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Loki

jaar2020

Depois de lançar 2017-2019, um abalo sísmico em forma de disco, no início deste ano com o pseudônimo Against All Logic no início do ano, o produtor americano-chileno Nicolas Jaar lança mais um disco em 2020 – o primeiro disco com seu nome de batismo desde Sirens, um dos melhores discos da década, lançado em 2016. Mas Cenizas – “cinzas”, em espanhol – é um mergulho para dentro em que o produtor deixa toda a expansão rítmica de lado e nos convida para uma viagem erma e distópica, como se antevesse os dramas da atual quarentena ao nos confinar solitários em nossas casas – e nossos corpos. O próprio confinamento foi ponto de partida do disco, este voluntário, quando Jaar se isolou sem álcool, cigarros e café para parir o disco sem outros estímulos a não ser os seus próprios. O resultado é um disco denso e delicado, uma esfinge sem olhos que nos persegue pelo tato, empilhando ralas camadas de um jazz alienígena, estranhamente familiar, compostos por temas ocos e secos, mas fortes e intensos e que conversa com seu primeiro disco desde o título daquele álbum, Space Is Only Noise. Impaciente e incrédulo, é o segundo grande disco que Jaar produz no mesmo ano, exibindo sua maestria em ambos extremos de uma pista de dança futurista e sem esperanças.

Foto: Ana Alexandrino

Foto: Ana Alexandrino

Lembro de Letícia descrevendo coincidências em um post no Instagram de menos de um mês atrás, quando comentou como sua leitura de Os Ossos dos Mortos, de Olga Tocarkzuk, batia com seus hábitos durante a leitura – até mesmo a presença de um bissexto 29 de fevereiro, data da publicação. Ela ainda não tinha revelada nenhum segundo de seu segundo disco, Letrux Aos Prantos, mas no fim do ano passado, encerrando os trabalhos de seu ótimo Em Noite de Climão, mostrou uma das músicas, “Salve Poseidon”, em apresentação no Cine Joia (filmei, veja lá).

Justo uma música em que ele fala sobre coincidências: “Eu queria estar lá na hora que a Shakira disse que nasceu dia 2 de fevereiro e o marido disse ‘eu também’, eu queria estar em todas as coincidências do mundo. Porque é onde todo mundo está um pouco mais místico. Na hora das coincidências todas as pessoas estão mais conectadas, com uma excitação disso aqui não ser só isso aqui. Eu choro com as coincidências. Eu quero estar em todas as coincidências.”

Mal sabia que a coincidência do lançamento de seu disco em uma sexta-feira 13 também coincidia com a tomada de consciência de que o coronavírus no Brasil era uma realidade, inciando o período de autoquarentena da população brasileira – e cancelando todos os compromissos em público, inclusive os shows de lançamento de seu disco. Letrux aos Prantos, seu segundo álbum, é um disco classudo e sisudo, sofisticado e delicado como poucos discos de música pop brasileira – mas sem perder o humor e o escracho característicos da cantora e compositora carioca, que vêm aqui de forma sutil. Letícia topou dissecar o álbum faixa a faixa aqui no Trabalho Sujo. Aperte o play e venha com a gente.

“Deja Vu Frenesi”
“Letrux aos Prantos começa com a faixa ‘Deja Vu Frenesi’. Eu sempre quis ir para a Grécia, desde que eu era criança eu tinha essa obsessão grega, com tudo: teatro, filosofia e praias, por que não? No ano passado eu realizei esse sonho e é um pouco absurdo realizar sonhos porque você acha que vai ficar assim, plena e, foi uma viagem muito louca. Passei por situações muito loucas e um belo dia, eu estava numa ilhazinha chamada Milos, que é onde encontraram a estátua Vênus de Milo, e eu entrei dentro d’água e a música veio. Eu comecei a cantar, me baixou um ‘Deja Vu Frenesi’. Acho que me deu uma sensação de déjà vu, de ter estado ali antes. Eu tenho muito disso, inclusive. Mistérios. Eu parecia uma maluca me mexendo na água, sem parar e eu não saí da água enquanto ia compondo, em algum momento eu saí correndo, peguei o celular cantarolando “todo corpo tem água”, e gravei ali pra não esquecer. É uma música que eu acho que abre bem os trabalhos do disco. Ela dita um lugar, um estado, uma dinâmica para se estar. E viver é um frenesi. Ainda não sei o que pensar de todos os déjà vus que eu tenho, mas não tenho medo deles, nem fico “ai que estranho”. Eu meio que encaro esses déjà vus e fico tentando achar significados e símbolos para toda essa loucura.”

