Courtney Barnett reaparece fazendo uma versão para “Keep On” de seus conterrâneos de gravadora Loose Tooth. A versão, mais molenga e sossegada que a original, faz parte da coletânea Milk on Milk, organizada pela gravadora australiana Milk!, em que artistas do selo tocam músicas uns dos outros.
“Você pode dizer que eu sou um branco velho – eu sou um branco velho”, canta Neil Young logo no início da longeva “She Showed Me Love”, uma das peças centrais de seu recém-lançado Colorado, mais um disco que o velho guitarrista lança ao lado de sua eterna banda de apoio Crazy Horse. O tema do disco é a preocupação do cantor e compositor canadense com o meio ambiente, progressista como sempre, embora ele mantenha-se conservador naquilo que saiba fazer melhor: longos épicos elétricos conduzidos por guitarras sujas e resmungos com sua voz característica. Mesmo com momentos delicados – como a bela “Green is Blue”, o doce trem ao final de “Eternity”, o sussurro de “I Do” e o afago em George Harrison ao copiar “Behind That Locked Door” em sua “Rainbow of Colors” -, são os emaranhados de microfonia em longas travessias que marcam mais este disco do velho Neil, seguindo a linha dos trabalhos anteriores com o Crazy Horse, como Americana e Psychedelic Pill, de 2012. A principal mudança neste Colorado é a saída de Frank “Poncho” Sampedro, que largou a estrada para curtir a vida no Havaí, e a entrada do filho pródigo Nils Lofgren, que largou o Crazy Horse ainda no início dos anos 70 e é mais conhecido por sua carreira na E Street Band de de Bruce Springsteen. Não muda nada, mas pra que mudar?
“Think of Me”
“She Showed Me Love”
“Olden Days”
“Help Me Lose My Mind”
“Green Is Blue”
“Shut It Down”
“Milky Way”
“Eternity”
“Rainbow of Colors”
“I Do”
Fiquei sabendo há pouco sobre a morte de Nick Tosches, que passou para o outro lado no último dia 20, três dias antes de completar 70 anos. O jornalista norte-americano ficou conhecido por escrever sobre música mas levou sua pena para outras tantas paragens. Traduzi parte de seu ótimo Country: The Twisted Roots Of Rock ‘n’ Roll, lançado em 1977, um de seus ótimos livros sobre os primeiros anos do rock’n’roll (a biografia de Jerry Lee Lewis Hellfire, que ele publicou em 1982, é outro deles), que a editora Conrad editou como o pequeno Criaturas Flamejantes, um dos poucos livros da ótima coleção Iê-Iê-Iê, bem como o entrevistei para a Ilustrada há 13 anos sobre seu ótimo A Última Casa de Ópio – e a inspiradora entrevista foi uma desculpa para ele divagar sobre a arte que compartilho com ele: a literatura de não-ficção que também chamamos de jornalismo.
Americano narra tempo esquecido das casas de ópio
Nick Tosches critica mundo massacrado pelo consumismo desenfreado a partir de metáfora do fim das tradições
Livro mescla reportagem jornalística com ficção para falar do modo de vida pós-industrial que destruiu o prazer de ser humano
A milenar arte de se desprender da realidade num luxuoso clube reservado parece ser o delírio mais narcisista da história ou um convite para a completa alienação social, mas nas mãos do escritor norte-americano Nick Tosches se tornou a melhor metáfora para um tempo humano que passou. Assim é A Última Casa de Ópio, curto relato sobre a procura por uma perdida tradição sagrada que funciona como um testamento para um mundo massacrado pelo século 20.
Mais do que uma simples apologia a um hábito lendário que o vazio abarrotado de nossa época tornou tabu, A Última Casa é um libelo individualista com a força juvenil de um Thoureau ou Hakim Bey, mas com sarcasmo e desprezo sábio por tudo aquilo que, apesar de parecer nobre, é supérfluo: a alta cozinha, o culto fresco-intelectual ao vinho, a globalização e o tráfico internacional de drogas como recalques diferentes de um detrator modo de vida pós-industrial que destruiu o sabor de ser humano. Tosches conversou com a Folha sobre este assunto.
