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Loki

“Acho que África Brasil dialoga com o Brasil de 2020 em vários momentos: primeiro com as músicas que falam de personagens negros ou de orgulho negro, como ‘Ponta de Lança Africano’, ‘Xica da Silva’ e ‘África Brasil (Zumbi)’, que têm tudo a ver com as questões raciais que a gente tá vendo hoje, com a questão de dar visibilidade pra personagens negros, a gente sabe que as figuras negras sofreram um apagamento na história do Brasil e que a gente tem um afastamento da África”, enumera Kamille Viola, que acaba de lançar o livro África Brasil – Um Dia Jorge Ben voou para toda a gente ver, dentro da coleção Discos da Música Brasileira (Edições Sesc SP). “Eu brinco que no dia que tiver o ‘fogo nos racistas’ que o Djonga canta, a trilha vai ser a versão de ‘Zumbi’ do África Brasil, que é uma versão com uma guitarrona bem marcante, o Jorge berrando, conclamando os povos negros que foram trazidos escravizados para o Brasil para uma vingança.” Ela antecipa em primeira mão para o Trabalho Sujo o primeiro capítulo do livro, O Bob Marley brasileiro, que conta sobre o interesse que o descobridor do rei do reggae, o dono da gravadora Island, Chris Blackwell, teve no monstro sagrado brasileiro.

“Quis começar por essa história, que muita gente não conhece e não é inédita, mas que não é muito falada e dá a importância do Jorge Ben e como ele é visto no mundo, como sua música chega longe. Ela mostra muita coisa, como ele é admirado, como ele tem a personalidade forte e quer ter o controle pelo trabalho dele, como ele era recebido – era e é – com pompa nas viagens internacionais”, resume Kamille, que só conseguiu entrevistar Jorge Ben durante a quarentena, quando o livro, que começou a ser feito no ano passado, estava sendo finalizado. Mas não foi a primeira vez que ela falou com ele, longe disso.

“Eu o conheci em 2008, quando fui cobrir um desfile em que a Gisele Bundchen estaria e ele sentou do meu lado. Aí eu puxei papo com ele e depois disso esbarrei com ele algumas vezes, em festas de premiações, backstage de show e no Corujão da Poesia, um sarau que acontece de madrugada aqui no Rio”, lembra. Ela chegou inclusive a cogitar uma biografia do ídolo, ao lado da amiga Karla Prado, mas deixou para lá depois que a família de Jorge achou melhor não contar essa história.” Não bastasse isso, ela, que entrevistou Jorge Ben no Copacabana Palace em 2011, ainda teve de perceber que Jorge Ben não lembrava mais dela, diferente de dez anos atrás, quando a chamava pelo nome.

Mas isso nem de longe ofusca a admiração que Kamille tem pelo artista. “Ele criou um som único, mesmo tendo mudado a sua sonoridade ao longo do tempo, o tipo de mistura que ele fez ninguém conseguiu fazer. Fora a famosa capacidade dele de musicar qualquer texto, que ele traduziu com um estilo próprio, como o blues e os spirituals fizeram”, conta a jornalista. “Além de que o Jorge impactou demais alguns movimentos. Os tropicalistas consideram que seu disco Bidu é um disco tropicalista antes do tropicalismo existir. Gilberto Gil quando ouviu Samba Esquema Novo disse que ia parar de compor e ficar tocando só a obra do Jorge Ben, porque ele fez tudo que já podia ser feito. O Mano Brown fala que ele influenciou o rap na temática, porque ele tem uma importância gigantesca sobre a questão racial e da negritude.”

Ela reforça a importância de Jorge para a cultura brasileira neste sentido. “Ele exalta personagens negros, a cultura negra e fala desse embate entre negros e brancos, lembra da escravidão, exalta a mulher negra… A gente sabe que a cultura negra – a capoeira, o jongo – já falava sobre isso, só que o Jorge fez isso sendo um artista mainstream, que tocava no rádio, na TV, vendia milhares de cópias. Sem contar em termos estéticos: ele é um dos precursores do canto falado no Brasil, já tinha o spoken word nos Estados Unidos, nos anos 60 e 70, mas no Brasil o Jorge foi um dos primeiros, que vai impactar no rap, no axé… Ele foi precursor de muita coisa. Além de ser um artista muito prestigiado internacionalmente, regravado, sampleado, é uma referência muito grande. Sempre que eu entrevistava artistas gringos moderninhos que tavam vindo pra cá, como o Beck ou o Vampire Weekend, e eu perguntava sobre música brasileira, sempre respondiam Jorge Ben.”

