Nicolas Jaar mostra duas novas faixas de seu projeto pop Against All Logic que contam com participações especialíssimas: “Alucinao” vem com vocais de FKA Twigs e “Illusions of Shameless Abundance”, com Lydia Lunch, que ele já havia mostrado num mix no meio da semana.
Duas pedradas!
Fazemos neste sábado a primeira edição das Noites Trabalho Sujo no Cine Joia e, para bailar, convidamos a Orquestra Imperial para celebrar com a gente – e eles convidaram um time de peso de intérpretes: Céu, Jonnata Doll, Ana Frango Elétrico, Bid e Guga Stroeter. A festa começa às 22h, o show à meia-noite e depois o baile segue a madrugada inteira – dá pra comprar o ingresso aqui (e usando o código “trabalhosujo” você tem descontos no ingresso). Vamos lá?
Utilizando suas mídias sociais, o grupo Gang of Four anunciou a morte de seu fundador Andy Gill neste sábado, sem falar sobre a causa de sua morte. Um dos principais pilares do pós-punk inglês, ele ajudou a reinventar a guitarra elétrica na virada dos anos 70 para os anos 80 ao lado de nomes como Robert Smith, Bernard Sumner, The Edge e os caras do Wire, mas ao contrário de seus contemporâneos, baseava sua musicalidade no toque brusco, transformado a guitarra em um machado de ruído que antecipava os ataques de scratch dos DJs da década seguinte, misturando inovações sônicas contemporâneas com o minimalismo funky que caracterizava seu grupo. Também foi um dos principais nomes da época a usar a música pop como forma de contestação política e a forma como conseguia traduzir a desesperança daquele período em força artística o transformou um dos instrumentistas mais importantes das últimas décadas.
Pude assistir a quatro shows de sua banda: duas em 2006 (com a formação original, Andy, Jon King, Dave Allen e Hugo Burnham), uma vez em São Paulo e outra em Floripa, quando vieram dividir uma turnê com os Cardigans (!?), uma em 2011, quando trouxe a banda como curador do Festival da Cultura Inglesa (apenas com Jon e Andy da formação clássica), num show épico gratuito no Parque da Independência (vídeos acima), e finalmente quando fez o último show por aqui em 2018 (apenas com Andy dos fundadores da banda, vídeo abaixo) e quando pude conversar melhor com ele depois de anos trocando emails. Meu primeiro contato com ele foi justamente na primeira vinda ao país, quando fiz uma entrevista tornar-se um artigo sobre as relações entre música e política a partir da criação de sua banda, publicado em uma das reencarnações da revista Bizz. Adorei que quando nos vimos ele lembrou que eu havia rotulado o Gang of Four de “banda crítica”, “não é mesmo uma banda de protesto”:
Quando eu e o Jon (King, vocalista da banda) começamos, nos perguntávamos: ‘O que motiva as pessoas? O que as faz fazerem o que fazem?’. É claro que você pode resumir isso em apenas ‘economia’, mas não é só isso. As pessoas ainda estão fazendo as mesmas coisas que faziam no século passado, o marido ainda trazia o dinheiro para casa enquanto a mulher cuidava da comida e dos filhos. O mundo havia mudado, mas essas relações ainda não. Pelo contrário, elas haviam se tornado prisões: família, emprego, propriedade. As pessoas se prenderam nisso de uma forma que acham que isso é a vida delas.
Temos uma música chamada ‘Natural’s Not In It’ que fala exatamente sobre isso. Tudo aquilo que chamamos de “natural”, na verdade, é artificial, é criado pelo homem. Seja a sociedade, o conceito de justiça, de bom senso… Tudo isso é invenção humana, nada disso é natural. As idéias não são naturais. Qualquer uma delas, todas elas – são inventadas.
E não queríamos ser os portavozes da nova esquerda. Para isso, tiramos todas as referências de política de nossas letras e títulos – você vê os nomes das músicas e não diz que o conteúdo delas é política –, tudo que pudesse lembrar a política dos jornais tava fora. Não queríamos dizer ‘você está certo’, ‘você está errado’, ‘você é de esquerda’, ‘você é de direita’. Não queríamos nos separar das outras pessoas. Queríamos, sim, lembrar pra elas que, esquerda ou direita, estamos nesse barco juntos.
Mas a forma que você colocou é bem razoável. É isso: o Gang of Four não era uma banda de protesto, mas uma banda de crítica. Uma crítica à sociedade, à forma que vivemos, à música, ao rock, ao punk rock, às outras bandas, a nós mesmos. Era mais ou menos como o Situacionismo dos anos 60, não queríamos nos levar a sério, mas não queríamos só isso.
E aí tem o outro elemento que, pra nós é crucial, que foi o ritmo. Não queríamos soar como rock, não queríamos ser mais uma banda de rock. E tanto eu quanto Jon já vínhamos pensando em experimentar com ritmo, somos fãs de dub até hoje, de krautrock, do James Brown. Mas seria ridículo tentar recriar a atmosfera de qualquer um desses artistas na Inglaterra dos anos 70.
