• Condomínio fechado • O primeiro palco de 2012 • Entrevista: ‘Tudo conectado’
• Análise: O delay brasileiro • Restrição de fábrica • Programe-se para 2012 • Google, Amazon, Facebook e Apple juntos em 2012? • ‘Telobalização’ • Hackers roubam Symantec, internet não é um direito, Google pune a si mesmo e Twitter autentica fake •
Minha primeira coluna do ano saiu hoje no Link.
Google, Amazon, Facebook e Apple juntos em 2012?
Tudo para manter a influência dos EUA
2011 foi um ano de arrumação da casa para os gigantes do mundo digital. O Google começou o ano trocando de CEO – Eric Schmidt deixou o cargo para a entrada de Larry Page, um dos criadores do site – e passou todo o ano passado reestruturando seus produtos e serviços para que eles pudessem conversar entre si. E aproveitou o clima de reforma para lançar seu Google Plus, que não seria uma rede social mas uma “camada social” que interligaria seus produtos – e uma clara tentativa de não perder, futuramente, a importância para o Facebook.
A rede social de Mark Zuckerberg aproveitou 2011 para crescer ainda mais (particularmente no Brasil, que foi o país que mais cresceu no Facebook no ano passado) e adiar a abertura de seu capital na Bolsa de Valores norte-americana. Foi também o ano em que o site reorganizou-se estruturalmente (lançando uma nova interface, a Timeline) e para lançar seu criador como principal personalidade do mundo digital – ao menos para o grande público, quando Zuck apresentou, em setembro passado, o evento F8. E também aproveitou para criar as bases de sua sustentação econômica no futuro, começando a trazer empresas para desenvolver aplicativos em seu ambiente – e, finalmente deslanchar um conceito que vêm trabalhando há tempos, que é o f-commerce – o e-commerce realizado apenas dentro do Facebook.
A economia dos aplicativos – criada pela Apple, no lançamento do iPhone, em 2007 – também mexeu com a Amazon, que abriu sua própria loja de aplicativos e lançou o primeiro concorrente de peso para o iPad, o Kindle Fire, que foi um dos produtos que mais vendeu nos EUA no final do ano passado.
E a Apple, surfando alto graças ao sucesso do iPad, teve o melhor ano de sua história – e é irônico que isso tenha acontecido no mesmo ano em que Steve Jobs tenha morrido. O luto pelo fundador não abalou os números da empresa, que se tornou a maior fabricante de celulares do mundo além de ter atingido, durante o período mais crítico da crise financeira que abalou os EUA no ano passado, o posto de empresa mais valiosa do mundo.
Além de ter criado e feito vingar um tipo novo de aparelho – o tablet –, fez todos correrem atrás. Tudo isso ofuscou o fato de que a empresa adiou o upgrade que faria para seu celular, apresentando um iPhone 4S em vez do esperado iPhone 5. Mas o 4S trouxe uma novidade específica – o aplicativo Siri permite que qualquer um faça buscas online sem encostar um dedo no aparelho, usando apenas a voz. Não é pouco, tanto que o próprio Eric Schmidt, ainda com assento no conselho do Google, declarou que a empresa deve se preocupar com isso, para não perder o posto de líder nas buscas online.
Google social, Facebook como ambiente de compras, Amazon fazendo tablets, Apple entrando na área de buscas. Já deu para entender mais ou menos qual vai ser a tônica de 2012, não?
Afinal, todas estas empresas têm como meta utópica reter seus usuários o máximo de tempo possível em seu ambiente virtual – de preferência sem ter tempo para olhar para o site do lado ou para trocar de aparelho.
Mas, na prática, já está claro que ninguém fica em um só desses ambientes. Dá para preferir um ao outro, claro. Houve quem abraçasse o Facebook e repudiasse o Google Plus, mas é pouco provável que o fã mais entusiasmado da maior rede social do mundo deixe de usar o Google para fazer buscas.
