Sempre vou lembrar de três professoras de português.
Uma delas dizia: “Tiago, não comece uma história sem saber como terminar”. Eu, sete anos de idade, já era craque em parágrafos desregrados. Fluxos e mais fluxos de consciência. E ela me alertando, em agonia: menino, se ampare em vírgulas!, pontos finais são salva-vidas muito úteis! Muito teimoso (antes e hoje, sempre), nunca aprendi nenhuma dessas lições. Escrevo sem cuidado ou itinerário.
Lost highway.
A outra professora, que era a própria Afrodite, tentou me ensinar tantas fórmulas, truques, tantas manhas de redação! Tantas dicas que me salvariam de tantas gafes! Não ficou quase nada. Só uns flashes: o rosto rosado, a franja sobre os aros redondos dos óculos, a voz agudíssima (um terror) e o conselho: ”na literatura, Tiago, tudo é possível”. E meu coração inflava: ah. Ela estava certa ou estava errada? Nunca nem refleti sobre o assunto. O que fiz foi acreditar, e acredito: no papel, tudo é possível.
A terceira e mais intrigante, cansada dos meus delírios imaturos, me orientou: “Termine o texto da forma como quiser, Tiago, mas com beleza“. Eu não entendi. A ideia sempre me pareceu um mistério e, no mais, eu terminaria os meus textos como eu bem entendesse. Tudo é possível, tudo é possível. Eu era (sou) um cabeça de pedra. Mas depois, anos e mais anos depois, entendi o que ela queria dizer: eu deveria terminar meus textos com graça e elegância, como quem se despede de alguém que se ama.
Também não me vejo cumprindo essas formalidades. Mas, desde que me entendo por leitor, sempre me assombro com os desfechos extraordinários. Os desfechos iluminados. Belos ou feios ou chocantes ou abruptos e antipáticos. Tanto faz. Dizem que os primeiros parágrafos são atestados de inteligência e bom senso. Sempre preferi as conclusões.
Quando passo das cem páginas de um livro, me apresso para saber como ele vai terminar. Não me interessa exatamente o destino dos personagens. Quero saber como o livro termina. Como. Com que frase, adjetivo, interjeição, pensamento ou provocação. Um ponto final nunca é igual a um outro.
Voltei a pensar nessa minha mania quando ouvi os comentários sobre último capítulo de Lost. Os comentários dos outros e os meus comentários. Todos apaixonados, agressivos, furiosos, já que séries duradouras de tevê são como bandas de rock ou times de futebol. Nos afeiçoamos a elas. Dê três temporadas, apenas três temporadas, e elas grudarão na nossa parede feito fotografia de infância.
Um parêntese que explica a minha relação com séries: comecei a ver Lost ainda na primeira temporada, a contragosto. Minha namorada gostou e eu fui atrás. No início, me pareceu um show oportunista, mix de Survivor com Arquivo X. Nada especial. Na segunda temporada, eu já associava as aventuras de Jack, Sawyer e Locke ao jeito como a minha namorada deitava a cabeça no meu colo enquanto assistíamos aos episódios. Ao perfume, ao sofá da casa, ao barulho do ar condicionado. Na sexta edição, cada um dos capítulos me trouxe saudades dela, que hoje mora em outra cidade. Em mim, o seriado se transformou em uma espécie de souvenir, polaroide de uma época que passou.
Meio forte. E você entende?
Escrevi esse parêntese só para ilustrar como às vezes nos conectamos a esses programas muito tolos de tevê. Lost não é irrelevante, eu sei: poucas séries souberam brincar tão graciosamente com o tempo. Pretérito, presente do indicativo, futuro imperfeito. Muito se falou sobre os mistérios da ilha onde o avião da Oceanic se espatifou, mas o que me deslumbrou foi o jogo narrativo. Os flashbacks, flashforwards e flashsideways, soltos no ar.
Os fãs têm uma relação extremamente passional com a série, a série é só deles, e entendo a origem desse fogo. Tem muito a ver com a cumplicidade que sentimos em relação aos nossos ídolos pop. Confiamos neles. Torcemos para que, em retribuição, eles nos sejam fiéis. Perdoamos tropeços. E, nas situações mais trágicas, reconhecemos que eles nos deixaram de coração partido.
Sem querer ser piegas, mas a season finale de Lost partiu o coração deste fã aqui.
E acho que por um motivo que me leva aos desfechos brilhantes de livros que amo: não há encanto, elegância, graça ou inteligência nessa conclusão. Pior: é uma conclusão translúcida, banal como um show barato de mágica. Deixo de me deslumbrar quando descubro por que o coelho sai da cartola.
Eu acreditava – mesmo com todos os indícios de erro – que os roteiristas-ilusionistas seriam capazes de me assombrar. Mas aí a culpa é de quem? Minha, que esperava muito? Ou da série, que me ofereceu tão pouco?
Ou ninguém é culpado e o divórcio é amigável?
Não me pergunte. O curioso é que reagi às patetadas do episódio como um fã de rock que, num belo dia, recebe a notícia de que o ídolo decidiu se despedir do showbusiness com um disco ultraóbvio de canções natalinas.
