto global e os Beatles não seriam uma das principais forças artísticas do mundo até hoje. Seu cinquentenário vem apenas reforçar sua importância, tanto em termos criativos quanto mercadológicos. Nenhuma outra obra de arte foi tão influente e transgressora em tão pouco tempo – nem antes, nem depois.
Thiago França não para! Um dos músicos mais prolíficos da nova geração, o saxofonista aceitou meu convite e assume o timão das incursões musicais das segundas-feiras do mês de junho. São quatro viagens sem rumo definido, mote da programação do espetáculo Depois A Gente Vê. Na primeira segunda, dia 5, ele se une ao velho comparsa Kiko Dinucci em torno de um mesmo tema melódico, mas sem rédeas estruturais além da sequência de notas. No dia 12, ele é acompanhado de dois bateristas pesos pesados, Sérgio Machado e Mariá Portugal. Na terceira segunda, dia 19, é uma noite elétrica ao lado de Beto Montag e Guilherme Granado. A residência chega ao final no dia 26, quando ele rege a Orquestra Instantânea de Sopros – traga o seu instrumento também. São quatro apresentações que podem ir da catarse à introspecção, do delírio à concentração, das profundezas marítmas da música à estratosfera do som. Só há um consenso: depois a gente vê. Os ingressos já estão à venda aqui.
Como você concebeu cada noite a partir de cada elemento?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/thiago-franca-depois-a-gente-ve-por-que-quatro-elementos
Há uma liga musical ou conceitual que amarra todas as noites?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/thiago-franca-depois-a-gente-ve-ha-uma-liga-musical-ou-conceitual-que-amarra-todas-as-noites
A escolha dos elementos também determina o sentimento da noite?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/thiago-franca-depois-a-gente-ve-a-escolha-dos-elementos-tambem-determina-o-sentimento-da-noite
Como o improviso musical funciona dentro de um tema conceitual?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/thiago-franca-depois-a-gente-ve-como-o-improviso-musical-funciona-dentro-de-um-tema-conceitual
Você tem intenção de dar continuidade a este projeto?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/thiago-franca-depois-a-gente-ve-voce-tem-intencao-de-dar-continuidade-a-este-projeto
O show acontece nesta quinta-feira, de graça, às 21h, e faz parte das atividades do evento Invenção 67 (mais informações aqui). Abaixo, um trechinho descontraído de um dos ensaios:
A inglesa Jane Weaver já vinha tecendo (desculpe) sua carreira com carinho e dedicação, por isso esse Modern Kosmology não é propriamente inesperado. Mas quando um discaço desses aparece é sempre motivo de comemoração.
Que disco, que disco!
Mais uma coluna minha na revista Caros Amigos, esta da edição de abril deste ano, quando falei sobre o primeiro show que Lô Borges fez de seu primeiro disco solo, 45 anos depois. E, claro, os vídeos que fiz desta apresentação.
De volta à estrada
Lô Borges retoma seu mítico “disco do tênis” ao vivo, 45 anos após seu lançamento
O pequeno Salomão tinha dez anos de idade quando, ao subir pelas escadas do pequeno prédio onde morava com sua família, ouviu um timbre de voz que ecoava pelas paredes acompanhado por um violão sutil e rebuscado. Correu em direção àquele som, encantado pelo puro poder da música e viu Milton, alguns anos mais velho, tocando sozinho em um quarto na casa de seus pais. Aquele encontro mudaria a história da cultura no Brasil.
Era um encontro inevitável. Milton era amigo do irmão mais velho de Salomão, Márcio, e juntos eles eram alguns dos poucos jovens em Belo Horizonte que eram igualmente apaixonados pela bossa nova brasileira e pelos Beatles. Um grupo de amigos – Fernando, Ronaldo, Wagner, Toninho e tantos outros que o tempo esqueceu – que se descobriam músicos por sua paixão pela música. O próprio Lô, apelido familiar de Salomão, tocava com uma banda cover de Beatles ainda no início dos anos 60, ao lado de outro menino chamado Beto. O grupo The Beavers era uma sensação pop local por ser formado por pré-adolescentes que faziam os intrincados vocais de John, Paul e George com perfeição. Mas os Beavers eram de uma geração anterior à dos amigos de Milton, embora este tivesse desenvolvido uma afeição pelo menino, sempre perguntando por ele quando não o encontrava na casa da família.