E por mais que essas empresas tentem correr atrás das áreas de atuação das outras, elas não vão conseguir fazer que seu público fique apenas no ambiente criado por elas.
A menos que elas se juntem.
E não estou falando em fusão ou em aquisições. Lembro apenas do discurso do presidente norte-americano Barack Obama no início do ano passado, quando sublinhou que era o líder eleito do país que deu ao mundo o Google e o Facebook. Não custa lembrar que ainda sentimos os ecos da crise financeira de 2008, que abala até hoje os EUA (e também a Europa), ao mesmo tempo em que assistimos a países antes periféricos – como o Brasil – ganhando o palco central do mundo. E não apenas politicamente.
A indústria cultural dos EUA, que por muito tempo ajudou aquele país a se impor inclusive culturalmente, já não é mais a mesma. Ainda que fature cifras consideráveis, seu impacto não é mais unânime justamente devido ao fato de que a produção cultural destes países emergentes também está ebulindo, como suas economias. O impacto ainda é pequeno e é percebido melhor nos próprios países – e não globalmente. Mas, como hoje não para dá separar cultura de internet, é questão de tempo para que estes mesmos países comecem a usar a rede para atingir mercados exteriores e, possivelmente em breve, criar seus próprios ambientes digitais.
E se não dá para dissociar cultura de internet, a dominação cultural norte-americana hoje não acontece através de filmes, discos ou programas de TV. E é justamente nos quatro gigantes citados no início do texto que os EUA estão apostando para transformar o século 21 no que eles chamam de “o novo século americano”.
Por isso que é bem provável que, em 2012, comecemos a ver Google, Apple, Amazon e Facebook mais próximos uns dos outros, aos poucos derrubando as barreiras que os separam para trabalhar conjuntamente, mesmo que de forma tímida. A Stop Online Piracy Act (Sopa) – a dura proposta de lei antipirataria que pode ser aprovada em breve pelo governo norte-americano (e que é o assunto da capa desta primeira edição de 2012 do Link) – é um bom exemplo disso. Estas empresas estão percebendo o quanto o negócio delas é parecido não apenas no sentido administrativo e empresarial, mas também político.
E sob a ameaça de restringir ainda mais o uso da internet com este novo pacote de leis, os quatro – entre vários outros, como a fundação Mozilla do navegador Firefox, o serviço de pagamentos online PayPal e a Microsoft – finalmente começaram a se ver como uma força política e apelar para seu maior trunfo: a enorme audiência global.
O 2012 de seus quatro principais executivos (Steve Bezos da Amazon, Tim Cook da Apple, Larry Page do Google e Mark Zuckerberg do Facebook) deverá ser marcado por uma lenta aproximação mútua, para evitar que o próximo gigante saia da Rússia ou da China. Não há nada no horizonte que indique o surgimento de algo do tipo ainda este ano, mas você sabe como são as coisas na internet… Basta alguém começar algo novo que caia no gosto popular para ver sua audiência subir. Por isso, eles – e o governo de seu país – sabem bem que é melhor se preparar do que remediar.
Porque de nada vai adiantar ter um ambiente social que permita fazer compras e acessar a conteúdo digital em um determinado aparelho se aparecer uma ou mais empresas de fora dos EUA para dar continuidade àquele ciclo típico da era digital, como quando as pessoas param de usar o Friendster para começar a usar o MySpace. Nada impede que o próximo Google, a próxima Amazon, a próxima Apple ou o próximo Facebook venha de um país que não fala inglês. É esperar para ver o que acontece…
A primeira novidade do Link em 2012 é que minha coluna saiu do Caderno 2 e passa a frequentar as páginas do caderno de segunda. E como essa é a última edição do ano, Impressão Digital nova só no ano que vem.
