• Quem é que manda • Evolução nerd • Facebook na bolsa de valores, Julian Assange nos Simpsons e um blog só de aplicativos • Sem popstars, a atração da Campus Party é o público • Imprima qualquer coisa • Em São Paulo, às 19h de uma segunda-feira •
E a minha coluna na edição do Link de hoje foi sobre a Campus Party:
Sem popstars, a atração da Campus Party é o público
Evento acerta ao mirar o futuro e não o passado
Acompanho a Campus Party desde sua primeira edição, em 2008, quando o evento chegou ao Brasil e era realizado ainda no Pavilhão da Bienal, no Ibirapuera. Fui a todas as edições, sempre cobrindo para o Link, além de participar de debates e entrevistar alguns de seus convidados. Mas duas coisas sempre me deixaram com a pulga atrás da orelha.
Uma delas diz respeito à velocidade de conexão do evento, que, desde a primeira edição, era vendida como um dos grandes trunfos do encontro, permitindo downloads numa velocidade muito além da que tínhamos em casa, há cinco anos – espantosos 5 gigabytes de banda larga! Quem acompanha o mundo digital há um mínimo de tempo sabe que a tendência é que tal velocidade cresça a cada ano. Por isso me perguntava qual seria a grande atração da Campus Party depois que conexões ultrarrápidas virassem algo comum para a maioria das pessoas. Como já acontece hoje.
O segundo ponto era o fato de o evento se preocupar em trazer medalhões para atrair a atenção de um público ainda em construção. Assim, foram chamados nomes que às vezes nem eram tão cruciais para a história do mundo digital – como, especificamente, o ex-vice-presidente norte-americano Al Gore –, mas que garantiam audiência e mídia. Ou nomes importantíssimos, como o criador da world wide web, Tim Berners-Lee, que, na hora de falar, não fez jus à sua importância histórica.
Claro que houve exceções – e boas –, como a vinda do cofundador da Apple Steve Wozniak no ano passado ou a presença do hacker Kevin Mitnick na edição do ano anterior. Mas ia chegar uma hora em que a lista de figurões se aproximaria do fim, pois o mundo digital só agora alcança a maturidade.
Sem contar o fato de a Campus Party sempre pregar a colaboração e a participação como duas de suas principais bandeiras – que perdem força a partir do momento em que as grandes atrações do evento se resumiam ao público assistir a palestras, em que a maior interação com o palestrante seria depois da apresentação, em encontros como a (enorme) fila de autógrafos para o livro de Woz, no ano passado.
Eis que a Campus Party deste ano apresenta sua programação sem nenhum medalhão. Há nomes importantes e de peso, mas todos precisam ser apresentados detalhadamente para quem não é do ramo. Não há nenhum palestrante que mobilize atenções para além da cobertura de tecnologia e um dos principais debates reunirá nomes quase anônimos, mas que representam grupos que se estabeleceram coletivamente, como na mesa formada por integrantes de levantes políticos do ano passado (a Primavera Árabe, os Indignados da Praça do Sol na Espanha e o Occupy Wall Street) que se encontrarão para discutir este tipo de mobilização na tarde da próxima sexta-feira.
Sem nenhum popstar, a principal atração da feira volta a ser o público. E, para este público, o coordenador-geral do evento, Mário Teza, repete com insistência uma palavra-chave: inovação. Dito como uma tag, o termo “inovação” pode confundir, pois é comumente associado à novidade, à mudança. Mas não é tão simples assim.
Em se tratando de tecnologia e cultura digital, inovação é a gasolina do motor. A lógica eletrônica é oposta à industrial, que a antecedeu: importa menos manter as coisas como estão e mais antever as mudanças do futuro. E elas não vão parar. Erra quem cogita que as transformações digitais são passageiras, que, em algum momento, essas mudanças irão cessar e o ritmo da vida irá voltar a ser como era antes.
Esqueça: a mudança é a regra.
Por isso a Campus Party 2012 acerta ao apostar mais no futuro do que no passado da nossa idade eletrônica. Ao trazer nomes de menor calibre, facilitam até mesmo o acesso dos acampados aos palestrantes, que podem conversar com eles sem ter o receio comum do encontro com celebridades. Resta saber se, uma vez no Anhembi, vamos ter menos problemas do que as edições anteriores – mais especificamente nos debates, sem que o áudio de uma mesa redonda se misture ao das vizinhas.
