
“Eu vou pra Lua e você vai comprar a passagem, porra!”, esbraveja Cameron Winter quase no final do mantra motorik “Apollo”, canção novíssima que estrearam neste domingo, quando tocaram no Astra Kulterhaus, em Berlim, na Alemanha, como parte de sua turnê europeia. O krautrock “Apollo”, única canção do bis desta noite, é a primeira música inédita a invadir o repertório da banda desde que o quarteto de Nova York afunilou seu setlist ao redor do disco Getting Killed, dos grandes acontecimentos fonográficos do ano passado. Eles já têm falado em entrevistas que têm material pra lançar um outro disco se quiserem e pode ser que eles tenham finalmente decidido começar a experimentar esse novo material ao vivo. Vai ser foda acompanhar isso…
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Morreu um dos grandes antiheróis da música mineira. Jair “Gatto” Fonseca veio das letras e participava do coletivo Cemflores, em que estudantes da UFMG lançavam publicações independentes e faziam intervenções artísticas no final dos anos 70. Deste mesmo núcleo artístico surgiu o projeto punk – que depois virou a banda de mesmo nome – Divergência Socialista, liderado pelo saudoso Marcelo Dolabela, que também reunia John Ulhoa (futuro Pato Fu) na formação, e que trouxe Jair para a música. Ele seguiu no grupo seguinte de John, o Sexo Explícito, surgido em Belo Horizonte em 1982, mas dois anos depois criou seu próprio conjunto, o pós-punk O Último Número, reforçando suas raízes poéticas desde o nome, título de um poema de Augusto dos Anjos. Com este lançou dois discos independentes que marcaram a cena mineira do período e são joias pouco ouvidas do pós-punk brasileiro, O Strip-Tease da Alma (de 1987) e Filme (do ano seguinte), que marcaram a curta carreira do grupo e mostraram o trabalho de Jair para o resto do Brasil. A banda ainda lançou um terceiro álbum (Museu do Mundo), quando tentou voltar em 2001, mas Jair seguiu carreira nas letras, como professor formado e pós-graduado na mesma UFMG que começou e há vinte anos atuava como professor de literatura comparada da UFSC, em Florianópolis. As letras sempre foram seu principal habitat, tanto que se considerava mais “escritor de canções” do que compositor.

Céu vem comemorando os 20 anos de seu primeiro disco desde o ano passado, mas só agora consegui assistir a este show, quando ela apresentou-se por duas noites na comedoria do Sesc Pompeia. E é muito bom vê-la voltando a aprumar-se depois de um período instável em sua discografia quase sempre em ascensão. O tropeço com o fraco Um Gosto de Sol não foi recuperado mesmo no bem sucedido Novela, mas no novo show ela parece reencontrar sua essência musical, despindo-se de adereços e participações para focar no âmago de seu trabalho: seu envolvimento intenso com a música. Ao visitar as canções do primeiro álbum – visionário por enfileirar referências que, em 2005, ainda eram distantes, como MPB, reggae, samba, soul e música latina –, ela soltou-se no palco deixando seu corpo, carisma e voz conduzir a apresentação, sempre dançando à vontade para liberar seu tímbre único para vocalizações improvisadas como ela sabe fazer melhor. Céu armou-se do jeito que se sentia mais tranquila, primeiro reunindo uma banda de músicos que o acompanharam em diferentes fases de sua carreira, desde o eterno baixista Lucas Martins a Sthe Araujo (percussão e vocais) e Leo Mendes (guitarra, cavaquinho e violão) que a acompanham desde a pandemia e os recém-chegados Zé Ruivo (teclados) e Pedro Lacerda (bateria), além do velho camarada DJ Marco. Depois convidando a nova amiga Luiza Lian (que a chamou para cantar junto em seu 7 Estrelas, de 2023) para fazer a direção do show, que deu pitacos no figurino, trouxe sua comadre Bianca Turner para fazer as ótimas projeções e criou uma apresentação em que ela fluísse levemente. Mexendo pouco na ordem do disco (trouxe “Bobagem” para o começo e deixou “Samba na Sola” de fora), ela ainda emendou um bis que é praticamente um greatest hits de sua carreira até aqui, com “Grains de Beauté”, “Coreto”, “Contravento”, “Cremosa” e três do Tropix, “A Nave Vai”, “Varanda Suspensa” e “Perfume do Invisível”. Com o público cantando todas as músicas juntos, Céu está pronta para retomar o voo pleno que singrava até a pandemia. Hora de ouvir as músicas novas!
#ceu #sescpompeia #trabalhosujo2026shows 047