Kamille, que agora está escrevendo uma biografia sobre Martinho da Vila, não consegue cravar que África, lançado em 1976, é o primeiro disco em que Jorge toca guitarra, referindo-se ao disco O Bidú, cuja ficha técnica deixa tudo meio nebuloso – ela prefere acreditar que é um violão Ovation em vez de uma guitarra, mas confirma que é a partir do disco que pesquisou que Jorge começa a usar a guitarra com distorção e peso, assumindo essa linguagem para seu som – e nunca mais volta ao violão. Mas não consegue cravar que África é seu disco favorito de Jorge. “Eu não consigo escolher um só, durante um tempo eu dizia que meu preferido era o Força Bruta, mas eu amo o África, o Tábua, Ben, Samba Esquema Novo…”

O Bob Marley Brasileiro *

Por Kamille Viola

O estúdio, grande, próprio para a gravação de orquestras, iria receber uma festa. Músicos das bandas Traffic e Bad Company estavam entre os convidados. Chris Blackwell, fundador da Island Records, cuidava pessoalmente dos detalhes. Ele, que dois anos antes tinha revelado Bob Marley ao mundo com o disco Catch a Fire, agora estava gravando em seus estúdios um disco de Jorge Ben. No espaço, um palco montado.

A ideia era apresentar Jorge ao público inglês. Os integrantes da banda do artista, Admiral Jorge V, estavam maravilhados com tudo aquilo – principalmente Dadi Carvalho e Gustavo Schroeter, fãs das bandas de rock britânico. Não bastasse a qualidade técnica do estúdio onde vinham trabalhando, muito superior aos do Brasil, agora estavam frente a frente com alguns de seus maiores ídolos. O único que não parecia estar nada animado com a ideia era o próprio Ben.

A chegada tinha sido com pompa: quando aterrissaram em Londres, os músicos de Jorge Ben foram recebidos por dois carros de luxo, um Bentley e uma Mercedes 600, estilo limusine, para levá-los ao hotel. O artista, sua esposa, Domingas, e o produtor Armando Pittigliani, que estava viajando como road manager, tinham ficado em Paris: quando a banda embarcou para a capital inglesa, o casal ainda não tinha entrado no avião. Pittigliani foi atrás dos dois e acabou sendo deixado de fora do voo também.

Naquela noite, os músicos jantaram com Robin Geoffrey Cable, que havia trabalhado em discos de nomes como Carly Simon e Queen, sua esposa, a portuguesa Tina – que seria a intérprete e tradutora das gravações – e Blackwell com sua primeira mulher, Ada Blackwell. O dono da Island Records comentou com Dadi sobre sua expectativa para as gravações e contou de seus planos de fazer um show de Jorge para apresentá-lo a músicos ingleses e grandes nomes do show business local.

Ben chegou cansado para o jantar e disse, em tom de brincadeira, que tinha achado seu quarto pequeno. Pudera: nas turnês internacionais, ele sempre ficava hospedado em hotéis de luxo, tendo chegado a passar uma longa temporada no suntuoso George V, em Paris. Na noite seguinte, todos se reuniram no estúdio – o mesmo onde tinham sido mixados os discos mais recentes de Bob Marley e onde ele viria a gravar os clássicos álbuns Exodus (1977) e Kaya (1978) – para discutir detalhes das gravações. Blackwell ofereceu um cigarro de haxixe para os músicos e todos os brasileiros recusaram. Depois, Dadi explicou à intérprete que eles não fumavam na frente de Jorge, que era abstêmio.

A gravação correu bem, com o registro feito como se fosse ao vivo, no estúdio de 24 canais. A fita rolava e eles iam tocando repetidamente cada faixa até que Cable considerasse que tinha a melhor versão. Assim, tudo soaria mais natural.

Até o dia da festa, que contaria com um pocket show, Jorge não tinha sido avisado de que iria se apresentar. Depois de emendar a maratona de shows em Paris com as gravações, ele sentia que sua voz estava rouca. Além de tudo, não gostou de ser surpreendido. Então disse que não tinha ido ali para fazer show, e sim para gravar. “Pensa num troço enorme. […] E ele botou um palco lá dentro, para homenagear o Jorge. Aí convidou a elite brasileira lá, turma da embaixada, uns duzentos caras, fez uma puta festa, comilança e o caralho. E o Jorge ficou puto! O Jorge falou: ‘Eu não vim aqui para isso, para ficar tocando, vim aqui para gravar um disco!’”, conta Gustavo, o baterista.

