“Quantos negros tem aqui? Quantos índios tem aqui? Quantos trans tem aqui? Quantos gays? Quantas minas?”, pergunta Tantão ao final de “Nação Pic Pic”, que encerra seu segundo disco com Os Fita, Drama, lançado nessa quinta-feira. Motivado pelos acontecimentos recentes na vida política brasileira, o trio liderado por Carlos Antonio Mattos, nome de batismo de metade da crucial dupla de pós-punk carioca dos anos 80 Black Future, foi gravado durante o processo eleitoral do ano passado e isso inevitavelmente contagiou todo o trabalho, a partir do título. “Drama é um disco totalmente diferente em termos de processo”, Abel Duarte, um dos produtores d’Os Fita, contrapõe o novo disco a Espectro, o disco de estreia do trio, um dos melhores de 2017. “Apesar da estética das músicas guardar alguma semelhança com as músicas de Espectro, ele surge de um processo criativo totalmente diferente. Pra começo de conversa já sabíamos que estávamos fazendo um disco, já tínhamos o nome Drama e todo um imaginário em torno desse conceito.”
O Drama do título refere-se ao que está acontecendo no Brasil. “Acho que esse ano e meio que separam os dois discos – podemos pensar em dois anos e meio se levarmos em conta a data de gravação do Espectro – foram um turbilhão de acontecimentos significativos no Brasil e no mundo”, continua Abel. “O Tantão é muito sensível a tudo isso e acho que a antena dele captou um monte de coisa no ar e traduziu a sua maneira nessas letras. Elas trazem muitas referências da violência que o capitalismo avançado aplica no corpo do povo. Aqui no Brasil, pais de ‘terceiro mundo’ – dividido – subdesenvolvido, colônia, essa violência é praticamente inescapável, principalmente para um cara tipo o Tantão, que transgride tudo sempre. Isso tudo assumiu uma forma muita clara e direta nos últimos anos – pós-golpe – quando todos os últimos resquícios de uma certa segurança social e todo e qualquer mecanismo de proteção dos trabalhadores e principalmente das ‘minorias’ passaram a ser destruídos e atacados diretamente pelo próprio estado. Ele sente isso de forma muito própria e todas as letras trazem esses dramas, tanto os seus dramas subjetivos, quanto os dramas da política institucional e os debates e pautas de políticas identitárias. Não tem como não se afetar por isso tudo, o disco foi gravado durante o processo eleitoral, essas discussões de racismo, homofobia, Bolsonaro, Trump, comunismo, as terras indígenas, isso tudo estava muito no imaginário coletivo, nas ruas, nas redes.”
“Tem uma coisa interessante também que aconteceu ao longo desse tempo que foi a convivência que tivemos, super intensa, trabalhar com o Tantão, viajar, ele chegar na tua casa louco quando você menos espera, várias farras, loucuras e tal, acho que tudo isso serviu pra gente chegar nesse lugar do Drama”, continua o produtor. “Tudo é muito dramático. Ele de uma forma muito inteligente pegou essa ideia e transformou em sete letras que trazem essa carga dramática muito forte.”
“Quanto às bases, eu e Cainã (Bomilcar, o outro Fita) já trabalhamos há um tempo juntos e isso fez nascer certas linguagens/processos que são próprias dessa parceria e está nos dois discos. O uso abusado dos samples, das distorções, a coisa da colagem, da edição, dos loops. Agora, sem dúvida, esse projeto com o Tantão, fez a gente abrir o ouvido e prestar bastante atenção em muita coisa nova para nós em termos de música eletrônica de pista, principalmente das periferias, então acho que o footwork, grime, o funk, o 150, o rap, kuduro e suas derivações, dub, todos esse guarda-chuva sonoro aí mexeu muito com a gente nesses últimos tempos. Talvez não como referência direta, mas como uma coisa que estamos sempre ouvindo e trocando.”