A revolução digital tem de sair da tela
No Ano Novo, resta tirar a cara de dentro do computador
Em setembro deste ano, quando transformou mais uma mudança de interface do Facebook em evento público, Mark Zuckerberg entrou no palco um tanto estranho. Em alguns segundos, deu para notar que não era Zuckerberg – e sim o ator do programa humorístico Saturday Night Live que o interpreta, Andy Sandberg, fingindo ser o criador da maior rede social do mundo.
Mark Zuckerberg e Andy Sandberg
Não há como saber se Steve Jobs, em seus últimos dias de vida, viu a performance, mas se o fez, deve ter grunhido, ao mesmo tempo em que ficava pasmo com a ingenuidade de Zuckerberg e o ridicularizava em pensamento.
Isso porque doze anos atrás, antes das apresentações de Steve Jobs se tornarem um fenômeno para além do círculo de carolas da Apple, ele havia feito essa mesma piada, ao convidar o ator Noah Wyle para apresentar a Macworld de 1999. Noah havia acabado de interpretar Jobs num filme feito para TV naquele mesmo ano – o cult Piratas do Vale do Silício – e o criador da Apple não pestanejou ao colocá-lo no palco para fazer o seu papel.
Steve Jobs e Noah Wyle
Mas diferente do que aconteceu com Zuckerberg, anos depois, o encontro do original com a cópia não foi um cumprimento boçal (“mas eu sou o verdadeiro Zuckerberg!”) e sim outra caricatura de Steve Jobs, dessa vez, feita por ele mesmo. Logo que Wyle começa a se entusiasmar com um “produto novo realmente ótimo”, Steve o interrompe para entrar no palco e lhe explicar como é o jeito certo de imitá-lo. Era o Jobs hiperbólico encontrando o Jobs control freak no mesmo palco. E o original conseguia ter mais carisma ainda que o antigo protagonista do Plantão Médico.
Corta para 2011. O principal nome do mundo digital é um nerd sem carisma, o cacique de uma tribo de 800 milhões de pessoas que passam o dia em frente a uma tela dizendo o que curtem. Zuckerberg bem que tentou, mas está longe de conseguir ocupar a vaga deixada por Steve Jobs. E isso é um problema, porque o mundo digital de Jobs e Mark eram relativamente parecidos – ambos queriam obrigar seus públicos a se firmar em torno de uma mesma marca, habitando um ambiente eletrônico administrado por uma empresa que faz o que quiser com dados pessoais de seus consumidores.
O Facebook de Zuckerberg já é conhecido por isso e o ano terminou com o próprio Mark postando em seu blog um pedido de desculpas em relação aos “erros” cometidos no passado – quando o site mudava os termos de uso sem avisar seus usuários, por exemplo. A Apple de Jobs também teve de se desculpar publicamente sobre a denúncia de que os passos dos donos de iPhone estavam sendo vigiados pela própria empresa. É o Big Brother capitalista – em que uma empresa, e não um governo, acompanha cada pequeno passo dado.
A ausência de carisma de Zuckerberg não é um exemplo isolado – é só o mais emblemático. Nenhum dos grandes nomes do mundo digital hoje, no Vale do Silício ou fora dele, proporciona o fator de admiração instigado por Jobs. Nem Larry e Sergey do Google, nem Steve Ballmer da Microsoft, nem ninguém do Twitter, da Zynga, da Sony ou da Rovio.
Os executivos voltaram a ter cara de executivos e o popstar digital – a era de ouro de Jobs e Gates – parece ter ficado no século 20.
Isso também não é exclusividade das empresas de tecnologia. Os líderes do século 21 pouco inspiram. É um fenômeno que tem a ver com a frustração e a angústia que alimenta o oba-oba da curtição no Facebook ou o consumismo desenfreado da era pós-iPhone.
Todos querendo preencher um vazio espiritual na marra, em grandes quantidades. Milhares de amigos, dúzias de gigabytes, milhões de MP3, não-sei-quantos de memória RAM ou de banda larga.
