O ano começou com o clássico grupo punk inglês Wire lançando seu décimo sétimo álbum de carreira, o ótimo Hive Mind, e nem bem o disco foi assimilado, seu sucessor já foi anunciado – para abril! 10:20 é um disco composto por canções que ficaram de fora dos discos mais recentes da banda ou que evoluíram ao vivo e se tornaram bem diferentes. O primeiro single, “Small Black Reptile”, é uma variação da faixa de mesmo nome do disco do grupo de 1990, Manscape.
O disco será lançado em abril, sua capa é aquela lá em cima e abaixo seguem os nomes das outras músicas:
“Boiling Boy”
“German Shepherds”
“He Knows”
“Underwater Experience”
“The Art of Persistence”
“Small Black Reptile”
“Wolf Collides”
“Over Theirs”
Larissa Conforto chama a alegoria da caverna de Platão em mais um single antes de seu primeiro disco solo, no trabalho que assina como Àyié. Na colagem audiovisual “O Mito E A Caverna”, que tem a participação do Lupe de Lupe Vitor Brauer, ela mistura a intensidade deprimente e violenta dos dias atuais num spoken word que se abre em camadas líricas e melódicas que misturam drum’n’bass, trip hop, samples de jazz e palavras de ordem, conectando as notícias deste século com a história da humanidade.
É só um aperitivo do que podemos esperar deste primeiro disco, batizado de Gratitrevas, que será lançado na próxima sexta, dia 20.
Fundador/a do Throbbing Gristle e do Psychic TV, Genesis P-Orridge morreu neste sábado aos 70 anos. Um dos principais agentes provocadores do pop do final do século passado, ele/a também foi um dos primeiros artistas pop a transgredir seu próprio gênero sexual, depois que casou com Lady Jaye Breyer P-Orridge, no início dos anos 90, quando os dois começaram um lento processo de transformar-se um no outro, inventando o rótulo “pandroginia” para justificar esta transformação.
É difícil o jovem monsieur Thibaut Berland deixar a peteca cair e ao lançar mais um single com o seu pseudônimo Breakbot, ele segue uma estabilidade de produção que martela constância e qualidade com a mesma progressão. Sem contar que “Be Mine Tonight”, que ainda conta com os vocais deliciosos de Capucine Delafleur, segue uma tradição de house-funk francesa que nasceu com o Daft Punk, passou pelos Cassius, Alex Gopher, Etienne de Crécy e Dimitri from Paris e entrou no século vinte e um na mão de produtores como Fred Falke, Mr. Oizo, Justice, Yuksek, Stardust, Lifelike, Kavinsky e Modjo e que conta com seu autor, do hit perfeito “Baby I’m Yours“, como principal nome a flertar com o mainstream.
Encerrando a divulgação do projeto Songs for Australia, que visa arrecadar fundos para as vítimas no incêndio que dizimou parte da vida selvagem do país-continente, eis que surge a versão que o bardo norte-americano Kurt Vile fez para “Stranger Than Kindness” do bardo australiano Nick Cave, tirando todos os elementos oitentistas (a bateria muda, o ruído da guitarra, aquele solo esquisito do fim) e mantendo o clima solene enquanto a traz para o campo, em uma tarde outonal – mas igualmente estranha.
O disco, recém-lançado, conta com versões para músicas do Midnight Oil, INXS e Sia, todos artistas australianos.
Mais um trailer para Beastie Boys Story, o “documentário ao vivo”, que Spike Jonze irá lançar sobre os Beastie Boys que meio que revela o formato ao trazer os dois beastie boys remanescentes – Ad-Rock e Mike D – para lembrar suas histórias num teatro com um telão enorme que vai contando a história da banda. O filme também mostra como o falecido MCA era uma das forças-motrizes do trio, o que torna o trailer ainda mais emocionante – é de chorar.
O filme seria lançado agora em março no SXSW, que foi cancelado devido à epidemia do coronavírus, e deve chegar a algumas salas de cinema por lá no início do mês para chegar ao serviço de streaming da Apple menos de um mês depois.
É uma situação inédita que acarreta em um prejuízo sem precedentes: com a epidemia do coronavírus cada vez mais intensa em escala global, o mercado de música ao vivo sofrerá um golpe pesadíssimo que obriga todos seus players a se reinventar – ou quebrar. Escrevi sobre como a pandemia pode mudar completamente a cara do negócio da música hoje em uma matéria para a revista da UBC.
O mercado da música está doente
O impacto da pandemia no mercado de shows, eventos e festivais deve alcançar escala inédita, com prejuízos na casa dos bilhões de dólares só no segmento ao vivo, dizem especialistas
Como tudo relacionado à epidemia do Covid-19, a doença causada pelo coronavírus originário da China, a força de seu impacto total no mercado da música ainda é uma incógnita, mas o prognóstico não é nada bom. Sem expectativa sobre uma possível volta à normalidade — nem mesmo sobre quando alcançaremos o pico das transmissões —, os principais players da música e da cultura em geral cortam na própria carne para conter o alastramento da doença.