Abel gosta de fazer a separação processual entre os dois discos, sendo que o primeiro nem foi pensado como um disco. “Penso o Espectro como um disco que nasceu de um processo de edição/colagem no ProTools. Depois da gravação de uma sessão de improviso – que não tinha a pretensão de virar disco – ficamos um ano nesse processo. Pouquíssimas coisas foram gravadas depois. Os instrumentos eram mais toscos, não gravamos no grid, não tínhamos os BPMs anotados direito, as coisas haviam sido gravadas somadas em poucos canais – isso tudo tornou o processo as vezes um pouco difícil, o material tinha muitas limitações, obviamente dessas limitações surgem muitas coisas interessantes. As letras como são, também surgiram assim, muita coisa foi cortada e as estruturas, as partes, o texto também surgiram na edição.”
“O processo do Espectro foi mais guerra e talvez por isso mais experimental, foi surgindo ali, sem pressa, do material que tínhamos ao longo de um ano até entendermos que tinha um disco. Soa mais lo-fi, mais sujo, mas acho muito legal o que surgiu do material, o que era a gravação e o que virou o disco no final”, Abel segue a comparação. “Drama foi bem mais objetivo, planejado, feito muito mais rápido. Soa muito hi-def, apesar da sujeira, das distorções, os elementos de bateria tem muito mais peso, a voz ficou muito mais bem gravada, a performance do Tantão foi mais calculada por ele. Os beats são mais complexos, os BPMs mais acelerados, apontam mais pra música eletrônica de pista. O disco é mais certeiro como um todo, tem menos sobras em todos os sentidos. Olhando para os dois discos, acho muito interessante ver que criamos juntos um jeito de produzir uma música eletrônica “pop” com métodos e processos muito próprios, muito específicos do projeto, que fazem as coisas funcionarem e acontecer apesar das loucuras e limitações técnicas e musicais de cada um – isso vale também para os shows.”
As letras de Tantão (sintetizadas em títulos de músicas como “Vai Não Volta”, “O Sinistro”, “Adoração de Ídolos” e “Música do Futuro”) e as bases processadas d’Os Fita criam uma sensação de desconforto e de falta de pertencimento que ecoa outras referências musicais deste século. “Acho que o Cainã colocou de maneira perfeita, somos tendência, mas acho que sempre vamos soar estranho no contexto da música pop”, continua Abel. “Além do mais não consigo identificar claramente qual seria ‘a’ tendência. Acho que temos várias por aí, milhares. Realmente não consigo muito associar esse projeto a outras coisas. As nossas músicas não seguem um estilo, um gênero, elas conversam com muitas coisas, são ecléticas, diferentes entre si também. Não apontam com certeza pra nenhum lugar, não é rap, não é rock, não é techno. Alguém em Porto Alegre me falou que flagrou uma discussão num grupo de rap no Facebook sobre se Tantão e Os Fita era rap ou não, tenho quase certeza que não é, mas sei lá. Fiquei viajando que Drama também pode ser lido como um gênero literário, teatral, cinematográfico. Inauguramos o Drama como gênero musical, uma música do conflito, da ação, da encenação. Isso é obviamente uma zueira e acho que não temos a pretensão de ‘fundar’ gênero musical nenhum, talvez destruir alguns, mas acho que uma leitura interessante pra se fazer. A receptividade que o Espectro teve me surpreendeu muito. Acho que o público, essa grande massa cinzenta amórfica, se transformou um várias bolinhas dessa massa e daí tem umas três ou quatro bolinhas dessas, que podem se identificar e gostar do disco. Acho muito difícil fazer essa leitura do próprio trabalho, acho que é uma tarefa para os críticos.”

