Conversei com o Carlos Marcelo sobre a nova versão de sua biografia do líder do Legião Urbana, Renato Russo – O Filho da Revolução. O papo tá todo lá no meu blog no UOL.
“Acho que, além da insatisfação com a manutenção das desigualdades sociais, certamente ele reagiria ao avanço da cultura do ódio, da escalada de violência – virtual e real”, me explica o jornalista Carlos Marcelo, autor da biografia Renato Russo – O Filho da Revolução (Ed. Planeta), quando pergunto o que o vocalista do Legião Urbana, que morreu há vinte anos, acharia do clima belicoso que tomou conta do Brasil em 2016. “Renato sempre fazia questão de condenar de forma veemente o fascismo, e acredito que estamos vivendo tempos de comportamentos que se aproximam desse ideário pernicioso. Em síntese: ele não precisaria atualizar a letra de ‘Perfeição’, tudo que está lá continua valendo.”
Realmente, a letra da canção de 1993, carro-chefe do disco O Descobrimento do Brasil, conversa bastante com os ânimos acirrados e a frustração com o status quo deste ano:
“Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso Estado, que não é nação
Celebrar a juventude sem escola
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade.Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e sequestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda hipocrisia e toda afetação
Todo roubo e toda a indiferença
Vamos celebrar epidemias:
É a festa da torcida campeã.Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo o que é gratuito e feio
Tudo que é normal
Vamos cantar juntos o Hino Nacional
(A lágrima é verdadeira)
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão.Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isso – com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção”
A nova edição da biografia, lançada originalmente em 2009 e reeditada com mais informações este semestre, conversa de forma bizarra com o país deste ano, especificamente ao revelar que Renato era colega de classe do ex-ministro Geddel Vieira, pivô da saída do ministro da cultura do governo Temer, Marcelo Calero. O livro conta que Geddel queria entrar para o grupo de estudos de Renato Russo para conseguir uma nota melhor, mas o futuro vocalista do Legião vetou o futuro político, na época conhecido pelos colegas pelo apelido de “Suíno”, no mesmo instante, reforçando que “ele é in-su-por-tá-vel!” (leia a íntegra deste trecho no final do post).
Pelo que o biógrafo lembra, era o único futuro político com quem Renato conviveu quando ainda morava em Brasíia. “Outras personalidades da música brasileira passaram por Brasília e, mesmo sem ter convivido diretamente com Renato quando moraram lá, também passaram por um processo de transformação na capital: caso de Sergio Britto, dos Titãs e, especialmente, de Ney Matogrosso e Paulo Ricardo. No livro, eu narro a passagem dos três por Brasília. Sem contar, claro, Herbert Vianna, Bi Ribeiro, toda a Turma da Colina”, como era referido o grupo que deu origem à primeira geração de bandas de rock da cidade.
A nova edição do livro aprofunda-se, principalmente, nos últimos anos de vida de Renato Russo, que morreu em 1996. “Me impressionou o processo de criação de seus dois discos solo, ambos meticulosamente planejados por Renato, a dificuldade para finalização do disco A Tempestade, quando Renato já estava bem doente, e também algumas canções que passaram meio batidas quando foram lançadas, a exemplo de “Celeste” – parceria com Marisa Monte, gravada pela Legião em A Tempestade como “Soul Parsifal” – e “La Maison Dieu”, uma das faixas do disco Uma Outra Estação, de letra fortíssima – ‘Eu sou a pátria que lhe esqueceu/ O carrasco que lhe torturou…’ – , cantada em cima de uma base de blues em mais uma interpretação antológica do Renato. A entrevista com Marisa Monte, na qual ela fala que adora o disco póstumo O Trovador Solitário e relembra passagens de sua amizade com Renato, me impressionou. E o depoimento da mãe dele, que entrevistei novamente e me narrou como soube da morte do único filho, me emocionou. Tentei passar essa emoção no último capítulo da nova edição.” Além disso, há vasta iconografia sobre o artista, como algumas das imagens neste post.
Carlos Marcelo concorda quando comento sobre a singularidade de Renato Russo na história de nossa cultura. “É uma figura ímpar na música pop brasileira – não consigo recordar de ninguém, com exceção de Roberto Carlos, que tenha permanecido no topo por tanto tempo. Mesmo os dois grandes roqueiros brasileiros – Raul Seixas e Rita Lee – e os grandes medalhões da MPB – Gil, Chico, Caetano, Milton – tiveram seus altos e baixos”, conta o jornalista. “Renato conseguiu algumas façanhas inigualáveis: emplacar uma canção – ‘Faroeste caboclo’ – de nove minutos no topo das paradas, fazer o Brasil redescobrir a música italiana depois do lançamento do disco Equilíbrio Distante, fazer de uma regravação do Menudo – ‘Hoje à Noite Não Tem Luar’ – mais um sucesso radiofônico, apresentar às novas gerações o 14 Bis com a música ‘Mais Uma Vez’… E isso aconteceu pela combinação única de lirismo e energia, performance e espontaneidade. Como ele cantava, ‘é sangue mesmo, não é mertiolate”‘.
Pergunto sobre o material do grupo que ainda não foi lançado oficialmente: entre músicas inéditas a íntegras de shows, ensaios e versões alternativas, é farto o material do grupo que circulava em fitas cassete desde os anos 80 até em sites de download atualmente. “Existem muitas gravações que circulam pela internet”, lembra Carlos Marcelo, Há, por exemplo, registros de jams durante ensaios no Rio para as turnês dos discos As Quatro Estações e V que são bem interessantes. Mas, mais do que os registros piratas, acho que seria interessante assistir a um documentário apenas com imagens de shows da Legião. Seria uma experiência muito forte.”

Renato e integrantes de outras bandas na Temporada de Rock na ABO, um show que foi um marco da geração dos anos 80
Renato Russo – O Filho da Revolução seria uma ótima base para este material, Carlos Marcelo inclusive foi consultor de roteiro do filme Somos Tão Jovens, sobre os anos de Renato Russo antes do surgimento da banda. “Acho que o meu livro não comporta uma versão audiovisual nos moldes de um longa-metragem – como disse o próprio Vladimir Carvalho, diretor do documentário Rock Brasília – A Era de Ouro, depois de ler a primeira edição: ‘Carlos, você não escreveu um livro, fez um documentário de seis horas de duração’. Mas ainda acho que falta um documentário exclusivamente sobre Renato e a Legião, com ênfase no resgate da visceralidade das performances ao vivo. Mostrar na tela a tensão do inesperado, pois nenhum show da Legião foi igual a outro. Quem viu um show da Legião passou por uma experiência única. E intensa, às vezes perturbadora. E as novas gerações de fãs, lamentavelmente, não tiveram essa chance.”
Abaixo, o trecho da biografia em que Renato Russo veta o futuro político Geddel Vieira de participar de um grupo de trabalho na escola:
“A turma do Marista tem que preparar apresentação relacionada à música. De imediato, Renato avisa:
— O tema do meu grupo vai ser a história do rock.
Rigoroso na hora de selecionar os colegas de grupo, ele convida Maria Inês Serra e mais dois ou três felizardos que se mostraram dispostos a executar a tarefa como ele planejaria. Tinha gostado de trabalhar com Inês em uma pesquisa sobre cantigas de roda — o esforço alheio representava fator decisivo para a escolha. Deixa claro (a ponto de despertar antipatia e criar fama de chato) que não carregaria ninguém nas costas. Apesar dos pedidos de colegas como Geddel Quadros Vieira Lima para entrar no seu grupo pela garantia de notas altas na avaliação final. Filho do político baiano Afrísio Vieira Lima, o gordinho Geddel era um dos palhaços da turma. Chegava no colégio dirigindo um Opala verde, o que despertava atenção das meninas e a inveja dos meninos — que davam o troco chamando-o de “Suíno”. Tinha sempre uma piada na ponta da língua; as matérias, nem sempre.
— Eu vou ser político!
O jeitão expansivo garantia popularidade entre os colegas, mas não unanimidade. “Ele é in-su-por-tá-vel!”, justifica Renato para Maria Inês, dividindo as sílabas de forma enfática, ao sentenciar a proibição da entrada de Geddel em seu grupo.
A preparação do trabalho consome semanas. A pesquisa, concentrada no acervo guardado por Renato em seu quarto, inclui o detalhamento de aspectos controversos da biografia de ídolos do rock. Ao estudar a trágica trajetória de Janis Joplin e Jimi Hendrix, Renato comenta com Inês:
— Como é que pode alguém se drogar para fazer música?
As tardes de pesquisa, porém, não resultam apenas em fonte de inquietação sobre os destinos erráticos das estrelas do rock. Na parte mais divertida da preparação do trabalho, Inês observa o amigo escolher um disco, colocá-lo na vitrola e iniciar o show particular. Renato canta junto, faz solos imaginários de guitarra, dedilha violão, imita os artistas que se revezam no toca-discos. Reproduz o falsete de Elton John. “And I think it’s gonna be a long, long time…”, dubla o refrão de “Rocket Man”, do cantor e pianista inglês. Também capricha no tom grave da voz para imitar Elvis Presley — sem êxito. A amiga achou que estava escutando Jerry Adriani.