The end me parece, sob todos os aspectos, um disco ultraóbvio de canções natalinas. Um episódio que nos chantageia, nos maltrata, nos subestima. Uma tortura em dó maior. Compartilho, até instintivamente, da irritação de alguns fãs: seis anos e isso? É muito tempo. Conheço gente que mudou três vezes de emprego nesse período de tempo. E os enigmas que não se resolveram? E os números? E o projeto Dharma? E os monumentos de pedra? E o Walt, coitado? E o nosso futuro?
Séries de mistério são quase sempre uma armadilha. Veja o caso de Arquivo X. O vilão é o tempo, sempre ele. O suspense é prolongado excessivamente, a multiplicação de subtramas deixa inúmeras pontas soltas nos roteiros, a mitologia vira um fardo e toda tentativa de encontrar soluções para os enigmas da trama soam simplórias, apressadas. Estava escrito: Lost só agradaria à maior parte dos fãs se terminasse com um desfecho imprevisto e emocionante que nos fizesse repensar a nossa existência no planeta e os rumos da ficção.
Mas o que nos resta é um roteiro de Damon Lindelof e Carlton Cuse.
Entendo que, para a dupla, deve ter sido uma jornada ainda mais complicada que a nossa. Imagine isso, conviver com todos esses personagens, definir os destinos de cada um deles. E pensar em malabarismos formais para espantar o nosso tédio e alimentar a nossa fome de fantasia. Deve ter sido dose. E mais: escrever um episódio-evento, um arranha-céu para a noite de domingo, atração imperdível para todas as idades e crenças. Quase uma mini-final de superbowl. Imagino que até eu, na pele deles, sentiria a obrigação de simplificar um pouquinho as coisas.
O episódio final de Lost, talvez aprisionado nesse jogo de pressões, soa tão singelo e descomplicado quanto o episódio-piloto. Perto dele, a quinta temporada fica parecendo um supletivo de física quântica. Há duas linhas narrativas: uma delas, sobre a luta do bem (Jack) contra o mal (Locke) na ilha da fantasia; a outra, sobre antigos amigos que se reencontram numa realidade movediça, onde os desejos aparentemente se realizam. Para o “leigo”, soa como uma ficção científica sentimental com a assinatura do protagonista de Dawson’s creek.
Já para os “fiéis”, trata-se de uma big despedida. A realidade “alternativa” mostra-se uma desculpa para uma reunião de elenco. A cada trombada dos personagens, flashbacks velozes pipocam na tela e nos fazem lembrar de todo o tempo que gastamos com a série. Caiu uma lágrima, arrancada pela útima tecnologia em chantagem sentimental.
Na ilha, a arquitetura do roteiro revela-se ainda mais grosseira. Um hipopótamo. Personagens correm para salvar o mundo, matam uns aos outros, provocam terromotos e tempestades, mergulham numa caverna dourada, manipulam uma rolha gigante (!) e resumem todos os dramas da série a uma perseguição de Tom vs. Jerry. O mocinho mata o vilão, beija a mocinha e se sacrifica por uma causa que ninguém sabe dizer se é nobre ou não. Whatever. Está claro que os roteiristas querem encerrar logo a epopéia e ir ao que interessa: a realidade paralela, onde tudo termina bem.
O que me incomoda (e aí aparecem os fios da narrativa e a picaretagem do empreendimento) é que esse tempo paralelo que tanto interessa aos roteiristas é uma criação da sexta temporada. Um truque de última hora inventado para nos surpreeender. Me pergunto se Damon e Carlton não poderiam ter encontrado uma surpresa aterradora sem abandonar o Grande Esquema das Coisas – isto é: dentro da ilha.
Mas, novamente, saquei a estratégia. Os roteiristas tentaram usar uma das teorias mais difundidas entre os fãs (a de que todos os personagens estavam mortos) de uma forma que os enganassem (já que não é a ilha o purgatório, mas a “realidade alternativa”). Uma tentativa interessante. Mais curioso ainda é como, neste finale, os roteiristas invertem nossas expectativas: a ilha é o mundo real, enquanto que Los Angeles vira a cidade dos sonhos.
Fico muito satisfeito quando penso que os roteiristas realmente refletiram sobre tudo isso. Mas duvido muito que isso tenha acontecido, já que o episódio todo é desenvolvido com as fórmulas mais apelativas de dramalhões religiosos. Quando descobrimos que os personagens estão à caminho do céu – eles se reencontraram e, por isso, têm direito à liberação -, é inevitável pensar que a grande lição da série é algo como “a vida é uma aventura, mas o melhor está por vir.”
O que, para mim, é uma filosofia abominável. Eu é que não vou ficar esperando pelo dia em que a porta da minha igrejinha particular vai abrir. Não. Mas, ainda que eu tenha me decepcionado com a série também por conta disso (sério, Damon e Carlton, leiam qualquer textinho do Carl Sagan e entendam que a vida às vezes não faz sentido e é bonita mesmo assim!), não é, repito, o que mais me frustrou no desfecho. É que parece ter faltado aquele elemento misterioso que separa os livros inesquecíveis das bobagens de autoajuda, aquele toque sobrenatural que nos enche de entusiasmo, nem que por alguns minutos. Que renova a nossa fé na literatura.