A primeira novidade de 2012 foi o Vintedoze e a segunda é que o Sesc Pompéia me chamou pra cuidar do Prata da Casa, tradicional noite dedicada a novos artistas brasileiros – que tenham apenas um disco lançado ou menos. A confluência de fatores foi muito feliz: além de eu mesmo já ser público do Prata faz tempo (show de banda nova de graça na Choperia numa terça? Tem coisas que só acontecem em São Paulo…), o palco é um dos meus favoritos, assim como o Sesc Pompéia, que completa 30 anos esse ano, o meu Sesc favorito – que, pra completar, fica exatamente entre o caminho da minha casa pro meu trabalho. Sem contar o fato de que 2012 marca a décima terceira edição do Prata – e 13 é um dos meus números da sorte.
Pra começar bem, em fevereiro, chamei artistas que ainda estão em seu primeiro disco: o rapper paulistano Ogi, o indie-MPB carioca Cícero e o instrumental dA Banda de Joseph Tourton, do Recife. E se você é artista, só tem um disco lançado e quer participar do Prata, não adianta me abordar com o CD ou mandar o link pro meu email: manda seu material pro Sesc que eles me repassam tudo. Terça que vem dou mais detalhes sobre o primeiro show.
• A voz do som • Campus Party quer ser espaço de inovação • Incompatibilidade total • A erosão da privacidade • Facebook impõe Timeline para todo mundo • De que lado está a oposição à Sopa? • Imagine um filme-show em um cinema-pista-de-dança • Só para fotografar • Tatiana de Mello Dias: Se todo mundo é pirata, pagar pode ser obrigação • A briga do Megabox, Wikileaks na televisão, Napster é relançado na Europa, etc. • Vida Digital: Tom Rachman •
Minha coluna no Link desta semana foi sobre o filme dos Chemical Brothers que vi na semana passada.
Imagine um filme-show em um cinema-pista-de-dança
Longa do Chemical Brothers mistura tudo
Uma hora e meia em uma sala de cinema assistindo a um show dos Chemical Brothers gravado no Japão. A experiência pode parecer atordoante para quem associa tal exibição aos velhos concertos de rock que eram lançados em salas de cinema, como The Song Remains the Same, do Led Zeppelin, lançado no Brasil com o infame nome de Rock É Rock Mesmo, nos anos 70. Ainda mais porque muita gente ainda vê apresentações de música eletrônica como meros nerds apertando botões e mexendo em equipamentos que pouco lembram instrumentos musicais.
O fato é que Don’t Think, o primeiro longa-metragem da dupla que popularizou a música eletrônica nos anos 90, foi exibido na quinta-feira passada em São Paulo e em outras 19 cidades no mundo inteiro, como pré-estreia. O lançamento de verdade acontece no próximo fim de semana e deve chegar a outros cinemas do Brasil (por enquanto foram anunciadas, além de São Paulo, datas no Rio de Janeiro, em Fortaleza, no Recife, em Curitiba e em Salvador).
Don’t Think, no entanto, é mais do que um simples “filme de show”. Para começar, em vez de ser lançado em DVD, como a maioria dos lançamentos desta natureza, Ed Simons e Tom Rowlands preferiram lançá-lo no cinema, para que a audiência não ficasse isolada, em casa, e sim conectada com mais gente interessada no evento.
E o filme vai além do mero registro do show. Afinal, apesar de ser uma dupla, os Chemical Brothers contam com um terceiro elemento, Adam Smith, responsável pela projeção das imagens que invadem os telões durante os shows dos Brothers. É ele quem assina a direção do filme – e, assim, mistura imagens que foram capturadas por dezenas de câmeras no show com as imagens que foram projetadas durante o show, transformando a tela de cinema num telão.
Aí basta seguir o conselho do título do filme – Não Pense, em inglês – e se deixar levar pela avalanche de sons e imagens, com hits como “Hey Boy Hey Girl”, “Block Rockin’ Beats” e “Galvanize” servindo de trilha sonora para cortes rápidos que intercalam imagens de animais, igrejas, palhaços e pessoas dançando com o público japonês extático.