Mesmo sem a parte da dublagem, estrategicamente esquecida na 303 Sul, Renato e Inês recebem nota máxima pelo trabalho. Mais: são convidados a bisar a apresentação, dessa vez no auditório do Marista, diante de alunos de outras turmas do segundo grau. Além da explanação verbal, proporcionam aos colegas uma experiência audiovisual. Coladas em cartolinas, fotografias de ídolos do rock (selecionadas do acervo particular do líder do grupo) são exibidas enquanto o auditório é sacudido por trechos de clássicos do gênero, cuidadosamente pinçados e gravados em fitas cassete. Para aumentar a dramaticidade, Renato faz questão de resumir em frases de efeito, pronunciadas em tom incisivo, os pontos-chave das ideias defendidas no trabalho. Terminada a apresentação, começa o debate. Uma das colegas critica o rock e defende a MPB como porta-voz dos anseios da juventude brasileira. Diante do auditório lotado, Renato rebate:
— O rock é um movimento musical que revolucionou a música popular porque é o único gênero feito por jovens e para os jovens. Por isso, se tornou sinônimo de rebeldia.
Aplausos dos colegas e dos professores. Graças à convicção e ao conhecimento de rock, Renato passa com louvor no primeiro teste de popularidade diante de uma audiência imprevisível. Nada mau para um aluno até então notado nos corredores apenas pelas espinhas e muletas. Com ajuda de Inês, Elvis, Janis e Hendrix, Renato não era apenas mais um entre as centenas de alunos do segundo grau do Marista. Tinha deixado de ser invisível.”
Escrevi no meu blog no UOL sobre o porque do remake de Westworld, produção de JJ Abrams e Johnathan Nolan, já poder ser considerada a melhor série de 2016.
E a HBO conseguiu mais uma vez. Westworld vem superando todas as expectativas, episódio a episódio, e caminha para se tornar o grande evento da TV em 2016, fazendo a emissora recuperar-se do fiasco que foi a primeira temporada de Vinyl e a promissora mas fria The Night Of. Um enorme quebra-cabeças magistralmente montado em frente aos nossos olhos, intercalando a frieza de máquinas com o calor do velho oeste norte-americano, reinventando completamente uma premissa simples de um filme dos anos 70 para o século 21 e enfileirando monólogos magistrais, atuações impecáveis, cenas intensas, diálogos esclarecedores, teorias complexas e revelações sensacionais.
Para quem não está acompanhando, eis a breve premissa, sem spoilers: num futuro próximo existe um parque de diversões para adultos chamado Westword, em que você paga para viver como nos tempos mais selvagens do povo norte-americano, interagindo com robôs idênticos a seres humanos que ficam à disposição dos convidados. E esta disposição é degradante: os “anfitriões” (hosts, em inglês, como os androides são referidos na série) se tornam objetos para todo o tipo de humilhação que os convidados queiram praticar, e assim são tratados como meros objetos e quase sempre morrem mortes violentas – apenas para serem religados e voltar ao papel de escravo dos desejos alheios.
Mas algo acontece: os robôs aos poucos começam a entender sua própria condição. Acumulando memórias de suas vidas passadas, alguns dos protagonistas da série vão lentamente entendendo o que vivem e, cada um à sua maneira, vai despertando sua consciência e aprendendo a lidar com aquela nova realidade. Alguns simplesmente entram em parafuso e dão tilt – logo no primeiro episódio da série há um destes -, mas outros conseguem ir além. E poucos humanos conseguem perceber isso.
Isso é apenas a premissa inicial, o tabuleiro armado em que seus produtores desdobram cenas ousadas, violentas e emblemáticas, criando uma mitologia específica enquanto mostram personagens rasos lentamente sendo aprofundados. A partir disso, há um enorme e complexo jogo narrativo que faz o espectador perder-se em histórias que parecem acontecer simultanemente, mas que ocorrem em épocas diferentes – um truque genial que parte do princípio de que os robôs não envelhecem.
Sob esta premissa, há um duelo entre os criadores do parque, Arnold e Ford, que têm ideias distintas para aquele mundo robótico: enquanto o primeiro quer evoluir a inteligência artificial para a descoberta da consciência, o segundo considera isto perigoso e prefere apenas usar os seres sintéticos para “contar novas histórias”. Ford ganha a disputa e Westworld passa para as mãos de uma empresa chamada Delos, cujo interesse no parque vai muito além da gerência dos lucros gerados pelos visitantes e segue desconhecido. A série de dilemas éticos e morais abertos a partir desta disputa seria assunto para uma série apenas sobre isso, mas Westworld vai além.
Personagens como a cândida Dolores Abernathy vivida por Evan Rachel Wood, o assustador e admirável Robert Ford de Anthony Hopkins, o intrincado Bernard Lowe de Jeffrey Wright, a impressionante Maeve Millay da Thandie Newton e o Homem de Preto de Ed Harris humanizam e emocionam a história com atuações grandiosas e exigentes, Eval Rachel Wood e Thandie Newton especificamente brilham como poucas atuações na TV nesta década e até coadjuvantes como Hector Escanton do nosso Rodrigo Santoro, o William de Jimmi Simpson e a Clementine de Angela Sarafyan desequilibram bastante o seriado.
Tudo isso sendo orquestrado em cenas que transcendem gêneros e criam imagens impactantes para a cultura pop. Westworld consegue elevar o western para um patamar quase surreal, misturando orgias, canibalismo, religião e genocídios, aprofunda questões éticas tocadas apenas de forma superficial pela ficção científica moderna, atualiza os robôs para a era da impressão 3D e aposta na inteligência do espectador, proporcionando momentos de puro deleite narrativo (o final do oitavo episódio, por exemplo, já é um dos grandes momentos do ano na TV).
Os detalhes também são de tirar o fôlego: cenografia, direção de arte e trilha sonora mantém aquele padrão da emissora em que ela acerta mesmo quando as séries são ruins. A trilha especificamente é um achado: versões para músicas de Amy Winehouse, Radiohead, Rolling Stones, Animals, entre outros, tocadas naqueles pianos típicos de saloon (automatizados, como se fossem os primeiros robôs).
E por cima de tudo há um labirinto. Uma mapa literal que pode ser percorrido geograficamente mas também um jogo lógico que amplia o teste de Turing para uma realidade em que a inteligência artificial evolui como um fractal. Um desafio posto no coração da série tanto para seus protagonistas quanto para seus espectadores, que vai recompensando a cada novo episódio.
A primeira temporada da série termina no próximo domingo, quando seu décimo episódio vai ao ar (a HBO brasileira vem transmitindo os novos episódios exatamente à meia-noite entre o domingo e a segunda, com reprises na segunda às 21h) e tudo indica que teremos a conclusão de uma série de enigmas e mistérios abertos ao longo dos episódios anteriores – além de tantas outras perguntas que só serão respondidas na próxima temporada, já renovada para o ano que vem.
A esperteza da série vem do casamento de dois talentos: J.J. Abrams, o criador de Lost e Fringe, além de ter ressuscitado Jornada e Guerra nas Estrelas para o novo milênio, e Johnathan Nolan, responsável pelos roteiros dos filmes de seu irmão Christopher Nolan. O primeiro é mestre em instigar a curiosidade, provocar o espectador, abrir teorias e propor possibilidades. O segundo brinca com duplos sentidos, lineraridades temporais e sabe concluir bem as histórias. Os dois já haviam trabalhado juntos na ótima Person of Interest, uma série mais modesta em termos de produção e de narrativa, e agora podem ousar graças à liberdade dada pela HBO. Nolan chamou a esposa Lisa Joy (que já havia assinado as séries Pushing Dasies e Burn Notice) para ajudá-lo na criação daquele novo universo.
Até o fim da semana volto ao tema explicando ainda mais as teorias da série e mostrando como Westworld pode ser muito mais do que apenas a melhor série deste ano. Por enquanto recomendo que você que ainda não assistiu dê um jeito de ver os nove episódios antes do próximo domingo e você que está acompanhando comente a série abaixo. E já deixo de sobreaviso aos comentaristas incautos – por favor avisem sobre spoilers antes de fazer seus comentários sobre a série para não estragar a surpresa de quem não assistiu ainda.
Conversei com Jorge Du Peixe no Maranhão e ele me adiantou que o próximo disco da Nação Zumbi será de versões – dei mais detalhes do projeto que hoje chama-se Radiola NZ – mas pode mudar de nome – lá no meu blog no UOL.