“Dorme com Essa”
“Essa é a primeira música que a banda pegou dessa segunda fase. A gente tava fazendo show no Espírito Santo e a gente tinha horas sem passagem de som, sem show – e, tempo é uma coisa escassa no nosso dia a dia, então eu falei ‘vamo para o estúdio, vamo se embrenhar!’. E essa é uma composição minha de um tempo já, de um momento meio de quando você entra na banheira e fala ‘aaaarrrgh!’ e aí veio essa música. E foi a primeira música que a banda, depois de dois anos e meio de Em Noite de Climão, que a gente se olhou e falou ‘uau, isso está acontecendo, há uma nova canção surgindo!’. Então é uma música que eu tenho muito carinho por ser esse nosso reencontro com canções inéditas. É uma música gostosa, triste, o tipo de música que eu gosto. Gostosa e triste.”

“Fora da Foda” (com participação especial de Luisa LoveFoxx)
“É uma música super colaborativa. Eu virei pro baterista, que é o Lourenço Vasconcellos, e o baixista Thiago Rebelo e perguntei: ‘cês não tem uma música aí não?’. E eles falaram que tinham e me mandaram as duas. E eu ficava ouvindo a música do Rebelo e a do Lourenço, e é tão louco, baixo e bateria andam sempre tão unidos, a cozinha da banda, que a música deles dialogava. Aí falei, ‘ó, juntei a sua parte, com a sua parte, fiz aqui um negócio’. Chamei o Arthur Baganti, que é o tecladista e um dos produtores do disco, e a gente elaborou ali uma letra sobre uma pessoa que tá de fora da foda, de uma pessoa que não participou de uma suruba, de uma situação sexual maravilhosa, mas que ficou de fora, tadinha. Eu sou muito fã de Cansei de Ser Sexy, amo a Luisa LoveFoxx, e aí na volta que elas fizeram no Popload, eu vi e pensei ‘por que não?’. Convidei a Luisa e ela topou, disse ‘lógico, eu amo você, amo o Climão’, o que foi uma honra para mim, porque eu admiro muito ela, ela artista, ela ser humano e a vozinha dela no disco, é assim, a cereja de todos os bolos possíveis! É música para ser despretensiosa, maluca, leve, astral e eu acho que esse feat trouxe tudo isso.”

“Eu Estou aos Prantos”
“Essa música nasceu no avião. Eu sou uma pessoa terra, terra, terra, então eu acho que voar é uma coisa que eu ainda não compreendo. Tô melhorando, tô voando tanto que preciso melhorar. E em algum voo, eu tava sozinha, não tava voando com a banda, tava indo fazer uma participação sozinha, e eu tava com muito, muito, muito medo. Irracional, como todos os medos são. Mas eu tava muito mal, a mão suando, taquicardia, que eu pensei ‘não dá pra viver assim, não dá’. E eu peguei meu caderninho e pensei ‘tô com tanto medo, que eu preciso fazer alguma coisa com esse medo’. Eu sou muito de transformar, eu sinto as coisas e transformo em poesia, eu não consigo ficar com as coisas muito assim, só sentindo. Eu preciso transformar. E eu tava com tanto medo, tanto medo, que eu decidi fazer uma música. E aí veio essa música e todas essas questões que eu tô vivendo: será que dá para ter um filho, será que dá pra ter um carro, será que é débito ou crédito. E há uns três anos, quem não está aos prantos? Acho que essa pergunta no final, ‘eu estou aos prantos, quem não?’, é uma indagação que eu acho que tá todo mundo se fazendo e sentindo. Então, se você tem medo de avião, faça uma música.”