1° de janeiro de 1962 – Os Beatles fazem uma audição para a gravadora Decca, que os dispensa

2 de janeiro de 1926 – Nasce o jornal Melody Maker

3 de janeiro de 1987 – Aretha Franklin é a primeira mulher do Rock and Roll Hall of Fame

4 de janeiro de 1969 – Jimi Hendrix é banido da BBC

5 de janeiro de 2014 – Morre Nelson Ned

6 de janeiro de 1945 – Nasce Syd Barrett

7 de janeiro de 1951 – Nasce Luiz Melodia

8 de janeiro de 1947 – Nasce David Bowie

9 de janeiro de 1944 – Nasce Jimmy Page

10 de janeiro de 1949 – Os singles são lançados no mercado

11 de janeiro de 1985 – Começa o primeiro Rock in Rio

12 de janeiro de 1959 – É fundada a gravadora Motown

13 de janeiro de 1968 – Johnny Cash grava um disco ao vivo na cadeia

14 de janeiro de 1978 – Os Sex Pistols fazem seu último show

15 de janeiro de 1972 – “American Pie” chega ao topo das paradas nos EUA

16 de janeiro de 1959 – O Cavern Club é inaugurado em Liverpool

17 de janeiro de 1966 – O seriado que deu origem aos Monkees começa a ser produzido

18 de janeiro de 2009 – Posse de Barack Obama reúne elenco estelar em show histórico

19 de janeiro de 1982 – Morre Elis Regina

20 de janeiro de 1917 – É lançado o primeiro samba gravado: “Pelo Telefone”

21 de janeiro de 1978 – A trilha sonora do filme Os Embalos de Sábado à Noite chega ao topo das paradas e a disco music torna-se um fenômeno

22 de janeiro de 1972 – David Bowie assume sua homossexualidade

23 de janeiro de 1988 – Nirvana grava sua primeira fita demo

24 de janeiro de 2003 – O rapper Sabotage é assassinado

25 de janeiro de 1978 – O Joy Division faz seu primeiro show

26 de janeiro de 1991 – A-ha é o único show a esgotar no Rock in Rio

27 de janeiro de 1984 – Cabeça de Michael Jackson pega fogo

28 de janeiro de 1985 – A gravação de “We Are the World”