O único problema é assistir a isso numa poltrona. O ideal é que a sala não tivesse cadeiras e o público pudesse dançar. E que o som (7.1 na gravação original) fosse bem mais alto.
O que me levou a imaginar um futuro em que bandas podem fazer shows e retransmiti-los em salas de cinema como se o público estivesse no lugar.
Imagine cidades do mundo inteiro interconectadas por um show que está acontecendo em um só lugar, transmitido em tempo real e com imagens editadas na mesma hora.
A telepresença não é novidade – São Paulo já assiste a transmissões de ópera feitas no exterior em salas de cinema, por exemplo –, mas ao destruir as barreiras entre filme, show e registro de show, os Chemical Brothers podem estar dando origem a um novo tipo de formato.
‘Link’ começa o ano com estreia de quatro colunas
A coluna da repórter Tatiana de Mello Dias nesta edição é uma das novidades do Link em 2012. Ela não chama-se P2P à toa – é a face impressa do blog de mesmo nome, publicado no site do Link desde o início de 2010, sobre as transformações que o digital vem impondo à cultura. Ao assumir o blog, Tati virou setorista e seria natural que assumisse uma coluna sobre o tema. A partir de hoje, o blog P2P passa a ter seu nome.
Sua coluna, quinzenal, alterna-se com a coluna No Arranque, do editor-assistente Filipe Serrano, dedicada ao cenário de startup no Brasil e no mundo. Filipe tem um blog com seu nome desde o fim de 2011 e também começa 2012 como colunista do Link. Outras novas colunas já circulam no caderno desde o início do ano, estas semanais. Homem-Objeto, do repórter Camilo Rocha, dedicada a testes de aparelhos, e esta Impressão Digital, que deixou as páginas do Caderno 2 no final de 2011 para frequentar este caderno. E são apenas as primeiras novidades de 2012. Outras virão.
• Obsolescência programada: Programado para morrer • ‘Estamos criando montanhas de lixo’ • Conserte você mesmo • A Sopa azedou • Megaupload é tirado do ar e Anonymous revida •No Arranque: Crowdfunding brasileiro quer acelerar em 2012 • Impressão Digital: Kodak, Yahoo, direitos autorais e a inevitabilidade do digital • Homem-Objeto: Leve e compacto • Vida Digital: Drew Houston,do Dropbox • Todo mundo menos ela • Mapas mais acessíveis • Facebook no topo do Brasil, Apple na educação, programador condenado à morte e Kodak falida •
Minha coluna no Link dessa semana reúne três assuntos diferentes, mas que são o mesmo.
Kodak, Yahoo, direitos autorais e a inevitabilidade do digital
Para milhões, baixar gratuitamente é rotina
A Sopa e a Pipa foram o principal assunto da semana passada, mas queria aproveitar para falar de outros acontecimentos ofuscados pela briga entre a indústria de entretenimento e a de tecnologia, mas que podem nos ajudar a jogar uma luz sobre a confusão legal a que estamos assistindo.
Um deles é a concordata da Kodak e o outro, a demissão de Jerry Yang, um dos criadores do Yahoo, do cargo de “cofundador e líder” do site (sim, esse era seu cargo). Ambas notícias podem ser comparadas à clássica anedota sobre a inevitabilidade do digital – quando as grandes gravadoras do mundo resolveram processar seus próprios consumidores (que, graças ao Napster, descobriram que era possível baixar música de graça e à vontade) e deram início ao fim de seu próprio monopólio, o da música gravada e lançada em mídias físicas.
A Kodak, uma empresa centenária, inventou a câmera fotográfica portátil que a tornou sinônimo do aparelho que popularizou. Mas também inventou a primeira câmera digital – na pré-história do mundo digital, nos anos 70. Mas como também vivia de vender filmes, preferiu não investir neste setor, com medo de perder o mercado analógico. Mas, ao manter-se irredutível nesta posição, viu ao mesmo tempo o mercado que queria proteger sumir e outras empresas assumirem as rédeas da fotografia digital. Até mesmo de outros tipos de produto, como a Nokia, que se consolidou no mercado de celulares justamente por apresentar boas câmeras embutidas nos aparelhos. Sua cabeça-dura custou-lhe a própria existência.