Por isso partimos do zero, da tela em branco, e fomos acrescentando as coisas à medida em que começamos a tocar. E as coisas foram se encaixando. O legal é que não pensamos nessas coisas, elas simplesmente foram entrando em seu lugar. Põe um prato aqui, um bumbo ali, um riff mais à frente. Começava com um baixo solto, entrava a bateria reta, a guitarra fazendo ruídos e o vocal – mesmo que a letra importasse – funcionava como um instrumento. As coisas iam entrando em sintonia sem que pensássemos nisso. Em vez de fazer canções de amor, fazíamos canções de antiamor – o que é diferente de uma canção de ódio, veja bem.
Foi quando começamos a por elementos de disco music na mistura. Primeiro porque adorávamos disco. A cena começou a ficar ruim devido à forma que a mídia explorou o tema, com filmes como ‘Os Embalos de Sábado à Noite’ e todo o tipo de banda gravando disco music. Mas antes de ficar massificado, era uma cena bem interessante e – como você colocou – política, por libertar a canção de um formato estagnado e deixar as pessoas mais soltas, em vários sentidos.
Um gigante que pude conhecer pessoalmente. Obrigado por tudo.
Mais uma do disco novo do alter ego mais conhecido do canadense Dan Snaith, “Never Come Back” é o segundo single do álbum Suddenly, que o Caribou materializa no final do mês que vem.
E que delícia de som…
Os últimos anos foram puxados para os dois Beastie Boys sobreviventes. Depois de lançar sua autobiografia em 2018 e transformá-la em um espetáculo dirigido por Spike Jonze, Mike D e Ad-Rock levam sua Beastie Boys Story para um outro nível e anunciam o lançamento da versão em vídeo de sua história. O “documentário ao vivo”, seja lá o que isso signifique, que será exibido primeiro no SXSW, em março, para depois ir para os cinemas (por enquanto apenas nos EUA) e no serviço de streaming da Apple no final de abril. Sente o trailer:
Spike Jonze, que trabalhou com o trio desde o memorável clipe de “Sabotage”, também anunciou há pouco que iria lançar um livro de fotos que fez com o grupo quando trabalharam juntos. O livro já está em pré-venda e tem essa capa maravilhosa abaixo:
Céu aprofunda-se na viagem de Apká, levando seu disco para outras dimensões, no clipe da ótima “Corpocontinente”, que ainda traz Edgar como coadjuvante de uma viagem surrealista.
Mais um sinal de vida do jovem PDC, que lançou o primeiro single (“Briga de Família“) de seu novo disco aqui no Trabalho Sujo, e agora ressurge com a regravação de “Êxodo”, que havia gravado em seu álbum anterior, Coração Cabeção, e que desta vez ressurge com o auxílio luxuoso da parceira Ana Frango Elétrico.
Compare a nova versão, que estará no disco que ele lança ainda no início deste 2020, com a do disco que lançou em 2017.
Se você não viu O Barato de Iacanga, documentário sobre as mitológicas edições do maior festival hippie que já aconteceu no Brasil, pare tudo que está fazendo e assista agora – tem no Netflix, corre enquanto é tempo. Mas se você já assistiu ao filme, sabe que um dos pontos máximos é a inesperada e antológica participação de João Gilberto na terceira edição do Festival de Águas Claras, que o maior nome da história da música brasileira considerava um de seus melhores shows. O mais legal é descobrir que esse show está inteirinho no YouTube, aumenta o volume…
“A vida só começou”, canta o cantor e compositor paulista Bruno Schiavo no single “Califórnia”, que lança em primeira mão no Trabalho Sujo. Gravado por Negro Leo e por Ana Frango Elétrico (com quem compôs “Tem Certeza?” de seu disco mais recente), Bruno está prestes a lançar seu primeiro disco solo, depois de passar pelo grupo Eueueu, que descreve como “um power trio entre a canção e o improviso de garagem baseado no ideal de horizontalidade em voga em 2013”, que montou ao lado de Daniel Scandurra e Chico França (autor da ótima “Promessas e Previsões”, lançada por Ana, no ano passado).
No novo trabalho, o foco é a canção pop. “De modo geral, esse primeiro trabalho é metade uma compilação entre o que fiz nos últimos dez anos, metade escrito no calor das gravações. Dá pra entender cada faixa como uma descoberta a seu modo, um álbum feito todo de começos”, me explica. “O disco teria uma definição específica ou pessoal de pop, possivelmente um metapop que envolve gradações de curiosidade do ouvido, exemplos: o quanto a escuta pôde ser ampliada em meio ao mainstream dos anos 90 e 2000; desde o pop de invenção dos Beatles; a partir de uma procura específica música popular brasileira adentro; do choque multicultural do download e da obsessão musical que ele democratizou. Um pop que passa pela noção de que estranhar intervalos, dissonâncias, contratempos e em seguida assimilá-los é um processo tão ou mais fundador da experiência quanto a repetição; que acredita na dialética entre tais modos como lugar privilegiado de investigação. Processo de composição tendente ao zero, ao utópico do presente imediato do improviso na canção, sem recurso a gênero, baseado na desmontagem da própria gestualidade musical afetada pelo pop, cujos resquícios são selecionados, mantidos e valorizados. Como numa investigação retroativa do ouvido programado: deixei iscas de superfície, especialmente melódicas e na sonoridade geral, e iscas de profundidade, que vão se apresentando nas escutas sucessivas, daí principalmente nas harmonias e nas letras.”