“Ele estava cansado, meio de mau humor – porque o Jorge tem isso, quando ele está de mau humor, não tem saco para nada. Aí é difícil, sabe? Lá em Londres, ele estava um pouco assim. O Chris Blackwell falou para mim: ‘Adoro todo mundo do Brasil, adoro o Gil, adoro o Caetano, mas quem tem condição de fazer sucesso no mundo inteiro é o Jorge Ben’”, lembra Dadi. “O que ele tinha já estava bom pra ele, sabe? Ele ia lá, fazia uns shows, voltava, não queria mais que isso, não, eu acho. Ele curte na hora em que está ali, gravando. Até o momento que teve essa festa: aí ele ficou de mau humor, ficou sem saco. Tanto é que tocou duas músicas, jogou a guitarra e foi embora”, recorda.

Empolgados por estar lado a lado com artistas que admiravam, os roqueiros Dadi e Gustavo seguiram numa jam session com Steve Winwood no piano Rhodes, o baterista Jim Capaldi (que Dadi já conhecia do Brasil, pois ele era casado com a brasileira Ana Campos), ambos ex-Traffic, e músicos do Bad Company. A festa foi até cinco da manhã.

Quando voltaram ao hotel, encontraram Jorge, Armando, João e Joãozinho no restaurante, com uma garrafa de champanhe vazia. O pai de Dadi, com saudade, ligou para o hotel em busca dele. “Ele quis falar com todo mundo, e ficamos no telefone quase uma hora, rindo muito. Fomos dormir lá pelas oito da manhã”, conta9.

Blackwell tinha conhecido Jorge Ben em sua vinda ao Brasil em novembro de 1974, acompanhado por Capaldi (que no ano seguinte se casaria com Ana) e Chris Wood, do então recém-extinto Traffic. Segundo a imprensa brasileira da época, Blackwell teria vindo ao Rio de Janeiro atrás de Cat Stevens, que já estava na cidade havia dois meses. Depois de um jantar na casa de André Midani, que presidia a gravadora Philips – onde conheceu Ben, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e Rita Lee –, o fundador da Island Records convidou Jorge para fazer um disco na Inglaterra.

Os músicos passaram vinte dias gravando no estúdio, com produção e mixagem de Robin Geoffrey Cable. Jorge foi acompanhado pela banda que havia acabado de formar, Admiral Jorge V, com Dadi (baixo), João Roberto Vandaluz (teclado), João Baptista Pereira, o Joãozinho da Percussão (percussão) e Gustavo (bateria). Três cantoras de estúdio locais (as britânicas Barry St. John e Liza Strike, e a neozelandesa Joy Yates) fizeram os vocais de apoio, e o trabalho ainda contou com sax e sintetizador de cordas, tocados por artistas locais (Chris Mercer e Ann Odell, respectivamente).

O baterista lembra que eles ficaram encantados com a estrutura do lugar: “Eram 24 canais, em 1975. Aqui não tinha oito (risos)! Já tinha aquele estúdio maneiro, grande, aquele mesão. […] Só eu tinha oito canais de bateria. Eu! Tinha oito canais para mim, aaaah! Bumbo, caixa, cada tom-tom absurdo, pratos, contratempo. […] Eu nunca vi isso na minha vida. Eu falei: ‘Eu estou aqui no paraíso! Aqui é o paraíso’! (risos)”.

No disco, tudo ganhou uma sonoridade mais pop. Foram gravadas “Taj Mahal” (em versão roqueira e com sopros bem influenciados pelo reggae), “Os alquimistas estão chegando s alquimistas”, “Chove chuva”, “O namorado da viúva”, “Mas que nada” e “País tropical”. Completavam o repertório as inéditas “Jesus de Praga” e “Georgia” (sendo o nome da musa falado em inglês), além de uma faixa em inglês, “My Lady”, cantada com a pronúncia deliciosamente macarrônica de Ben, que havia saído na trilha da novela As divinas… e maravilhosas, da TV Tupi, em 1973.

Em novembro do mesmo ano, os músicos ainda voltaram a Londres para fazer os overdubs do álbum. Dessa vez, ficaram em um hotel cinco estrelas, o Skyline Park. Mas, aparentemente, a “lua de mel” do produtor inglês com Jorge Ben tinha acabado no episódio da festa. Tropical sairia no ano seguinte na Inglaterra (e em 1977 no Brasil), sem grande alarde. Não se tem notícia de que Blackwell tenha voltado a falar em Jorge Ben.

A situação evidenciava algo que se repetiria ao longo da carreira de Jorge: para o bem ou para o mal, ele faria apenas aquilo que quisesse. Dono de uma personalidade forte, quando ele cisma com algo, dizem, não há quem o convença do contrário.