Até que um dia o encontrou na porta do prédio em que haviam se conhecido e, como Marcio não havia chegado, Milton convidou Lô para esperar por seu irmão juntos em um bar ali perto. Pediu uma batida de cachaça com limão e um guaraná para o irmão do amigo, mas ficou surpreso quando o menino, então com 17 anos, disse preferir uma caipirinha como a do amigo. Foi quando Milton percebeu que o irmão de Marcio já não era um menino. Que pôs-se a lamentar, dizendo que sentia-se excluído do grupo de amigos do irmão, que tinham os mesmos interesses que ele, mas que o tratavam de forma menor, como se não fizesse parte da turma. Milton o ouviu atentamente e, fascinado, percebeu o quanto havia perdido por não ter conversado antes com Lô. Seguiram falando sobre música até o prédio onde tinham se encontrado, subiram no apartamento dos Borges e começaram a brincar com voz e violão. A delicada jam session que os dois improvisaram de olhos fechados depois seria batizada de “Clube da Esquina Nº2”, no álbum que lançaram coletivamente com os amigos dois anos depois.
Àquela época Milton já era um artista estabelecido. Deixara Belo Horizonte para conquistar o Rio de Janeiro e sempre voltava para a capital mineira para reencontrar os amigos. Até o final dos anos 70, seu nome, Milton Nascimento, já tinha ultrapassado a fase inicial da carreira musical ao gravar discos com o Tamba Trio (logo sua estreia) e Eumir Deodato (no exterior, a convite do mesmo), tendo composto uma de suas obras-primas, “Travessia”, e sendo requisitado por diferentes intérpretes por composições inéditas.
Mas a volta a Belo Horizonte o fazia retomar contato com seu amor inicial, o contato com a música puramente pelo sentimento, longe das amarras do mercado fonográfico, que até então estava a seu favor. Mas sentia-se melhor no grupo de amigos que aos poucos tomava as calçadas da esquina das ruas Divinópolis e Paraisópolis, no bairro de Santa Tereza. O pessoal se reunia na rua e tocava violão até alta noite, apresentando composições próprias e músicas alheias, clássicos daquela geração, Beatles e Chico Buarque, um pé no Brasil e outro no mundo. Foi quando Milton decidiu capturar aquela atmosfera em disco e, quando a gravadora pediu um novo disco, ele decidiu fazê-lo com aquela turma de sua cidade. Especificamente com Lô Borges, que tinha apenas 17 anos e com quem tinha uma afinidade mágica, uma amizade intensa que criaria canções eternas.
Lô tinha dois desafios antes de aceitar o convite: convencer os pais e o exército, pois havia sido convocado para servir as forças armadas às vésperas de passar para a maioridade. Peitou ambos e foi para o Rio. Lá chegando, Milton e Lô se instalaram em uma casa em Niterói, na praia de Piratininga, e Lô, marinheiro de primeira viagem no showbusiness, dezenove anos recém-completos e visto como uma exigência inusitada de um nome em ascensão na música brasileira, pediu para não ir só e convocou o amigo Beto para ajudá-lo na viagem. Na casa de praia, os três compunham de uma forma peculiar: Lô compunha suas músicas em um quarto, Milton no outro e Beto Guedes indo de um cômodo a outro para sugerir harmonias, melodias, solos, instrumentações. As canções surgiam quase naturalmente e então eram entregues aos letristas que pairavam ao redor daquele grupo: Fernando Brant, Márcio Borges, Ronaldo Bastos. Dali iam para os músicos, que rearrajavam as canções entre a música brasileira pós-bossa nova, o jazz, o rock psicodélico, a música caipira, o folk e uma sensação quase barroca, de esmero e cuidado, característica da musicalidade mineira. Além dos músicos da turma de Belo Horizonte que eventualmente iam para Niterói ou que já moravam no Rio – como Wagner Tiso, Nelson ngelo, Toninho Horta, Tavito, Robertinho Silva – até a músicos estabelecidos – como Eumir Deodato, Alaíde Costa e Paulo Moura. Tudo regido por Milton, o veterano da turma, o maestro daquele clube.
