No final de 1969, Frank Zappa encerrou as atividades de sua banda The Mothers of Invention, alegando ter tomado um prejuízo de dez mil dólares na turnê do grupo pelos EUA naquele ano. Mas os ex-integrantes dos Mothers – alguns deles inclusive voltaram a tocar com ele nos anos seguintes – acusavam-no de ser muito exigente e autoritário em sua liderança. O fato é que pouco tempo depois ele ressuscitou a banda com uma formação completamente diferente – começando os ensaios em maio de 1970, há exatamente meio século atrás. A nova formação – que agora chamava-se apenas The Mothers – contava com de Zappa na guitarra e vocais, os tecladistas George Duke e Ian Underwood, o baixista e guitarrista Jeff Simmons, três integrantes dos Turtles – o baixista Jim Pons e os vocalistas Mark Volman e Howard Kaylan, que não podiam se apresentar com seus nomes por razões contratuais e assinavam como The Phlorescent Leech and Eddie ou apenas Flo & Eddie – e o baterista inglês Aynsley Dunbar.
Essa formação, hoje considerada uma das mais clássicas na biografia do compositor norte-americano, é o centro da recém-anunciada caixa The Mothers 1970, que em quatro CDs, disseca o breve período em que ela esteve em atividade, até o início do ano seguinte, quando ela começou a se transformar à medida em que Zappa se envolvia com seu filme 200 Motels, lançado em 1971. Esse curto ano de atividade no entanto rendeu uma turnê que passou pelos Estados Unidos e Europa, além da gravação do clássico disco duplo Chunga’s Revenge, e a caixa traz os registros oficiais da época, incluindo apresentações ao vivo, sobras de estúdio e demos, em quase cinco horas de material inédito. Um aperitivo para a caixa, que vê a luz do dia no dia 26 de junho e já está em pré-venda, é o single “Portuguese Fenders”.
Disco 1
Trident Studios, London, England June 21-22, 1970
“Red Tubular Lighter”
“Lola Steponsky”
“Trident Chatter”
“Sharleena” (Roy Thomas Baker Mix)
“Item 1”
“Wonderful Wino” (FZ Vocal)
“Enormous Cadenza”
“Envelopes”
“Red Tubular Lighter” (Unedited Master)
“Wonderful Wino” (Basic Tracks, Alt. Take)
“Giraffe” Take 4
“Wonderful Wino” (FZ Vocal, Alt. Solo)
Disco 2
Live Highlights Part 1 – “Piknik” VPRO June 18, 1970 / Pepperland September 26, 1970
“Introducing…The Mothers” (Live on “Piknik” June 18, 1970)
“Wonderful Wino” (Live on “Piknik” June 18, 1970)
“Concentration Moon” (Live on “Piknik” June 18, 1970)
“Mom & Dad” (Live on “Piknik” June 18, 1970)
“The Air” (Live on “Piknik” June 18, 1970)
“Dog Breath” (Live on “Piknik” June 18, 1970)
“Mother People” (Live on “Piknik” June 18, 1970)
“You Didn’t Try To Call Me” (Live on “Piknik” June 18, 1970)
“Agon” (Live on “Piknik” June 18, 1970)
“Call Any Vegetable” (Live on “Piknik” June 18, 1970)
“King Kong Pt. I” (Live on “Piknik” June 18, 1970)
“Igor’s Boogie” (Live on “Piknik” June 18, 1970)
“King Kong Pt. II” (Live on “Piknik” June 18, 1970)
“What Kind Of Girl Do You Think We Are?” (Live at Pepperland September 26, 1970)
“Bwana Dik” (Live at Pepperland September 26, 1970)
“Daddy, Daddy, Daddy” (Live at Pepperland September 26, 1970)
“Do You Like My New Car?” (Live at Pepperland September 26, 1970)
“Happy Together” (Live at Pepperland September 26, 1970)
Disco 3
Live Highlights Part 2 – Hybrid Concert: Santa Monica August 21, 1970 / Spokane September 17, 1970
“Welcome To El Monte Legion Stadium!” (Live)
“Agon” (Live)
“Call Any Vegetable” (Live)
“Pound For A Brown” (Live)
“Sleeping In A Jar” (Live)
“Sharleena” (Live)
“The Air” (Live)
“Dog Breath” (Live)
“Mother People” (Live)
“You Didn’t Try To Call Me” (Live)
“King Kong Pt. I” (Live)
Igor’s Boogie” (Live)
King Kong Pt. II” (Live)
“Eat It Yourself…” (Live)
“Trouble Every Day” (Live)
“A Series Of Musical Episodes” (Live)
“Road Ladies” (Live)
“The Holiday Inn Motel Chain” (Live)
“What Will This Morning Bring Me This Evening?” (Live)
“What Kind Of Girl Do You Think We Are?” (Live)
Disco 4
Live Highlights Part 3 – FZ Tour Tape Recordings
“What’s The Deal, Dick?”