Ele tinha passado um período fora do Brasil pela primeira vez dez anos antes, quando se apresentou em clubes e universidades norte-americanos. A temporada, no entanto, acabou sendo menor do que o previsto, como o próprio artista contaria anos depois, em 1978:

“A minha primeira experiência internacional foi em 1965, quando o Itamaraty enviou alguns músicos, entre eles o Sergio Mendes, em missão cultural aos Estados Unidos. Fui incluído e ganhei uma bolsa para estudar música. Não cheguei a fazer o curso, pois não falava inglês. Não fiz muita coisa por lá, pois fiquei pouco tempo. É que para trabalhar por lá era necessário adquirir o Green Card, e acabei tendo que me alistar no Exército Americano. Fiz isso por pura formalidade, para conseguir trabalho. Só que acabei convocado para ir ao Vietnã e tive que voltar às pressas.”

Em entrevista ao Pasquim, em 1969, ele afirmara, já demonstrando consciência racial: “Negro e estrangeiro, lá nos Estados Unidos, são os primeiros a ir pro Vietnã”.

Em 1966, Mendes lançou uma versão de “Mas que nada” no álbum Herb Alpert Presents Sergio Mendes & Brasil ’66. A música se tornou um grande sucesso, chegando ao quarto lugar da parada Adult Contemporary da Billboard. Ela ganharia versões feitas por nomes do quilate de Dizzy Gillespie (em 1967) e Ella Fitzgerald (1970), entre inúmeras outras. Em 1969, Jorge comentou que só nos Estados Unidos a canção tinha 47 regravações.

Ele teve mais três composições entre as mais vendidas e executadas naquele país: “Zazueira”, com Herb Alpert, “Nena Naná”, com José Feliciano, e “Chove chuva”, com Sergio Mendes. No Brasil, em 1969, Herb Alpert disse que o artista estava desperdiçando uma chance por não aproveitar a onda: “ele poderia ocupar hoje, tranquilamente, o lugar que José Feliciano tem no mercado latino dos Estados Unidos”.

Jorge conta que outra virada em sua carreira aconteceu quando se apresentou no Midem, na França, em 1970: “Quando subi ao palco e vi aquelas pessoas seriíssimas, engomadas, pensei: ‘o que é que eu faço agora?’. A minha sorte é que ‘Mas que nada’ era sucesso com o Sergio Mendes e todo mundo conhecia. Bastou eu começar a cantar pra sentir que todo mundo tava na minha. Fui bisado e a partir dali choveram propostas de trabalho”. O show ficou marcado por seu choro intenso enquanto apresentava “Domingas” (do álbum Jorge Ben, de 1969).

Jornal do Brasil noticiou na época: “Com relação à apresentação de Jorge Ben, o empresário norte-americano George Grief, responsável comercial por José Feliciano e outros cantores famosos, disse que foi a coisa mais importante que vira no festival, sugerindo ao mesmo tempo que Jorge Ben fizesse uma excursão pelos Estados Unidos e Europa”. O próprio artista, de volta ao Brasil, confirmaria o convite.

Em um artigo no Pasquim naquele ano, Chico Buarque, exilado em Roma, contava o encontro que teve com Jorge e o Trio Mocotó na capital italiana logo após o Midem.

“Mas Jorge e seus Mocotós partiram depressa sem explicar direito como foi o negócio lá em Cannes, no festival do “Midem”. Agora cá está o jornal italiano que não me deixa nem exagerar. “O pranto de Jorge Ben” é a manchete. “Não é sempre que a gente vê – diz o jornal – um grande negro de calças escarlates chorar tão desconsoladamente como chorava esta noite o cantor brasileiro. Seus próprios acompanhantes pareciam preocupados, embora continuassem sorrindo ao público para tranquilizá-lo. Jorge Ben chorava sobretudo com o nariz que se lhe dilatou e inchou…” e vai por aí afora. O enorme sucesso de sua música, para o jornalista europeu, é de menos, estava previsto. Inédita é a sinceridade, a ingenuidade de Jorge chorando, enquanto sua cotação subia tantos pontos e seu nome era cogitado, cochichado, pechinchado, revendido e valorizado no mercado internacional do disco. O que parece melancólico, mas é ótimo, é de morrer de rir. É de mandá o piá pegá o tutu, comprá outro fu, machucá as escô e beliscá o mocotó das criô do pa tropi.”

Simonal e Astrud Gilberto também se apresentaram na mesma edição do Midem, e Eliana Pittman foi uma das apresentadoras. Mas Ben foi quem deu o que falar.