Principal atração do primeiro dia do festival BR 135, que começou nesta quinta-feira, dia 24, em São Luís, no Maranhão, a banda pernambucana Nação Zumbi está encerrando o ciclo de comemoração dos 20 anos do disco Afrociberdelia, segundo álbum da banda, lançado em 1996, para começar um novo projeto, ainda com título provisório de Radiola NZ. O novo álbum trará versões para músicas favoritas do grupo, tanto brasileiras quanto internacionais, e o repertório poderá ter faixas de Amy Winehouse, Last Shadow Puppets, Mutantes, Velvet Underground, Clash, Erasmo Carlos, David Bowie, Roxy Music, entre outros. “Ainda estamos definindo tudo, mas já começamos a rascunhar algumas versões, como ‘Ashes to Ashes’ de David Bowie e ‘Love is the Drug’ do Roxy Music”, me contou o vocalista do grupo, Jorge Du Peixe.
O gatilho para este novo disco, que deve começar a ser gravado neste fim de semana, em Fortaleza, foi o show que o grupo fez no Festival da Cultura Inglesa deste ano, quando foram convidados a fazer versões de músicas em inglês. O grupo tocou versões para “Tomorrow Never Knows”, dos Beatles, “A Message To You Rudy”, dos Specials, “Time of the Season” dos Zombies e “China Girl”, de Iggy Pop e David Bowie. A partir daí a banda começou a cogitar novas versões e o projeto ganhou título e forma, embora ainda esteja em seu estágio inicial.
Versões não são novidades para a Nação. Além de ter dois de seus maiores hits escritos por outros artistas (“Maracatu Atômico” de Jorge Mautner e “Quando a Maré Encher” da banda olindense Eddie), o grupo já dividiu um disco com os conterrâneos e contemporâneos Mundo Livre S/A, quando um tocava músicas do outro, além de manter o projeto paralelo Los Sebosos Postizos, em que tocam músicas do período clássico de Jorge Ben. O novo álbum deve ser lançado no ano que vem, mas a banda não tem pressa. “Temos nosso tempo e precisamos respeitá-lo”, conclui Jorge.
Conversei com a Courtney Barnett antes de seu ótimo primeiro show no Brasil – o papo tá todo lá no meu blog no UOL.
“De repente, parece que tudo mudou”, me explica Courtney Barnett, que apresentou-se na semana passada em São Paulo, quando a pergunto sobre o pesado clima conservador que paira sobre 2016. “Acho que as pessoas jogam muito uma expectativa sobre o próprio futuro delas em outras pessoas e esquecem-se que elas mesmas têm de fazer algo”, conta a cantora e compositora australiana, autora de um dos melhores discos do ano passado, Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit.
O próprio título de seu disco de estreia (“às vezes eu sento e penso e às vezes eu só sento”) é uma crítica a esta expectativa sobre o papel político do artista. “Eu me sinto frustrada e desiludida com tudo que tem acontecido, mas eu sempre me sinto assim”, ela continua, “eu leio muito as pessoas comentando na internet coisas assim, que o artista tem de ser o farol dos tempos e eu tendo a concordar, mas acho que não pode ser só isso. Isso é uma forma de deixar as coisas nas mãos dos outros e fingir que aquilo não é problema seu.” Pergunto se isso tem relação com a desilusão atual com os políticos e a política e ela apenas ri, concordando com a cabeça e dando de ombros. “As coisas vão piorar, não adianta ficar só lamentando ou procurando culpados.”
29 anos recém-completos, gigantescos olhos claros (um mais esverdeado que o outro) e jeito de moleque, Courtney perde a candura ao subir no palco. O ar juvenil dá lugar a uma guitar hero que cresce no palco e suas crônicas malkmusianas sobre a vida não ser nem especial nem fútil viram pequenos manifestos elétricos, ditos sem rodeios. Acompanhada apenas de um baixista (Andrew “Bones” Sloane) e um baterista (Dave Mudie), ela canaliza a escola de Kurt Cobain, que ouviu tanto hardcore, noise, metal e pop para saber explorar os limites do instrumento. Mas como frontwoman, ela é do time de Chrissie Hynde, cuja segurança e firmeza se misturam com cinismo e ironia, provocando um apelo carismático oposto à aparente fragilidade que seu rosto infantil carrega. Veículo perfeito para suas canções, crônicas às vezes hilárias, às vezes pertubadoras, como “History Eraser”, “Avant Gardener”, “Depreston” e “Pedestrian at Best”.
O show em São Paulo foi um dos últimos da turnê do disco do ano passado, antes de uma pausa de fim de ano para começar a pensar no próximo disco, que ela quer gravar ainda no próximo semestre. “Tenho um monte de ideias, tanto de letras quanto de música, preciso parar para organizar tudo”, conta, explicando que deve voltar para sua casa em Melbourne para começar a compor o segundo álbum.
Conversei com o elenco e a produção da primeira série brasileira produzida pelo Netflix lá no meu blog no UOL.
“Tem um lado meu que acha uma pena, obviamente, tudo isso que está acontecendo no Brasil”, lamenta a atriz Bianca Comparato quando pergunto se ela acha que há algum paralelo entre 3%, a primeira série que o serviço de vídeos Netflix produz no Brasil, e o momento político brasieiro atual. “Mas tem um outro lado meu, que é mais otimista, que acha que é um processo de amadurecimento, que estamos podendo olhar para nós mesmos pela primeira vez, de verdade, sem ingenuidade. E esse embate faz parte. É uma pena o sofrimento que isso causa pra tanta gente. E a série fala muito disso, do sofrimento de quem não consegue. E quem disse quem é bom o suficiente? Quem definiu isso?”
A série, que estreia sua primeira temporada de uma vez só na próxima sexta-feira, dia 25, chega falando sério. O visual, a direção e as atuações instigam o espectador como qualquer outro seriado Netflix – e isso parece vir da fusão de experiências tanto da equipe quanto do elenco. A mistura veteranos como João Miguel, Zezé Motta e a própria Bianca Comparato com novatos desconhecidos (Michel Gomes, Vaneza Oliveira e Rodolfo Valente) foi dirigida pelo uruguaio César Charlone, ex-sócio de Fernando Meirelles e responsável pela fotografia de filmes como Cidade de Deus, O Jardineiro Fiel e Ensaio Sobre a Cegueira. Mas a premissa da série e sua narrativa foi desenvolvida e dirigida por seus criadores originais. “Sou um showrunner de uma ideia alheia”, brinca o diretor uruguaio, que envolveu-se com a produção do seriado anos depois que seu criador, Pedro Aguilera, o estreasse no YouTube (assista aos três primeiros episódios da versão original aqui). Charlone entrou mais como um coordenador e supervisor, ajudando Aguilera e os três diretores originais, Jotagá Crema, Daina Giannecchini e Dani Libardi, a encontrar o rumo que queriam para o seriado, cujos oito primeiros episódios chegam de uma só vez.
Falada em português, a série de ficção científica se passa em um futuro próximo em que o Brasil divide-se em duas castas: grande parte da população mora numa região referida como Continente e quando completam vinte anos de idade têm a oportunidade de passar para onde reside uma elite financeira num lugar conhecido como Mar Alto, que abriga os 3% da população que batiza o seriado. Acompanhamos, portanto, um grupo de jovens que passa justamente pelo processo de seleção, uma série de jogos, entrevistas e atividades que vão definir quem pode passar para o outro lado. É uma alegoria que funciona como uma crítica à ditadura econômica mundial – e um de seus principais critérios de seleção, a chamada “meritocracia”. “Este tema faz parte da nossa sociedade e a gente tem mais ferramentas pra falar sobre isso e pra entender isso agora. São boas pra série também”, explica Aguilera.
“Quando o Pedro (Aguilera, criador e roteirista de 3%) pensou nisso lá atrás, ele havia se inspirado no vestibular, embora ele não quisesse falar diretamente de vestibular”, continua Bianca. “A gente amadureceu muito essa ideia. Mantemos essa angústia juvenil, mas tem uma coisa mais política envolvida. Fala de uma sociedade onde, por mérito, você consegue as coisas e se você não for bom o suficiente acabou a vida pra você. Isso fala muito pra nossa sociedade, não só pra jovens. Se você for parar pra pensar, economicamente, não são nem 3% que detém a riqueza do Brasil – nem do mundo.”
“A ideia começou lá em 2009 e a inspiração vem de livros como Admirável Mundo Novo e 1984 – eu não conhecia Jogos Vorazes”, explica Pedro. Bianca já tinha assistido aos filmes: “Acho a Jennifer Lawrence ótima. Vi os filmes da série Divergente e fiquei muito feliz com a quantidade de ator bom fazendo esse tipo de filme.” Mas Charlone desconversa quando compara-se 3% com estes filmes recentes: “A gente não vai competir com um produto desses. A nossa riqueza é a brasilidade”, explica, sublinhando que quis refletir uma brasilidade diferente daquela que vendemos. “Gosto daquela coisa que, quando alguma coisa não funciona, vem alguém e dá uma porrada. Ou daquela sensação que sempre acontece em qualquer país do mundo quando você chega no aeroporto, mas quando chega no Brasil sempre tem alguém que fala ‘tinha que ser no Brasil…”‘, explica o diretor, às gargalhadas.