“Another M.O.I. Anti-Smut Loyalty Oath” (Live)
“Paladin Routine #1” (Live)
“Portuguese Fenders” (Live)
“The Sanzini Brothers” (Live)
“Guitar Build ’70” (Live)
“Would You Go All The Way?” (Live)
“Easy Meat” (Live)
“Who Did It?”
“Turn It Down!” (Live)
“A Chance Encounter In Cincinnati”
“Pound For A Brown” (Live)
“Sleeping In A Jar” (Live)
“Beloit Sword Trick” (Live)
“Kong Solos Pt. I” (Live)
“Igor’s Boogie” (Live)
“Kong Solos Pt. II” (Live)
“Gris Gris” (Live)
“Paladin Routine #2” (Live)
“King Kong – Outro” (Live)
Há quatro anos, Ava Rocha e Negro Leo foram para Bogotá participar de uma residência artística com o grupo Los Toscos, formado por músicos locais que se juntam para gravar músicas nascidas nestas experiências. O casal chegou na capital colombiana na época da votação do plebiscito que decidia pelo acordo de paz entre o governo e as Farc – e o clima político daquele país acabou contagiando o encontro musical. Ava, que morou entre os 14 e os 20 anos naquela cidade, pode reencontrar suas raízes musicais e gravar duas canções que compôs em espanhol, a animada “Lloraré Llorarás” e a meditativa “Caminando sobre Huesos”, que compõe um single que ela lança nesta sexta. Ela antecipa as duas faixas em primeira mão aqui para o Trabalho Sujo.
Formada para acompanhar o rapper BNegão em seu primeiro disco solo – Enxugando Gelo, de 2003 -, a banda Seletores de Freqüência está prestes a lançar seu primeiro álbum. Astral será lançado em junho deste ano, consolida o grupo como uma banda instrumental e o grupo descolou o primeiro single, “Piloto de Fuga (N° 2)”, lançado em primeira mão no Trabalho Sujo. Aproveitei para conversar com o trompetista Pedro Selector, único integrante da formação original, que contava com o saudoso Fabio Kalunga no baixo, Pedro Garcia na bateria e Gabriel Muzak na guitarra em sua primeira formação, sobre esta nova fase da banda.
A capa e o nome das músicas do disco estão no final da entrevista.
Quando vocês começaram a entender que os Seletores são uma banda para além do trabalho do Bernardo?
Teve uma apresentação em São Paulo, em 2012, na Sala Funarte, que o Bê teve que sair no final do show porque tinha que pegar um vôo pro Rio pra tocar com o Planet Hemp, deu alguma confusão de agenda e os shows foram marcados no mesmo dia. Pra não cancelar, ficou combinado que ele tocaria o tempo que desse e ia correndo pro aeroporto. A gente seguiu o show, tocando umas versões instrumentais do repertório do BNSF e aproveitamos e colocamos uns temas que a gente estava compondo e que estavam sem letra ainda. Foi muito bom, a galera que tava lá adorou e reagiu superbem. Acho que o peteleco inicial foi aí. Lá pra 2014, a gente tava bolando mesmo um disco instrumental, que seria produzido pelo Bê, mas acabou que veio o Transmutação e mudou tudo, já que o foco passou a ser esse disco, que saiu em 2015. No ano seguinte, eu peguei quatro sons que a gente começou a gravar e tinham ficado de lado por conta do Transmutação e botei pilha na galera pra finalizar e lançar como Seletores de Frequência. Esse foi o EP SF. Foi legal poder mostrar que a gente não era somente a banda do Bê, que a gente também compunha e que representávamos total o sentimento de ser uma banda. Nisso, conseguimos engrenar alguns shows só nossos, chegamos a tocar no palco instrumental da Virada Cultural de São Paulo em 2018.
