
No Twitter, o Jéferfon Menezes publicou o resultado das provocações que fez a um programa de inteligência artificial para que este completasse capas de discos clássicos brasileiros para além de suas fronteiras visuais – e como essa tal de IA viaja…
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Mais um banho de axé que é esse show que o Russo Passapusso formou ao lado da sua dupla de ídolos Antonio Carlos e Jocafi aconteceu nessa sexta-feira, na Casa Natura Musical, que ainda contou com a presença de Karina Buhr em duas canções. Não bastasse o encontro mágico deste trio, que, mais uma vez, usa o recurso cênico da mesa de boteco para recuperar as energias dos veteranos da música baiana, a banda formada para acompanhar esse encontro é inacreditável: Curumin, Zé Nigro, Lucas Martins, Saulo Duarte, Maurício Badé, Edy Trombone, Estefane Santos e o maestro Ubiratan Marques, além da participação do ator Luiz Carlos Bahia. No final da noite, o vocalista baiano emendou duas faixas de seu primeiro disco solo (a faixa-título “Paraíso da Miragem” e “Paraquedas”) e transformou tudo em vibração curativa junto ao público que era exatamente o que ele estava precisando, num final emocionante. É o melhor show brasileiro atualmente, se passar por perto, não deixe passar – que a alma sai nova em folha.
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(Foto: Victor Cohen/divulgação)
Outro dia a ex-baterista do Lava Divers, Ana Zumpano, que mudou-se para São Paulo em 2019 e vem jogando em diferentes posições da cena indie, me procurou para falar de seu novo projeto, que começou como uma sessão de ensaios com o guitarrista Beeau Goméz e aos poucos foi ganhando corpo, apertando ainda mais o pedal da psicodelia garageira que paira sobre a cena indie brasileira desde o início do século. A dupla finalmente estreia no mundo fonográfico nesta sexta-feira, quando lançam seu primeiro single, “Voo”, nas plataformas digitais e dividem o palco com os grupos Monchmonch e Bumbomudo nessa sexta-feira, no Fffront, em São Paulo. E ela descolou o primeiro clipe da banda em primeira mão para ser visto aqui no Trabalho Sujo, que já dá um gostinho da lisergia que vem por aí…
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Mais um dos discos abatidos pela pandemia, o excelente Corpo Nós, primeiro disco solo do guitarrista Guilherme Held, finalmente será lançado ao vivo. O disco, dirigido por Rômulo Froes, reúne não apenas a produção musical do guitarrista discípulo de Lanny Gordin, como boa parte dos artistas com quem ele colaborou nas primeiras décadas de sua carreira – um elenco estelar que inclui Criolo, Curumin, Tulipa Ruiz, Kiko Dinucci, Mariana Aydar, Rubel, Marcelo Cabral, Daniel Ganjaman, Thalma de Freitas, Juliana Perdigão, Fernando Catatau, Pericles Cavalcanti, Dudu Tsuda, Filipe Catto, Simone Sou, Thiago França, Bruno Buarque, Bixiga 70 e tantos outros, além de mestres como Milton Nascimento, Jards Macalé e Letieres Leite. Para o show que acontece nesta quinta-feira, no Sesc Pompeia, Held reuniu uma banda de peso, formada por Sérgio Machado (bateria), Fábio Sá (baixo), Dustan Gallas (teclados), Allan Abaddia (trombone), Cuca Ferreira (sax), Rômulo Nardes (percussão) e participações de Ná Ozzetti, Romulo Fróes, Iara Renó e Marcelo Pretto. O disco foi lançado em 2020, durante a pandemia, e por isso não teve um show de lançamento de fato, falha que será corrigida nesta quinta-feira, às 21h30, no Sesc Pompeia, e Held aproveitou a deixa para mostrar o clipe que fez para “Tempo de ouvir o chão”, que tem as participações de . Juliana Perdigão e Romulo Fróes, lançado em primeiro mão aqui no Trabalho Sujo. “É uma produção simples, com efeito super 8, que traz os convidados da canção e a participação dos meus cachorros John e Yoko”, explica o guitarrista. “São cenas na minha laje e na janela do Rômulo, sem muito roteiro e só no bom gosto do Mihay, diretor do clipe”.