“Contanto Até Que”
“Eu tenho uma grande amiga, uma das minhas melhores amigas, se chama Keli Freitas, uma dramaturga, atriz, escritora maravilhosa. E ela acha que eu falo muitas expressões idosas. Eu falo ‘ao passo que’, ‘contanto, até que’. E eu falei um dia ‘Kelly, a gente tem que fazer uma música’. E ela falou ‘tem, mas tem que ter todas essas expressões malucas que você usa’. E tem uma música, um pedaço de uma música que eu tentei escrever com a Duda Braque, que é uma compositora também, que ela falava ‘eu vim para botar fogo no teu quarto, eu vim pra botar fogo no teu bairro’, mas a gente acabou não dando continuidade. E eu comecei a fazer essa música com a Kelly e falei isso junta com aquilo, perguntei pra Duda se era tranquilo usar, ela topou e a gente começou a fazer uma grande suruba musical maluca. Acho que é a música mais rock’ n’ roll no disco. Foi um dia de gravação bem forte, com muito sangue no olho e é uma música com muito sangue no olho, que fala de questões amorosas muito conturbadas, meio com muito fogo. E fogo é um elemento da natureza maravilhoso, mas excesso de fogo é a morte de tudo, da floresta, do museu, da catedral. O fogo também assassina. Então, como dosar o fogo? É uma música que fala como é difícil dosar o fogo.”

“Ver Gente – Vai Brotar?”
“Essa canção é uma grande loucura. Há uns anos, eu e uns amigos, quando alguém saia muito esquisito na foto, gente ficava brincando ‘com quem tá a cigana?’ – que absurdo!, porque sempre tinha um amigo meio esquisito e ficava meio ‘a cigana encostou aqui!’ e riiiia, quá quá quá… E a gente até brincava de fazer um programa de TV meio ‘estamos aqui na festa e vamos ver com quem está a cigana’ e passava mal de rir. Amigos e amigas, por falta do que fazer, inventando mundos e fundos – e viva a isso, né? E isso ficou na minha cabeça, e um dia, eu fiquei pensando como o mundo anda cada vez mais cínico e debochado – e tudo bem. Mas como a gente não pode deixar só isso assumir, o meme, o deboche. Eu amo tudo isso, mas também amo ficar espiritualizada, amo ser uma pessoa emotiva, então acho que é uma canção que fala sobre isso. E aí fiz com o Arthur Braganti e no final, a gente ficou pensando em um monte de ditados da língua portuguesa, e nós somos dois apaixonados pela língua portuguesa e a gente pirando em ‘quem não chora, não canta’, ao invés de ‘quem não chora, não mama’, então foi uma tarde de muita criatividade quando a gente compôs. E é uma música que no estúdio, tanto gravando, quanto ensaiando, a banda ficava num flow, num crescente, numa vibração muito intensa. Eu acho que vai ser uma música de muita força dançante. “