Apesar do projeto frustrado de Blackwell de tornar Jorge “o novo Bob Marley”, o artista nunca deixou de se apresentar fora do Brasil. Até hoje, viaja frequentemente à Europa. Em novembro daquele mesmo ano, ele e a Admiral estavam de volta à França para uma nova temporada em Paris. Também foram ao programa Micky Metamorfosis, da TVE, a TV pública espanhola, onde o apresentador Micky diz ao cantor, que vestia uma camisa do Flamengo e já usava os inseparáveis óculos escuros: “Eu, cada vez que te escuto tocar, cantar e improvisar, é como se fosse o Pelé da música. Então bem-vindo ao meu programa e oxalá ganhes esse primeiro encontro com o público espanhol por uma grande, grande goleada”.

Jorge e seus músicos apresentam um medley (ele já usava esse formato pelo menos desde 1973, quando o registrou em disco) com “Por causa de você, menina”, “Chove chuva” e “Mas que nada”, com direito a solos de cada um dos instrumentistas. O artista já aparece tocando um violão Ovation, plugado.

Gustavo Schroeter recorda um episódio em Hamburgo, na Alemanha. Acostumado a reações efusivas da plateia em seus shows, o cantor ficou preocupado, pois o público só aplaudia, educadamente, ao fim de cada música. “O que está acontecendo?”, ele perguntava à banda. Resolveu dar uma pausa. “O Jorge nunca deu intervalo. Era pau dentro, pá, direto, show inteiro, pum (risos)”, diz. No camarim, se mostrou preocupado. Armando Pittigliani, produtor dos três primeiros discos do artista e então diretor de marketing da Philips, contemporizou, dizendo que alemães tinham mesmo reações diferentes.

O segundo set teve um pouco mais de efusividade, mas nada comparado à resposta das plateias com que estavam acostumados. Dali, foram a um restaurante badalado, próximo do local da apresentação. Quando Jorge e banda entraram, todos se levantaram e começaram a aplaudi-los. “Fico arrepiado (de lembrar). Nunca vi isso na minha vida. Nunca vou esquecer”, jura o baterista.

Em uma turnê no México – uma temporada em um hotel –, o percussionista Laudir de Oliveira (morto em 2017) foi assistir a uma apresentação. O músico tinha integrado a banda Brasil ’77 de Sergio Mendes e então estava com o grupo norte-americano Chicago, no qual ficaria por oito anos. Convidou todos para assistir a um show da banda. Gustavo e Joãozinho foram. Na sequência, foram para uma festinha com a banda. “Eu e o Joãozinho saímos numa limusine do Laudir. Cada limusine com um integrante! E fomos para um hotel lá, acho que Sol de América, Sol de… alguma coisa. […] Duplex, tudo enorme, os quartos. Altas farras fizemos lá depois”, lembra Schroeter. Já Joãozinho conta que foi chamado para acompanhar o Chicago em suas turnês, mas seguiu com Jorge Ben.”

Primeiro capítulo do livro África Brasil – Um Dia Jorge Ben voou para toda a gente ver.

A radialista inglesa Annie Mac teve uma ideia massa: convidar DJs para discotecar em festas e festivais que não aconteceram esse ano ao criar o programa Set That Never Happened – o set que nunca aconteceu – e chamou o grande Fatboy Slim para inaugurar a série, chamando-o para tocar como se estivesse no clubinho temporário Rabbit Hole, que acontece no festival de Glastonbury. Não dá pra embedar aqui, tem que ir no site da BBC – e logo, porque já já sai do ar.