Quando leio um bom livro ou vejo um bom filme, quero viver mais.
Com este episódio de Lost, meu único desejo: esmagar o televisor. Fulo e bronco feito um hooligan. Meus ídolos! Lembrei da minha professora: tudo é possível. E da outra: escreva desfechos com beleza. Depois, mais calmo, tentei me convencer de que o errado sou eu. Esta é a conclusão que soa bela para quem a escreveu. Eu é que não deveria ficar sonhando os sonhos dos outros.
End credits. Hora de acordar.
* Tiago publicou este texto em seu blog.
Quem passou boa parte da última semana roendo as unhas de ansiedade pelo último episódio de Lost se enganou. A série das grandes perguntas nunca foi a série das grandes respostas. E, por isto, boa parte dos fãs da atração, que encerrou sua jornada no último domingo, dia 23, se decepcionou com o capítulo final, exibido no Brasil dois dias depois pelo canal pago AXN.
Isto porque, se Lost passou seis anos fazendo perguntas, nunca prometeu respondê-las. Foram seis anos exatamente explorando este tipo de ficção mais interessante do que o simples, o linear, o texto com começo, meio e fim. Mas, ao sofisticar sua narrativa na medida em que as temporadas saíam do forno, Lost incorreu em outro erro: o da massificação de uma proposta que não atende o interesse das massas.
Quando deu seu pontapé inicial, lá em setembro de 2004, a premissa era a seguinte: um grupo de 48 passageiros de um avião cai em uma ilha em um ponto qualquer do Oceano Pacífico. E estes sobreviventes precisam lidar com as necessidades óbvias de um acidente nestas proporções – encontrar água, comida e um abrigo no meio da floresta. O problema é que esta floresta não é muito amigável. Já nos primeiros episódios, descobre-se um urso polar no meio da selva tropical e um monstro de fumaça que intrigou a todos por muitas temporadas.
A tal premissa atraiu todo e qualquer telespectador com uma queda por histórias de suspense, o que não é pouca coisa. A movimentação em torno da série veio daí: do desejo que o consumidor mediano de ficção tem de, já que uma pergunta foi feita, que ela seja respondida. Mas, como diz o brilhante detetive Hercule Poirot em praticamente todos os livros de Agatha Christie, você está lendo muitos romances baratos, meu caro.
Lost, se ainda não ficou claro, não é um romance barato de detetives. O que os criadores da série querem aqui não é construir uma narrativa que subestime o telespectador. O objetivo é exatamente instigar seu poder dedutivo e, mais do que isso, celebrar alguns dos temas mais explorados pela ficção universal. Daí o embate entre o bem e o mal, a criação do mundo, a essência do humano, o misticismo em torno dos objetos e dos seres, todos elementos que marcaram a série desde o começo, mas que foram se intensificando ao longo das temporadas.
Aquele fã de Lost que se interessou apenas pela premissa, pelo suspense, pela vontade de observar como um grupo de sobreviventes deixaria uma ilha depois de um acidente de avião, não cabe na frente desse tipo de TV. No dia seguinte à exibição, escutei de pelo menos quatro pessoas diferentes, no trabalho, na rua, entre os amigos, a pergunta: “Então, me conta, afinal o que era a ilha?”
E comecei, a partir daí, a pensar se é um problema meu ou se o mundo está mesmo sofrendo de uma falta crônica de imaginação. A ilha era um lugar sobrenatural, mágico, com poderes curativos e alta densidade de energia magnética. Se você não aceitou essa resposta, você está sofrendo da tal falta crônica de imaginação. Ficção, fantasia, não precisa ter correspondente na realidade, trazer tudo para um mundo verossímel e simplista. A boa ficção, na verdade, tem o dever de fugir desse caminho com a alma. De fazer você se esforçar para sair da mesmice do reconhecível, do perfeitamente possível, e se aventurar no mundo do absurdo, do intangível.
Mas uma ficção nesse nível não foi feita para a massa. Não é blockbuster, não é para ser consumida com rapidez, mastigada e cuspida fora com o mesmo desprendimento. Assistir a Lost é abrir mão de pegar o controle remoto logo em seguida e passar para o próximo canal. É parar na frente da tela por mais dois minutos, e pensar no que ficou ali. É entender, principalmente, que o mundo não é linear e bonitinho e cheio de pontas ligadas e conectadas no final. Existe um modelo de ficção que circula por aí que diz que o certo é contar uma história com começo, meio e fim. Por séculos, qualquer coisa que fugisse desse modelo estava errado, era atirado na fogueira. Livrar-se dessa amarra é, no entanto, uma das principais vantagens que um escritor tem naquilo que a gente chama de modernidade. Conhecer o modelo e superá-lo é tarefa para poucos, e não pode ser gratuita.