A princípio, os cancelamentos começaram na Ásia, pela proximidade com o epicentro da pandemia, e os primeiros “espirros” no resto do mundo foram a conta-gotas: anulações de shows e turnês internacionais que passavam por China e adjacências. Depois foi a vez de Europa, começando pela Itália. Agora, o quadro é grave no mundo todo.
Megafestivais como o SXSW, nos EUA, que aconteceria entre esta sexta-feira (13) e o próximo dia 22, já não serão realizados. O Coachella, que seria em abril, foi adiado para outubro. O Lollapalooza foi cancelado no Chile e na Argentina; no Brasil, foi adiado para dezembro. O Tomorrowland da França foi anulado. A convenção Women’s Music Event, que seria agora no fim de março em São Paulo, foi adiada para 5 a 7 de junho.
Uma cascata de grandes turnês deixará de ocorrer: Bob Dylan, Madonna, Santana, Pearl Jam, Disclosure, Miley Cyrus, Bikini Kill, The Who, Pixies, Cher, entre muitos outros. O DJ brasileiro Alok cancelou duas turnês, na China e nos EUA.
A banda-febre sul-coreana BTS apelou a outro estratagema, assim como o cantor uruguaio Jorge Drexler: transformar turnês em shows ao vivo sem plateia e transmitidos por streaming via redes sociais.
O impacto foi além da música e mexe inevitavelmente com todos os negócios relacionados ao ajuntamento de pessoas. Casas noturnas, museus e campeonatos esportivos inteiros — a começar pela NBA — também suspenderam ou adiaram suas programações, filmes tiveram seus lançamentos adiados, a maior feira de videogames do mundo, a E3, em Los Angeles (EUA), não terá uma edição em 2020, o mítico festival de cinema francês em Cannes e os Jogos Olímpicos de Tóquio ainda não tiveram (oficialmente) o mesmo destino, mas fontes já preveem que não resistirão ao vírus — e ao medo.
Governos de todo o mundo, principalmente na Europa, começaram a restringir aglomerações.
- Na Alemanha e na Suíça, todos os eventos de mais de mil pessoas estão proibidos;
- Na Bélgica, qualquer aglomeração de mais de 500 pessoas deve ser suspensa, assim como em Suécia, Noruega e Polônia;
- Na França, a restrição é ainda maior: 100 pessoas, mesmo limite de Holanda, Áustria, Hungria e República Tcheca;
- Em Portugal, todos os eventos, de qualquer tamanho, foram banidos em 14 zonas do país que representam áreas de risco. A banda brasileira Fresno, por exemplo, que tocaria em Lisboa neste sábado, teve que cancelar sua apresentação;
- Na Espanha, o governo declarou estado de emergência, que proíbe quaisquer reuniões públicas. As pessoas são desaconselhadas de ir para as ruas, e todos os shows foram cancelados. Museus, bares e restaurantes estão fechados ou fecharão neste sábado (14), e até parques estão interditados. Shows como os de Gal Costa e da rapper Drik Barbosa, que seriam realizados este mês, foram cancelados;
- Na Itália, a situação é ainda mais forte. Todo o país foi declarado área epidêmica e “fechado”. A polícia aborda pessoas que estão pelas ruas e as mandam para casa. Todas as atividades culturais e coletivas estão suspensas até segunda ordem.
- No Brasil, o Distrito Federal, o Estado do Rio de Janeiro e a cidade de São Paulo anunciaram nesta sexta-feira a proibição de todos os eventos públicos, independentemente do tamanho e da finalidade. O medo de que o vírus se dissemine se sobrepõe à preocupação com os prejuízos multimilionários.
Duas das maiores empresas de shows do mundo, a Live Nation e a AEG, anunciaram também nesta sexta o adiamento sine die de 100% dos seus eventos. Como lembrou o jornalista e produtor cultural Léo Feijó numa coluna publicada no portal Mundo Música, a Live Nation, que tem participação majoritária no Rock in Rio, perdeu mais de US$ 1 bilhão em valor de mercado nos últimos dois dias
“Só no mercado de música ao vivo já se fala em um prejuízo de mais de US$ 5 bilhões”, afirma Juli Baldi, diretora criativa do Bananas Music Branding e do Mapa dos Festivais, citando um número que vem sendo repetido por diversas fontes do mercado, mas ciente de que a cifra deve crescer. “Pelas previsões, se, nas próximas semanas, o vírus se espalhar ainda mais, acredito que outros eventos de grande porte irão aderir aos adiamentos e cancelamentos. Os impactos econômicos são incalculáveis.”
Dentro da música, ela ressalta, o setor de shows e apresentações ao vivo é mesmo o mais obviamente afetado: “Tem toda uma operação por trás, de fornecedores de mão de obra, instrumentos e equipamentos, tecnologia, comunicação… Se não tem show, a casa não abre, o frequentador não consome cerveja, o técnico de som não vai, o equipamento não é alugado, a assessoria não tem o que divulgar. Se não tem festival, não tem venda de passagens, não tem hospedagem em hotel. Vai ser um grande efeito em cascata.”