A Última Casa de Ópio é, ao mesmo tempo, um romance, uma reportagem e um artigo, com momentos que podem ser verdadeiros ou falsos, além de uma narrativa que é pura digressão.
Verdade. Ficção. Lenda. Literatura. Jornalismo. São categorias, marcas. Nós amamos categorias, amamos marcas. Elas nos impedem de termos de perceber por conta própria. Mas, no fim das contas, dá no mesmo. No caso de A Última Casa de Ópio, direi que tudo é verdade: a verdade da experiência, a verdade do meu coração.
À medida em que você guia o leitor pelo livro, você também descreve a destruição de um velho mundo pelo modo de vida consumista da sociedade ocidental. Que outros prazeres foram esquecidos além do ópio?
Perdemos o maior prazer de todos que é o prazer de sermos nós mesmos. O amor pelo dinheiro, se tornar um rato numa cultura guiada pelo consumo destes tempos, faz de nós fraudes. Quando passamos a maior parte de nossas horas acordados num trabalho, fingindo que gostamos do trabalho, fingindo que gostamos de nosso chefe, fingindo que estamos interessados no nosso trabalho, então o fingimento se torna um estilo de vida. Nós nos tornamos o que T.S. Eliot chamava de “homens ocos”. Quase tudo o que consumimos, quase tudo o que compramos é placebo. Esses produtos de uma cultura consumista vazia é que são as verdadeiras drogas perigosas. Nossa “guerra contra as drogas” deveria ser contra essas coisas.
Vivemos em dias em que até a crítica musical é considerada uma arte.
“Arte” é uma palavra besta. Há muito tempo, homens pintavam imagens em cavernas. Hoje, as chamamos de arte. Para eles, era magia. Agora não temos quase nenhuma magia e tudo é chamado de arte. O pior cantor de música pop é agora um “artista”. De novo, “arte” se torna uma categoria sem significado.
Como as pessoas podem sair da segurança e do conforto da vida diária e voltar a gostar do risco?
Tendo a força e a coragem para não ligar para nada, percebendo que este é o mundo dos aristocratas e não o seu, percebendo que o dom imenso e belo de respirar vivos é tudo o que temos.
Você acha que espiritualidade, drogas e expansão de conhecimento estão conectadas umas às outras ou isso é mais uma bobagem new age?
As drogas não tornam ninguém espiritual. Mas a espiritualidade pode melhorar as coisas. Tudo, das drogas à consciência da brisa no ar. Mas o ópio tem uma certa magia. É uma vergonha podermos comprar toda a heroína que quisermos e ser tão difícil achar ópio. Mais uma vez, isso é culpa de nossa cultura consumista: ópio vale mais dinheiro quando se torna heroína. E também, hoje em dia, todo mundo quer o ritmo rápido da vida. Ópio é uma lenta e luxuosa sedução. Eu posso andar 20 minutos de onde moro e comprar armas, heroína, crack. Mas eu não acho ópio de verdade. Eu não posso nem fumar um cigarro no bar. É ridículo.
E assim começa Criaturas Flamejantes:
“Palavras como realismo, neoclassicismo, minimalismo e Dada são caprichos intelectuais, termos inventados para descrever estéticas. Cada uma delas tem uma definição de fácil aprendizado, uma origem clara e precisa. Leia a palavra Dada e lembre-se que, sim, Tzara a inventou, em 1916, para chocar o mundo. Quer dizer “cavalo de pau” em francês.
Mas palavras como juke, jazz, honky-tonk ou rock-and-roll são indefiníveis. Nenhuma delas foi inventada para o propósito da arte. Cada uma parece ter sua própria alma, de onde a arte evoluiu, como uma obscura e primitiva palavra mágica. Negros veteranos dizem que pararam de tocar o blues porque era a música do demônio. Pastores brancos berram contra a propensão ao pecado do rock-and-roll. E não é impossível que a palavra juke, encontrada originalmente entre os negros da Flórida e do litoral da Geórgia, no final do século XIX, tenha a mesma origem que a palavra dzug em úlof, que significa levar uma vida depravada.”