Lost contou a história da experiência humana, como todo mundo por aí tem tentado fazer. Imaginação é fazer isso através de um conjunto de histórias fabulosas, fantásticas, literárias, ao invés de me apresentar uma minissérie HBO sobre a Idade da Pedra. É fazer um tratado sobre a circularidade do tempo enquanto joga elementos quase despretenciosos aqui e ali durante seis temporadas. É deixar pontas soltas porque a vida não amarrou todas elas. Boa parte da literatura moderna surge a partir de um grupo de pensadores que descobriu que não há coerência em ser coerente. Aviso novamente àqueles que não prestaram atenção: a vida não amarra pontas.
Se você não gostou de Lost, é um direito seu. E é um direito meu ficar preocupada com as críticas que andei lendo por aí. De fãs de todos os cantos revoltados porque as perguntas não se fecharam, porque a história não foi simples e fácil de engolir. Porque foi sobre personagens, sobre pessoas. Leia de novo: telespectadores criticando Lost porque foi uma história sobre pessoas, rumo que, era só prestar um pouquinho mais de atenção, estava anunciado desde o começo, seja na direção de J.J. Abrams da primeira temporada seja na sensível trilha sonora de Michael Giacchino.
Uma antiga professora minha dos tempos de faculdade costumava brincar que, daqui a pouco, os pais não iriam mais ler Chapeuzinho Vermelho para seus filhos porque lobo não fala. É uma anedota, um exagero, que explica bem o motivo da minha preocupação. Um mundo que não consegue dar valor à ficção e não consegue admirar o prazer de se contar uma história só por ser contada é um mundo que não precisa de escritores. Daí meu manifesto. Viver Lost foi a minha maneira de reconhecer o poder transformador das coisas que não existem.
* Vanessa publicou este texto em seu blog.
Chore.
E olha os itens que vem nessa caixinha:
Lost: Season Six
* Every Sixth Season Episode
* Bloopers and Deleted Scenes
* Audio Commentaries accompany four episodes (LA X, Dr. Linus, Ab Aeterno and Across The Sea)
* The End: Crafting A Final Season – Join the LOST team along with other producers of some of television’s longest running shows as they examine the challenges of ending a landmark series.
* A Hero’s Journey – What makes a hero? Which survivors of Oceanic 815 are true heroes? These questions and more are explored.
* See You In Another Life, Brotha – Unlocks the mysteries of this season’s intriguing flash sideways.
* ‘LOST on Location’ – Behind-the-scenes featurette showcasing stories from the set, including all-new interviews with actors and crew.
* PLUS: A LOST Blu-ray & DVD exclusive – Go deeper into the world of LOST with a much-anticipated new chapter of the island’s story from Executive Producers Damon Lindelof and Carlton Cuse.Lost: The Complete Collection
* Every Episode in the Series (Seasons 1 through 6)
* Over 30hrs of Season 1-6 Bonus materials (previously released materials from Season 1-5 and the all-new Season 6 bonus material)
* A unique series of featurettes that takes viewers on very personal tours of Oahu where the series was created, with key cast and crew as they reflect.
* Exploring the global phenomenon that is Lost, bonus showcases events ranging from the series cast and crew at San Diego’s famed Comic-Con convention to international voice recordings, local events and even fan parties, all of which helped make the show into a worldwide favorite.
* A closer look at some of the props with cast, writers and producers, exploring their significance, stories and emotional ties to the characters.
* Humorous yet emotional look at every character who died on the series
* 16 hilarious Lost “Slapdowns” featurettes showcasing celebrity Lost fans who confront Executive Producers Damon Lindelof and Carlton Cuse to ask press questions about the final season, including the Muppets and cast members Nestor Carbonell, Michael Emerson, Rebecca Mader and more.
* The exciting collectible packaging also includes:
o Special Edition collectible ‘Senet’ Game as seen in Season Six
o Custom LOST island replica
o Exclusive episode guide
o Collectible Ankh
o Black light penlight
Demais, hein.
E o Gideon’s Life terminou sua série assim.
Estava desde domingo evitando spoilers (revelações sobre detalhes importantes da história) no Twitter e nos blogs que eu acompanho. Cheguei a ler várias vezes a palavra decepção, mas parava por aí.
Enquanto via o último capítulo de Lost, agora há pouco, lembrei de uma entrevista do cineasta David Lynch sobre o seriado Twin Peaks: por ele, o agente Dale Cooper nunca descobriria quem matou Laura Palmer. A emissora acabou obrigando os produtores a eleger um assassino na segunda temporada, e o interesse pela série acabou.
Eu achava que gostava mais da parte de ficção científica de Lost que da parte mística. (Se você é o único que ainda não assistiu, melhor parar por aqui.) Pois é. Não existia ficção científica. Estava todo mundo morto desde o começo. Não foi por falta de aviso do Richard Alpert. Essa teoria, que se confirmou, surgiu na internet logo após os primeiros episódios, e foi negada várias vezes pelos produtores.
Por isso tantos acontecimentos desafiavam a física, a lógica e a continuidade. Daniel Faraday, afinal, não passava de um pianista mimado. Como a ação do último episódio girou em torno de uma rolha, o principal foram os momentos idílicos e proustianos. Momentos equivalentes à irregularidade no piso que fez Marcel pensar, no livro O Tempo Redescoberto, sobre como todas aquelas pessoas importantes na sua vida, que pareciam pequenas no espaço, eram gigantes no tempo.