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Kenneth Anger, que morreu nesta quarta aos 96 anos, misturou ciências ocultas, experimentos de imagem, cultura gay e o baixo calão de Hollywood para revolucionar a contracultura dos anos 60 e o cinema de vanguarda em clássicos cult como Fireworks (1947), Inauguration of the Pleasure Dome (1954), Scorpio Rising (1963) Lucifer Rising (1972) e Invocation of My Demon Brother (1969).

Apesar de ambos serem octagenários, Jards Macalé e João Donato, que apresentaram-se nessa quinta-feira na Casa Natura Musical, são de gerações diferentes. Gravaram juntos há quase dois anos o sensacional Síntese do Lance completamente entrosados, mas os oito anos que os separam eram uma era geológica quando começaram na música – Jards ainda estava aprendendo a tocar seu violão quando Donato já se esbaldava na vida noturna carioca com seu piano. O ponto em comum, relembrado pelos dois, era João Gilberto: um dos primeiros ídolos de Jards tocava nos mesmos palcos que também se apresentava o tecladista acreano quando nem bossa nova existia e a aura do velho baiano pairava sobre a apresentação que fizeram juntos – num momento central do show, literalmente, quando Jards invocou o fantasma de João quando telefonou para seu velho número e recebeu uma canção postumamente (“Um Abraço do João”) seguido de uma canção de Donato que teve sua letra escrita por João (“Minha Saudade”). O entrosamento dos dois músicos era patente, mas a idade faz com que os dois não atravessem toda a apresentação juntos, fazendo sets solo ao lado dos músicos que os acompanhavam (o baixista Guto Wirtii, o baterista Renato Massa Calmon, o trumpetista José Arimatéia e o trombonista Marco Aurélio Tiquinho). Mas o bom mesmo era quando Jards e Donato estavam no palco ao mesmo tempo, celebrando uma música brasileira que ajudaram a transformar. Foi foda.
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Dois chuveiros que se encontram sob uma textura retrô. A letra da canção “Banho de Sal” ganha tons surrealistas no clipe que o jovem maestro Bruno Bruni escolheu para encerrar o ciclo de seu segundo disco, Broovin 2, que foi lançado durante a pandemia. “Essa música nasceu num período em que as parcerias musicais só tavam funcionando online”, lembra o músico. “Eu tinha essa música parada e mandei para a Ana Passarinho criar qualquer coisa em cima, meio sem compromisso. E ela acabou criando essa letra, que me pareceu super sincera sobre o momento que a gente tava vivendo – e a melodia que ela criou é foda. Pra mim essa música é sobre a necessidade de dar um banho na alma – e foi daí que o Tom Vouga, que dirigiu o clipe, tirou a idéia da trama entre chuveiros! Eu demorei pra entender até ver a fantasia pronta.” O clipe deste groove jazz funk estreia em primeira mão no Trabalho Sujo, explicando que o clipe foi filmado em VHS para passar uma “camada de verniz festa no McDonalds de millenial” e tornar o resultado final mais afetivo.
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E vocês viram que o velório de Rita Lee será no planetário do Parque do Ibirapuera? A despedida acontece na manhã desta quarta, a partir das 10h.

A estreia do projeto Rotunda – formado pelos cariocas Bella, Thiago Nassif e Cláudio Britto – aconteceu em São Paulo pois os dois primeiros vieram morar na cidade depois do período pandêmico. Criado durante a turnê que Nassif fez pela Europa no ano passado, quando foi acompanhado de Bella e Cláudio como integrantes de sua banda, o trio mistura as origens musicais de cada um de seus integrantes a partir da conexão entre células de som – boa parte delas vindo do samba, devido à presença de Brito, percussionista analógico e digital. A guitarra de Thiago, que por vezes pega o violão, também cai no samba, mas em muitos momentos trabalha no território oitentista em que afiou seu instrumento, entre o noise, a música latina, o pós-punk e o funk. Ligando os dois vêm as texturas sonoras de Bella, que também deixa cair no suíngue quando puxa seu synth bass completando o trio – e ela inclusive chega a cantar. Este primeiro show que aconteceu na terça no Centro da Terra marca a reta final da gravação do primeiro disco do grupo e contou com a participação de Negro Leo, que começou tocando um piano dissonante no escuro e logo assumiu o violão para engatar essa improvável – e contagiante – roda, ou melhor, rotunda, de samba.