A mesma teimosia acabou fazendo Yang pedir demissão do principal cargo do site que criou. O Yahoo, muitos nem sequer devem se lembrar, já foi um dos titãs do mundo digital, numa época em que os sites eram contados aos milhares e as conexões ainda eram discadas. Com a chegada do Google, o site preferiu manter-se preso à lógica de portal, típica da última década do século passado, em vez de apontar links para o resto da rede. Fechou-se em si mesmo e apostava na possibilidade de ser comprado ou fundir-se a algum outro gigante. A Microsoft foi quem mais cortejou o velho líder das buscas, em vão. Até que a chegada de um novo CEO, Scott Thompson, obrigou Yang a sair do holofote – e sacramentar o fim de uma era.
O que nos leva de volta às polêmicas leis antipirataria que ameaçam a existência da web como a conhecemos – não apenas nos EUA, mas em todo o mundo. Não é a primeira vez que o Congresso norte-americano tenta aprovar leis que tentam restringir o avanço da pirataria digital. Mas o que estamos assistindo em 2012 é ao aumento da truculência e da força política de uma indústria que, como a Kodak e o Yahoo, preferem não abraçar o digital inevitável e agarrar-se a uma legislação que não faz sentido em tempos digitais.
O lobby de Hollywood é poderoso e pode ter consequências catastróficas para a rede. Imagine que o simples ato de linkar um vídeo do YouTube no Facebook (que não seja autorizado por seu criador) possa significar até cinco anos de cadeia. Como ironizou alguém no Twitter, se você uploadar uma música de Michael Jackson na internet, pode pegar um ano a mais de cadeia do que o próprio médico acusado de sua morte. Não faz o menor sentido.
Fora que o que é chamado de pirataria pela indústria do copyright é rotina para milhões (bilhões?) de pessoas por todo o planeta. Baixar conteúdo gratuitamente é infração do direito autoral antigo, mas há mais de uma pesquisa mostrando que, quanto mais alguém baixa conteúdo sem autorização, mais gasta no mesmo tipo de conteúdo. As leis não devem parar no tempo – elas devem mudar de acordo com as mudanças da sociedade.
E se insistir nisso, os EUA podem matar seus principais produtos no novo século: Google e Facebook vão ter que mudar completamente seus negócios. Abrindo espaço para alguém, em algum país, criar seu próprio clone de Google ou do Facebook e conseguir um público que antes era dos EUA. E aí pode ser que o cabeça-dura da história seja o próprio governo dos norte-americano.
Escrevi sobre a falência da Kodak no caderno de Economia do Estadão de hoje.
Outra parábola sobre o que acontece com quem foge do digital
Onde a Kodak errou
Antes mesmo de as grandes gravadoras darem o tiro no próprio pé que resultou na sua constante perda de importância no novo século digital (ao processarem os próprios clientes, que descobriram, entre 1999 e 2000, que podiam baixar música de graça com um software chamado Napster), um outro gigante já havia dito não ao digital. Mas só agora, décadas depois, sente o duro golpe de ter se negado a seguir a tendência. O baque sentido pela Kodak é triplamente mais dolorido, por diferentes motivos.
O primeiro, e talvez mais triste, é o fato de a empresa ter sido uma das primeiras a lidar com a realidade digital, quando criou a primeira câmera digital, nos anos 1970 (ou seja, bem antes da chegada do computador pessoal e da internet doméstica). A Kodak – fundada há mais de cem anos – já havia sido pioneira ao criar a câmera portátil, sua grande invenção. Conseguiu levá-la para o topo do mercado, atingido durante a década de 1980.
Dá até para dar um desconto para os executivos que arquivaram a câmera digital comercial nos anos 70, pois a realidade eletrônica estava longe da rotina da maioria das pessoas no mundo. E até livrar a cara da empresa nos anos 80, quando viveu sua melhor fase e não iria lançar um produto que talvez (embora muito pouco provavelmente) canibalizasse o setor em que a Kodak era líder.