No final, não importa qual seja o grande tema de Lost – redenção? As perguntas não foram respondidas porque não tinham resposta. Encontrar o assassino mata a série. O último episódio serviu para destacar que o importante é a jornada. E mostrar como todos aqueles personagens acabaram se tornando gigantes, por todas as horas dedicadas a eles, durante seis temporadas, na minha e na sua vida.
* Renato publicou este texto em seu blog.
O que tem em comum, Stanley Kubrick, Woody Allen, Joel Coen, Larry David, Claude Lelouch, Billy Wilder, Steven Spielberg, Doroty Parker, e Roman Polanski? Contar histórias é a vocação primeira do povo judeu. Da milenar misná a trilogia Star Wars, judeu tem a manha:
Ficção é o caminho mais curto para se chegar a Verdade.
A frase é minha. Tenho outra:
Se voce quer que as pessoas acreditem em você, conte uma mentira.
JJ Abrams é judeu. Ele também tem uma frase:
Antes de entedermos LOST, as montanhas são montanhas e os rios sãos os rios; Ao nos esforçarmos para entender LOST, as montanhas deixam de ser montanhas e os rios deixam de ser rios; Quando finalmente entendemos LOST, as montanhas voltam a ser montanhas e os rios voltam a ser rios.
Não. Essa frase não é de JJ Abrams. É um famoso Koan budista que adaptei para a ocasião. 2001 – Uma Odisséia no Espaço, o Torá: sim, os judeus sabem elaborar histórias que só se realizam enquanto estamos à procura de seus significados.
O sucesso de LOST foi ter ele aparecido em época de google, onde toda pergunta tem resposta, onde tudo o que é misterioso nos irrita, onde qualquer diálogo reticente nos faz mudar de canal. O sucesso de LOST foi apostar que tinha gente que achava este cenário um saco.
O sucesso de LOST foi ter ele aparecido em época de google, onde tecla pelo nome da série e encontra fóruns, blogs, vídeos e ficção adicional. Qualquer um podia ser monge beneditino e colocar sua glosa nos evangelhos. “A terra é oca”, “A ilha é atlântida”, “Estão todos mortos”. Eu disse evangelho?
Disse.
Ou voce acha que evangelho, ou qualquer texto-fundamento de qualquer religião, não surgiu da cabeça de gente muito criativa, muito boa de invenção e que foi, em seu tempo, tratado como ficção popular?
Dizer que LOST é um evangelho não é coisa de fã. Todo mundo segue escrituras. Até você, que não acredita em nada. Sim, você, que não acredita em nada, um dia leu os escritos de um filósofo que não acredita em nada e… reforçou sua fé em nada. A garotada não lê Bíblia, mas segue a ética do Homem Aranha, a Moral dos Trapalhões, a lógica do Grand Theft Auto.
As mocinhas tristes seguem as escrituras de Clarice Lispector. Os inseguros a música de Glenn Gould. Os operários as palavras do José Luiz Datena. Os cachaceiros os livros do Bukowski. Os diletantes, Seinfeld. Letras do Bob Dylan, pinceladas do Matisse, arranjos de Mahler. Todo mundo segue algum texto. A gente segue a Ficção.
Então tá liberado eu chamar LOST de evangelho, né? Beleza.
Evangelho de personagens. Uns tão ricos quanto Efraim, filho de José e Asenet. Outros tão pobres quanto Jar Jar Binks. LOST, como diz a página 108 o manual do evangelho, contou, nas três primeiras temporadas, a história de seus personagens. do 4o ao 6o episódio, dedicou-se à tarefa de apresentar os salmos, textos que garantem que uma obra é feita para consumo contínuo.
Aí veio o episódio final. De um lado, a rapaziada que não acompanhou a série e, humana demasiadamente humana, por sentimento de exclusão pela posição de 3o excluído, aguardava um motivo para criticar não a série, mas quem consome a série. Do outro lado, os fás das referências modernas, dos wormholes, da equação valenzetti, das descobertas da física contemporânea.
Veio o episódio final falar do Mr. Eko.
Do padre. De igreja.
Do Salmo 23. Declamado, inteiro, lá no episisódio… 23 Psalm.
Mr. Eko construiu uma igreja na ilha. Era sua obsessão.
Não deveria causar supressa que os personagens se encontrassem num lugar: “Que os próprios criaram para se encontrar, para se reconhecer, para relembrar”, como diz o Pastor Cristão, pai de Pastor José, no fim da história.
Evangelho?
Em “Buscando Vida no Multiverso”, publicado recentemente na Scientific American, Jenkins e Gilad Pérez, teórico do Instituto de Weizmann de Ciência em… *SPOILER* Israel, discutem a hipótese conhecida como o Princípio Antrópico, a qual afirma que a existência de vida inteligente (capaz de estudar processos físicos) impõe restrições sobre a possível forma das leis da física.