29 de janeiro de 1961 – Bob Dylan conhece Woody Guthrie

30 de janeiro de 1969 – Os Beatles tocam pela última vez ao vivo

31 de janeiro de 2008 – Britney Spears é internada após um ano tenso
O último show dos Beatles faz 50 anos neste 30 de janeiro e sua gravadora Apple acaba de anunciar que Peter Jackson fará um documentário sobre o primeiro mês que os Beatles passaram no estúdio em 1969, quando gravavam o disco que seria chamado Get Back e que virou o póstumo Let it Be. Estas sessões de gravação deram origem ao filme Let it Be, que nunca mais foi relançado, e ao relançamento Let it Be… Naked, mas desta vez Jackson lidará com 55 horas de material de vídeo e 140 horas de áudio que nunca saíram oficialmente do círculo da banda. “Fiquei aliviado ao descobrir que a realidade é bem diferente do mito”, explicou o diretor neozelandês no comunicado feito pela banda. “É simplesmente um impressionante e histórico tesouro escondido. Claro que há momentos de drama – mas nada perto da discórdia que este projeto foi associado. Assistir a John, Paul, George e Ringo trabalhando juntos, criando canções hoje clássicas do zero, não é apenas fascinante – é engraçado, inspirador e surpreendentemente íntimo.”
Anunciados título, data de lançamento e capa do novo disco de Jards Macalé: o retrato sinistro acima foi clicado pelo mestre Cafi, lendário fotógrafo que fez as capas de clássicos da música brasileira de nomes como Milton Nascimento, Beto Guedes, Geraldo Azevedo, Chico Buarque, Edu Lobo e do próprio Jards Macalé. Cafi foi a primeira vítima célebre de 2019, pois morreu na virada do ano novo, tornando o retrato de Jards sua última obra. A capa do disco não traz nem o nome do artista nem seu título, Besta-Fera, nome de uma das faixas que batiza a tensa obra. Jards já dissecou o novo álbum, produzido por Kiko Dinucci, Thomas Harres e Rômulo Froes na semana passada aqui no Trabalho Sujo, além de mostrar a tensa “Trevas” e o “Buraco da Consolação”, parecia com Tim Bernardes. Besta-Fera será lançado no dia 8 de fevereiro.
Não é novidade que vivemos uma época ímpar na produção musical brasileira: milhares de artistas autorais vivem da própria música, o público já se habituou a frequentar shows e a acompanhar estes nomes e mesmo numa crise política e econômica sem precedentes na história do Brasil, o cenário continua florescendo e abrindo-se para novos nomes. A conexão internacional, no entanto, precisa de um empurrãozinho, mesmo que empresários, agentes e produtores já entendam melhor o contexto em que se situam seus artistas no século 21. Essa é a função do evento Brasil Music Summit, que acontece de 6 a 9 de fevereiro, na Unibes Cultural, em São Paulo, uma realização do escritório Brasil, Música & Artes em parceria com a produtora Urban Jungle e a agência Inputsom Arte Sonora.
O evento reúne profissionais internacionais principalmente da área de shows e sincronização musical em filmes, comerciais e videogames, principais pontes do nosso mercado com o estrangeiro e a realização de shows de artistas de diferentes vertentes para apresentá-los a estes mesmos profissionais. Além das palestras, debates e workshops (confira a programação completa no site do evento), ainda há shows, tanto para credenciados no evento (de artistas como Mestrinho, Tuyo, Maria Beraldo, Josyara e Barbatuques, entre outros), quanto gratuitos para o público, na área externa da Unibes. Os shows gratuitos acontecem no sábado e domingo e reúnem Karol Conká, Xênia França, Rakta, Boogarins, Céu, Drik Barbosa, Autoramas, Luedji Luna, Teto Preto, Black Mantra, Tássia Reis e Felix Robatto.
O critério de escolha dos artistas levou em conta não apenas o lado artístico quanto o profissional: “Fizemos a seleção contemplando duas situações: artistas e bandas com vocação para exportação e com trajetórias mais maduras e por meio de um chamamento via site da BM&A, em que os artistas enviavam suas propostas de showcases”, explica Leandro Ribeiro da Silva, diretor geral do Brasil Music Summit e gerente de projetos da BM&A. “Dez artistas foram então selecionados pelos diretores de programação, André Bourgeois, CEO da Urban Jungle, e Mario Di Poi, diretor-executivo da Inputsom Arte Sonora – Céu, Karol Conká, Boogarins, Quarteto do Choro, Mestrinho e Nicolas Krassik são alguns desses nomes. Das setenta propostas que recebemos por meio de inscrição, convidamos três dos convidados internacionais – Pete Kelly, Head of Music na BT Sport, do Reino Unido, Geoff Siegel, CEO da Fundamental Music, dos EUA, e Jérôme Gaboriau, programador do Les Escales Festival, da França – para avaliar conosco o material de cada inscrito levando em conta a potencialidade e diversidade da música brasileira. Chegamos então aos outros dez artistas que completam a programação final desta segunda edição do Brasil Music Summit.”