Quem é a banda hoje? Desde quando vocês mantém essa formação?
A banda hoje sou eu, Pedro Selector, no trompete, Robson Riva na batera, Sandro Lustosa na percussão, Nobru Pederneiras no baixo, Gilber T na guitarra e Marco Serragrande no trombone. É a mesma formação que acompanha o Bê nos shows. O Nobru já tinha entrado pra tocar com no BNSF no lugar do Kalunga, porque o Kalunga tinha resolvido sair da banda, isso foi antes dele falecer, tipo um ano antes. Fica registrado aqui tb que esse disco todos nós dedicamos a ele, nosso amigo e irmão, Fabio Kalunga.
Então, o Nobru já vinha tocando com a gente e tal, e rolou o convite do Dado Villa-lobos e do produtor Estevão Casé pra gravar o disco e lançar pela Rockit!, isso em 2017. Só que durante a pré-produção, antes mesmo de ir pro estúdio da Rockit! o Fabiano Moreno, que era o guitarrista resolveu sair da banda. A gente conversou e como o Bruno também toca guitarra decidimos que ele ia gravar as guitarras do disco. Daí o Estevão sugeriu chamar o Pedro Dantas pra gravar os baixos, tocando da maneira dele as linhas de baixo que o Nobru tinha criado. Ficou animal. Tivemos ainda as participações fundamentais do Bidu Cordeiro, no trombone, do Thiago Queiroz no barítono, do Rodrigo Pacato na percussão e do Roberto Pollo no Hammond. Foi muito importante ter essa galera somando com a gente, no momento que a banda tava se re-inventando e prestes a começar uma nova etapa. O último a entrar foi o Gilbert, camarada de longa data, tocamos em outros projetos juntos, justamente porque pintou o show da Virada e a gente precisava definir a formação da banda. Das deu super certo e seguimos até hoje.
Por que vocês escolheram em se manter como uma banda instrumental e sobre como você vê a tradição de grupos de música instrumental no Brasil.
Essa escolha foi natural, muito pq as letras do Bê são um referência muito forte pra tanta gente e pra nós também, acho que se a gente quisesse escrever ia ser impossível seguir como Seletores de Frequência, né? Mas como unidade sonora, acredito que nós temos um DNA bem definido do nosso som, que flui por todo o trabalho junto com o Bê, que diz muito o que a gente é pela música, somente. E pelo prazer mesmo que temos em tocar junto e da liberdade também que a música instrumental proporciona, de não direcionar o sentimento de quem ta escutando com palavras, e sim só com as melodias; Aqui no Brasil, acredito que a gente dialoga com os grupos contemporâneos que fazem música instrumental sem ser aquele velho clichê do músico que sola pra caramba. Tem a Nômade Orquestra que curto muito, o Bixiga 70, a Abayomi, tem a turma do Beach Combers. Em termos de tradição, eu vou puxar pro lado da Banda Black Rio, do Fogo nos Metais do maestro Portinho, daquele suíngue esperto do Azymuth, do samba-no-prato do Edison Machado, J.T. Meirelles a gente vai bebendo nessas fontes. Tem aquele disco do Wilson das Neves também, O Som Quente, referência total.
Que outras influências musicais vocês têm?
Além das que citei, tem uma influência brutal pra nossa maneira de tocar que são os instrumentais dos Beastie Boys. Acho aquela essência ali muito foda, porque todos tocam pra música e acho que a gente tem essa mesma pegada. Não ser só uma gastação de onda. Ser um som verdadeiro ali, natural e sem estrelismos.
