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Yo_La_Tengo-1995

Electr-O-Pura não é o clássico do Yo La Tengo que os fãs respondem imediatamente quando perguntados qual o melhor disco da banda nova-iorquina – normalmente a resposta varia entre o disco que a banda lançou antes (o Painful, de 1993) ou o que lançou depois (I Can Hear the Heart Beating as One, de 1997) -, mas é o meu disco favorito do trio. Pode ser por motivos sentimentais (foi o primeiro disco do grupo que escutei) e emotivos (“Blue Line Swinger”, a faixa de nove minutos que encerra o disco, é uma das minhas músicas favoritas – e não só entre as deles), mas é bom vê-lo ganhando o verniz histórico necessário quando a gravadora Matador o incluiu como o novo item de sua série Revisionist History.

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A nova edição, que já está em pré-venda e sai apenas em setembro, no entanto, não traz nenhum extra, apenas prensa o disco em vinil duplo, como deveria ter sido anteriormente, com capa gatefold (a versão original do vinil deste disco era simples e a capa não abria), garantindo melhor qualidade sonora para as músicas. Como parte das comemorações do lançamento – o disco fez aniversário no último dia 2 -, a gravadora convidou uma de suas novas artistas, Lucy Dacus, para gravar uma versão para “Tom Courtenay”, ela que também o considera seu disco favorito.

Como se não bastasse, ela nasceu no mesmo dia em que o disco foi lançado e aproveitou para escrever sobre ele, num texto que foi traduzido pelo Marcelo, no Scream & Yell. Um trecho da tradução:

O que me fez voltar ao Yo La Tengo foi a compreensão deles sobre o humor. Ouvi bandas que exprimiam raiva, bandas que exprimiam tristeza, mas não conhecia outras bandas que pudessem expressar uma gama completa de sentimentos da maneira como o Yo La Tengo pode. De música para música, ela podia ser ansiosa, celebratória, triste, contente, confusa, etc. E mesmo quando ficavam barulhentas ou dissonantes, nunca pareciam hostis. Os sons podiam ser severos, até feios, mas eram alegres. Algumas músicas poderiam me fazer chorar, mas eram divertidas e não agressivas. Eu estava assimilando o gosto de outra pessoa e, no processo, descobrindo o meu.

“Tom Courtenay” foi a primeira música do Yo La Tengo que aprendi na guitarra. Eu não sabia o que significava, mas sabia quem Julie Christie era e amava os versos: “As the music swells somehow stronger from adversity / our hero finds his inner peace.” Não sabia o significado, mas não conseguia parar de pensar nisso. Era como qualquer bom poema, deixando um espaço para mim, entre imagens. Agora, acho que a música pode ser sobre obsessão com a mídia, equiparando aos filmes e estrelas de cinema à dependência de drogas. Bom, quem sabe, essa é apenas a minha opinião.

Eventualmente, quando a Matador me convidou para entrar no selo, o fato do Yo La Tengo estar na lista deles foi um componente importante da minha decisão. Eles lançam ótimos álbuns a cada dois anos há mais de três décadas, experimentando e explorando o que parece ser uma criatividade despretensiosa. Vale a pena comemorar, especialmente agora, quando qualquer oportunidade de celebração é uma bênção. Feliz aniversário de 25 anos para o “Electr-o-pura” e obrigado pela música, Yo La Tengo.

Eu também agradeço.

aldirblanc

Com a morte de Aldir Blanc, perdemos um mago que também era uma estrela, um autor que também era um personagem, um ser de carne e osso sobrenatural. A música brasileira fica um tanto muda e nossa cultura um tanto sem palavras, mas, como ele mesmo dizia: “Mas sei que uma dor assim pungente não há de ser inutilmente…” Obrigado, seu Aldir.