“As nossas vidas na Terra – tudo o que vemos e sabemos agora sobre o universo que nos rodeia – dependem de um conjunto preciso de condições que nos fazem possíveis”, diz Jenkins. “Por exemplo, se as forças fundamentais que dão forma à matéria no nosso universo se alterassem ainda que muito ligeiramente, seria concebível que os átomos nunca se formassem, ou que o elemento carbono, considerado um bloco básico para a vida tal como a conhecemos, não existisse. Então, como é que existe este equilíbrio tão perfeito? Alguns o atribuirão a Deus a sua criação, ideia esta que obviamente se encontra fora do domínio da física”.
Fora dos domínios da Física?
LAX, a igreja ecumênica, era só uma explicação científica up to date para o que se chama de além.
Já está arrependido das reclamações que você fez, né? Até lembrou de Jacob’s Ladder, do roteirista *SPOILER* judeu Bruce Joel Rubin que trata o assunto da ascensão de forma idêntica. Ótimo, sabe por quê?
Porque a tua opinião sobre o desfecho da série define que tipo de pessoa você é.
E não adianta procurar no Google atrás do significado da frase acima. Vai ter que pensar no assunto.
Outro judeu filmou o portão para o o que a gente chama além, como o aberto por Cristo Pastor para os personagens entrarem, usando viés científico e dele nasceu um “astronauta libertado, minha vida me ultrapassa em qualquer rota que eu faça”.
Na época, reclamaram também.
Só com o tempo, Stanley Kubrick teve reconhecido seu 2001 – uma odisséia no Espaço.
LOST já tem o reconhecimento, até dos detratores, de que não tem jeito: é assim que vamos passar a consumir entretenimento daqui pra frente.
Foi assim também com a bíblia glosada.
Foi assim também em 1895, quando Outcault inventou os quadrinhos.
Syd Field, judeu, na página 108 de seu manual de roteiro, ensinou a receita para o roteiro perfeito: “O roteiro perfeito não é um mito. Seria necessário que a 1a linha começasse com o início do conflito e a última linha encerrasse o fim do conflito. Como é necessária apresentação de personagens, desenvolvimento de trama, esqueça, o roteiro perfeito não existe.
A 1a linha do esposódio piloto de LOST diz o seguinte: “Jack Sheppard abre os olhos”. Técnicamente, o conflito começa. A última linha de LOST diz o seguinte: “Jack Sheppard fecha os olhos. Tecnicamente, o conflito acaba.
Evangelho.
Uma vez, o teólogo Alexander (não lembro o sobrenome, só lembro que em Hebraico quer dizer “Homem de Deus”) escreveu sobre o escritor latino Fernando A.
“Fernand A. criou uma ilha com palavras. Mas só depois de dar uma volta pela praia é que dá pra perceber que ele cercou o oceano com a ilha.”
Excelente definição para a ilha de LOST.
Excelente definição pro que a gente chama de desfecho.
* Dodô produz palavras e produziu essas pra cá.
E acabou, acabou e acabou. Esperei passar no AXN para comentar. Afinal, era safadeza falar da série que só quem baixou viu (se bem que provavelmente mais gente viu por download do que pelo AXN, mas tudo bem).
Então, deixo a minha interpretação final, que vai caber em uma ou duas linhas: Lost é uma poderosa alegoria sobre os perigos de confiar cegamente em deuses e líderes. Religião, patriotismo, o que você quiser. São formas imperfeitas (e muitas vezes desonestas) de controle. Lost ilustra isso muito bem.
Jacob, o semi-deus que deu as cartas por séculos na Ilha, não passa de um filho meio bocó que, numa briga com o irmão, acabou o transformando num monstro. Ele manipulou pessoas durante muito tempo. Pessoas que viam nele uma ligação com o poder, com o divino, com um objetivo maior. Se Jacob não tivesse criado um monstro, tudo teria sido diferente. Tudo. Jacob mal sabia o que estava protegendo. Só sabia que era importante proteger a luz da Ilha.
Jack. Locke. Dois homens que inspiravam as pessoas ao seu redor. Gente que confiava neles para guiar suas vidas. No processo, eles invariavelmente, levaram várias pessoas à morte. Jack por não acreditar, tomou várias decisões absurdas. Locke, porque acreditava mais do que devia. Os dois, nos extremos, estavam errados.
Ben Linus seguiu a liderança equivocada de Jacob e virou um líder cheio de erros. Widmore passou décadas cometendo todo tipo de erros e causando a desgraça na vida de várias pessoas.
Um monte de líderes cegos. Gente que inspirava pessoas que os seguiam. E que as levava na direção errada. Direto para abismos. E um monte de seguidores sem noção, que acabavam morrendo das formas mais estúpidas. E morrendo, no fim, por pouco, quando não era por nada.
Sinceramente, depois de ver como Jack, Locke, Jacob, Fumacinha Preta e mesmo Widmore não precisavam ter morrido. Eles apenas, por conta de seguir idéias ou líderes equivocados, se deixaram morrer. Olhe bem pros seus líderes e sempre se pergunte se aquela pessoa está dizendo a verdade e, mais importante, indo na direção certa.