Essa brasilidade, marca visual das produções de Charlone, foi perseguida com um olho no futuro e outro no presente. “Gosto de dar muita ênfase em sotaques diferentes”, explica, enfatizando também que não quis entregar uma história de bandeja para o público. “O Brasil tem essa fissura dos produtores com a bilheteria, essa coisa com a comédia, que querer agradar o público”, continua o uruguaio, explicando que o tom pessimista da série o atraiu. “Isso abre um horizonte muito legal pra novas gerações contarem histórias”, continua.
Mas a frieza distópica da versão original ganhou pluralidade e cores no novo seriado. “O tom original era muito sério, frio, policialesco”, lembra Aguilera, ao comentar as mudanças sofridas na série durante estes anos, que ainda “tem elementos muito parecidos, mas outros muito diferentes. Mas a angústia dos jovens, que é a essência, ainda tá lá.” “É uma série essencialmente brasileira”, completa Bianca. “Tem uma sujeira, cores, elementos rústicos. É futuro e é Brasil.”
Estive no set de gravação de 3% e além dessa brasilidade era possível notar a clara naturalidade nas atuações, sem afetações no texto ou diálogos que pudessem deixá-la caricata, claro reflexo da forma como Charlone gosta de deixar os atores, filmando-os livremente, quase em tom documental. Ele anima-se com o formato das séries, que diz ser “o grande acontecimento audiovisual deste século.” “Eu sou assíduo frequentador da Santa Ifigênia e sempre vejo o pessoal vendendo DVDs piratas de filmes… Agora vendem séries”, conta, mencionando Sopranos e Mad Men como referências básicas inclusive para o cinema atual. Pedro também tem suas séries favoritas – House of Cards, The Wire, Breaking Bad -, que podem não se refletir na temática de 3% mas que estão presentes na forma como ele gostaria de segurar o espectador.
Bianca cita outro seriado do Netflix como referência. “Black Mirror é uma experiência forte pra gente no 3%”, continua a atriz. “É um futuro que é palpável, não é, sei lá… como o filme Prometheus… Black Mirror tem isso, tem uma coisa que tá mais pra frente, mas as primeiras cenas você nem entende em que época se passa…” Ela concorda quando menciono que a ficção científica tem esse papel de metáfora para entender a realidade atual. “Um dos motivos de eu topar fazer a série foi esse. A série é um alerta. Se a gente não parar, a gente vai chegar nisso. É uma catástrofe econômica. E não é só sobre o Brasil, é sobre um modelo econômico mundial, os poucos que têm, os muitos que não têm.”
Escrevi sobre o clássico power pop do Teenage Fanclub, que está completando um quarto de século lá no meu blog no UOL.
Já faz tempo que 1991 vem sendo celebrado como um ano mágico para a música pop, ao enfileirar discos que não apenas estabeleceram novas carreiras como mudaram o cenário musical da última década do século passado. Uma sequência de obras que tornam aquele ano tão emblemático quanto outros clássicos, como 1967, 1969, 1972 ou 1977. Eu mesmo já escrevi aqui sobre os 25 anos de BloodSugarSexMagik, Screamadelica, Nevermind e Loveless – sem contar outros discos cruciais como o Blue Lines do Massive Attack, o Adventures Beyond the Ultraworld do Orb, Out of Time do R.E.M., The Low End Theory do A Tribe Called Quest e a tríade de transição dos três maiores grupos do rock brasileiro dos anos 80 (V do Legião Urbana, Os Grãos do Paralamas do Sucesso e Tudo Ao Mesmo Tempo Agora dos Titãs), além dos sucessos comerciais do Metallica (o disco preto), Guns N’Roses (os dois volumes de Use Your Illusion) e Pearl Jam (Ten) e dos discos de estreia dos Smashing Pumpkins (Gish) e Blur (Leisure). O conjunto destes álbuns mostra um cenário pop fragmentado, multifacetado e completamente díspare comparado ao de anos anteriores, mas um disco lançado naquele mesmo ano lembrava que a base de tudo aquilo, a fundação daquele universo que agora expandia-se para o thrash, o indie, o grunge, a ambient house, o trip hop, o rock alternativo, era a canção. Este disco chama-se Bandwagonesque e é o terceiro disco da banda escocesa Teenage Fanclub, que há exatos 25 anos ganhava o mundo ao ser lançado pela gravadora norte-americana Geffen.
É muito comum acharmos que invenções que nos precederam sempre estiveram ali. Como para a minha geração parece estranho pensar em um mundo sem televisão e para uma geração mais nova parece estranho imaginar como seria o mundo sem internet, muitos sequer cogitam a possibilidade de um mundo sem canções. Pois aconteceu – e não faz muito tempo. Apesar da música ser uma das primeiras expressões culturais do ser humano – ainda na idade da pedra -, a canção – esta estrutura musical que compreende introdução, estrofe, refrão, estrofe, refrão, eventual solo instrumental, estrofe, refrão e conclusão – é uma invenção da virada do século dezenove para o vinte, como a fotografia, o disco, o cinema, o carro e o avião.
Sempre entoamos melodias, cantarolamos frases e repetimos refrões, mas foi a noção de linha de montagem do século passado que forjou esse formato que hoje tomamos como eterno. Antes da possibilidade de gravar-se música, não havia uma limitação de tempo que determinasse os poucos minutos que resumem uma canção. Bardos medievais puxavam épicos que não pareciam não ter fim, saraus domésticos atravessavam a noite emendando letras e músicas umas às outras, concertos e óperas podiam durar horas, o canto de pergunta e resposta das plantações agrícolas duravam o tempo da jornada de trabalho. Foi preciso uma inovação tecnológica – o fonógrafo – para que se estabelecesse que a breve duração delimitada por uma restrição técnica poderia ser o início de um novo formato. A canção surgiu como uma necessidade mercadológica para alavancar um novo mercado: se a música erudita não cabia nos primeiros suportes para a música, era preciso inventar um novo padrão. A canção é fruto do encontro do teatro de revista com a música popular e surge no início do século vinte como uma versão musical do conto ou da crônica.
À medida em que o século passava vimos a ascensão de verdadeiros ourives do formato. É uma lista imensa e traduz o espírito de época de todo o século: de Irving Berlin à dupla Morrissey e Marr, passando por Bob Dylan, Noel Rosa, Buddy Holly, Bob Marley, Luiz Gonzaga, Lou Reed, Carole King, Caetano Veloso, Lennon e McCartney, David Bowie, Burt Bacharach, Chico Buarque, Serge Gainsbourg, Gilberto Gil, Nick Drake, Page e Plant, Chuck Berry, Brian Wilson, Rita Lee, os irmãos Gershwin – e a lista continua. A maioria da produção musical do século passado foi construída firme sobre o formato canção, mesmo que gêneros mais instrumentais (como jazz e a música eletrônica) ou mais agressivos (como o heavy metal, o punk e o hip hop) tenham abertos novas possibilidades para além deste formato, criando a base para a música deste século.
Embora conhecido como uma banda essencialmente cancioneira, o Teenage Fanclub não começou como tal. Seu primeiro disco, A Catholic Education, de 1990, era um disco mais pesado, improvisado e ruidoso do que qualquer outro trabalho da banda, mais próximo à sonoridade caótica do início dos anos 90, à exceção da faixa de abertura, o hino “Everything Flows”. O segundo disco, The King, foi lançado às pressas para cumprir o contrato com a gravadora norte-americana Matador e liberá-los para assinar com a Geffen, que à época queria estabelecer-se como o lar do rock daquela nova década, assinando com o Nirvana, o Sonic Youth, os Stone Roses e os Guns N’Roses. Seu terceiro disco, Bandwagonesque, virava o jogo e mostrava uma nova cara para a banda, em que a canção era o vernáculo principal.
As grandes influências neste sentido são a base do pop britânico (os Beatles) e seus pares californianos (Beach Boys e Byrds), mas principalmente o influente e obscuro grupo norte-americano Big Star, fundado por Alex Chilton e Chris Bell no início dos anos 70, e pelos solos de guitarra lacrimosos do canadense Neil Young. O quarteto formado por Norman Blake e Raymond McGinley (vocais e guitarras), Gerard Love (vocais e baixo) e Brendan O’Hare (bateria) dedicava as dozes músicas à lapidação de canções pop perfeitas, envoltas em doses homeopáticas de microfonia e ironia (como a que levava batizar a própria banda de Fã Clube Adolescente ou a colocar um saco de dinheiro na capa de um disco cheio de canções de amor).