O disco Clube da Esquina surgiu a partir do encontro de Milton e Lô e trazia para o país parte da sonoridade pop que tomava conta do mundo: folk rock, rock progressivo, jazz funk e rock psicodélico caminhavam lado a lado de canções bucólicas, devaneios lisérgicos, sonoridades pastoris e ecos latinos. Como o clube que o originara – que de clube não tinha nada, afinal era uma esquina a céu aberto – aquele disco duplo (que, por pouco, não foi o primeiro disco duplo da história da música brasileira, perdendo para o clássico ao vivo de Gal Costa, Fa-Tal, lançado meses antes) era um convite ao encontro, uma obra aberta que chamava o ouvinte para dentro de um mundo imaginário, emotivo e sentimental. Tão amplo quanto sua concepção, um dos primeiros discos brasileiros a creditar todos os músicos envolvidos em sua ficha técnica e em que músicos não ficavam restritos aos instrumentos que lhes foram delimitados. Todo mundo toca um pouco de tudo e até hoje há controvérsias sobre quem toca o quê em que faixa.
Lançado no início de 1972, o grupo impulsionou também a carreira do novo parceiro de Milton. A gravadora sem pestanejar pediu um disco solo para Lô que, da mesma forma, topou. Clube da Esquina havia sido um sucesso e o jovem músico despertava interesses e curiosidade. O único problema: ao gravar suas principais composições até aquela idade em seu primeiro registro fonográfico – o Clube, dividido com Milton – Lô havia esgotado seu repertório. Sem músicas novas, entrou em um processo de composição, arranjo e gravação quase industrial. Acordava, escrevia uma música, passava para o irmão que colocava a letra à tarde e, à noite, encontravam-se no estúdio, tentando colocar a canção de pé. Foi um processo convulsivo de composição, uma jam session em câmera lenta que reuniu quase todos os músicos que participaram do Clube da Esquina para firmar um disco composto por músicas curtíssimas que formavam uma colcha de retalhos psicodélicos sem par na história da música brasileira.
O disco ficou pronto e aquilo era o fim para Lô. Viu um horizonte tenso em que havia que compor músicas na marra para lançar mais um novo disco num futuro próximo e a sensação de que sua carreira musical poderia se tornar apenas aquilo lhe causou preocupação. Quando cogitaram colocar sua foto na capa do disco, que foi batizado apenas com seu nome, ele sugeriu que tirassem uma foto de seu par de tênis gasto. Era um código interno para avisar que estava pendurando as chuteiras e que iria colocar o pé na estrada. Para compor era preciso viver – e Lô desistiu da carreira fonográfica para viajar de carona pelo Brasil. Por cinco anos viveu como hippie, cruzando o país da Bahia ao Rio Grande do Sul, dormindo em comunidades, tocando música – e compondo sem parar. Quando resolveu parar, já tinha experiência e material para compor vários discos, como fez, a partir de seu segundo álbum solo, Via Láctea, lançado em 1979, retomando sua carreira musical profissional.
Mas seu disco de estreia – conhecido pela capa por “disco do tênis” – havia ficado intacto no passado. Depois de lançado no mercado, não teve show, não teve campanha de lançamento, ficou esquecido com o tempo. Até 2017. Ao completar 45 anos, Lô reuniu uma banda de jovens músicos para recriar seu clássico disco no palco pela primeira vez. Como a duração do álbum é curta (pouco mais de meia hora), foram incluídos no repertório músicas que Lô gravou para o primeiro Clube da Esquina, transformando o show – que foi lançado em janeiro em São Paulo e deve percorrer o país durante o ano – em uma celebração àquele mítico 1972.
Completando quinze anos em atividade, a dupla Alison Mosshart e Jamie Hince – que também atende pelo nome de Kills – comemora o aniversário lançando seu primeiro registro acústico, o EP Echo Home – Non-Electric, que, entre versões para músicas do disco mais recente da dupla (Echo Home” e “That Love) e uma do primeiro disco, Black Rooster (“Wait”), ainda inclui uma excelente versão para o hit “Desperado”, do ótimo disco que Rihanna lançou no ano passado, Anti.
Essa é a capa do novo disco e as músicas na ordem de apresentação:
“Echo Home”
“Echo Home” (acústico)
“Desperado” (acústico)
“Wait” (acústico)
“That Love” (acústico)