* Maron publicou este texto em seu blog.
Eu não vi Lost. Mas admito que tentei.
Cedi à experiência de assistir pois havia tamanho frenesi por parte de amigos meus a respeito da série, que já causava furor nos EUA. Não sou afeito a novelas e séries, mas me interessei pela sensação de um fato inovador na teledramaturgia, seguido mundialmente.
Acho que parei no quarto capítulo, quando surgiu um urso polar naquela ilha tropical. Revoltou. Tive a impressão de que os roteiristas queriam me transformar no ratinho da roda do laboratório. Comigo, não.
E, por seis temporadas, foi um sucesso de audiência, tanto na TV quanto no fluxo de downloads pela internet. Notei muitos madrugando atrás dos arquivos e das legendas para verem em seus laptops – essa, sim, a inequívoca revolução na maneira de absorver um conteúdo televisivo. E meus amigos teorizavam, debatiam, alguns até ganharam dinheiro blogando sobre isso. E colecionaram perguntas que esperavam ver respondidas.
Pelo que leio na maioria dos comentários sobre o fim de Lost, há um grande cisma entre os telespectadores: muitas questões abertas foram tratadas como aspecto menor pelos roteiristas. Os fãs se dividem hoje entre o triunfo final de uma série apaixonante e a frustração por ter faltado algo, digamos, mais apropriado à expectativa gerada.
Traçar julgamentos sobre o valor dramatúrgico da série é tarefa que não posso desempenhar. Mas tampouco negaria o fenômeno pop que Lost representa, sua capacidade de mobilização de audiência – segmentada – de milhões de pessoas. Que debatem cientificamente cada detalhe, cada cena e cada fala. Tornaram-se especialistas.
E vão continuar divagando e gerando bibliografia – principalmente virtual – sobre o que eles acham que a tal da ilha era. Talvez não cheguem a nenhum consenso (aliás, é bem provável, pelo que tenho acompanhado). E talvez aí resida o maior valor de Lost.
A que mais pode almejar uma obra de arte senão essa existência para além do momento em que foi absorvida? Senão essa permanência viva em corações e mentes, alimentada pela paixão nostálgica de reviver, explorar e até destruir os êxtases inesperados que tal obra revelava? E ainda, uma audiência qualificada, disposta a debatê-la ao infinito, com espírito enciclopédico, procurando referências e comparações em tudo? Pela memória e pela disposição de seus fãs, Lost entrará no cânone das grandes obras do homem. Mas não para mim. Urso polar em ilha tropical? Não.
* Márvio publicou este texto em sua coluna.
Eu comecei incrédulo o último episódio de Lost, confesso. O turbilhão de informações, histórias, retornos e caminhos cruzados na jornada final para impedir que o Homem de Preto destruísse a ilha não me deixaram conectar de início com a essência da série. Mas isso foi de propósito. Afinal, não era essa a história que Carlton Cuse, Damon Lindelof e toda a equipe que escreveu uma das maiores sagas da televisão mundial quis contar. Claro, tivemos os momentos apoteóticos com Desmond, “Locke” e Jack no coração da ilha; os retornos de Boone, Shannon, Juliet, Rose, Bernard e Vincent; a libertação de Richard Alpert de seu encargo eterno; a auto condenação de Ben pelos seus erros e muito mais. A primeira parte foi vibrante e intensa a cada tiro e soco, mas à medida que o episódio avançava as iterações, aliterações, mistérios e mitologias foram tomando conta da tela. E assim, os borrifos de sangue foram se transformando em toques; os gritos em abraços e as palavras de desespero em momentos de conforto enquanto os eternos sobreviventes do voo 815 se reencontravam na outra realidade.
E como nós não percebemos pra onde tudo caminhava? Esperávamos o quê? Que um vídeo de orientação da Dharma Initiative aparecesse para nos guiar? Não. Precisávamos ser guiados pela emoção, pois no fim das contas estamos todos indo para um outro lugar, queiramos ou não. E foi esta a história que LOST contou nos últimos seis anos de nossas vidas: a jornada de pessoas que nasceram, viveram e morreram. Jack, Kate, Sawyer, Juliet, Jin, Sun, Hurley, Libby, Desmond, Penny e tantos outros foram levados à ilha para cumprir uma missão. E cumpriram. E uma a uma, sistematicamente, foram morrendo desde o início da série, como uma contagem regressiva que recusamos enxergar. E por quê? Por que todos morrem, inevitavelmente. E no fim não mais importaram os números, as teorias, os mistérios ou mitos. A realidade paralela foi apenas um ponto de encontro daqueles que a todo custo viveram juntos e não queriam morrer sozinhos, a “antessala” do paraíso para os que precisam dar um nome a tudo. Mas o maior feito deste final foi o de criar algo atemporal, completo e ainda assim aberto para (milhões de) interpretações. E falando em uma antessala, um dos poucos detalhes deste final que citarei é o local onde o caixão de Christian Shephard estava, com as diversas representações físicas de várias religiões.