Como vocês vão fazer para lançar um disco durante a quarentena?
A gente levou quase dois anos pra terminar o disco, entre idas e vindas no estúdio, muito também por conta de outros compromissos, por vezes a gente ficava meses sem mexer em nada e dali a pouco andava mais um cadinho com a gravação. O disco ficou pronto em novembro do ano passado, mas achamos melhor esperar pra lançar depois do carnaval, aquele clássico. Daí veio a pandemia, todo mundo ficou meio desmotivado. Foi o Bê que me ligou um dia botando pilha, falou algo do tipo – “mano, o disco de vocês tá pronto? Lança essa parada que vai ajudar muita gente nesse momento bizarro que estamos passando”. Fiquei com isso na cabeça e realmente não tinha porque segurar mais. Sei que não temos ideia de quando iremos poder apresentar o disco ao vivo, num show, mas pelo menos saber que ele vai estar sendo escutado nesse momento que tá todo mundo bolado, que ele possa talvez ajudar a trazer algum conforto sonoro pra pessoas já vale tudo.
“Piloto de Fuga (No 2)”
“Tony Árabe”
“Só Pra Salvar”
“Boca Maldita”
“Riva Doobie”
“Trem do Cão”
“Biza”
“Sambatido”
“…E Segue o Baile!”
“Fumaça”
“Leva Fé (Lá)”
“Tou começando a enlouquecer, tou esquecendo de me amar, meu coração vai endurecer ou me entortar”, canta o refrão da primeira música que o pernambucano Tagore mostra de seu próximo disco, o sucessor do ótimo Pineal, de 2016. Cada vez mais psicodélico, Tagore Suassuna também teve sua programação de lançamento afetada pela pandemia, o que lhe fez antecipar a ordem dos lançamentos, mostrando “Drama”, que gravou ao lado dos Boogarins, como primeira amostra do novo álbum. “Nutríamos há algum tempo a vontade de lançar um feat.e com a crise que estamos atravessando, resolvemos antecipar e inverter um pouco a ordem dos lançamentos, priorizando essa parceria com os Boogarins, com quem temos uma longe relação de carinho e admiração mútua”, ele explica, falando da música que lança em primeira mão no Trabalho Sujo. O single chega às plataformas digitais nesta sexta, mas já pode ser ouvido abaixo.
O novo álbum, que chama-se Maya, deverá ser lançado apenas no segundo semestre e foi produzido por Pupillo Oliveira, que também toca bateria no disco, composta em parceria com o guitarrista da banda goiana, Dinho Almeida. “’Drama’ é um grito no espelho, um pedido de ajuda ao seu próprio reflexo, em busca de forças pra encarar as desventurar da existência, entre elas, os desamores”, continua.
“Iniciamos o processo de gravação em maio de 2018, em São Paulo, logo após participarmos do SXSW e Lollapalooza em sequência”, ele continua contando sobre o disco e fala sobre sua convivência com a quarentena. “”Estou num sítio em uma montanha chamada Taquaritinga do Norte, interior pernambucano. Trouxe todo meu equipamento e estou aproveitando pra registrar material novo e me aprofundar nos estudos de mixagem e masterização. Estamos planejando estratégias alternativas para o lançamento do disco, focando principalmente no suporte visual, com sessions acústicas, mais cruas, clipes e ilustrações.”
Um pouco da importância do mestre carioca Aldir Blanc pode ser absorvida através do ótimo documentário Aldir Blanc: Dois Pra Lá, Dois Pra Cá, dirigido em 2013 por Alexandre Ribeiro de Carvalho, André Sampaio e José Roberto de Morais, que está disponível online. Nele, o boêmio carioca lembra da infância e da adolescência na zona norte do Rio de Janeiro, suas parcerias (João Bosco e Guinga falam sobre este que consideram seu principal parceiro musical), seu envolvimento com o Movimento Artístico Universitário e seu papel na luta pelos direitos autorais, além de ver como Aldir era bom contador de histórias e querido por onde passava.