“Cuidado Paixão”
“‘Cuidado Paixão’ é uma pérola para mim. Eu sempre que componho, sem querer – ou por osmose, porque sou carioca – vem em samba. Em todo o Climão, eu chegava para a Natália (Carrera) e para o Arthur (Braganti) e falava assim ‘gente, eu fiz uma música que é assim: ‘ninguém perguntou por você’’, assim meio samba e o Arthur falava ‘que loucura…’. A Natália sempre ficava ‘meu deus, é um samba’. E aí, é claro, a galera começava a perverter os arranjos, a criar camadas sonoras, então o resultado não era samba. Mas o embrião das canções, de muitas delas, vinha em samba. Aí nesse segundo disco, no Aos Prantos, também aconteceu muito isso. Eu tava na praia, e me vinha uma ideia… Essa foi na praia também, na Grécia, estava nesses momentos aquáticos de entrega, de conexão com a natureza e com o que há de mais misterioso na gente e, uma hora me veio essa frase ‘Cuidado Paixão”’. E isso realmente aconteceu. Um dia eu estava no mercado e uma mulher falou: ‘cuidado, Paixão!’ e eu pensei: ‘que hilário, ela nem me conhece e tá me chamando de paixão!’. E eu sou dessas, muito conectada ao externo, às pessoas e eu logo pego o caderninho e anoto a frase que a pessoa falou, guardo, uso, penso. E ela veio em samba e quando eu mostrei pra banda a gente já percebeu que ela tinha que continuar samba. Assim, um samba Twin Peaks, meio David Lynch. Não é um samba, samba. Mas ela veio numa atmosfera sambística e a gente quis manter, do nosso jeitinho Letrux, mas ela é um samba: ‘Cuidado Paixão’. “

“Sente o Drama” (com participação especial de Liniker)
“‘Sente o Drama’ é uma música que eu fiz com meu parceiro, Thiago Vivas. O Titi tem toda uma pesquisa com o blues e eu também tenho toda uma época, uma escola de blues na minha vida. E eu olhei, falei ‘Baby, por que a gente não faz um blues?’. E aí fizemos esse blues, com essa letra meio, não sei o que dizer… Mas quando o blues tava pronto, eu pensei ‘isso é a cara da Liniker, com aquele vozeirão, com aquela atitude, aquela potência’ e eu falei ‘Liniker, você topa?’ e ela, ‘claro’. Eu fiquei muito feliz, e quando ela chegou no estúdio, rolou um eclipse, um fenômeno da natureza, não sei… Todo mundo ficou com o braço arrepiado, o couro cabeludo arrepiado, uma coisa muito intensa. E ela arrasou, ela matou em dois, três takes. E improvisava, fazia uns vocais, uns gritos… É uma música maravilhosa. Sempre quis ter meu blues e agora já posso dizer que fiz um blues, e com a participação da Liniker, eu não quero mais nada da vida. “

“El Día que no me Quieras”
“Essa música é um desejo que eu sempre tive de compor em espanhol, já tinha feito uma brincadeirinha ou outra, até no Climão tem uma vinheta que eu fiz em espanhol, mas eu queria compor uma música inteira. E é a primeira música, na vida, que eu compus no piano. Há uns dois anos, eu sentei no piano do Arthur e veio vindo esses acordes do início. E o Arthur é meu parceiro, então eu disse: ‘amigo, a gente tem que fazer uma música em espanhol’ e ele ‘claro!’. Ele também ama espanhol, fala super bem, inclusive. E nessas idas e vindas de avião, nesse modo avião, e é hilário estar em modo avião porque você não pode conferir se uma palavra é daquele jeito. A gente fala espanhol, mas não FAAAAAALA espanhol, sabe? Então a gente no modo avião, a gente ficava ‘será que isso tá certo?’. A gente arranhava, depois chegava na cidade, conferia no Google e não tinha nada a ver. E aí a gente ria e tudo mais. É uma música xodó, fiquei muito feliz com o resultado dessa música em espanhol. Eu acho que o Brasil é um tão isolado da América do Sul, seja pela língua, seja por questões culturais ou políticas, então acho que cantar em espanhol, me dá uma sensação de hermana, de sulamerica, de latinidade. Já viajei muito pela América do Sul, tive esse privilégio, essa sorte, então é uma canção eu me orgulho muito.”