Eric Prydz – “Nopus”
CamelPhat – “Easier (feat. LOWES)”
Hot Since 82 – “Rules”
High Contrast – “Going Up”
Fatboy Slim & Eats Everything – “All The Ladies”
Patrick Topping – “New Reality (feat. Hayley Topping)”
DJ Zinc – “Out Of Control (feat. Kudu Blue)”
Origin8a & Propa – “Harmony (Benny Page Remix)”
House Gospel Choir – “Keep On Moving”
Paul Woolford & Diplo – “Looking For Me (feat. Kareen Lomax)”
Love Regenerator – “Hypnagogic (I Can’t Wait)”
Gigi D’Agastino & Dance System – “Blah Blah Blah (Dance System’s Lockdown Edit)”
Dance System & UNiiQU3 – “Get Up On It!”
Obskur – “Bayside”
Marco Faraone & Greeko – “Armaghetton”
Watch The Ride – “That’s Da”
Flava D – “What You Mean 2 Me”
Chase & Status – “No Problem”
Noisia & The Upbeats – “Dead Limit”
Metrik – “Hackers”
Culture Shock – “Bunker”
Sub Focus – “Solar System”
Dimension – “Devotion (feat. Cameron Hayes)”
Kanine – “Want You”
Wilkinson – “Take You Higher”
Culture Shock – “Renaissance”
Sub Focus & Wilkinson – “Illuminate”
Calyx & TeeBee – “Elevate This Sound”
Dimension – “UK”
Sub Focus & Dimension – “Desire”
Loadstar – “Link To The Past”
Wilkinson – “Afterglow”
Dossa & Locuzzed – “Shag”
Top Cat – “Original Ses (Police in Helicopter) (feat. Congo Natty)”
Wilkinson – “I Need (Wilkinson & Metrik Remix)”
Chase & Status – “Blind Faith (feat. Liam Bailey)”
Benny L – “Vanta Black”
Adam F – “Circles (Pola & Bryson Edit)”
BOU – “Poison”
Sub Focus – “Tidal Wave (feat. Alpines)”
Ivy Lab – “Sunday Crunk (Mefjus Remix)”
Rusko – “Everyday (Netsky Remix)”
High Contrast – “Remind Me”
Sigma – “Nobody To Love”
Lady Blackbird – “Collage (Bruise Piano Refix)”
Joesef – “Does It Make You Feel Good (Denis Sulta Remix)”
Moi Renee & Honey Dijon – “Not About You Miss Honey (KDA VIP Moment)”
Logic 1000 – “I Won’t Forget”
Mall Grab – “Room Full Of Rothko”
Meg Ward – “Melbourne Street”
DJ Obek – “Craissy (feat. Ambush)”
Phats & Small – “Turn Around (Mousse T Remix)”
Catz ’n Dogz – “The Choice (Beton Tributes To The Classics Mix)”
Marco Santoro – “My Body”
UAP – “BiMac (The Cube Guys Mix)”
Silvano Del Gado – “Tropical Drummer”
Underworld – “Born Slippy”
Gigi D’Agostino – “Bla Bla Bla”
Winx – “Higher State Of Consciousness (FBEE Remix)”
BUKA! – “Acidisco”
Ben Hemsley – “Please Playboy”
Tom Middleton – “Penrose Steps”
Roland Clark – “If You Believe”

O coletivo carioca Digitaldubs convoca o MC britânico YT para recriar a faixa-título do disco de 2016 do grupo baiano Baianasystem em duas versões – uma mais tradicional e outra deformada pelos ecos do dub.

Sonzeira!

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A revista norte-americana de mercado Production Weekly, fechada para assinantes, anunciou em sua última edição, entre as novidades que soube em relação ao mês de dezembro deste ano, que o grão-mestre David Lynch estaria desenvolvendo uma série pra Netflix, que começaria a ser produzida a partir de maio do ano que vem no Calvert Studios, onde também filmou partes da terceira temporada de Twin Peaks. Wisteria também é referida como Untitled David Lynch Project e aparentemente é uma série com episódios sem relação entre si – e não tem nenhuma relação com Twin Peaks, como o cocriador da série, Mark Frost, fez questão de frisar no Twitter (o que não diminui a expectativa sobre uma possível quarta temporada). No meio do ano, Lynch deu uma entrevista para o site Daily Beast sobre a guinada YouTuber que o diretor deu durante a quarentena e ameaçou, de forma enigmática, que “talvez tenham coisas vindo aí que possam significar que poderei gastar menos tempo com o canal”. Lynch já começou o ano com um pé no serviço de streaming, quando lançou o curta What Did Jack Do?, em que ele mesmo interrogava um macaco.

Foto: Manuela Eichner

Foto: Manuela Eichner

Depois de ajudar Criolo a parir seu Nó na Oreia, dar um chão ao Metá Metá com seu baixo implacável e condensar seu lirismo em canções intimistas (em seu primeiro álbum solo Motor), Marcelo Cabral aproveitou a quarentena para enveredar pela música eletrônica. “Já faz um tempo que tenho usado o Protools como laboratório de ideias e me dei conta que estava sempre fuçando o sintetizador, sampleando e picotando tudo, mas sem fazer qualquer triagem disso, às vezes só pelo exercício de dichavar os tutorias ou só apertando e girando todos os botões possíveis pra ver onde iria dar, mas sem pensar exatamente num disco”, lembra. O canal para seu segundo disco, Naunyn, que chega às plataformas digitais nesta sexta-feira (e que ele antecipa mostrando a faixa “Mariannen” em primeira mão para o Trabalho Sujo.