A incrível sequência de canções começa com a descrição de uma garota que “usa jeans onde quer que vá” e que disse “que vai comprar uns discos do Status Quo” numa música cujo refrão canta apaixonadamente que “não quis te machucar” – em uma música chamada “The Concept” que parece resumir o que aquele disco pretendia. Pelo resto de Bandwagonesque, somos apresentados à canções compostas principalmente – e em separado – por Norman e Gerard – a radiante “What You Do to Me”, a fugaz “Star Sign”, a apaixonada “Metal Baby”, a setentista “Pet Rock”, a acústica “Guiding Star”. Mas há também momentos melancólicos do disco, alguns deles assinados pelos outros músicos da banda, como “I Don’t Know” é de Raymond e “Sidewinder” (que Brendan compôs com Gerard), além de, claro, da chorosa “Alcoholiday”, de Norman, outro grande momento do disco. Bandwagonesque termina com a instrumental quase irônica “Is This Music?”, em que solos e riffs de guitarra soam como se estivessem tocando num rádio-despertador que interrompe o sono no fim da madrugada.
Coberto de riffs memoráveis e refrões pegajosos, Bandwagonesque levou a banda a um patamar de sucesso nunca imaginado por eles, chegando a ganhar o título de “disco do ano” de acordo com a revista norte-americana Spin, uma das principais vozes do pop da época (deixando Nevermind, Screamadelica e Out of Time fora do páreo). Mas aquele sucesso não era para o Teenage Fanclub. O disco seguinte, o azarão Thirteen, mudou o tom de sua abordagem em relações a canções e matou a possibilidade de continuar fazendo sucesso nos EUA. De volta ao Reino Unido, lançaram dois outros discos perfeitos (Grand Prix e Songs from Nothern England) no auge do britpop, atingindo a estatura que gostariam que a banda tivesse.
Sem pretensões mercadológicas, planos de negócios, shows em estádios ou discos de diamante, o Teenage Fanclub conseguiu sintetizar a essência da canção pop em um disco ousado por sua despretensão e marcante por sua simplicidade. Doce e direto, Bandwagonesque sobrevive não apenas como um registro do início do fim da era da canção ou como souvenir nostálgico daquele período, mas como um disco de música pop deveria soar, por definição. Essencialmente humano.
Vencedores do Grammy Latino 2016 evidenciam a ótima fase que atravessamos atualmente – escrevi sobre isso no meu blog no UOL.
Céu, Elza Soares, Djavan, Almir Sater & Renato Teixeira, Martinho da Vila, Paula Fernandes, Scalene e Ian Ramil, Anderson Freire e Hamilton de Holanda. O time de vencedores brasileiros do Grammy Latino 2016 é uma ótima amostra do quão vasto, popular e sofisticado é o atual panteão da música popular brasileira. Mas as pessoas insistem em reclamar que a música brasileira deste século não chega aos pés de sua fase de ouro, sem especificar direito o que era isso – as cantoras do rádio? A bossa nova? A emepebê? O rockbrasileirodosanosoitenta? Lamentam a ausência de um passado que muitas vezes não viveram para ignorar a riqueza do presente que os cerca. Preferem repetir um refrão insuportável de um hit repetido mil vezes para constatar a má fase atual em vez de sair da superfície e fuçar ao redor – e isso hoje em dia é tão mais fácil! Mas a preguiça é regra (essa eu até entendo – e aí o problema não é o ouvinte), o pessimismo é religião e reclamar é o esporte favorito do brasileiro desde muito antes do Facebook.
Mas perceba apenas nesta curta lista de nomes selecionados por um júri formado por gente da indústria fonográfica há universos inteiros do atual cenário brasileiro. Céu é a abre-alas de toda a geração que inclui uma safra inteira de artistas que não descende da bossa nova (nem musicalmente, nem por parentesco ou apadrinhamento), não compõe ao violão e é tão pop (e rock e reggae e samba) quanto emepebê. A diva Elza vive o auge de sua carreira décadas depois de sua consagração gravando o primeiro disco de inéditas de sua vida cercada por uma nova geração de músicos paulistanos tão inquieta quanto prolífica – só vimos a ponta deste iceberg chamado Mulher do Fim do Mundo, um disco que ainda tem muito chão pela frente.
Djavan entra como representante dos grandes nomes da emepebê – mesmo que tenha caído numa mesmice artística a ponto de gerar um clone que hoje é melhor do que o original. O encontro de Almir Sater e Renato Teixeira é de um gigantismo ímpar para a música de raiz brasileira, um acontecimento tão grandioso quanto Louis Armstrong e Ella Fitzgerald cantando Porgy & Bess para o jazz norte-americano. E a estatura de Martinho da Vila não se apequena ao lado destes, afinal é um dos medalhões do cânone do samba. Paula Fernandes também é a ponta de lança de um mercado ancestral, que desde o meio do século passado vem trabalhando para ser uma das principais forças comerciais do pop brasileiro – seu sucesso não é acaso, e sim fruto da obra do sertanejo, essa Nashville brasileira sem cidade-símbolo. O empate entre Scalene e Ian Rammil também crava duas facetas do rock produzido no Brasil – uma popular e emocional, outra específica e racional. Anderson Freire representa o enorme mercado de música religiosa, outra força pop cada vez mais musculosa, enquanto Hamilton de Holanda é o autor mais pop e dos mais ousados do imenso território que é a música instrumental brasileira.
A lista poderia incluir nomes como Anitta (a evolução global do funk carioca) e Emicida (ao mesmo tempo enfant terrible e poster boy do hip hop nacional), além de manjados ícones de nossa cultura, que, quando querem, mostram serviço (João, Gal, Gil, Ney, Caetano, Bethânia) e os que fazem sempre o mesmo há décadas (Roberto Carlos e Jorge Ben, notadamente). Além de literalmente centenas de outros artistas que mesmo não estando neste amplo panteão contribuem para a complexidade e vastidão do que chamamos de música brasileira – bandas de rock e regionais de choro, grupos de pagode e blocos de carnaval, trios de axé music e duplas sertanejas, MCs de funk e instrumentistas virtuosos. Artistas que pagam suas contas vivendo de sua arte e que disputam olhos e ouvidos de um público cada vez mais deslumbrado, blasé ou ignorante.
Culpe a internet, mas também culpe a si mesmo. A proliferação de possibilidades da rede, que permite a ascensão de cada vez mais novos artistas, é a mesma que nos cerca em uma câmara de eco que nos prende sempre àquilo que já conhecemos. E toda vez que você reclama de “Bumbum Granada” (sem perceber a conexão com Noriel Vilela), o algoritmo multiplicador de chorume das redes sociais traz a música que você reclama de volta e assim cada um de nós se fecha para o outro que existe logo ali, no churrasco do vizinho, no som do carro que passa à sua frente, saindo zumbido pelos fones de ouvido de alguém no metrô. Como aconteceu na política deste catastrófico 2016, estamos nos isolando uns dos outros de uma forma quase selvagem, nos fechando em tribos que mal cogitam a existência do outro como possível. Beirando a barbárie.
Mas se nossa vida política parece fadada a dois becos sem saída que se encontram num confronto violento, o mesmo não pode ser dito sobre nossa fruição estética. É possível reduzir a lacuna ideológica que separa diferentes brasis (e não apenas dois, como gostam de frisar) através da música, fazendo os diferentes lados compreenderem que estamos vivendo esta que pode ser a melhor fase da música brasileira. Ao mesmo tempo em que o conceito de disco se desfaz com o digital, vemos o nascer de gerações inteiras que não param de produzir e encantar diferentes públicos. Em alguns instantes fugazes estes públicos se contemplam e dançam junto, sem preconceito, como deve ser. Porque “Malandramente”, “Varanda Suspensa”, “Bang!” e “Playsom” podem funcionar perfeitamente na mesma pista. O segredo é fazer o público jogar a favor – e não contra.
Em um carta recém-descoberta de John Lennon e Yoko Ono para Paul e Linda McCartney mostra como o clima logo após a separação dos Beatles era pesado – a tradução tá lá no meu blog do UOL.
Uma recém-descoberta carta de John Lennon e Yoko Ono para o casal Paul e Linda McCartney, que vai a leilão nesta quinta-feira, dia 17, mostra como o clima entre a dupla de compositores mais famosa do mundo estava tenso mesmo após a separação dos Beatles, grupo que lhes projetou para a fama. Sem data, a carta datilografada – com trechos escritos à mão pelo próprio John – deve ter sido escrita no início de 1971, à época em que o casal John e Yoko mudou-se de Londres para Nova York e é uma resposta pesada à outra correspondência, não especificada, de Paul para John, que Lennon rebate mirando em quem ele acredita ser a autora de parte das acusações: Linda McCartney.