Existem mais informações nos minutos, segundos e milésimos finais de LOST do que muitos conseguirão imaginar. A cena final, então, é ao mesmo tempo fantástica, enigmática e triste. Jack acordou naquele bambuzal confuso e pronto para uma grande aventura e no mesmo local seus olhos cheios de dor e conhecimento se fecharam. Com isso, a série e sua intenção permanecerão, invariavelmente, incompreendidas. O que foi real, irreal, imaginário ou não, no fim das contas, caberá a cada um. A ilha é um teste? O purgatório? Uns chamam de final aberto por não esgotar tudo como se fosse um drama investigativo. Eu chamo de final ideal, digno das melhores obras de ficção. Aqueles que não acabam quando realmente chegam ao fim, pois o que realmente importa é a jornada. Não foi um final fácil ou óbvio. Foi um final corajoso que fez jus aos seis anos da série. Afinal, estamos todos indo para algum lugar, não? Sim? Não? Vejo vocês em uma outra vida, brothas!
Que jornada. Que jornada.
* Bruno publicou este texto em seu blog.
Foi passar meia-dúzia de episódios da primeira temporada para todo mundo ter certeza de que a ilha era o purgatório (o lugar onde você tem que fazer estágio antes de ser aceito no céu). Tinha sentido: os primeiros flashbacks mostravam os pecados e as frustrações de cada personagem. E a ilha era o lugar das redenções. Purgatório.
Seria um bom final para uma minisérie com uma dúzia de capítulos. E era para ser isso mesmo: os produtores tinham certeza de que Lost não passaria da primeira temporada, disseram isso várias vezes.
Mas aí veio o problema: o povo gostou demais da série. E os produtores ganharam um contrato para continuar por anos no ar (num primeiro momento, a ABC queria que Lost fosse eterno, enquanto durasse a audiência). Mas e agora? Como enrolar anos pra terminar com um final que todo mundo já tinha adivinhado?
Desmentir esse final, ué! Foram várias entrevistas dizendo que, não, eles não estão mortos. Que tudo ali era real e blá blá blá. Segundo passo: bolar histórias que se fechem em si mesmas, na medida do possível, enquanto o final original, o do purgatório, esperava na geladeira. E aí tome estações da Dharma, vila dos outros, tribo dos hostis, estátua, templo, Jacob, Samuel… Ah, pegadinha: esse era o nome do Homem de Preto nos scripts. Só não usaram na história para fazer charme, para inventar “mistério” onde não havia nada.
Aí veio o último capítulo e descobrimos que realmente não havia nada. A cabeça dos criadores estava vazia. Todos os mistérios importantes eram falsos. Tinham sido concebidos sem conclusão. Claro. Se a ideia original era a de que a própria ilha fosse o purgatório, quando ela deixa de ser, por decreto dos produtores, ela própria deixa de fazer sentido. Por isso a série acabou sem falar nada sobre a natureza mitológica da ilha. Transformaram ela num mundo “Caverna do Dragão”. Uma terra sobrenatural sem um propósito convincente.
E aí… chegou a hora de o programa terminar. Mickey Mouse tinha que partir. E o que fizeram? Em vez de bolar alguma coisa que amarrasse o mínimo que fosse as (ótimas) histórias que tinham criado para ganhar tempo, os produtores pularam fora do próprio barco. Resolveram manter aquele que seria o final original. Mas com outro purgatório, a realidade alternativa, já que a ilha tinha ganho o status de “lugar real”.
Fizeram provavelmente o mesmíssimo final que tinham na cabeça lá atrás. Christian Shephard é a maior evidência disso. Vemos o caixão dele vazio logo no comecinho da série. E o próprio Christian surge para Jack no mato – mas ainda sem falar nada.
Ele só falaria no final da primeira e única temporada imaginada originalmente para Lost. A cena: Jack encontraria Christian na praia (ou em uma eventual igrejinha que tivessem contruído na ilha). E…
– Pai, o que vc está fazendo aqui se está morto?
– O que VOCÊ está fazendo aqui, Jack?
– Então eu morri! Todo mundo aqui morreu…
Fim.
E seria bom. O problema foi colocar esse final agora, improvisado, como se nada tivesse acontecido entre a primeira e a última temporada.
É disso que boa parte dos fãs reclamou. Só que, na real, não aconteceu nada mesmo entre a primeira e a última. Histórias inconclusivas não são histórias. São passatempos. As viagens no tempo, os templos, a coisa de apertar o botão a cada 108 minutos para salvar o mundo… Foram brincadeiras bem legais. Mas soltas, sem nenhuma relevância para a história que tinham para contar.
Vender essas brincadeiras como elementos que formariam uma saga foi estelionato. Para piorar, a própria Lostpedia estava cheia de idéias de fãs que dariam conta de resolver tudo. De fundir aquela miríade de histórias sem pé nem cabeça numa narrativa coerente. A criatividade coletiva dos fãs tinha ultrapassado com folga a dos produtores. Mas eles preferiram fechar os olhos. Para um pecado desses, não tem purgatório.
* Versignassi escreveu este texto no blog da revista que edita.