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Meça suas palavras. Não perdemos Rita Lee. Nunca perderemos Rita Lee. Ganhamos Rita Lee, isso sim. Ela é uma personagem ímpar em nossa história, não apenas em nossa cultura, não apenas em nossa música, em nosso rock. Mas Rita é muito maior que tudo isso. É um acidente feliz que mudou completamente nossas vidas, contemporâneos dela ou (agora) não. Não é exagero dizer que essa paulistana mudou a história do Brasil.
Lógico que existiria rock brasileiro sem Rita Lee. Certamente muito mais sem graça, menos provocador, menos sexy, menos mulher. Não existe um ícone roqueiro tão preciso no Brasil, não tem Roberto Carlos nem Cazuza, nem Baby Consuelo nem Ney Matogrosso, nem Celly Campelo nem Renato Russo. Não à toa Rita não era comparada a nenhum de seus conterrâneos, as referências eram sempre internacionais. No dia de sua passagem não faltam comparações que a colocam ao lado de outros ídolos do rock, todos homens: “nosso Mick Jagger”, “nosso David Bowie”, “nosso Paul McCartney”… São comparações bem vindas, mas que morrem na praia, porque nossa Rita Lee era maior do que qualquer um desses, porque ela conseguiu ser tudo isso sendo mulher num país atrasado da América Latina e cantando em português. Nenhuma mulher do rock internacional tem a força e o espírito de Rita, nem Grace Slick, nem Patti Smith, nem PJ Harvey. Porque mesmo tendo saído de uma das bandas de rock mais importantes de todos os tempos (e pouco reconhecida internacionalmente como tal), ela superou a importância do grupo – e tornou-se uma estrela central em seu próprio sistema solar, mais do que um planeta girando em torno de um sol nostálgico.
Mesmo porque Rita Lee é muito mais do que rock. Só o início de sua carreira solo (minha fase favorita) pode ser rotulada estritamente como rock, discos gravados com os Mutantes embora lançados com seu nome ou lançados ao lado do Tutti-Frutti deveriam estar em quaisquer discografias básicas do gênero e a dobradinha Fruto Proibido e Entradas e Bandeiras é a porta de entrada pra quem quiser entender o que é o rock feito no Brasil. Mas depois disso, ela flertou com a disco music, preparou o terreno para a chegada do pop dos anos 80, gravou canções com sabor latino, crônicas pop, paródias de outros gêneros musicais, além das eternas declarações de amor aos Beatles.
Sua atuação ia para além da música, comemorando o feminismo, o hedonismo, a sexualidade, o uso de drogas recreativas e batendo de frente de qualquer tipo de autoritarismo que visse em sua frente. Era a primeira a se ridicularizar e fazer pouco de sua importância, mas sabia o quanto havia deixado ouvintes felizes, tornado outros tantos fãs e inspirados mais outros – e, principalmente, outras – a seguir a carreira artística. Não era uma mulher à frente do seu tempo – era o próprio tempo nos lembrando que era uma mulher. Uma mulher brasileira, desbocada e de saco cheio de tudo, mas também mãe e esposa amorosa e uma personalidade pública que nunca se esquivou de dar sua opinião em assuntos espinhosos – por mais que odiasse dar entrevistas. Seu papel como motor das transformações comportamentais que aconteceram no Brasil nas últimas décadas a coloca acima de nomes consagrados do pop brasileiro não apenas pelo fato de ser mulher (a imensa maioria dessa lista é composta por homens), mas pelo fato de ter seguido influente para várias outras gerações.
Também é uma personagem fundamental para a habilitação de São Paulo como polo cultural brasileiro, a mais querida torcedora do Corinthians, uma atriz nata, a popstar quem melhor explicou a androginia (e, infelizmente, a misoginia) por aqui, a primeira ativista pelos direitos dos animais que você conheceu, escritora de livros infantis e, claro, uma de nossas maiores compositoras. Seu domínio da canção brasileira aproximou nosso léxico musical à cultura pop do planeta e nos deu um repertório de hits que todos nós sabemos de cor.
Uma mulher imensa, uma estrela que não se apaga, a alma da rebeldia contemporânea do Brasil, devemos tanto a essa mulher que o mínimo que devemos fazer e mantê-la viva. Afinal de contas, ela é nossa.