Acontece que ao mesmo tempo em que 2011 viu o fim do grande produto da Apple – o próprio Steve Jobs –, também assistiu a esse mesmo vazio sendo preenchido longe das biosferas digitais. Milhares de pessoas tomaram as ruas em centenas de cidades ao redor de todo o mundo para reclamar dessa insatisfação generalizada.
Começou logo em janeiro com a Primavera Árabe, passou pelos protestos na Espanha, pelos tumultos na Inglaterra e culminou com o movimento Occupy, que a princípio ocupava apenas o Zuccotti Park, perto de Wall Street, em Nova York, e depois tornou-se global. Até mesmo as marchas realizadas na Avenida Paulista e o infame Churrascão da Gente Diferenciada em Higienópolis, em São Paulo, fazem parte dessa recusa planetária, que usa o próprio Facebook e as câmeras em telefones celulares para divulgar o que está acontecendo – a favor e contra.
Muitos desses protestos começaram especificamente a partir de denúncias feitas na internet. Fatos que foram simples como o vídeo online que deu origem à maior manifestação popular na Rússia desde o fim da União Soviética ou arbitrários como a decisão do governo de Hosni Mubarak de cortar a internet do Egito.
Esse movimento popular planetário sem liderança, sem ideologia e sem vínculos partidários acabou se tornando uma espécie de materialização da própria lógica da internet – em que ninguém controla ninguém.
Portanto, foi natural e incontornável a identificação do levante com o discurso do grupo de hackers Anonymous, que teve seu símbolo agregado definitivamente aos novos manifestantes.
E a máscara do terrorista inglês Guy Fawkes, redesenhada por David Lloyd no libelo libertário em quadrinhos V de Vingança, de Alan Moore, deixou de ser um ícone na tela como era na época em que representava apenas os Anonymous para ganhar as ruas do planeta. Todo mundo se identificando com um não-símbolo, o logotipo do anonimato.
Junte as pontas. Esses dois acontecimentos distintos – a morte de Steve Jobs e a série de protestos populares pelo planeta – parecem não ter comunicação entre si, mas o fato é que sem um líder carismático o suficiente para ser admirado, as multidões vão exigir cada vez mais. E vão começar a entender que a lógica fechada que querem impor à internet – e à rotina offline – é oposta às inovações culturais que a tecnologia digital têm proporcionado ao mundo. O direito autoral deve ser flexibilizado; o direito ao anonimato, preservado; o acesso ao conhecimento, mantido. Alianças e parcerias fazem parte da natureza do ser humano antes ou depois da internet.
É quando descobriremos que a revolução digital não termina na tela – e sim quando alcançamos quem está do outro lado dela. A essência desse zeitgeist materializado que entrou em nossas vidas reside em seu nome. A internet é uma rede de interconexões que não está limitada apenas a quando estamos na frente do computador. Somos praticamente anfíbios e habitamos o mundo seco (offline) e o molhado (online) ao mesmo tempo. Mas ainda estamos encantados com a descoberta do respirar debaixo d’água que é viver na internet. Resta agora começar a tirar a cara de dentro do computador e perceber que a vida a nosso redor. 2012 nos espera. Será um ano memorável e sairemos todos melhores do que entramos.
Feliz Ano Novo.