Mas, com os anos 90, veio a web e, aos poucos, o computador deixava de ser um luxo para poucos geeks e virava um objeto cada vez mais presente nas casas das pessoas. O CD – digital – também havia destronado o vinil e a fita cassete. Era a hora de a empresa dar sua segunda grande contribuição ao mundo, revelando a câmera que não precisa de filme.
Mas como vender rolos de filme também fazia parte do negócio da empresa, ela preferiu engavetar a novidade para continuar vendendo câmeras analógicas e os hoje ancestrais tubos com filme. E, ao fazer isso (como as gravadoras deixaram a Apple dominar o negócio da música digital no início do século), perdeu o bonde da história. Coube a uma empresa de telefones celulares – a Nokia – popularizar a câmera digital como um acessório crucial para qualquer telefone portátil hoje em dia. E, assim, o objeto câmera perdeu espaço para o celular, que se tornou a máquina fotográfica de todos por um motivo quase fútil: ele está sempre à mão.
• CES 2012: Futuro próximo • Tendências da vitrine • Saída da Microsoft antecipa o fim da importância da CES • Tudo conectado à internet • Homem-Objeto 2012 • A rede social do Google é o próprio Google • O canto do Siri • The Pirate Bay, música no Facebook, tumulto na China… •
Falei sobre o verdadeiro significado do Google + na minha coluna na edição dessa segunda do Link.
A rede social do Google é o próprio Google
…e ela pode determinar o futuro do site
No dia 13 de julho de 2009, quando, pela primeira vez, demos o Facebook na capa do Link, ele nem era a maior rede social do mundo, mas já cravávamos que o site havia uma meta bem específica – e o descrevemos como sendo o principal rival do Google.
Aos poucos a comparação entre os dois se tornava mais evidente e uma teoria se formava. O Google surgiu em uma época em que as pessoas ainda estavam se entendendo com a internet e buscavam o que fazer uma vez conectadas. Comparada à saraivada de links do diretório de seu antigo site rival, o Yahoo, a homepage do Google era clean e minimalista, com um único campo de busca no meio de uma página branca, que parecia apenas perguntar que busca o usuário gostaria de fazer.
Veio a web 2.0, em que todo mundo poderia postar o que quisesse online sem a necessidade de entender de programação. Logo vieram as redes sociais e as pessoas começaram a se conectar entre si – e, num segundo momento, a compartilhar conteúdo. E aos poucos mandar uma notícia para outra pessoa, sugerir um site ou mostrar um vídeo engraçado não significava enviar um e-mail para vários destinatários ou esperar que alguém estivesse online no MSN. Bastava publicar em seu perfil que seus contatos em determinada rede veriam quando o consultassem.
Foi aí que o Facebook floresceu. E o perfil de seus usuários logo deixava de ser uma página com informações pessoais para exibir links, fotos e vídeos, transformando o feed de notícias (área equivalente aos scraps no Orkut ou do blog no MySpace) na primeira coisa que qualquer um vê quando entra no Facebook. Com todo mundo postando sem parar, bastava entrar na rede social para saber o que fazer na internet. Isso tornou a homepage do Google obsoleta.
Esse movimento aconteceu entre 2008 e 2010, quando o Facebook deixou de ser uma aposta para se tornar uma certeza. E logo vieram as especulações a respeito de quando o Google lançaria sua própria rede social.
Mas a empresa não tinha um bom histórico nessa área. Seu caso mais bem sucedido era, até o ano passado, o Orkut, mas o site só deu certo no Brasil e na Índia. Outras tentativas deram com burros n’água. O Google Wave era complexo demais e queria “apenas” reinventar o e-mail (algo como lançar um novo modelo de automóvel com a intenção de, literalmente, reinventar a roda). O Google Buzz foi criado para aproveitar o vácuo do Twitter e até ensaiou dar certo, mas esbarrou em questões legais a respeito de invasão de privacidade. Os dois projetos deram tão errado que foram desligados.
Por isso quando começaram a especular sobre a rede social do Google para enfrentar o Facebook, seus executivos logo diziam que não estavam criando uma rede social, mas uma “camada social” que atravessaria todos os serviços que hoje oferece.