“Estava lendo a carta de vocês e pensando que tipo de fã rabugento de meia idade dos Beatles a escreveu”, começa John, sem meios-termos. “Resisti a olhar na última página para descobrir – ficava pensando quem seria – Queenie (mãe do ex-empresário dos Beatles, Brian Epstein)? A mãe do Stuart (Sutcliffe, o primeiro baixista dos Beatles)? – A esposa de Clive Epstein (irmão de Brian, que assumiu o controle da empresa do irmão após sua morte)? – Alan Williams (o primeiro empresário dos Beatles, antes de Brian)? – Quem diabos – é Linda!” E continua: “Nós dois ‘passamos por cima disso’ uma porção de vezes – e perdoamos vocês dois – então é o mínimo que vocês podem fazer por nós – vocês tão nobres. Linda – se você não se importa que eu diga – cala a boca! – deixe que Paul escreva – ou como queira.”
“Você realmente pensa que a maioria da arte de hoje só existe por causa dos Beatles?”, segue pesado um exasperado John, “eu não acredito que você seja tão insano – Paul – você acredita nisso? Quando parar de acreditar talvez você acorde! Nós não dizíamos sempre que éramos parte de um movimento – não o todo dele? – Claro, nós mudamos o mundo – mas tente acompanhar – DESÇA DO SEU DISCO DE OURO E VOE! Não me venha com esse papo de tia velha de que ‘em cinco anos vou olhar para trás como uma pessoa diferente’ – você não percebe que isso está acontecendo AGORA! – Se eu soubesse ENTÃO o que eu sei AGORA – você parece ter perdido o ponto…”
A carta é uma amostra do clima pesado no final dos Beatles e mostra como a cisão entre seus fundadores e principais compositores continuou mesmo após a banda ter anunciado seu fim, em 1970. “Eu não me envergonho dos Beatles – eu comecei isso tudo – mas sim de algumas merdas que a gente engoliu para fazer deles tão grandes – eu pensava que todos nós sentíssemos assim em diferentes graus – obviamente não.” A carta deve ser leiloada através da internet pelo site RR Auction nesta quinta-feira, dia 17, e o lance inicial por ela é de 2 mil dólares, embora acredita-se que ela deve atingir um valor dez vezes mais alto.
Leia abaixo a íntegra da correspondência.
“Caros Linda e Paul,
Estava lendo a carta de vocês e pensando que tipo de fã de meia idade e destemperado dos Beatles a escreveu. Resisti a olhar na última página para descobrir – ficava pensando quem seria – Queenie? A mãe do Stuart? – A esposa de Clive Epstein? – Alan Williams? – Quem diabos – é Linda!
Você realmente acha que a imprensa está por baixo de mim/vocês? Você acha isso? Quem vocês pensam que nós/vocês são? A parte sobre o “auto-indulgente não percebe quem está ferindo” – espero que vocês percebam o quanto de merda que vocês e o resto de meus amigos “bondosos e não egoístas” despejaram em mim e em Yoko, desde que estamos juntos. Algumas vezes pode ter sido um pouco sutil ou deveria dizer “classe média” – mas não com frequência. Nós dois “passamos por cima disso” uma porção de vezes – e perdoamos vocês dois – então é o mínimo que vocês podem fazer por nós – vocês tão nobres. Linda – se você não se importa que eu diga – cala a boca! – deixe que Paul escreva – ou como queira.
Quando perguntado sobre o que eu achava originalmente do MBE, etc. – eu disse a eles o melhor que eu conseguia me lembrar – e eu me lembro mesmo de certo embaraço – você não, Paul? – ou você – como eu suspeito – ainda acredita em tudo isso? Eu posso perdoar Paul por encorajar os Beatles – se ele me perdoar pelo mesmo – por ter sido – “honesto comigo e ter se preocupado demais”! Que diabos, Linda, você não escreve para o livro Beatle!!!
Eu não me envergonho dos Beatles – (eu comecei isso tudo) – mas sim de algumas merdas que a gente engoliu para fazer deles tão grandes – eu pensava que todos nós sentíssemos assim em diferentes graus – obviamente não.
Você realmente pensa que a maioria da arte de hoje só existe por causa dos Beatles? – Eu não acredito que você seja tão insano – Paul – você acredita nisso? Quando parar de acreditar talvez você acorde! Nós não dizíamos sempre que éramos parte de um movimento – não o todo dele? – Claro, nós mudamos o mundo – mas tente acompanhar – DESÇA DO SEU DISCO DE OURO E VOE!
Não me venha com esse papo de tia velha de que “em cinco anos vou olhar para trás como uma pessoa diferente” – você não percebe que isso está acontecendo AGORA! – Se eu soubesse ENTÃO o que eu sei AGORA – você parece ter perdido o ponto…
Me desculpem se eu usar “espaço dos Beatles” para falar sobre o que eu quiser – obviamente se eles continuarem a fazer questões de Beatles – eu vou respondê-las – e vou conseguir tanto espaço de John e Yoko quanto eu puder – se me perguntam sobre Paul eu respondo – eu sei que parte disso acaba indo para o pessoal – mas, acreditem vocês ou não, eu tento responder objetivamente – e as partes que eles usam são obviamente as mais saborosas – eu não tenho mágoas do seu marido – eu sinto por ele. Eu sei que os Beatles são “pessoas muito gente boa” – eu sou um deles – eles também são grandes bastardos como todo mundo é – então desça do seu cavalo alto! – a propósito – nós temos conquistado mais interesse inteligente em nossas novas atividades em um ano do que tivemos em toda a era Beatle.
Finalmente, sobre não contar a ninguém que eu deixei os Beatles – PAUL e Klein passaram o dia me convencendo que era melhor não falar nada – pedindo a mim para não dizer nada porque iria “ferir os Beatles” – e “vamos apenas deixar assentar” [let it petre out] – se lembra? Então coloque isso na sua pequenina mente pervertida, Sra. McCartney – os c**ões me pediram para manter silêncio sobre isso. Claro, o lado do dinheiro é importante – para todos nós – especialmente depois de toda a merda provocada por sua família/parentes insanos – e DEUS TE AJUDE A SAIR DESSA, PAUL – vejo você em dois anos – imagino que você terá saído até lá –
apesar de tudo,
com amor para vocês dois,
de nós dois
P.S. sobre endereçar a carta de vocês só para mim – AINDA…!!!”
Dissecado lá no meu blog do UOL, o novo filme da Marvel, Doutor Estranho, mostra os rumos para o futuro do personagem, da saga principal contada desde o primeiro filme do Homem de Ferro e dos planos de dominação mundial do estúdio.
O grande trunfo de Doutor Estranho, a mais recente produção da Marvel, não é simplesmente o fato de ser o primeiro filme do estúdio de tom menos juvenil (como o segundo Capitão América já tinha sido) nem seus deslumbrantes visuais psicodélicos. Essas duas qualidades ajudam o estúdio a se situar num contexto que parte em busca um novo público, que não assiste filmes de super-herói. Sua principal qualidade reside no fato do diretor Scott Derrickson contar uma história de origem simples e de forma objetiva, concluindo a jornada do protagonista com grandes truques cinematográficos, sem se preocupar em expor as referências e conexões com o contexto original do herói nos quadrinhos ou do cada vez mais complexo universo cinematográfico da Marvel. Estes, no entanto, não são deixados de lado, mas colocados em uma perspectiva que fica em evidência para o público já cativo da editora e do estúdio, respectivamente. Estas referências ajudam inclusive a sacar o rumo que a Marvel está apontando para seus próximos filmes, quando conclui, em três anos e dez filmes (!), sua chamada fase 3.
Preciso dizer que a partir daqui vou entupir o texto de spoilers? Ok, então está dito: seguem umas imagens de fronteiras interdimensionais para você não correr o risco de ler algo que não queira – se você quiser ler uma resenha sem spoilers, escrevi este texto antes da estreia do filme.
As referências mais evidentes são feitas não ao público iniciado, mas justamente para aquele que a Marvel quer ganhar com Doutor Estranho: o fã de cultura pop adulta. Não confunda com o fã adulto de cultura pop – este já forma grande parte da audiência da Marvel no cinema. Ela está em busca de um público que não gosta ou não se identifica com super-heróis – e por mais que Doutor Estranho seja um deles, ele não se encaixa no parâmetro tradicional do herói mascarado com roupa justa e colorida. Seus ícones são heróis que vão de encontro à cultura nerd vigente, seja do lado da ficção científica ou da fantasia. Por isso Doutor Estranho firma-se visualmente sobre pilares modernos do pop adulto.
A principal referência é, claro, a presença de Benedict Cumberbatch. O já eternizado Sherlock Holmes do século 21 fez a Marvel adequar-se à sua agenda para conseguir viver o personagem título e ele o faz de forma primorosa. O momento em que ele veste a capa que lhe caracteriza definitivamente como o personagem dos quadrinhos é a coroação de uma atuação perfeita, a melhor do universo cinematográfico Marvel. O sotaque norte-americano falado pelo ator inglês é só uma das joias de seu trabalho, que equilibra seriedade e humor a ponto de nunca parecer ridículo ao conjurar feitiços ou ao encarar o principal vilão do filme. O resto do elenco mantém o nível embora seja muito pouco exigido. Rachel McAdams, Mads Mikkelsen, Chiwetel Ejiofor e Michael Stuhlbarg são atores de alto calibre que não são tão exigidos quanto poderiam. A própria Tilda Swinton se contenta em uma atuação protocolar, que não constrange mas não brilha. O que não garante que eles não sejam utilzados em filmes futuros.