Foto: Tuane Eggers

Foto: Tuane Eggers

Gravado no meio do ano passado, o terceiro disco do gaúcho Pedro Pastoriz, Pingue-Pongue com o Abismo, finalmente começa a ver a luz do dia. O disco, produzido por ele, Arthur Decloedt (baixista do Música de Selvagem) e Charles Tixier (que toca com a Luiza Lian), deveria ter sido lançado no mês passado, com shows em São Paulo e Porto Alegre, mas, como a maioria dos discos previstos para este período, foi adiado para um futuro próximo e só agora dá a cara a tapa.

pedropastoriz-pinguepongue

Os trabalhos começaram com o lançamento do primeiro single, “Dolores” (abaixo), que saiu em primeira mão na Noize, e com a capa (acima), que foi revelada para o blog do jornalista Mauro Ferreira, no G1, e o disco todo deve surgir nos próximos meses.

Enquanto isso, Pedro inventou um programa semanal de comédia chamado Comitê, em que começa a explorar os temas do disco, além de abrir uma campanha de financiamento coletivo para bancar a finalização do disco. Venho trabalhando com ele há mais de um ano fazendo a direção artística deste lançamento e penamos para inventar uma nova forma de apresentar o disco, uma vez que não há previsão para o retorno dos shows. Mas Pedro tirou de letra e vem mostrando como o trabalho realmente expande seus horizontes para além da música – de cara, ele é muito engraçado. Se liga:

rodrigoygabriela

Vem de longe o prazer da dupla mexicana Rodrigo y Gabriela de incorporar clássicos do rock em seu repertório, ressaltando as qualidades instrumentais de sua parceria acústica. E desde o ano passado, Rodrigo Sanchez e Gabriela Quintero passaram a tocar uma versão de tirar o fôlego de “Echoes”, o soberbo épico que domina todo o lado B do fabuloso Meddle, de 1971, lançando-a inclusive como número de encerramento de seu disco mais recente, Mettavolution. A versão abaixo faz parte da playlist Lumbini Sessions, sessões diárias que vêm fazendo em seu estúdio Lumbini, na Cidade do México.

Gorillaz-Tony-Allen

O Gorillaz manda um salve para o saudoso Tony Allen. A banda de desenho animado do vocalista do Blur Damon Albarn – parceiro do baterista nigeriano em dois grupos diferentes (The Good, The Bad and The Queen e Rocket Juice & The Moon) – celebra o mestre nigeriano falecido na semana passada ao lançar a música que a banda fez com o baterista ao lado do rapper inglês Skepta, gravada pouco antes da quarentena londrina começar.

“How Far?” é a quarta música do projeto Song Machine, que o grupo lançou no início do ano: antes dela vieram “Momentary Bliss” com o rapper Slowthai e o duo de rock Slaves, os dois ingleses, “Désolé” com a cantora da Costa do Marfim Fatoumata Diawara e “Aries” com o baixista Peter Hook e a cantora Georgia.

E o projeto tá ficando bem redondinho…

lovecraft_country

Sem avisar nada, a HBO lançou apenas um teaser do seriado Lovecraft Country, anunciando-o para agosto. A série junta nomes de peso na produção – nada menos que J.J. Abrams e Jordan Peele – para afundar-se na mitologia do mestre do horror H.P. Lovecraft, cujas histórias giravam em torno do mito Cthulhu, uma divindade maligna que se alimenta de dor e sofrimento humano. A série ganha um apelo extra – principalmente por incluir Peele, mais conhecido pelos atordoantes filmes Corra! e Nós – ao se inspirar no livro de mesmo nome do escritor norte-americano Matt Ruff, que traçava paralelos desconcertantes entre as metáforas de horror do autor e seu declarado racismo.

Pode ser uma jornada perturbadora – e ainda tem Michael K. Williams (o Omar de The Wire) no elenco.

xepa-sounds

“Saudades de todo mundo junto dançando na rua, né minha filha?”, parece perguntar, entre a nostalgia e a pilha, a série de mixtapes Xepa Sounds que o Thiago França está lançando no seu site. Ele sussurra seu mantra “nunca não é carnaval” um pouco antes de gritar “bora!” e soltar a bateria eletrônica, emendando hits pop sem medo de apelar – meu astral de festa, quem conhece, sabe. Então tome Kid Abelha com Police, “Morena Tropicana” com Claudinho e Buchecha, Spice Girls com Men at Work, Terence Trent D’Arby com “The Final Countdown”, George Michael com “Lilás”, Lulu Santos com “Lindo Lago do Amor”, “Still Lovin’ You” com Rosana – tudo no beat do passinho.