Caio Colasante começou mais uma edição quentíssima do Inferninho Trabalho Sujo na Porta Maldita com suas canções solo cada vez mais definidas, não importe com quem toque. O ex-guitarrista da banda Os Fonsecas que também acompanha o duo de hip hop Kim & Dramma veio cercado de velhos comparsas, como o baterista Thalin (outro ex-Fonsecas que vem firmando seu trabalho solo, baseado no rap, com quem Caio também tem tocado) e o percussionista Bruno “Neca” Fechini (dos Tangolo Mangos, onde Caio também teve uma breve participação como guitarrista temporário) e trouxe dois novos nomes para sua banda, o baixista do Saravá Roberth Nelson, e o guitarrista da Mundo Vídeo Vítor Terra. E mais do que compositor e guitarrista, Caio tem uma verve maestro que faz com que todos que toquem com ele o sigam em arranjos que parecem simples, mas que tem uma complexidade específica que vem de suas referências musicais, que vão do rock progressivo, ao jazz fusion e, principalmente, pela MPB dos anos 70 e 80, coroada pela influência do principal mestre do músico, o saudoso mestre Jards Macalé. Ele ainda tem uma certa timidez nos vocais, mas nada que a prática não o deixe mais à vontade, por isso é bom ficar de olho no que ele vem fazendo.
Depois do Caio Colasante, foi a vez do Tutu Naná mais uma vez apavorar no palco do Inferninho. Depois de exibir pela primeira vez o ótimo clipe de “Sobre as Aves”, o grupo fez a microfonia e o barulho tomar conta da Porta Maldita, sempre sobre vocais sussurrados, efeitos eletrônicos e percussão absurda, fazendo a aparente contradição entre suas principais influências – o noise e a MPB – cair por terra assim que o som começa. Além de tocar músicas do recém-lançado EP batizado com o mesmo nome do clipe que apresentaram, também mostraram pela primeira vez em público sua versão para “Caxangá”, de Milton Nascimento. A química entre os integrantes talvez seja sua principal arma secreta, com a guitarra fulminante de Akira Fukai misturando-se com o baixo melódico de Jivago Del Claro, as viradas de tempo absurdas de Fernando Paludo (um misto de Milton Banana com Keith Moon) e os vocais e flauta transversal de Carolina Acaiah, que vem se soltando cada vez mais nos efeitos, fazendo a bruxaria eletrônica pairar sobre o furacão eletroacústico do grupo. Pra variar, outro showzaço.
#inferninhotrabalhosujo #tutunana #caiocolasante #aportamaldita #noitestrabalhosujo #trabalhosujo2026shows 045 e 046

Vamos a mais um @inferninhotrabalhosujo na Porta Maldita, reunindo duas atrações já conhecidas da casa. Quem abre a noite é o Caio Colasante, que já esteve na festa tocando com sua antiga banda Os Fonsecas e agora mostra sua carreira solo ao lado de uma superbanda do novo indie paulistano formada por Vítor Terra (Mundo Vídeo) na guitarra, Bob Nelson (da Saravá) no baixo, Bruno “Neca” Fechine (dos Tangolo Mangos) na percussão e Thalin na bateria. Depois é a vez dos Tutu Naná, que mostram o novo EP que acabaram de lançar, chamado Sobre as Aves, e também exibem o clipe de mesmo nome antes de sua apresentação. Depois das bandas, o palco torna-se a já tradicional jam infinita da casa enquanto eu discoteco até altas madrugadas. Os ingressos já estão à venda.

“A gravação e a produção musical desse disco aconteceu numa relação de prazer com o tempo e o processo, sem pressa por resultado”, explica Paula Rebellato sobre o primeiro álbum de seu novo projeto Qmar, que vem desenvolvendo desde o ano passado ao lado do baterista Cacá Amaral. Trabalhando texturas eletrônicas, vocais e percussivas, a dupla lança nessa sexta-feira o disco Orações Oferecidas a Estranhos, que reúne sete faixas em que eles liberam o transe hipnótico conduzido pelo casamento rítmico das progressões sugeridas por Cacá e os drones darks que Paula conduz como cama para seus vocais ritualísticos. “Conforme fomos fazendo alguns shows ao vivo, fomos internalizando ideias para composição, modificando outras, levando isso pros ensaios, conversando”, ela continua. “Sinto que esse disco retrata bem as nossas referências e gostos estéticos em comum. É um registro 50% Paula e 50% Cacá, se assim posso dizer”. A dupla antecipou a íntegra da faixa-título em primeira mão para o Trabalho Sujo, ouça abaixo: Continue