Outro elemento pop e adulto óbvio é a psicodelia. Ela vem sutilmente escancarada na ponta feita por Stan Lee, que aparece gargalhando ao ler uma edição dos anos 50 do clássico As Portas da Percepção do escritor Aldous Huxley. No livro, o visionário autor de Admirável Mundo Novo conta sua experiência com a mescalina, droga que teria uma enorme influência na renascença lisérgica da década seguinte. O título foi tirado de um verso de William Blake que fala que “quando as portas da percepção estiverem abertas, tudo parecerá como realmente é: infinito” e foi inspiração para Jim Morrison batizar sua clássica banda.
Não é a única referência à psicodelia tradicional. A cena do acidente que tira o movimento das mãos de Strange começa com “Interstellar Overdrive”, primeira música do lado B do primeiro disco do Pink Floyd, The Piper at the Gates of Down, de 1967. Ao contrário de grande parte da discografia do Pink Floyd, este primeiro disco foi batizado em ácido lisérgico, quando a banda ainda contava com seu fundador, o visionário Syd Barrett. A faixa instrumental era conhecida como uma longa jam session nas intermináveis noites psicodélicas da Londres do final dos anos 60 e o disco foi gravado em um dos estúdios de Abbey Road no exato momento em que os Beatles gravavam seu clássico Sgt. Pepper’s.
A música não foi colocada apenas por esta referência. Na montagem da capa do segundo disco da banda (o último com Barrett, que saiu do grupo por ter se tornado uma vítima do LSD), Saucerful of Secrets, podemos ver uma sequência de planetas vista por um rosto isolado no canto esquerdo superior. Repare:
Esta imagem é parte de um quadrinho de página inteira da edição 158 da revista Strange Tales, publicada em julho de 1967 (um mês antes do lançamento do disco anterior), em que o Doutor Estranho é apresentado à onipotente entidade cósmica Tribunal Vivo, que é justamente o rosto na parte de cima da capa do disco. O próprio Doutor Estranho aparece no quadrinho, mas foi retirado da colagem da capa.
Outra referência óbvia é a progressão geométrica que o diretor e seu diretor de fotografia Ben Davis dá aos devaneios urbano-surreais de Christopher Nolan em Inception – A Origem. As dimensões paralelas são um dos muitos truques de cinema que ele e Derrickson exploram durante todo o filme – sem dúvida, o de maior impacto. Pisos em mosaicos, correores que se aprofundam, catedrais que se transformam em engrenagens e a arrebatadora visão de Nova York ao cubo – tudo isso é parente direto das cidades distorcidas por Nolan em seu filme de 2010 e os realizadores de Doutor Estranho não negam. Davis também cita o psicodélico Fantasia, de Walt Disney, como outra referência para os visuais do filme, além, claro, do túnel interdimensional do ato final de 2001 – Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick.
Outro filme que está na base de Doutor Estranho é Matrix. Desde o papel meio Morpheus da Anciã vivida por Tilda Switon (que começa várias frases como “e se eu te dissesse…?”) à jornada do escolhido feita por Stephen Strange, o filme de 1999 dos irmãos Wachowski está espalhado por todo o filme da Marvel. O treinamento de Strange no Tibet alude de forma descarada ao primeiro filme da trilogia: a tonalidade esverdeada do salão em que Strange conhece a Anciã, o momento de revelação sobre o mundo místico ao simples toque na testa de Strange, a relação mestre e pupilo entre os dois, a forma como as artes marciais são apresentadas.
Outras referências pop não são propriamente adultas, mas trazem o filme para uma realidade diferente da dos nerds de lojas de quadrinho, ao mencionar diferentes artistas pop atuais (Beyoncé, Eminem, Adele) em uma cena hilária entre Strange e Wong (vivido por Benedict Wong). A menção à Beyoncé foi, inclusive, sugerida por Cumberbatch, fã da cantora:
Já as alusões ao universo dos quadrinhos do Doutor Estranho são bem mais sutis. Com a exceção das vestimentas de Strange e da dimensão paralela criada por um dos desenhistas mais clássicos da história da Marvel, Steve Ditko. A Dimensão Negra nos quadrinhos é assim:
A forma como Derrickson e Davis colocam essa terra surrealista em movimento é outro desses truques de cinema que aumentam a moral do filme.
Além disso, são citados vários outros personagens do universo de Strange no papel. O vilão Kaecilius (vivido por Mads Mikkelsen) é um personagem secundário nos quadrinhos e no filme assume um papel que normalmente é do Barão Mordo (personagem ainda em construção, vivido no filme por Chiwetel Ejiofor) e é acompanhado de capangas que contam, entre eles, com Tina Minoru (vivida pela atriz Linda Louise Duan), personagem que faz parte do grupo Fugitivos nos quadrinhos. Outro personagem que vemos brevemente é o guardião do Sanctum de Nova York, que é nos apresentado como Daniel Drumm (vivido por Mark Anthony Brighton), que na prequel em quadrinhos é identificado como irmao de Jericho Drumm, o Irmão Vodu. Outros personagens coadjuvantes são levemente distorcidos para marcar presença, como a hora em que somos apresentados ao Mestre Hamir (um dos primeiros gurus de Strange nos quadrinhos, cujo aparição é apenas mencionada no início do filme) ou o nome do par romântico de Strange (vivido por Rachel McAdams), que é Christine Palmer, uma das Enfermeiras da Noite, entidade que já tem uma de suas encarnações, Claire Temple (vivida por Rosario Dawson) em ação no universo Netflix (as séries Demolidor, Jessica Jones e Luke Cage, até agora). Alguns dos personagens principais são bem modificados: além da polêmica ocidentalização da Anciã (mais polêmica que sua mudança de gênero), Wong passa a usar magia (nos quadrinhos ele apenas luta) e Modor ainda não é o vilão.
Ainda há os inúmeros artefatos místicos, alguns mostrados sorrateiramente (como o bastão do Tribunal Vivo e o Livro de Vishanti), outros protagonistas da ação (como o Manto da Levitação, que ganha vida na versão cinematográfica). Um bom meio-termo disso é a Vara de Watoomb, que é apresentada rapidamente para logo depois virar a arma de Wong na luta final.
Livros também são protagonistas das histórias de Doutor Estranho e se seu constante Livro de Vishanti aparece apenas rapidamente, o Livro de Cagliostro tem um papel central na história. Tudo isso é reforçado para mostrar a natureza do universo místico de Strange. Ao mesmo tempo em que os novatos vão conhecendo estes novos nomes e referências, os veteranos vão reconhecendo as homenagens e a atenção ao detalhe.
E há também referências a histórias específicas de Strange, especificamente “Into Shamballa”, que Dan Green e J. M. DeMatteis fizeram em 1986, e a recente “The Oath”, que Brian K. Vaughan e Marcos Martin escreveram em 2007. “Shamballa” entra na piada da senha do Wi-Fi:
“The Oath”, por sua vez, é o roteiro básico do filme e conta com uma cena especificamente tirada dos quadrinhos, quando a projeção astral de Strange ajuda Christina Palmer operá-lo:
A referência a The Oath foi anunciada antes mesmo do filme ser feito, quando Cumberbatch entrou em uma loja de quadrinhos em Nova York a caráter e pediu para o atendente tirar uma foto em que ele mostrava a capa da revista, que publicou em seguida na internet:
A cena foi filmada pelas câmeras de segurança da loja e tem um quê surreal:
Outra referência de “The Oath” é o médico que opera Strange após o acidente, que é referido apenas como “Nick” (vivido por Michael Stuhlbarg), que é ninguém menos que Nicodemus West, o médico que opera o neurocirurgião naquela em quadrinhos.
E, claro, o grande vilão Dormammu, representado de forma diferente dos quadrinhos (sem corpo, onipotente), mas mantendo o mesmo rosto listrado da versão clássica:
A forma como Strange derrota Dormammu – com um truque de lógica, não com magia – é mais um aceno para o fã de cultura pop adulta, enquanto a cena da destruição final apresentada apenas de trás pra frente é outro grande trunfo da direção de Derrickson.
E, finalmente, temos as referências ao resto do universo Marvel no cinema. São citações mencionadas quase de passagem e se você não conhece a história completa que inclui os outros filmes nem conhece nada de super-heróis não interfere em nada ao assistir apenas a este filme. A primeira delas é a presença da Torre dos Vingadores na paisagem de Nova York. Serve para nos lembrar que estamos no universo Marvel e que os eventos ocorrem após o primeiro filme dos Vingadores.