Ninguém tem uma ideia clara dos custos relacionados ao pagamento de seguros pelos cancelamentos, além da eventual devolução (ou não) de cachês e de ingressos comprados. Os contratos trazem cláusulas variadas relacionadas a isso, e muitos têm recorrido aos conceitos de “catástrofe natural” e “ato de Deus” (comum na legislação de países anglo-saxões) para evitar as polpudas indenizações. As próximas semanas ainda verão uma definição sobre isso no mercado internacional.
Ricardo Rodrigues, da agência Let’s Gig, que cuida das carreiras de artistas como Liniker e Luedji Luna, iria para o SXSW e, depois, para a feira portuguesa MIL, também anulada. Toda a programação do segundo semestre, há bastante tempo planejada, ele diz, agora está em aberto. “É bem preocupante o cenário, coloca empresas em risco. As que não tiverem estruturas para aguentar um ou dois meses mais fracos, com a diminuição grande do volume de faturamento, vão sentir um impacto muito grande. Especialmente em São Paulo, que é a cidade com o principal foco de casos (de coronavírus).”
Ele prevê uma disputa por agendas muito grande no segundo semestre, quando – e se – o pior da pandemia passar. É como se o jogo começasse do zero. “São tempos inéditos para o mercado da música, e é curioso viver isso. É importante que todos os agentes do mercado dialoguem bastante para não termos uma guerra por sobrevivência. Teremos que manter a calma, respirar fundo, ser fortes.”
Para Juli, mesmo com a epidemia contida, haverá uma grave retração na contratação de shows e eventos. “Naturalmente vão surgir outros meios de monetização para artistas e indústria em geral durante os próximos meses de crise. As pessoas não vão parar de consumir música, e acredito que os setores de tecnologia e streaming lucrarão mais neste período. Ainda é preciso levantar dados do tamanho do impacto da epidemia na indústria da música. E que possamos a começar desde já a planejar a retomada.”
“The Difference” é a primeira colaboração entre o produtor norte-americano Toro y Moi e o australiano Flume e apesar de funcionar, fica muito aquém do esperado, com uma melodia apenas OK sobre uma base drum’n’bass sem muita inventividade, lembrando uma música-tema de cobertura de Jogos Olímpicos de algum canal de TV a cabo, um jingle composto pelo Foster the People. É quase inofensiva – tomara que a parceria evolua para além disso.
Conversei com o Femi Kuti, uma das atrações do Nublu Jazz Festival deste ano, que toca neste fim de semana em São Paulo. O papo com o filho mais conhecido de Fela Kuti está na revista Trip – confere lá.
É oficial: a Disney comprou os direitos de distribuição do documentário Get Back, em que diretor Peter Jackson debruça-se sobre o material que outro diretor, Michael Lindsay-Hogg, fez no último mês em que Beatles tentaram manter-se como uma banda, em janeiro de 1969. O projeto Get Back foi originalmente uma tentativa que Paul McCartney fez com o grupo para que eles voltassem a funcionar coletivamente, depois de uma série de brigas em 1968 que culminou com a saída do baterista Ringo Starr do grupo, por uma semana.
Paul sugeriu que os quatro voltassem ao estúdio para tocar clássicos do rock como nos velhos tempos, batizou a iniciativa de Get Back, a partir de uma canção sua, e convenceu os Beatles a deixar uma equipe de filmagem acompanhou o processo. A presença das câmeras – e forçadas luzes coloridas – deixou o clima entre os Beatles, que já estava ruim, pior, e aquele mês assistiu à desintegração do grupo como uma banda. Emblemático que culminasse com a última apresentação ao vivo do grupo, o show de 40 minutos que parou Londres quando o grupo tocou sem anúncio no topo do prédio onde funcionava seu escritório, a gravadora Apple.
Get Back foi arquivado e o grupo passou a trabalhar no que mais tarde se tornaria o disco Abbey Road, mas nunca mais os quatro integrantes da banda estiveram juntos no estúdio, sendo este último disco gravado com no máximo três beatles por vez na sala. Alguns deles mal falavam um com o outro, Paul tretado com John, George tretado com Paul, Ringo de saco cheio dos três. Em 1970, depois do anúncio oficial do grupo, Get Back foi relançado num novo formato – pós-produzido por Phil Spector, que descaracterizou as gravações cruas da época com cordas e coros, o disco transformou-se em Let it Be, nome também do último filme do grupo, extraído das filmagens de Linsday-Hogg.
O documentário que aproximou o diretor de Senhor dos Anéis ao grupo inglês é a versão definitiva deste momento. Trabalhando em cima de todo o material deixado pelo diretor original, Peter Jackson mergulhou no projeto, que finalmente ganhou sua data de estreia no cinema, com o anúncio da entrada da Disney no projeto. Se o coronavírus não atrasar ainda mais, o lançamento está previsto para o dia 4 de setembro. E trará a íntegra do show no terraço da Apple, quando o grupo tocou três vezes “Get Back”, duas vezes “Don’t Let Me Down” e “I’ve Got a Feeling”, além de “Dig a Pony” e “One After 909”, acompanhados do tecladista Billy Preston.