Aí veio o Google + que, por ser de quem é, foi a rede social que mais cresceu na curta história deste tipo de site. Foram 25 milhões de usuários apenas nos dois primeiros meses de atividade do site. E ao mesmo tempo em que cresceu tão rápido, nos provocava com a primeira pergunta que aflige qualquer novo usuário de qualquer nova rede social (“O que eu faço aqui?”) ao mesmo tempo em que causava celeuma entre os entusiastas do Facebook, que o considerava uma versão piorada do site de Mark Zuckerberg.
Mas, como começou a mostrar na prática na semana passada, o Google + não é a rede social do Google. A rede social do Google é o próprio Google.
Explico: quando um de seus fundadores (Larry Page) assumiu o cargo de CEO (antes ocupado por Eric Schmidt) no início de 2011, ele começou a organizar a casa para fazer os inúmeros produtos do site (o navegador Chrome, o sistema operacional Android e as dezenas de sites e serviços oferecidos gratuitamente) conversarem entre si.
Uma operação interna, mas que poderia ser percebida por usuários mais atentos. Aos poucos, aparecia uma lista de links acima de sua homepage, apontando para outros serviços, como o Google Maps, a busca por imagens ou por vídeos, o Google News, entre outros. A lista virou uma barrinha, a princípio branca, que logo ganhou a cor cinza e depois escureceu ainda mais, trazendo ainda outros links para mais serviços da empresa.
E assim que o Google + foi lançado, dois itens novos surgiram nessa barra. O primeiro apareceu bem à direita e trazia a foto que o usuário escolheu para sua conta no Google seguida de seu nome, um número que mostrava se havia novidades no Google + e um campo escrito apenas “compartilhar”. Na ponta esquerda, o primeiro item deixava de ser a busca pura e simples do Google para se tornar o nome do próprio usuário, acrescido de um símbolo de adição (o + da “camada social”) à esquerda.
Essa barrinha está presente em qualquer serviço do Google. Resta agora saber se o Google irá conseguir fazer que as pessoas compartilhem conteúdo no campo específico que determinaram para isso. Enquanto isso, eles seguem tentando – e o anúncio da semana passada foi o primeiro passo para colocar a tal camada social em prática.
É que agora, quando você faz uma busca através do Google, tem duas opções de resultados: ou você vê os links que a maioria das pessoas viu quando buscou pelo termo que você acionou ou pode escolher apenas os links indicados pela sua rede de contatos, restringindo as opções de busca mas trazendo-as para seu contexto pessoal. A mudança pode ser percebida em dois ícones à direita da página, na altura do campo de busca. Clicando no ícone que é um pequeno globo, você vê os resultados gerais. Clicando no ícone que é um pequeno busto, vê o que seus amigos e conhecidos também buscaram.
Essa decisão já gerou controvérsia – a começar pelo Twitter, que afirmou que a mudança restringe o acesso às notícias que estão sendo publicadas naquele exato momento (que é a função atual da rede social dos 140 caracteres), com resultados do Twitter caindo para baixo nas buscas feitas em modo pessoal.
Outro problema é que isso restringe ainda mais a área de alcance de quem quer saber o que está acontecendo, ponto crucial de um dos melhores livros do ano passado, The Filter Bubble (ainda não lançado no País), do norte-americano Eli Parisier. Ele argumenta que, a partir do momento em que os algoritmos das redes sociais vão entendendo a forma como cada um funciona na rede, eles vão oferecendo apenas opções relacionadas ao gosto de quem clica. Isso parece ser prático em teoria – quem clica em muitas notícias de esporte, por exemplo, veria mais notícias relacionadas a esse assunto do que as outras. Mas, contudo, perderia outros assuntos que poderia se interessar, sem ao menos saber que eles estão acontecendo.
Era uma crítica quase direta ao Facebook, mas a partir do momento em que o Google adota uma prática parecida, ela cai como uma luva também para o gigante das buscas. E se você não corre o risco de trombar com algo novo, inusitado ou surpreendente, vai ficar cada vez mais preso à tal bolha-filtro concebida por Parisier.
E isso nos leva à principal dúvida em relação ao Google em 2012: e se, ao apostar em transformar-se numa enorme rede social, o site perderá a mão? E se as pessoas cansarem ou enjoarem de usar o Google? Parece apocalíptico, mas não custa lembrar a velocidade em que as coisas acontecem no mundo digital.