Outra citação, ainda mais no início do filme, nos ajuda a situar Doutor Estranho na linha do tempo da Marvel. Não, sua origem não acontece após os incidentes de Guerra Civil, o filme anterior do estúdio. É uma trama paralela que vem se desenvolvendo há mais tempo e quando Strange declina alguns casos pouco antes de sofrer o acidente que imobiliza suas mãos, ele deixa passar um acidente envolvendo um soldado que teve a parte inferior de sua espinha dorsal destruída por um equipamento bélico experimental. Muitos acharam que era uma referência ao personagem vivido por Don Cheadle, James Rhodes, o Máquina de Combate, que é abatido em combate em Capitão América: Guerra Civil e quase perde os movimentos das pernas. Mas a idade mencionada (35 anos) e o fato da armadura de Rhodes não ser mais experimental tira a possibilidade de Stephen Strange não ter começado sua transformação em mago depois dos acontecimentos deste filme.
Na verdade, a cena parece mais pertencer ao segundo filme do Homem de Ferro, no julgamento de Tony Stark (Robert Downey Jr.) no início do filme, em que ele mostra vídeos que provam que o fabricante de armas Justin Hammer vem fabricando versões fracassadas de sua armadura, inclusive uma cena bem parecida com a descrita na ligação para Strange (veja quando o relógio do vídeo abaixo chega aos dois minutos):
Então é possível que o acidente que dá início à história do Doutor Estranho aconteça ainda na primeira fase do universo cinematográfico Marvel, antes do segundo filme do Thor, antes do primeiro do Capitão América e do primeiro filme dos Vingadores. Como seu treinamento levou mais do que meses, como mencionado no próprio filme, é possível ele tenha durado justamente o período de tempo entre os dois filmes dos Vingadores para o próprio Estranho pudesse enfrentar uma grande ameaça, ao final de seu filme. Uma ameaça que, por ter sido desfeita quando Strange consegue retroceder o tempo, não foi percebida por ninguém no planeta. Mas a conversa com Wong sobre o papel dos feiticeiros em relação a forças místicas que agem contra a Terra, em que os Vingadores são mencionados nominalmente, deixa claro que o final do filme acontece mais próximo da época atual.
É curioso pensar que Strange dispensou outros dois casos, além deste que pode ser o do segundo filme do Homem de Ferro. Ele ouve falar de “uma mulher com um implante elétrico no cérebro para tratar de esquizofrenia que havia acabado de ser atingida por um raio” e “uma senhora com um dano no tronco encefálico”. Será que são personagens que nem conhecemos cujas histórias ocorrem neste mesmo período? Por que a primeira descrição me faz lembrar da Capitã Marvel? Hmmm…
Outra referência óbvia ao universo Marvel já havia sido cogitada antes do lançamento do filme que era a possibilidade de o Olho de Agamotto, o artefato místico fundamental para Strange, ser uma das Jóias do Infinito, pedras preciosas que vêm sendo reunidas desde os primeiros filmes do estúdio. Vamos recapitular: a primeira delas foi o Tesseract (a Joia do Espaço, de cor azul) no primeiro filme do Thor, a segunda foi o Éter (a Joia da Realidade, de cor vermelha) no segundo filme de Thor, depois veio o Orbe (Joia do Poder, de cor roxa) no primeiro filme dos Guardiões das Galáxias, seguida pela Gema (a Joia da Mente, de cor amarela) que apareceu no segundo filme dos Vingadores e agora temos o Olho de Agamotto (a Joia do Tempo, de cor verde) neste novo filme. A única joia que falta ter seu paradeiro revelado é a da Alma (de cor laranja), que deve surgir em um dos filmes da Marvel no ano que vem (acho que em Guardiões da Galáxias 2, mas é só uma aposta).
Três referências sorrateiras que localizam Strange no universo Marvel, sua origem em relação ao resto dos personagens, e sua conexão com o fio da meada que estamos acompanhando até aqui. As duas cenas no fim dos créditos apontam para os próximos passos tanto do Doutor Estranho neste universo quanto para onde este começa a apontar uma vez que entramos de vez em seu terceiro capítulo.
A primeira delas mostra Strange conversando com um certo deus nórdico, que dispensa o chá em troca de sua bebida preferida numa curta sequência engraçadinha. Thor (vivido por Chris Hemsworth), depois de constatar que “a Terra agora tem feiticeiros” explica que tem uma “questão familiar” para resolver, referindo-se ao desaparecimento de seu pai Odin (Anthony Hopkins) e ao que tem aprontado seu meio-irmão Loki (Tom Hiddleston) e Strange oferece-se para ajudá-lo. A cena confirma uma especulação que já estava quente quando o ator Daley Pearson (que interpretou o colega de quarto de Thor no hilário curta que explicou onde estava o deus do trovão durante os acontecimentos de Capitão América: Guerra Civil) twittou a seguinte foto nos bastidores do terceiro filme de Thor, Ragnarok, que estreia no ano que vem:
Na foto, Thor mostra um cartão com o endereço “177A Bleecker St”, que todo fã da Marvel sabe que é o endereço da base de Strange, o Sanctum Sanctorum de Nova York, o que abriu a especulação que Doutor Estranho estaria no terceiro filme de Thor. A primeira cena após os créditos de Doutor Estranho vem confirmar isso, transformando Thor: Ragnarok no filme da Marvel que talvez tenha o melhor elenco até agora: além de Hemsworth, Hiddleston, Hopkins e agora Cumberbatch, o filme ainda terá o Hulk de Mark Ruffalo, Tessa Thompson como Valkyrie, Cate Blanchett como Hela, Karl Urban como Skurge, Jeff Goldblum com o Grão-Mestre e a volta de Idris Elba como Heimdall. Nada mal.
A segunda cena escondida confirma a transformação do personagem de Mordo em Barão Mordo, que começa ao final do próprio Doutor Estranho quando o personagem de Chiwetel Ejiofor frustra-se com o uso que a Anciã faz de magia negra. A cena final define a reviravolta em sua personalidade quando ele encontra-se com o personagem vivido por Benjamin Bratt, o ex-paralítico Jonathan Pangborn, que deu o caminho das pedras para Strange descobrir a magia. Pangborn, aprendiz místico, desistiu do mundo da feitiçaria e contenta-se em usar o que aprendeu apenas para conseguir andar novamente. No encontro com Mordo, este retira os superpoderes do mago novato e diz que “há muitos feiticeiros” na Terra, o que reforça seu papel de antagonista no próximo encontro que terá com Strange. Quando ele ressurgirá na telona é a dúvida desta cena: será no terceiro filme de Thor, no terceiro filme dos Vingadores, que deverá ter mais Doutor Estranho, ou numa óbvia continuação (ainda não anunciada) do filme de Strange?
As duas cenas finais, no entanto, concordam que a chegada de Doutor Estranho ao universo cinematográfico Marvel confirma a entrada do elemento místico na história. Até então superpoderes e super-heróis eram explicados pela ciência e pela tecnologia, à exceção de Thor, um elemento isolado justamente por não ser terráqueo. Com a chegada do Doutor Estranho, a Marvel inclina-se mais para este lado, que deve dar a tônica desta terceira fase e, possivelmente, dos próximos dois filmes dos Vingadores. As primeiras produções do estúdio em 2017 – a série Punhos de Ferro feita com o Netflix e o segundo Guardiões da Galáxia (que já tem uma conexão aberta com Strange através de um brinquedo Lego e desenhos de pré-produção do filme) – também devem ir para este lado, o que abre a possibilidade para novas adaptações de sagas em quadrinhos, novos personagens e novos vilões – estes que ainda são o calcanhar de Aquiles da Marvel.
O primeiro trailer da versão filmada do clássico japonês – que agora chama-se Vigilante do Amanhã – é bem fiel ao original, pelo menos visualmente – escrevi sobre isso no meu blog no UOL.
E não é que a versão filmada para o clássico oriental Ghost in the Shell parece convincente? Se há críticas sobre o fato de sua protagonista ser vivida por uma atriz ocidental, o primeiro trailer da adaptação mostra que o diretor Rupert Sanders parece ter acertado a mão ao adaptar o visual do mangá e do anime para o cinema. E a presença de Scarlett Johansson na tela (ainda identificada apenas como Major, sem o nome oriental Motoko Kusanagi da versão origina) prova que o filme pode transpor a polêmica e levar uma complexa história de ação sobre robótica, cibernética e inteligência artificial para as massas. O título em português também foi atualizado – da adaptação do anime para o português como O Fantasma do Futuro, o novo filme, que estreia em março do ano que vem, chama-se Vigilante do Amanhã. O ponto baixo do trailer é o uso brega da excelente “Enjoy the Silence”, do Depeche Mode, gravado em versão pós-apocalíptica à la Jogos Vorazes pelo cantor Ki: Theory. Mas o visual é impressionante:
Além do trailer também foram divulgadas imagens inéditas do filme:












