Como descrevemos na edição dessa semana, foi um ano intenso. Mas, ao mesmo tempo, foi incrível. Só pra ser prático: fizemos o caderno da concorrência mudar de nome (que agora é curto e terminando com o fonema “c”), de editor e de dia de publicação (o mesmo do Link). Mas isso é um detalhe que só importa aos chefes. O melhor de tudo, como sempre, é poder fazer o melhor suplemento dos jornais brasileiros com esse time aí de cima, falando de assuntos que interessam à maioria das pessoas hoje em dia e elevando o nível da discussão. Em que outro veículo em português você tem textos do Peter Thiel, Evgeny Morozov, Douglas Rushkoff, Tom Rachman, James Gleick (duas vezes), Lawrence Lessig, Tom Anderson, Richard Stallman e Jonathan Franzen? Fora que entrevistamos gente do naipe do Moot, Clay Shirky, Miguel Nicolelis e Steve Wozniak. Isso sem contar a publicação da íntegra do discurso de Jobs em forma de poster. O melhor de tudo, no entanto, é poder trabalhar todo dia com gente que dá gosto de ser colega de trabalho. Helô, Tati, Camilo, Filipe, Murilo e Carla (além do Fred e do Rafa, que saíram durante o ano, e do Thiago, o animal que dá a cara do caderno) não são só as melhores companhias de expediente como são ótimos amigos, grandes pessoas e profissionais de alto nível. Trabalhar com gente assim faz a gente esquecer que é trabalho. Feliz ano novo pra vocês, meus queridos.
• 2011 do começo ao fim • Quando a internet distrai • Transferência de poder • A revolução digital tem de sair da tela • O nosso occupy • Mês 12 • 2011: Um ano intenso • Apple mais perto do Brasil, a rede social da Microsoft, o livro de Jobs, a velocidade dos Hermanos… •
Escrevi sobre a chegada do iTunes no Brasil para o caderno de Economia & Negócios do Estadão, na quinta-feira:
iTunes brasileiro não deve mudar hábitos de consumo
A entrada da Apple no mercado de música digital não foi uma ideia original – ela surgiu, na verdade, de uma lacuna deixada pelas empresas que geriam o mercado fonográfico na virada do milênio e não souberam lidar com a chegada da internet. O iTunes surgiu como loja a partir do tiro que as gravadoras deram no pé ao tratar seus consumidores como vilões. E até hoje o revés sofrido é usado como prova de que é impossível deter o digital.
Recapitulando: em 1999, um universitário americano criou um software gratuito que permitia troca de músicas via internet, sem que elas estivessem em um servidor central. Assim, qualquer um poderia ver as músicas que outra pessoa tinha e baixá-las para seu computador. O programa chamava-se Napster e os executivos das grandes gravadoras entenderam como roubo. Se tivessem um pingo de visão empresarial, talvez pudessem comprar o software – como fizeram depois – para estreitar o contato com um público que, aos poucos, começava a abandonar os CDs.
A Apple fez o que as gravadoras não fizeram: legalizou esse comércio e na metade da década já era vista como uma das marcas mais associadas à música no século 21, sendo que a empresa lucrou muito mais com a venda de tocadores de MP3 – o icônico iPod – do que com a venda de músicas. Assim, pegou os americanos em um momento em que eles começavam a baixar música de graça e os educou para as compras online.
Não é um formato ideal. As músicas são vendidas individualmente, o que faz o preço das músicas de um único disco às vezes ser mais alto que o de um CD, um artefato que teve custos vinculados à fabricação, transporte, estoque e varejo. E, nos últimos dez anos, viu-se a ascensão de serviços que cobram assinatura. Nesse formato, o ouvinte não precisa sequer fazer o download – ouve o que quiser, no aparelho que quiser.
Quase dez anos após ter sido lançado nos EUA, o iTunes chega ao Brasil cobrando, em dólar, preços que conseguem ser maiores que os concorrentes em mídia física. E isso num mercado que não tem tradição de venda de mídia digital, acostumado a baixar música sem pagar. Um cenário mais favorável à entrada dos tais serviços por assinatura.