“Abalos sísmicos”
“Eu quis fazer música com todos os integrantes da banda. Então tem música com o Arthur, sempre teve com ele. Aí dessa vez, eu quis fazer música com todos com o Lourenço, com o Thiago Rebello. E eu olhei para a Natália Carrera, que é a guitarrista e uma das produtoras do discos e a Martha V, que é a tecladista e backing vocal e falei ‘meninas, a gente tem que ter uma música!’. E uma dia, a Nat tava na dela, brincando com a guitarra na passagem de som e eu falei ‘o que é isso, o que é isso?’, com a anteninha ligada e comecei a gravar. E essa loucura toda de não ser cínica, nem ser irônica, de ser uma pessoa que sente muito, eu me abalo muito – chega a ser um pouco… eu fico meio exasperada, às vezes. Chega a ser uma questão na minha terapia, eu me afeto muito. E não pode ser – pode, claro, tudo pode, mas a gente também tem que se proteger, ficar forte. E eu falei ‘Martha, vamo aqui pensar numa loucura sobre alguém que se abala muito e aí faz daqui a letra, Nat, pensa aqui numa parte B, Marta pensa aqui numa parte C’. É uma canção sobre o poder que uma outra pessoa pode ter na sua vida, seja para o bem ou para o mal. Tem pessoas que passam na nossa vida e que dão uma devastada. É uma canção sobre como a gente não pode deixar isso acontecer. E é uma música que eu fiz com as meninas do grupo e eu amo muito muito muito essa canção. Eu me emociono. Eu gravei no estúdio e chorei muito gravando.”

“Salve Poseidon”
“É uma canção que Arthur chegou para mim e falou ‘amiga, eu tô aqui com uma melodia, umas frases, o que você acha?’. E eu falei ‘nossa, que delis, coisa maravilhosa’. E ele falou ‘vamos pensar em várias rimas com ão, com on’ e em algum avião da vida a gente foi brincando, pirando com isso. No meio da música tem um texto que eu falo do meu amor por coincidências, que elas nem existem, na verdade. A coincidência é um momento de conexão, na verdade. Ela não é ‘ahh, que coincidência!!!’. Não acho que seja isso. Acho que seja uma hora de ‘ahhh!’, de estalo, de arrepio, de confirmação. Então é uma música que eu tô achando delis no disco. E no final, eu ainda faço uma pequena homenagem à Fernanda Young. Que eu falo ‘I love you, forever Young’, porque nossa, eu sou muito apaixonada por ela. E é uma música e também uma ode a uma figura marítima misteriosa masculina. Amo Iemanjá, sou de Iemanjá, mas eu tava junto com o Arthur, que também é um ser do mar, a gente brinca muito de divã no mar, a gente sentiu que era o momento de fazer uma homenagem a uma figura mais masculina do mar. E saiu essa grande loucura.”

“Esse Filme que Passou Foi Bom”
“‘Esse filme que passou foi bom’ é uma música que eu fiz com o Lucas Vasconcellos que é meu ex-companheiro e ex-parceiro da banda Letuce. O Lucas é um excelente compositor, então sempre gosto de brincar de compor com ele e, um dia a gente se encontrou num estúdio, meio totalmente ‘redação tema livre’, a gente ainda estava sem saber sobre o que queremos falar. E eu falei ‘Caslu, acho que eu quero falar sobre morte’. Porque essa é uma questão que desde pequena permeia meus pensamentos, já que tudo é muito efêmero. Eu tô aqui, mas de repente eu posso ter um mal súbito, um ataque cardíaco e isso tudo me assusta muito, mas também me dá muita pulsão de viver a vida, à toda e aí o Lucas comprou a ideia. É uma música mórbida, engraçada e alegre – que é o que eu acho que é a vida. A vida é absolutamente mórbida e absolutamente hilária em alguns momentos. É uma canção meio misteriosa também, tem um arranjo meio Radiohead, triste e aí de repente ela vira quase um pagode – um pagode que a gente tenha feito, claro. Então ela ficou uma confusão muito doida, ainda é uma música muito doida para mim, mas eu tô adorando. Porque morrer pode ser passear. E não ter medo, ou ter medo, mas um medo saudável, um medo que te dá um tesão de querer viver mais.”