“O sintetizador te dá todas as ferramentas. Dependendo de como você mexe num timbre, uma nota pode virar uma caixa, um chimbal ou bumbo e etc, além do banco de timbres melódicos que já vem nele. Teve um momento que comecei a curtir muito não samplear nada e criar tudo só no synth e fiz algumas assim, que ainda estão na incubadora. A música eletrônica é uma música inventiva, uma linguagem, não é apenas a intenção de querer soar e imitar um instrumento, é um som novo, um novo instrumento e com isso te leva a outros lugares e possibilidades. Curto demais isso desde sempre, é um outro tipo de transe e profundidade que os sons sintéticos chegam, que sempre me pegou muito. Tava tudo guardado só esperando a hora e por qual canal sair”, pondera.

O ponto de partida foi um sintetizador específico, que Cabral relembra seus primeiros contatos. “Por algum motivo eu já estava fuçando o OP-1 pela internet a um tempo e quando gravei em 2019 no estúdio do Bruno Buarque e dei de cara com ele ao vivo. Ele me ofereceu para fazer um test drive caseiro por uns dias. Não peguei no dia, mas isso ficou coçando isso até o começo de 2020, quando enlouqueci completamente, igual criança com brinquedo novo. Não fiz mais nada durante dias e só expremendo ele de todos os lados e vendo tutorias no Youtube, e logo veio aquela voz ‘vai salvando que tem assunto ae’, e quando vi já tinha uns 4 ou 5 esqueletos que eu tava curtindo e fiquei alimentando cada um e notei que poderia sair um disco dali”, remonta o baixista.

O disco é influenciado diretamente pela estada do baixista em Berlim, na Alemanha, onde passou um ano e meio entre 2018 e 2019. “Primeiro teve a paixão pelos sons sintéticos que curto desde sempre, mesmo bem antes de pensar em ser músico, eles já estavam presentes em muita coisa que ouvia desde muleque”, conta. “Mas sem dúvida foi a experiência dos clubs e festivais de Berlim somado as pesquisas que fiquei fazendo por lá que bateu essa instiga mesmo. Quando caiu o OP-1 na mão, foi só deixar fluir tudo isso e arrematando os cantos.”

O nome do disco vem da rua em que morava com sua companheira, a designer Manuela Eichner, durante essa estada. “É uma rua de três quadras bem no meio de Kreuzberg, tipo paralela à Augusta deles, de maioria turca e bem tranquila em meio a dois rios, Landwehr Canal e Spree, e a uma quadra do Görlizter Park e com clubs de todos tamanhos e estilos pra todos os lados. Fui muito também na Hard Wax, que ficava a duas quadras do nosso apê pra pesquisar e ficar ouvindo e fazendo cara de que ia comprar e não comprava nada, só com o Shazam ligado e anotando os sons”, lembra, rindo.

Pergunto sobre o inevitável impacto da quarentena nesta produção e Cabral reflete: “Tem uma viagem diferente e profunda em fazer um disco absolutamente sozinho, sem nem perceber emendava a tarde com noite e a noite com a madrugada, só com o fone e totalmente imerso no som, sem ninguém pra conversar, no lockdown entre março e maio, ou dispersar.”

E quando comento sobre a sonoridade oitentista do disco, que traz elementos de pós-punk, new wave e hip hop daquele período, Cabral concorda. “Não é consciente no sentido de querer fazer pra que soe de tal forma ou pertença a algo, mas no sentido ter conhecimento e vivência nestes três estilos que você citou e mais alguns se somaram. São sons que eu trago naturalmente dentro de mim da minha infância e adolescência toda andando e competindo de skate. Era o boom do pós-punk e new wave e também o começo do rap, era só o que eu ouvia, junto com punk e o hardcore. Fiquei também ouvindo e conhecendo mais do mundo techno, tanto de Detroit como do resto do mundo, mas principalmente de Berlim, além do universo do Richie Hawtin e seus projetos – Plastikman e F.U.S.E. – que já é um cara que deu uma mexida em tudo isso.”

Cabral não pensa em fazer shows com esse trabalho e vê esse disco funcionando melhor na mão de DJs. “Talvez este isolamento me traga alguma idéia de como levá-lo para o palco”, cogita, “o Motor também teve isso, eu não me via fazendo um show e cantando e depois achei este caminho que estava adorando e que espero ansiosamente voltar, então todas as possibilidades estão em aberto.”

zizek-ann

E se Ayn Rand e Slavoj Žižek se juntassem para fazer um dueto. Dois extremos da filosofia política foram reunidos em dois duetos feitos por computador e dividem vocais em “I Got You Babe” da dupla Sonny & Cher e “Barbie Girl” do grupo Aqua.