O iTunes brasileiro terá consumidores, mas serão pessoas que ainda tateiam no meio digital, gente que não se familiarizou com o download de música e que ainda apanha do computador. Não existe a possibilidade de a Apple conseguir educar o brasileiro para comprar música. Esse tempo já passou. Resta torcer para que os modelos por assinatura não levem tanto tempo para chegar por aqui…
• Febre aviária • Análise: Console é coisa para os pais, crianças aprendem em tablet • Os 15 melhores games do ano • Saman Khan: simples como 2+2=4 • Memória externa: apps recontam o passado • E-books sob suspeita, Instagram no Android, iPapa, novo Twitter •
Escrevi sobre a importância de Angry Birds para o mundo digital na capa do Link de hoje. E pra quem acha que Angry Birds é só um joguinho de celular…
Febre aviária
Não é jogo ou passatempo. É uma marca. E caminha para ser uma das maiores do mundo
Aparentemente, é só um passatempo do tipo quebra-cabeças, como Tetris, Bejeweled e dezenas de outros antes dele. Mas os passarinhos irados que destroem plataformas feitas de metal, vidro e madeira habitadas por porcos verdes não só um jogo casual. Angry Birds é um dos fenômenos digitais mais sólidos do século 21 e seu criador, o finlandês Peter Vesterbacka, não mede palavras para torná-lo superlativo. Em entrevista à revista Time, comparou o crescimento do jogo – que existe há dois anos –, ao de Google, Facebook e Twitter.
O fato é que Angry Birds está presente no mesmo recorte que tais gigantes digitais, que são produtores de serviços e não de aparelhos. Como o maior site do mundo e as duas onipresentes redes digitais, o jogo feito para celular roda em qualquer dispositivo e grande parte de seu sucesso é justamente essa onipresença eletrônica. Mas, diferente de seus rivais, o jogo da Rovio não é representado por jovens nerds megalomaníacos em trajes executivos, e sim por personagens carismáticos o suficiente para já ter vida própria.
E ao transformar seu produto numa marca, a Rovio deixa sua franquia solta para seguir o rumo que quiser, mesmo que seja dos outros. “Temos de ficar felizes com o fato de que a marca é hoje a mais copiada na China”, riu Vestebacka em entrevista ao site TechCrunch, ao ser questionado sobre o fato de Angry Birds ser o título mais pirateado na China em 2011. A pergunta não se referia ao jogo, mas à marca – até um parque temático inspirado no jogo foi construído sem autorização da Rovio por lá.
O CEO acredita que a pirataria inspira novas formas de utilização do título e que sempre haverá público para consumir o produto oficialmente. “Queremos ser mais chineses que as empresas chinesas”, arrematou na mesma entrevista.
E é a China – um mundo digital inóspito a marcas ocidentais, que até o Facebook já anunciou não estar entre as prioridades de crescimento – o próximo alvo dos passarinhos raivosos. Vestebacka quer que a marca se torne a mais popular do país mais populoso do mundo.
Só em 2011, o jogo já teve mais de 100 milhões de downloads lá. Some isso a outros tantos 400 milhões de downloads no lado de cá do planeta e ao fato de somente em dezembro deste ano, a empresa ter entrado oficialmente no Japão. O ano de 2012 também é o ano em que vamos saber se Angry Birds se tornará um ícone também no país da Nintendo – uma empresa que, desde que entrou no mundo dos games no meio dos anos 70, sabe da força da marca para ser líder nos negócios. Angry Birds que habitar a mesma camada cognitiva que Super Mario e os Pokémon, Bart Simpson e Mickey Mouse.
Os números mostram que a Rovio não está para brincadeira: além dos 500 milhões de downloads em dois anos, já vendeu mais de 10 milhões de brinquedos oficiais, além de licenciar todo tipo de produto – bonecos, camisetas, mochilas, material escolar, biscoitos e até um livro de receitas para crianças.
Já se cogitou até a transformação do jogo em um filme (com trailer imaginado por fãs no YouTube, é só procurar) e isso foi fechado em parceria com o estúdio Marvel – a mesma marca de quadrinhos que se reinventou como produtora de cinema para sobreviver no século digital. Parceria é uma das palavras mágicas do sucesso do jogo. Uma de suas versões – Angry Birds Rio – foi a versão oficial do filme de animação Rio para videogames. Duas marcas convivendo juntas e ganhando bem com isso. A Rovio até criou uma versão exclusiva para celulares da Nokia, Angry Birds Magic, mas, como o sistema operacional Symbian foi desligado, a saga não decolou.