“Cry Something Awkward”
“Essa é uma vinhetinha, uma besteirinha, uma loucurinha. Uma maluquice da minha cabeça, de uma música que eu fiquei com ela andando, nessas viagens de turnê, no avião, você pensa uma coisa, anota, cria num lugar, cria melodia. É um entreato, um momento meio Frank Sinatra que eu tive, é uma letra muito pessoal, porque penso tudo aquilo. E penso que utilizei da língua inglesa só para ter artifícios de facilidade para dizer aquilo que eu queria, porque dizer aquilo tudo em português acho que ficaria muito… ‘ah’. Mas me utilizei da língua inglesa só para ficar mais ‘Sinatra Feelings’, mas é uma vinhetinha gostosinha, só para tocar seu coração.”

manu-dibango

Primeiro grande nome que perdemos para o Coronavírus: o saxofonista camaronês Manu Dibango, que morreu nesta terça, foi um dos primeiros popstars africanos e revolucionou a música global a partir dos anos 70, quando, ao lado de uma geração que contava com músicos de outros países do continente, como os nigerianos Fela Kuti e King Sunny Adé, mostrou para o resto do mundo a influência daquela música no pop daquele período. Explodiu com o hit “Soul Makossa” em 1972 e colaborou com artistas tão diferentes e importantes como Herbie Hancock, Sly and Robbie, Bill Laswell, Don Cherry e Bernie Worrell, além de ver Michael Jackson surrupiando seu hit em “Wanna Be Startin’ Somethin'” de 1982 e depois Rihanna em “Don’t Stop the Music” de 2009. Que vá em paz.

Foto: Cartaxo

Foto: Cartaxo

Com a quarentena, o grupo BaianaSystem resolveu antecipar um dos planos que tinha para 2020: uma versão dub de seu disco mais recente, o premiado O Futuro Não Demora, que fica a cargo de um dos grandes nomes do gênero no país e velho chapa da banda, o pernambucano Buguinha. “Quando a gente viu que ia entrar em quarentena, resolvemos adiantar este processo, mesmo porque Buguinha já tava com os arquivos do disco e poderia ir tocando isso a partir de seu estúdio em Olinda”, me explica o guitarrista Roberto Barreto, “foi uma forma de aproveitar este período e também diminuir o ritmo, que é um tema que faz sentido neste momento, como o nome do disco”.

Buguinha já fez versões em dub para o grupo desde o primeiro álbum, quando remixou “Frevo Foguete” e “Jah Jah Revolta”, em 2009, e depois em 2013, quando mexeu em “Calundu” que tem a participação de Lazzo Matumbi e “Pangeia”, que conta com o tincoã Mateus Aleluia. “E do mesmo jeito que Buguinha se animou para fazer uma versão dub de um frevo, há onze anos, ele se animou com os elementos deste disco, a coisa de música latina e dos ijexás, além de seguir a história do disco, mantendo a ordem das faixas”. Buguinha já começou a mexer no material em lives que tem feito em sua conta no Instagram, uma forma que o grupo também encontrou de apresentar didaticamente o que é o dub para quem não conhece. O disco vai se chamar O Futuro Dub e todo o processo será transmitido pelas redes sociais.

glover2020

Donald Glover vem lentamente acalentando sua escalada. Começou na TV, primeiro escrevendo pro seriado 30 Rock da Tina Fey e depois compondo pro elenco da série cult Community. Na paralela, lançou-se como rapper com o pseudônimo de Childish Gambino, mas foi com seu nome batismo e na TV que ganhou fama de fato, quando criou a série Atlanta, em 2016, que conta a história de um rapper iniciante e seu primo empresário (vivido pelo próprio Glover). Mexendo as peças do tabuleiro do showbusiness com precisão e paciência, ele construiu sua carreira em momentos únicos e magistrais, como o clipe de “This is America”, o filme Rihanna Island (chamando apenas Rihanna para ser seu par) ou vivendo personagens icônicos como Lando Carlrissian no filme Han Solo ou o Simba no remake filmado do clássico desenho Rei Leão. E agora acaba de lançar um disco de surpresa.