Confira a programação dos shows abaixo:
6 de fevereiro
12h30 – Barbatuques *
14h40 – HÖRÖYÁ *
17h10 – Josyara *
19h50 – Beto Villares *
7 de fevereiro
12h – Filó Machado *
14h10 – Mestrinho e Nicolas Krassik *
19h20 – Quarteto Roda de Choro *
8 de fevereiro
12h30 – Gabriel Grossi *
14h40 – Tuyo *
17h30 – Felix Robatto
18h10 – Black Mantra
18h50 – Autoramas
19h30 – Rakta
20h10 – Boogarins
20h50 – Xênia França
21h30 – Céu
9 de fevereiro
12h30 – Maria Beraldo *
15h10 – Ricardo Herz Trio *
18h40 – Drik Barbosa
19h20 – Luedji Luna
20h – Teto Preto
20h40 – Tássia Reis
21h20 – Karol Conká
* Shows para credenciados no evento. Mais informações aqui.
“Às vezes há um homem… Eu não diria herói, por que o que é um herói? Mas às vezes há um homem, e eu estou falando do Dude… Às vezes há um homem que, bem, é o homem para seu tempo e lugar, ele se encaixa ali” – as imortais palavras do caubói que narra O Grande Lebowski, uma das obras-primas dos irmãos Coen, parecem antecipar mais uma vez a vinda do personagem mais emblemático do currículo dos diretores quando o ator Jeff Bridges twittou o seguinte vídeo:
https://twitter.com/TheJeffBridges/status/1088481555582996480
A data do final do vídeo é o próximo domingo, dia 2 de fevereiro, quando a final do campeonato de futebol americano vai ao ar nos Estados Unidos e o mercado publicitário aproveita para lançar campanhas e chamar atenção do público, devido à alta audiência. Embora continuações para o filme de 1999 tenham sido cogitadas continuamente, é mais provável que Jeff Bridges tenha calçado as melissas transparentes de seu mais clássico papel apenas para um comercial de algum produto.
Tomara que não, mas, bem, é só a minha opinião, cara…
Frank Ocean só instigou no Twitter, quinze segundos de sua versão para “The Weekend“, da SZA. E olha que…
Frank’s cover of @sza’s The Weekend pic.twitter.com/LAF3fzlksC
— Blonded. (@blondedocean) January 24, 2019
Nosso querido Frank vem lançando versões esporadicamente a partir de seu disco mais recente, Blonde (um dos melhores discos de 2016), quando lembrou da a versão que Stevie Wonder fez pra “Close to You” dos Carpenters, seguida de versões para Aaliyah (“At Your Best“) e Audrey Hepburn (“Moon River“). Qual será o plano pra 2019? Um disco de versões? Ou elas são só o aquecimento de um novo trabalho?
Eis a íntegra do papo que tive com a Joyce na penúltima sessão da primeira temporada do Cine Doppelgänger, quando discutimos Autoria em Xeque a partir dos filmes 8 e 1/2 do Fellini e Adaptação do Spike Jonze.
Lembrando que já estamos em plena segunda temporada da sessão de cinema na Casa Guilherme de Almeida e com um novo formato (sem a exibição dos filmes na íntegra e com mais debates): a próxima acontece no dia 23 de fevereiro e o tema é O Comum Bizarro, reunindo os filmes Faster, Pussycat! Kill! Kill! (1965), de Russ Meyer, e Pink Flamingos (1972), de John Waters. As inscrições podem ser feitas no site da Casa Guilherme e há mais informações aqui.
O projeto Refavela 40 foi capital na recuperação de Gilberto Gil. Nosso querido guru baiano quase passou para o outro plano em 2016, mas sua missão ainda não estava completa e ele voltou renascido para criar o irresistivelmente juvenil (e preguiçosamente velhinho) Ok Ok Ok, um dos melhores discos do ano passado. Neste processo, revisitou seu clássico de 1977, seu primeiro disco assumidamente político, feito após sua primeira visita ao continente africano e aproveitou aquela energia para continuar vivo e pleno. Da mesma forma, ele regravou o vocal da faixa-título e entregou ao coletivo de dub carioca Digitaldubs revisitar a canção, traçando a conexão entre Kingston e o Rio de Janeiro em primeira mão para o Trabalho Sujo.