Gilberto Gil está passeando com sua turnê Tempo Rei pela América Latina e nesta quarta apresentou-se em Buenos Aires, na Argentina, quando aproveitou para reencontrar o velho amigo Charly Garcia em um encontro nos bastidores. Que momento!
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Responsável por um dos momentos mais memoráveis do filme e do festival de Woodstock, o cantor estaduindense de folk Country Joe Macdonald, morreu neste sábado. Depois de desperdiçar três anos no exército de seu país (quando serviu em uma base norte-americana no Japão), voltou para os EUA no meio dos anos 60 e envolveu-se com o ativismo antiguerra, tanto em publicações independentes, passeatas e, finalmente, música. Uniu-se ao camarada Barry “The Fish” Melton e aos poucos a dupla acústica de folk Country Joe & The Fish tornaria-se uma banda de rock psicodélico. Ela foi escalada para tocar em vários festivais daquele período histórico, especialmente o Monterey Pop Festival em 1967 e Woodstock dois anos depois, logo após terem decidido terminar com o grupo. Naquele mesmo ano lançara seu primeiro disco solo, Thinking of Woody Guthrie, em homenagem a seu ídolo, pioneiro da folk music nos EUA. Foi esse espírito que o levou a entoar uma canção que havia composto em 1965 e que entrara no repertório de sua banda no formato eternizado por Guthrie, voz e violão. E assim transformou “I-Feel-Like-I’m-Fixin’-to-Die Rag” num dos grandes momentos do evento e num hino antibélico do período, com seu refrão cantando num tom mórbido: “1-2-3-4, por que estamos em guerra? Não me pergunte, não me importo, a próxima parada é o Vietnã. 5-6-7 abram os portões do paraíso. Não tempo pra se perguntar, todos nós vamos morrer!”. Após Woodstock engrossou ainda mais seu ímpeto na carreira solo, no ativismo e na gravadora Rag Baby, batizada em homenagem a uma das revistas independentes que publicava nos anos 60, além de voltar algumas vezes em reuniões do The Fish (que aconteceram em 1977 e 2004).

Sophia está surfando na temporada que está fazendo no Centro da Terra e a noite passada foi só a segunda das cinco apresentações que fará na casa. Mas ao apresentar-se ao lado da banda que a acompanhará nos próximos shows, antes mesmo de chamar os convidados da noite, ela já deu a medida de como será o resto do mês, já que o power trio que montou ao lado de Marcelo Cabral (entre o baixo e o synth bass) e Theo Ceccato (bateria) está azeitadíssimo. Ela começou a noite com os dois, tocou algumas músicas sozinha, misturando canções solo que ainda não têm disco, outras do Handycam que gravou ano passado com Felipe Vaqueiro, outras de sua banda Uma Enorme Perda de Tempo e algumas que compôs há pouquíssimo tempo. Mas o ouro da noite começou a acontecer quando ela convidou seus dois novos parceiros para subir no palco, primeiro Kiko Dinucci, que anunciou que tem disco novo vindo aí – que inclui “Água Viva”, parceria com Sophia que já está tocando em shows s- e depois Jonnata Doll, que entrou dançando no palco e logo chamou todos para acompanhá-lo em uma faixa inédita sua, “Vamos Dançar no Picles”, seguida de um atordôo sonicyouthiano quando os cinco engataram na hipnótica “Crack pra Ninar” do Kiko Dinucci, com Jonnata tocando guitarra. Uma noite maravilhosa, a primeira vez de um grupo tocando juntos que parecia que já tinham feitos inúmeros shows, tamanha a química no palco. Se você não foi a nenhum show dessa temporada da Sophia está perdendo, só tenho isso a dizer.
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Falei da passagem do Geese por Paris na sexta passada e pintou o vídeo da íntegra do show que eles fizeram naquela noite no Le Bataclan. É tão bom voltar a ver uma banda crescendo online, com os fãs despejando tudo que conseguem sobre eles na internet… Acho que desde os Arctic Monkeys que isso não acontece com uma banda indie desse jeito. E que banda!
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