Donald Glover Presents 3.15.20 não é propriamente uma surpresa porque ele revelou o álbum no domingo passado, quando o colocou para tocar por um doze horas em loop no site Donaldgloverpresents.com, tirando-o do ar no mesmo dia. Agora ele chega com o disco em todas as plataformas digitais batizando-o com a data de sua primeira transmissão ao mesmo tempo em que desafia formatos e rótulos. O disco está publicado como um longo disco de 57 minutos em nome de Donald Glover em seu canal no YouTube, mas seu codinome musical, Childish Gambino, o publicou com os nomes das músicas – que, salvo duas exceções, são apenas as marcações de minutagem dentro da contagem contínua de tempo do álbum. O disco ainda por cima não tem capa – ou melhor, traz apenas um quadrado branco como apresentação visual.

donaldglover-31520

Eis o nome das músicas:

“0.00”
“Algorhythm”
“Time”
“12.38”
“19.10”
“24.19”
“32.22”
“35.31”
“39.28”
“42.26”
“47.48”
“53.49”

O Genius.com conseguiu pegar os nomes originais das canções quando elas foram transmitidas pela primeira vez:

“We Are”
“Algorhythm”
“Time”
“Vibrate”
“Beautiful”
“Sweet Thing”
“Warlords”
“Little Foot”
“Why Go To The Party”
“Feels Like Summer”
“The Violence”
“Under The Sun”

Mas no fundo o que importa é a música – e Glover esmerilhou. Se seu disco mais recente (Awaken, My Love!, de 2016) emulava o P-Funk de George Clinton demais, desta vez ele ampliou sua cartilha de referências e agora reverbera Outkast, Frank Ocean, Kanye West, Prince e Stevie Wonder, soando tanto soul quanto rap, tanto funk quanto R&B. E num amálgama de referências de épocas diferentes, ele sobe mais um degrau em sua carreira, chegando a um novo patamar, entrando discretamente, mas sem humildade, no panteão da música contemporânea atual. Lançado sem muita explicação (e com participações de nomes como Ariana Grande, Kadhja Bonet e seu filho Legend), ele afirma que é seu último disco como Childish Gambino – e 3.15.20 soa como isso, o fim de um capítulo – e o início de outro. Além de ter sido lançado sem mesuras no meio de uma pandemia. Discaço.

Veloce

O trio de jazz punk Atønito, liderado pelo saxofonista Cuca Ferreira do Bixiga 70 era uma das atrações, ao lado de Thiago França, da #SextaTrabalhoSujo desta semana, quando aproveitariam o show no Estúdio Bixiga para mostrar mais uma das músicas para seu próximo álbum, Aqui. A pesada “Veloce” chega em primeira mão no Trabalho Sujo mesmo em tempos de clausura, mostrando uma São Paulo pré-epidemia, de cabeça para baixo. “Direto do confinamento, fomos surpreendidos por nosso próprio planejamento pré-quarentena”, explica Cuca. “‘Veloce’ é uma música que fala sobre o excesso de trabalho, excesso de correria, excesso de competição, excesso de cada um por si, ‘excesso de excessos’ que a vida nos impõe, ou pelo menos impunha, até que o mundo desse esse freio de arrumacão que estamos vivendo agora. Como a gente vem fazendo com esse disco, convidamos um artista pra fazer o clipe, sem dar nenhum direcionamento”. Edu Marin é artista gráfico e fez as fotos e as obras que ilustram cada single do disco e foi chamado para dirigir o clipe, além assinar a capa do single (acima), retirada de uma série chamada Simulacros da Memória Imperfeita. A direção de arte é da Ciça Goes.

Aqui teoricamente seria lançado em junho, mas Cuca não sabe como ficam as coisas com a situação atual que vivemos. Mas não baixa a cabeça: “Vamos em frente, sem chororô, e na torcida pela consciência coletiva e pela cura!”

fefel2020

Não sei quem é o John e quem é o Paul dos Boogarins, mas com o single Fefel 2020, o grupo lança seu baixista Raphel Vaz como terceiro compositor e vocalista da banda goiana. E não é que o prefeito leva jeito? Ele conta como se encontrou:

Em uma dessas turnês, que acabava em Portland, me presenteei com um pequeno violão de nylon que desse pra carregar por aí. Apesar da sua pequenez, o violão ficou em Austin por dois anos, já que a bagagem extra que eu teria que pagar era mais cara que o violão.