Juliana Perdigão vem aos poucos construindo uma carreira sólida e interessante, longe dos holofotes, das lacrações e do hype. Desde seu primeiro trabalho (Álbum Desconhecido, de 2012) equilibra-se entre a música pop e a acadêmica, cercada de uma freguesia de compositores, músicos e amigos que inclui nomes como André Abujamra, Benjamim Taubkin, Zé Celso e Tulipa Ruiz. Neste processo, flertou com a poesia em seu disco mais recente, Ó, de 2016, quando musicou Haroldo de Campos. Foi a semente para seu mais novo disco, Folhuda, que ela lança nessa sexta-feira, e em que musica obras de poetas tão diferentes quanto os clássicos Oswald de Andrade, Paulo Leminski e Murilo Mendes e contemporâneos como Bruna Beber, Arnaldo Antunes, Angélica Freitas, Renato Negrão e Fabrício Corsaletti.
Folhuda foi produzido pelo maestro Thiago França, que lhe ajudou a construir o disco em si. “O disco veio de um convite feito pelo Thiago, que me chamou pra gente trabalhar junto, tendo ele como produtor. A partir desse convite surgiu o desejo de, pela primeira vez, fazer um disco só de músicas de minha autoria”, lembra num papo por email. “Eu já tinha feito algumas canções a partir de poemas, apresentei as que tinha para o Thiago, percebemos que já havia ali um corpo do que poderia vir a ser um disco, e desde então fui compondo outras. O processo de gravação já era bastante definidor de quais rumos deveríamos tomar, pois o disco seria gravado em apenas quatro dias. Foi daí que optamos por fazer um disco mais cru, um disco essencialmente de banda, tocado e gravado ao vivo.” Assim, “Música da Manivela” de Oswald de Andrade virou um reggae com versos como “Sente-se diante da vitrola e esqueça-se das das vicissitudes da vida”, “Mulher Depressa” de Angélica de Freitas encarna num punk rock e “Só o Sol” de Arnaldo Antunes surge como uma bossa nova.
“O processo com o Thiago foi muito massa porque a gente conversou bastante antes de gravar, desde o momento em que ele me fez o convite. No papo com ele fui amadurecendo as idéias. Durante as gravações ele esteve presente todo o tempo e tocou, fez arranjo, direcionou a parada mas deixando tudo bem livre, fluiu legal. E tem uma faixa, ‘Felino’, que gravamos só nós dois, ele no cavaco, eu no violão, que é uma faixa que curti bem o resultado e que pra mim é um retrato dessa parceria, o Thiago embarcando legal junto nas idéias”, conclui. Folhuda ainda conta com participações que incluem Ava Rocha, Lucas Santtana, Iara Rennó, Tulipa Ruiz, Arnaldo Antunes, sua banda Kurva – Chicão Montorfano tocando teclados, Moita na guitarra, Pedro Gongom na bateria e João Antunes no baixo – e o naipe de metais formado por Amílcar Martins, Filipe Nader, Allan Abbadia e o próprio Thiago, que ainda toca cavaquinho e percussão.
“De certa forma quem selecionou o disco foi minha estante, porque veio tudo dali, dos livros que tinha em casa”, ela continua. “Com alguns autores eu tenho uma conexão mais antiga, como o Lemininski, que li ainda adolescente, assim como o Arnaldo, figura presente no imaginário desde a infância, por conta do trabalho dele como músico, mas que também tive um contato com a obra poética dele há algum tempo. O Murilo Mendes, meu tio-bisavô, que não conheci, mas que sempre esteve ali, nos livros e nos casos da família. O Oswald veio um pouco depois, lá pelos meus 20 anos quando li Memórias Sentimentais de João Miramar, que me arrebatou total, e depois, no período em que estive no Teat(r)o Oficina, onde Oswald é uma espécie de babalaô daquele terreiro. E tem os poetas com os quais tenho proximidade pessoal, como no caso da Angélica Freitas, que é minha namorada, e o Renato Negrão, um broder das antigas. A partir do convívio com Angélica me aproximei um tanto mais do universo da poesia, principalmente de autores contemporâneos, como a Bruna Beber e o Fabrício Corsaletti, que também se tornaram meus parceiros em canções presentes no disco.”
O título do disco vem de sua faixa mais contagiante, o delicioso rock torto que sobre “Anhangabaú”, de Oswald de Andrade. “Gosto do som dessa palavra, da imagem que ela traz e do fato de ser um adjetivo, que pode também ser atribuído a mim, numa brincadeira em que incorporo esse imagem de algo farto, frondoso. E tem esse lance da folha de livro, página, já que todas as canções presentes no disco são poemas musicados que vieram dos livros”, conclui. O disco ainda não tem show de lançamento marcado, mas planeja lançá-lo ao vivo ainda em março deste ano.