Livraço, vale muito à pena.
Os dois Beatles remanescentes Ringo Starr e Paul McCartney se reencontraram no estúdio ao regravar uma das últimas músicas compostas por John Lennon. “Grow Old with Me” foi lançada no primeiro disco póstumo de John, Milk and Honey, e quase foi o single de apresentação do terceiro volume da coletânea Anthology, nos anos 90, mas o grupo não chegou a uma definição a tempo do lançamento e por isto esta volume foi o único lançado sem um single gravado nos anos 90 – o primeiro volume trouxe “Free as a Bird” e o segundo “Real Love”. Quase dezoito anos após a morte de George Harrison, a dupla retoma a canção no novo disco de Ringo, What’s My Name, lançado nesta sexta-feira.
A faixa traz Ringo nos vocais, Paul no baixo e vocal de apoio, Joe Walsh, dos Eagles, na guitarra, e o lyric vídeo acima traz a caligrafia original de John Lennon.
“I got my shit together meeting Christ and reading Marx”, canta o bardo canadense Leonard Cohen na faixa de abertura de seu primeiro disco póstumo, “Happens to the Heart”. Como de praxe no repertório do mestre, a faixa equilibra-se entre a sobriedade e a sombra, dando o tom de Thanks for the Dance, disco conduzido por seu filho, Adam Cohen, a partir de sobras de estúdio do último disco gravado pelo pai, You Want it Darker, lançado meses após sua morte, em 2016.
O disco já havia sido anunciado com a faixa “The Goal” (abaixo) e Adam convidou alguns pupilos do pai para reunir-se em sua homenagem e com isso ele conseguiu Feist, Beck, Damien Rice, Bryce Dessner (do National), entre outros, colaborassem com o disco – que já está em pré-venda e deverá ser lançado no dia 22 do mês que vem.
A capa e o nome das faixas de Thanks for the Dance vêm a seguir:
“Happens to the Heart”
“Moving On”
“The Night of Santiago”
“Thanks for the Dance”
“It’s Torn”
“The Goal”
“Puppets”
“The Hills”
“Listen to the Hummingbird”
Estreei esta semana como colaborador do programa Metrópolis da Cultura, comentando sobre o disco mais recente do Nick Cave & The Bad Seeds, o ótimo Ghosteen, na TV aberta – e aproveitei para comentar sobre o documentário brasileiro Back in Town, que compara a vinda de Nick ao Brasil no final dos anos 80, quando ele morou em São Paulo, com sua volta à cidade para o show catártico no ano passado.
Em breve pintam mais comentários no programa.
Essa eu antecipei pro UOL: um dia antes de tocar no Popload Festival, Patti Smith conversará com Fernanda Diamant, curadora da Flip, no Sesc Pompeia – e de graça. De quebra, ainda descolei um capítulo inédito de um de seus dois livros que serão lançados no Brasil, O Ano do Macaco, em que ela comenta a notícia da eleição do Trump – tá tudo aqui.
Morre um gigante da música de vanguarda brasileira. Walter Franco fez parte de uma linhagem da nossa música que expandiu os horizontes daquilo que foi cogitado pelo tropicalismo no final dos anos 60. Ao lado de artistas como Tom Zé, Jards Macalé, Itamar Assumpção e Jorge Mautner (que o tempo colocou na infame prateleira de “malditos”, coisa que felizmente está mudando), entortava a canção para formatos impensáveis à época, conseguindo atingir o grande público mesmo fazer experimentos que chocavam e confrontavam os padrões. Autor de clássicos como “Canalha!”, “Respire Fundo”, “Cabeça” e “Me Deixe Mudo”, ele compôs duas obras-primas que mantiveram seu nome entre os grandes, mesmo quando ele estava afastado dos holofotes: Ou Não (o disco da mosca, de 1973) e Revolver (1975). Este último – cujo título é o verbo e não a arma, não há acento – é um dos discos mais importantes da música brasileira do século passado e um dos meus discos favoritos. Walter havia sofrido um AVC no início do mês e estava internado desde então – preocupados, amigos e conhecidos esperavam que ele pudesse se recuperar, o que infelizmente não aconteceu.