Um ano depois me veio “Tanta Coragem”, num quarto de hotel onde eu dormia com Markola, tour manager e amigo gringo. Gravei os acordes e balbuciei melodias. Nesse dia meu inglês falhou em uma conversa com Mark e coloquei na letra o que eu tentava dizer pra mim mesmo. Voltamos pra Austin pra gravar, dessa vez em estúdio, as primeiras sessões do que seria pro Sombrou Dúvida e essa demo ficou no meu computador por uns dias. O ócio do artista que cultivávamos lá me permitiu acabá-la.

Já em 2018, ano das últimas seções do SD, Benke foi convidado para uma espécie de residência artística por 10 dias em Berlin e de lá trouxe um presente para cada um dos Boogarins restantes. Discos de vinil para Ynaiã, um livro para Dinho e uma Kalimba de 4 notas para mim. Era a primeira viagem que ele fez sem a gente, da qual voltou visivelmente abalado. Ao me entregar o presente ele encomendou uma música. “Inocência” é a encomenda, um loop de 2 acordes do violão pequeno, onde a kalimba e a melodia fazem a função de separar as partes da música. Uma canção lúdica e singela.

Mostrei a música e meus amigos choraram muito, disseram que a banda não iria gravar aquela demo nunca. Benke me disse que tinha muitos planos pra me ajudar a realizar meu sonho, que é o sonho de ser importante. Este ano meus amigos acharam que era o meu ano, 2020, o ano em que faço 30 e meu cabelo cai.

aiye2020

Larissa Conforto chama a alegoria da caverna de Platão em mais um single antes de seu primeiro disco solo, no trabalho que assina como Àyié. Na colagem audiovisual “O Mito E A Caverna”, que tem a participação do Lupe de Lupe Vitor Brauer, ela mistura a intensidade deprimente e violenta dos dias atuais num spoken word que se abre em camadas líricas e melódicas que misturam drum’n’bass, trip hop, samples de jazz e palavras de ordem, conectando as notícias deste século com a história da humanidade.

É só um aperitivo do que podemos esperar deste primeiro disco, batizado de Gratitrevas, que será lançado na próxima sexta, dia 20.

kurtvile

Encerrando a divulgação do projeto Songs for Australia, que visa arrecadar fundos para as vítimas no incêndio que dizimou parte da vida selvagem do país-continente, eis que surge a versão que o bardo norte-americano Kurt Vile fez para “Stranger Than Kindness” do bardo australiano Nick Cave, tirando todos os elementos oitentistas (a bateria muda, o ruído da guitarra, aquele solo esquisito do fim) e mantendo o clima solene enquanto a traz para o campo, em uma tarde outonal – mas igualmente estranha.

O disco, recém-lançado, conta com versões para músicas do Midnight Oil, INXS e Sia, todos artistas australianos.

sts-016-antiprisma

Neste sexta-feira 13 de março, a atração da Sexta Trabalho Sujo é a dupla paulista folk psicodélica Antiprisma, formada por Elisa Moreira (guitarra e vocais) e Victor José (guitarra, viola caipira e vocais), que dá início aos seus shows em 2020 em uma apresentação no Estúdio Bixiga, quando mostra seu disco mais recente, Hemisférios (mais informações aqui). Predominantemente acústico desde o início, o grupo vem passando por uma metamorfose nos palcos e experimenta novos arranjos com uma abordagem elétrica para canções dos trabalhos anteriores, numa formação de quarteto, com a presença de Ana Zumpano (Cinnamon Tapes, Lava Divers) e Rafa Bulleto (Neptunea, Bike) na bateria e no baixo, respectivamente.