Dica do Aliche, o diretor do festival In-Edit Brasil.
Mesmo em quarentena, Thurston Moore não para de lançar música. Foram duas de seu grupo Chelsea Light Moving, “Sunday Stage” e “No Go”, desenterradas de gravações do começo da década passada, e agora ele lança músicas com a banda que vem lhe acompanhava no meio da década, batizada de Thurston Moore Group, com o baterista do Sonic Youth Steve Shelley, a baixista do My Bloody Valentine Deb Googe e o guitarrista do Nought James Sedwards. Primeiro, o grupo lançou a noisy “Instant Transcendent Conjecture”, gravada em 2016.
Agora é a vez de lançar “May Daze”, esperando que seus conterrâneos norte-americanos se registrem para votar nas eleições para presidente deste ano. “Nós podemos mudar o mundo – liberte todos os presos políticos – insurreição pela decência comum – consciência rock’n’roll” brada ao anunciar a nova música, que parece saída dos discos do início do século de sua antiga banda.
“Saudades de todo mundo junto dançando na rua, né minha filha?”, parece perguntar, entre a nostalgia e a pilha, a série de mixtapes Xepa Sounds que o Thiago França está lançando no seu site. Ele sussurra seu mantra “nunca não é carnaval” um pouco antes de gritar “bora!” e soltar a bateria eletrônica, emendando hits pop sem medo de apelar – meu astral de festa, quem conhece, sabe. Então tome Kid Abelha com Police, “Morena Tropicana” com Claudinho e Buchecha, Spice Girls com Men at Work, Terence Trent D’Arby com “The Final Countdown”, George Michael com “Lilás”, Lulu Santos com “Lindo Lago do Amor”, “Still Lovin’ You” com Rosana – tudo no beat do passinho.
Já são três (dá pra baixar a primeira aqui, a segunda aqui e a terceira aqui) – e vai saber quantas mais vêm aí…
Bruno Torturra me chamou para conversar sobre as transformações que a pandemia está impondo à cultura no programa Tem Alguém em Casa?, que ele mantém no canal do YouTube de seu Estúdio Fluxo.
O Gorillaz manda um salve para o saudoso Tony Allen. A banda de desenho animado do vocalista do Blur Damon Albarn – parceiro do baterista nigeriano em dois grupos diferentes (The Good, The Bad and The Queen e Rocket Juice & The Moon) – celebra o mestre nigeriano falecido na semana passada ao lançar a música que a banda fez com o baterista ao lado do rapper inglês Skepta, gravada pouco antes da quarentena londrina começar.
“How Far?” é a quarta música do projeto Song Machine, que o grupo lançou no início do ano: antes dela vieram “Momentary Bliss” com o rapper Slowthai e o duo de rock Slaves, os dois ingleses, “Désolé” com a cantora da Costa do Marfim Fatoumata Diawara e “Aries” com o baixista Peter Hook e a cantora Georgia.
E o projeto tá ficando bem redondinho…
Resgatei uma entrevista que fiz pra Ilustrada com o pai do afrobeat Tony Allen, que saiu deste plano na última quinta, na primeira vez que ele veio ao Brasil, em 2004. A foto que ilustra o post saiu do Radiola Urbana do Ramiro, que fez uma playlist no Spotify em celebração ao mestre.
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Pulso de Tony Allen une Brasil e África
Baterista nigeriano que tocou nas bandas de Fela Kuti apresenta-se pela primeira vez no país, ao lado de Sandra de Sá
Como o multiinstrumentista nigeriano Fela Kuti (1938-97) exigiu o holofote da história para seus discursos de ritmo incendiário, o baterista Tony Allen foi deixado em segundo plano como uma espécie de Sancho Pança do jazz-funk africano. Mas basta ouvir qualquer álbum de Kuti para entender que Allen era a força motriz e a arma secreta das bandas do artista – Koola Lobitos e Africa 70.