A façanha é culpa do canal Vocal Synthesis, que coloca dispositivos de transcrição de texto para voz treinados a partir dos padrões de discursos de vários personagens históricos para colidir conceitos e criar paradoxos improváveis como esses. E o canal tem muito mais disso por lá…

fionaapple

“Shameika” é uma das músicas mais fortes do ótimo Fetch the Bolt Cutters que Fiona Apple lançou de surpresa no primeiro semestre deste ano – enquanto martela o piano desenfreadamente, ela relembra dos dias de escola, quando era vítima de brincadeiras pesadas de outros alunos, revidando também de forma agressiva, enquanto contava os segundos riscando-os um a um no caderno na sala de aula. Até que uma colega de classe, que nem era amiga direito de Fiona, chegou para ela e disse que ela tinha potencial. “Shameika me disse que eu tinha potencial”, repete o extático refrão que carrega o nome da música e de sua conhecida na escola. “Foi como se eu tivesse tentando mandar isso para ela de forma telepática”, Fiona contou ao site Pitchfork, “Como se eu tivesse querendo fazer que a música chegasse de alguma forma a seu cérebro, que ela tivesse um retorno… Um voto de confiança. Ou apenas um obrigada.”

Shameika Stepney, uma rapper que já se apresentou como Dollface e Chyna Doll, ficou sabendo da canção por uma professora das duas na época, Linda Kunhardt, que dizia: “Shameika, espero que esta carte lhe encontre bem durante a quarentena. Eu tive que te escrever porque eu não sei se você se lembra desta garota Fiona McAfee. Você disse para ela não dar atenção para os brigões e que ela tinha potencial. Eu só queria lhe agradecer. E queria que você soubesse que suas palavras proféticas se transformaram numa linda canção com seu nome.”

As duas se encontraram algum tempo depois e se deram bem a ponto de Fiona participar de uma nova música que a rapper lançou com seu próprio nome, “Shameika Said”.

E, por sua vez, Fiona chamou Shameika para participar de uma nova versão de “Shameika” transformada em vídeo:

Que massa.

itamar-anelis

Projeto dos sonhos de Anelis Assumpção, o Museu Itamar Assumpção finalmente saiu do papel. O projeto virtual, primeiro museu dedicado a um artista negro no Brasil, celebra a importância de seu pai e o coloca na devida perspectiva afrobrasileira, para além dos circuitos intelectuais, que o classificam como “excêntrico”, “vanguarda” ou “difícil”. Não por acaso o museu, conhecido pelo genial acrônimo MU.ITA, foi inaugurado nesta sexta-feira, dia da consciência negra, reunindo inúmeros registros sobre a vida e obra do mestre Beleléu em versão virtual e também é o primeiro museu brasileiro com tradução para iorubá. O lançamento foi marcado por um show apaixonado que Anelis assumindo fez no Teatro Sérgio Cardoso – com todos os protocolos de segurança e sem púbico, claro – cantando as canções de seu pai acompanhada por sua banda, com direção magistral de Ava Rocha. Sente o drama:

“Nosso Pai”, com Denise Assunção
“Mulher Segundo Meu Pai”
“Receita Rápida”
“Meus tempos de criança”
“Filho de Santa Maria”
“Batuque”
“Nega Música”
“Persigo São Paulo”
“Ir pra Berlim
“Que tal o impossível?”
“Milágrimas”
“Beleléu Via Embratel”
“Devia ser proibido”

Que maravilha

joon

A cantora maltesa Yasmin Kuymizakis revisita o hit do Bananarama “Cruel Summer” com seu projeto eletrônico Joon – a versão já havia sido mostrada na coletânea After Dark 3 do selo Italians Do It Better e agora ganha um clipe pós-pandêmico…

“Strange voices are saying… What did they say?…”

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Nem tudo que eu e Pablo Miyazawa gravamos no Altos Massa vai para a edição final – e como Pablo é quem edita o programa, ele foi separando conversas anteriores para essa edição sazonal que apelidamos de #tapaburaco. A conversa não segue um tema, mas de alguma forma segue, pois falamos sobre apps de relacionamentos, como lidar com o capitalismo na internet, o que podemos aprender com as plantas, shows que não perdemos, ser kitsch com orgulho, a obsessão dos fãs pelo Metallica, egoísmo, meia-idade, ficar preso no banheiro morando sozinho, lidar com doenças na família e como funcionam os canais no YouTube. Vem com a gente!