Já são três (dá pra baixar a primeira aqui, a segunda aqui e a terceira aqui) – e vai saber quantas mais vêm aí…

Dos tempos que a gente podia circular pela rua

Dos tempos que a gente podia circular pela rua

Bruno Torturra me chamou para conversar sobre as transformações que a pandemia está impondo à cultura no programa Tem Alguém em Casa?, que ele mantém no canal do YouTube de seu Estúdio Fluxo.

fripp

Impossibilitado de viajar em turnês, seja com seu King Crimson ou em seus trabalhos solo, o guitarrista inglês Robert Fripp anunciou que começaria nesta sexta-feira uma série de cinquenta faixas semanais chamada Music For Quiet Moments, em que traz faixas ambient esparsas, avessos ao motor racional de seu trabalho tradicional, quando mistura jazz, música erudita e música contemporânea experimental. A série traz faixas que foram compostas em diferentes momentos de sua carreira e ele inaugurou com a lânguida e delicada – mas hipnoticamente profunda – “Pastorale”, que gravou no dia 3 de junho de 2007 em Mendoza.

Ele escreveu sobre o tipo de música que pretende lançar neste período, uma reação clara à tensão provocada pela quarentena e pela pandemia que assolam o planeta neste ano:

 

Música para Momentos Quietos…

I

Um Momento Quieto é como vivenciamos um momento: o momento que está aqui, agora e disponível.

Momentos quietos são quando reservamos um tempo para ficarmos quietos;
e também onde os encontramos.
Às vezes, momentos quietos nos encontram.

Alguns lugares têm um espírito fixo, onde a quietude é uma característica do espaço:
talvez sejam características naturais das paisagem;
talvez sejam criados intencionalmente, como um jardim;
talvez sejam onde espíritos de lugar surgissem com o tempo, como em um cemitério inglês no campo.

A quietude pode ser provada com som e também pelo som;
em um lugar que consideramos sagrado ou até em um metrô lotado rumo ao Piccadilly ou à Times Square.

Um Momento Quieto tem mais a ver com a experiência do tempo do que com o som.

Um Momento Quieto prepara o espaço onde o Silêncio pode entrar.

O silêncio é atemporal.

II

Meus Momentos Quietos, com mais de cinquenta e um anos de turnê, muitas vezes ocorreram em locais públicos, onde crescentemente, uma camada de ruído intencionalmente cobriu e saturou o ambiente sônico.

III

Momentos Quietos da minha vida musical, expressos em paisagens sonoras, são profundamente pessoais; ainda que totalmente impessoais: eles abordam as preocupações que compartilhamos dentro de nossa humanidade comum.

Paradoxalmente, eles ocorreram principalmente em contextos públicos hostis e pouco favoráveis ao silêncio.

Algumas dessas paisagens sonoras são voltadas para dentro, reflexivas.
Algumas vão para fora, afirmativas.
Algumas não vão a lugar algum, simplesmente estando onde estão.

Robert Fripp
Terça-feira, 28 de abril de 2020;
Bredonborough, Inglaterra

Maravilhoso.

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Resgatei uma entrevista que fiz pra Ilustrada com o pai do afrobeat Tony Allen, que saiu deste plano na última quinta, na primeira vez que ele veio ao Brasil, em 2004. A foto que ilustra o post saiu do Radiola Urbana do Ramiro, que fez uma playlist no Spotify em celebração ao mestre.

***
Pulso de Tony Allen une Brasil e África
Baterista nigeriano que tocou nas bandas de Fela Kuti apresenta-se pela primeira vez no país, ao lado de Sandra de Sá

Como o multiinstrumentista nigeriano Fela Kuti (1938-97) exigiu o holofote da história para seus discursos de ritmo incendiário, o baterista Tony Allen foi deixado em segundo plano como uma espécie de Sancho Pança do jazz-funk africano. Mas basta ouvir qualquer álbum de Kuti para entender que Allen era a força motriz e a arma secreta das bandas do artista – Koola Lobitos e Africa 70.