Angry Birds é o aplicativo gratuito mais baixado para iPad, o aplicativo pago mais baixado para iPhone e iPad – perceba que não é apenas o jogo mais baixado – e na lista dos aplicativos gratuitos para iPhone, só fica atrás do Facebook. No Android Market, é o jogo mais popular – e o oitavo aplicativo mais baixado.
Some a isso o fator de vício do joguinho. Ele já tomou 200 milhões de minutos de seus usuários atirando pássaros aos porcos – o equivalente a 1,2 bilhão de horas por ano de existência do jogo. A Wikipedia levou 100 milhões de horas para ser feita.
No meio do ano, a Rovio atingiu a marca de um milhão de downloads por dia e essas cifras vêm aumentando seu valor no mercado. No fim de novembro, houve o rumor de que a gigante Zynga – marca que símbolo dos jogos sociais – havia ameaçado pagar US$ 2 bilhões pela Rovio, que nem ouviu a proposta. Vesterbacka já havia declarado que o valor da empresa cogitado pela revista Forbes em julho (entre US$ 700 milhões e US$ 1 bilhão) era baixo e que a Rovio valeria entre US$ 20 e 25 bilhões. “Mas não vamos vender, a menos que alguém ofereça o suficiente”, disse a uma revista finlandesa.
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E na última Impressão Digital no Caderno 2, comento o filme que vi em Nova York na semana passada, que provavelmente é o filme mais bonito de Scorsese…
Magia e tecnologia
O Harry Potter de Scorsese
Na última Impressão Digital, deixo de lado omundo dos celulares, redes sociais e aplicativos para falar deumoutro tipo de tecnologia, mais ancestral. Especificamente, o cinema – que, quando surgiu, era uma novidade tecnológica tão festejada e vilanizada quanto omundo digital é nesse início de século.
Hugo, o novo filme deMartin Scorsese, já estreou no exterior, mas só chega ao País no início do ano que vem. Pude assisti-lo e cravo sem pestanejar: é a mais bela obra da filmografia do diretor. E, mais do que isso, tem tudo a ver com a reputação que Scorsese criou – e deixou de lado nos últimos anos – emsua carreira.
(E, antes de continuar,um aviso: faça-se o favor de não ler muito sobre o filme, pois grande parte da beleza está na surpresa que Hugo esconde para ametade do filme emdiante. Prometo que não toco nesse assunto.)
Scorsese tem sido criticado nos últimos anos por se ter tornado uma espécie de “diretor de aluguel”, que filma obras que não fazem parte de seu espectro artístico. Há um certo exagero, mas a crítica tem fundamento. Basta comparar seus filmes de antes de 1995 (o ano de Cassino) com os que foram feitos depois disso.
Hugo, neste contexto, pode torcer o nariz de quem tem falado mal de sua carreira. Afinal, conta uma história “mágica” de um menino que vive na Paris dos anos 30 e descobre um robô que seu pai (o ator Jude Law) está tentando consertar.
O que vemos a partir daí é uma história quemuitos já conhecem e que tem tudo a ver com o amor de Scorsese pela sua própria arte. E, mesmo que dêum pequeno nó na cabeça do espectador ao traduzir o mundo mágico do garoto Hugo – e explicar o que é a sua Hogwarts (para quem não sabe, Hogwarts é a escola de magia de Harry Potter) –, é umfilme tocante, cheio de citações sutis e uma homenagem do tamanho da importância de Scorsese para o cinema.
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Game over. Esta é a última Impressão Digital no Caderno 2. Agradeço a leitura nestes 85 domingos – e a coluna reaparece no Link, antes do fim do ano.