Allen era companheiro de longa data e tocava com Kuti desde os tempos em que sua banda chamava Koola Lobitos. Formado nos anos 60 apenas por estudantes nigerianos que faziam faculdade em Londres, o grupo logo passaria por uma drástica transformação em sua primeira turnê aos EUA.
Lá, Fela Kuti foi apresentado à nata de uma cultura negra em plena ebulição, que incluía free jazz, movimentos políticos e rock alto. Absorveu com a mesma intensidade as palavras de Jimi Hendrix, Malcolm X, Ornette Coleman, Sly Stone e Eldrigde Cleaver e mudou a banda: a partir daquela viagem de 1969, os Koola Lobitos se tornavam Fela Kuti & Africa 70 e nascia um novo gênero musical, o afro-beat.
Idealizado por Kuti, o gênero não sairia do lugar não fosse o pulso preciso de Allen, que se apresenta hoje e amanhã dentro da programação do Fórum Mundial de Cultura. Kuti morreu em 1997, mas o trabalho de Allen continua a pleno vapor. Ele, que já havia colaborado com grandes nomes do pop africano (como Manu Dibango e Ray Lema), passou as duas últimas décadas experimentando gêneros desconhecidos e possibilidades em estúdio. Lançou seu último disco, “Home Cooking!”, em 2003, e tem colaborado com Damon Albarn, vocalista do grupo inglês Blur, e com o novíssimo MC e produtor inglês Ty. Leia a seguir os principais trechos da entrevista que Tony Allen deu à Folha.
Que semelhanças você vê entre a música brasileira e a do continente africano?
Tony Allen – O Brasil tem muitas semelhanças com a África, por serem continentes de ritmos que surgiram do sofrimento. Tivemos a escravidão no passado, que nos tornou irmãos de sangue. E são culturas de países que não tiveram oportunidade de desenvolvimento, por isso são culturas nascidas na pobreza, mas que não são pobres. Há um lado na pobreza que não é tão negativo, que faz com que os pobres vivam mais do que os ricos, tenham mais experiência e intimidade com a vida do que aqueles que se dizem ricos. E, para falar dessa vida, eles colocam a boca no mundo.
Você tem algum artista brasileiro favorito?
Gosto especificamente de Gilberto Gil, que é uma pessoa em que eu sempre presto atenção. Ele é tão político quanto artista, tem uma desenvoltura muito boa para falar e idéias que realmente importam. E tem estilo. Seu violão é uma assinatura inconfundível.
Ele é o atual ministro da cultura do Brasil…
Sim, eu sei, e parece uma escolha óbvia para o cargo -não por ser um artista representativo do Brasil, que também ele é, mas por ter uma visão ampla de toda a situação. Acredito que o fato de eu estar finalmente indo para o Brasil está diretamente ligado ao seu cargo no governo. Não que ele tenha me convidado ou intercedido ao meu favor, mas estamos na mesma sintonia.
Você o conhece?
Não, mas adoraria. Quem sabe, nessa viagem… Também não conheço Sandra de Sá, com quem irei tocar aí, mas acho que terei uma ótima oportunidade para conhecer seu trabalho.
Desde os anos 80, você está atento a outros gêneros musicais e novas técnicas de gravação…
Houve uma época em que eu percebi que o afro-beat poderia se estagnar, parar no tempo. E a música tem que se mover. E, se havia a possibilidade de um ritmo rico e forte como o afro-beat parar no tempo, eu mesmo teria que colocá-lo andando de novo. Por isso comecei a me aproximar de artistas de hip hop, produtores de dub e de dance music.
TONY ALLEN E SANDRA DE SÁ.
Quando: hoje (sábado, 26 de junho de 2004), às 20h30, no Sesc Pompéia (r. Clélia, 93, Pompéia, SP, tel. 0/xx/11/3871-7700), e amanhã, às 15h, no Sesc Itaquera (av. Fernando do Espírito Santos Alves Matos, 1.000, Itaquera, SP, tel. 0/xx/11/6521-7272). Ingressos: R$ 15.