Allen era companheiro de longa data e tocava com Kuti desde os tempos em que sua banda chamava Koola Lobitos. Formado nos anos 60 apenas por estudantes nigerianos que faziam faculdade em Londres, o grupo logo passaria por uma drástica transformação em sua primeira turnê aos EUA.

Lá, Fela Kuti foi apresentado à nata de uma cultura negra em plena ebulição, que incluía free jazz, movimentos políticos e rock alto. Absorveu com a mesma intensidade as palavras de Jimi Hendrix, Malcolm X, Ornette Coleman, Sly Stone e Eldrigde Cleaver e mudou a banda: a partir daquela viagem de 1969, os Koola Lobitos se tornavam Fela Kuti & Africa 70 e nascia um novo gênero musical, o afro-beat.

Idealizado por Kuti, o gênero não sairia do lugar não fosse o pulso preciso de Allen, que se apresenta hoje e amanhã dentro da programação do Fórum Mundial de Cultura. Kuti morreu em 1997, mas o trabalho de Allen continua a pleno vapor. Ele, que já havia colaborado com grandes nomes do pop africano (como Manu Dibango e Ray Lema), passou as duas últimas décadas experimentando gêneros desconhecidos e possibilidades em estúdio. Lançou seu último disco, “Home Cooking!”, em 2003, e tem colaborado com Damon Albarn, vocalista do grupo inglês Blur, e com o novíssimo MC e produtor inglês Ty. Leia a seguir os principais trechos da entrevista que Tony Allen deu à Folha.

Que semelhanças você vê entre a música brasileira e a do continente africano?
Tony Allen –
O Brasil tem muitas semelhanças com a África, por serem continentes de ritmos que surgiram do sofrimento. Tivemos a escravidão no passado, que nos tornou irmãos de sangue. E são culturas de países que não tiveram oportunidade de desenvolvimento, por isso são culturas nascidas na pobreza, mas que não são pobres. Há um lado na pobreza que não é tão negativo, que faz com que os pobres vivam mais do que os ricos, tenham mais experiência e intimidade com a vida do que aqueles que se dizem ricos. E, para falar dessa vida, eles colocam a boca no mundo.

Você tem algum artista brasileiro favorito?
Gosto especificamente de Gilberto Gil, que é uma pessoa em que eu sempre presto atenção. Ele é tão político quanto artista, tem uma desenvoltura muito boa para falar e idéias que realmente importam. E tem estilo. Seu violão é uma assinatura inconfundível.

Ele é o atual ministro da cultura do Brasil…
Sim, eu sei, e parece uma escolha óbvia para o cargo -não por ser um artista representativo do Brasil, que também ele é, mas por ter uma visão ampla de toda a situação. Acredito que o fato de eu estar finalmente indo para o Brasil está diretamente ligado ao seu cargo no governo. Não que ele tenha me convidado ou intercedido ao meu favor, mas estamos na mesma sintonia.

Você o conhece?
Não, mas adoraria. Quem sabe, nessa viagem… Também não conheço Sandra de Sá, com quem irei tocar aí, mas acho que terei uma ótima oportunidade para conhecer seu trabalho.

Desde os anos 80, você está atento a outros gêneros musicais e novas técnicas de gravação…
Houve uma época em que eu percebi que o afro-beat poderia se estagnar, parar no tempo. E a música tem que se mover. E, se havia a possibilidade de um ritmo rico e forte como o afro-beat parar no tempo, eu mesmo teria que colocá-lo andando de novo. Por isso comecei a me aproximar de artistas de hip hop, produtores de dub e de dance music.

TONY ALLEN E SANDRA DE SÁ.
Quando: hoje (sábado, 26 de junho de 2004), às 20h30, no Sesc Pompéia (r. Clélia, 93, Pompéia, SP, tel. 0/xx/11/3871-7700), e amanhã, às 15h, no Sesc Itaquera (av. Fernando do Espírito Santos Alves Matos, 1.000, Itaquera, SP, tel. 0/xx/11/6521-7272). Ingressos: R$ 15.