Pude conhecê-lo no final de 2017, quando tive a oportunidade de agradecer sua importância ao conceber dois shows em sua homenagem no Centro Cultural São Paulo. Propus que ele tocasse seus dois principais álbuns ao vivo em duas apresentações distintas – a primeira dedicada a Ou Não, a segunda a Revolver. Ele preferiu não reler Ou Não pois é um disco essencialmente de estúdio – Walter chamou Rogério Duprat para arranjar o disco e o maestro preferiu picotá-lo e reeditá-lo, transformando-o em um dos primeiros discos cujo principal material foi concebido após a gravação. Assim, em vez de tocar Ou Não na íntegra, sugeriu que tocasse algumas músicas daquele disco – mais fáceis de tocar ao vivo – e outras de seu repertório que não estavam naqueles dois álbuns. Perfeito, assim contemplaríamos todo seu legado.
O fim de semana que chamei de Viva Walter Franco ainda teve a graça de ter uma das datas caindo em seu aniversário de 73 anos e, capricornianos de janeiro eu e ele, rimos da coincidência numérica: os shows festejavam 45 anos de carreira de um autor nascido em 1945 e o aniversário de 73 anos de um artista que lançou seu primeiro disco em 1973. Antes dos dois shows, o jornalista Thales de Menezes, que estava escrevendo a biografia do mestre, entrevistou Walter em frente ao público. Bonachão e tagalera, Walter terminou o segundo show em êxtase, quase sem conseguir falar direito – cercado pelo público no palco da mítica Adoniran Barbosa (na foto abaixo que até hoje está como imagem de capa de sua página no Facebook). Me chamou no canto, depois de cumprimentar os fãs um a um, enxugou os olhos, ajeitou os óculos e me disse baixinho: “Obrigado Matias, esse foi um dos dias mais felizes da minha vida. Que presente que você me deu.” Chorei junto.
Eu que agradeço seu Walter. Por tudo.
Abaixo, a íntegra dos dois shows.
Depois de lançar o primeiro disco com vocais, Vox Populi, no meio do ano, a banda instrumental Nomade Orquestra agora faz o jogo de volta – e relê as mesmas músicas que compôs ao lado de Russo Passapusso, Juçara Marçal, Siba e Edgar sem os vocais. Vox Machina chega às plataformas digitais nesta sexta-feira e o grupo antecipou em primeira mão a faixa “Pinga Fogo”, que trazia Juçara na primeira versão do disco.
“O Vox Machina é o fechamento do primeiro volume da série Vox Populi / Vox Machina. Se no primeiro disco, através dos encontros com Russo, Juçara, Siba e Edgar, tínhamos a voz do povo, chegamos no desdobramento com a voz da máquina, uma imersão e um redescobrimento de nosso modus operandi revelados em oito faixas instrumentais”, explica o baixista Ruy Rascassi. “Foi desafiador chegarmos a esse resultado, pois desde o começo da concepção do Vox Populi com os cantores já estávamos certos que dali precisaria nascer um lado B, e foi aí que descobrimos um novo método de composição, onde fizemos versões instrumentais de nós mesmos”, ri. O grupo mostra seu novo disco domingo agora, dia 27, no Sesc Dom Pedro (mais informações aqui).
Eis o último trailer do último filme da saga Guerra nas Estrelas… Tanta informação…
Kylo e Rey juntos? E esse tanto de nave? Palpatine voltou meio… ciborgue? E o Finn? Tem alguma coisa pairando sobre o Finn… Mas o pior é a sensação que o C3PO vai morrer…