Gravado a partir de 2018 no estúdio Rockit!, o disco foi conduzido pelo mesmo Eduardo Manso que ajudou Ava Rocha a moldar seu Trança – e isso acabou aproximando ainda mais Bruno da cena carioca, trazendo um time pesado desses artistas para o álbum. “Além de uma percepção de estilo totalmente imune a quaisquer desvios mais caretas meus, Manso tem uma noção inacreditável da função do ‘inaudível’ numa faixa, do lugar fundamental de não-evidência”, ele continua. “O incrível Trança de Ava Rocha cuja direção musical foi dele e de Negro Leo habitava minha imaginação sonora nesse período inicial das gravações. Convidei muito honradamente músicos que observava de perto há anos, admiração e afinidades só cresciam: Thomas Harres, Marcelo Callado e Antônio Neves tocam bateria; Felipe Zenicola e Pedro Dantas, baixo; Thiago Nassif, o próprio Manso e Marcos Campello, guitarras; Chicão, piano e sintetizadores; Nana Carneiro, Raquel Dimantas, Ana Frango Elétrico e Ava Rocha participam em coros. Luxo total, maior presente da vida. Vários amigos também estiveram próximos, ouvindo, comentando, discutindo, me recebendo no Rio, ajudando na produção em geral, da capa, imagens de divulgação e clipe.”
“Califórnia” é mais do que uma boa amostra de seu trabalho como uma introdução perfeita para o disco, um fio da meada que puxa para um universo tão estranho quanto pop, que mistura camadas de ruídos sonoros a melodias assobiáveis e letras contemplativas – e reconstruídas (“Amores Incríveis” é minha favorita). “O olhar pelo lado mortificante da rotina por si só propõe um distanciamento das coisas do mundo que, então, podem reaparecer tão objetivas e frias no plano da linguagem a ponto de exigirem do sujeito um ato de reconexão, de refundação de sentidos. Penso nas ‘superfícies plásticas coloridas desiludindo no sol’ do refrão de ‘Amores Incríveis’, uma canção só superficialmente alegre. A ironia, inapreensível de primeira pra muitos, é um produto da desconfiança na naturalidade dos gestos gastos, dos vícios do comportamento apesar de suas repetidas manifestações. O teatro que revela uma verdade ou a emulação da sinceridade parecem efeitos complementares em mão dupla que podem ambos engendrarem deslocamentos ‘desejantes’. Por esse caminho, não existe afirmação da vida sem trazer à baila negativa a transparência de segunda ordem. Há correspondências evidentes entre escalas, estilos, gêneros musicais cristalizados e afetos-padrão, ou seja, encontros que são o material incontornável da canção. Seria possível uma história da música popular enquanto provocação astuciosa a esse absolutismo sentimental, irmão mais velho da parte anestesiada do ouvido?”
Pergunto sobre as referências musicais para esse disco e a resposta é tão difusa – e passageira – quanto as próprias canções, embora dê uma bela medida do que pode ser ouvido. “Sou fascinado por gravações caseiras de versões demo de compositores que gosto, Cobain, Macalé, Lennon, Michael Jackson. Minha primeira aquisição fonográfica consciente – com muitas aspas – foi Dangerous. A segunda, Mamonas. Os Mutantes e os desdobramentos de Rita Lee e Arnaldo Baptista foram irreversíveis junto com João Gilberto na adolescência; o Gilberto Gil da apresentação na USP e do Luminoso; Low de Bowie, a estranheza pop ali. Noel Rosa e Assis Valente, Duke Ellington, Nina Simone e todos os songbooks da Ella Fitzgerald, Djavan, Björk, Lupicínio, Radiohead, Super Diamono, Antena 1. Essa pergunta sempre evoca um palimpsesto perigoso, essa é uma lista hoje, só, e hoje também posso trocar com a diversidade da minha geração, o que certamente é o melhor de tudo.”
E já que o assunto é geração, pergunto sobre a influência desta cena carioca da última década, em constante reinvenção, tão presente no disco, e ele aponta para o selo Quintavant. “O conhecimento da cena musical carioca em torno da noite e do selo Quintavant me causou espanto: avanços intensos do free jazz ao ruído, sempre permeado por uma grave consciência minimalista e por uma ética técnica sem engessamento. O que é muito incrível, acompanhado por uma crítica forte e ao mesmo tempo generosa como a de Bernardo Oliveira. Algo que com certeza merece um aprofundamento histórico e cuja influência ainda não sabemos como medir, mas com certeza será profunda.”
O grupo goiano Boogarins toca mais uma vez ao vivo na clássica rádio indie norte-americana KEXP.










