Há quatro anos, Ava Rocha e Negro Leo foram para Bogotá participar de uma residência artística com o grupo Los Toscos, formado por músicos locais que se juntam para gravar músicas nascidas nestas experiências. O casal chegou na capital colombiana na época da votação do plebiscito que decidia pelo acordo de paz entre o governo e as Farc – e o clima político daquele país acabou contagiando o encontro musical. Ava, que morou entre os 14 e os 20 anos naquela cidade, pode reencontrar suas raízes musicais e gravar duas canções que compôs em espanhol, a animada “Lloraré Llorarás” e a meditativa “Caminando sobre Huesos”, que compõe um single que ela lança nesta sexta. Ela antecipa as duas faixas em primeira mão aqui para o Trabalho Sujo.
A voz rouca e calejada parece vir do além, mas Bob Dylan sabe que está em algum muquifo decadente de nosso inconsciente: “Mais um dia que não termina, mais um barco que se vai”, ele rosna no início de seu novíssimo blues sujo “False Prophet”, “Mais um dia de raiva, de amargura e de dúvida”. O novo single, ilustrado por essa estranha presença da morte em trajes de gala com um olho só, não é apenas a terceira faixa maravilhosa que lança em 2020, esse trio de jóias inéditas que começou com o épico de quase 17 minutos “Murder Most Foul” e seguiu com a introspectiva “I Contain Multitudes” faz parte do primeiro álbum de inéditas que Dylan lança em oito anos, anunciado junto com a nova canção.
Depois de três discos – incluindo um álbum triplo – vagando por canções que, em sua maioria, foram imortalizadas por Frank Sinatra (Shadows in the Night, de 2015, Fallen Angels, de 2016, e Triplicate, de 2017), o mestre volta-se para sua própria lavra e anuncia que as três músicas que lançou nesse mórbido 2020 fazem parte de Rough and Rowdy Ways, que já está em pré-venda e será lançado no dia 19 de junho. “False Prophet” segue aproximando o tom do álbum de nossos dias isolados ante a peste: “Eu não sou nada como minha aparição fantasmagórica sugere/ Não sou um falso profeta / Só disse o que disse / Estou aqui pra trazer a vingança para a cabeça de alguém.” A capa do novo disco e a letra da nova música seguem abaixo:
Another day that don’t end
Another ship goin’ out
Another day of anger, bitterness, and doubt
I know how it happened
I saw it begin
I opened my heart to the world and the world came in
Hello Mary Lou
Hello Miss Pearl
My fleet-footed guides from the underworld
No stars in the sky shine brighter than you
You girls mean business and I do too
Well I’m the enemy of treason
Enemy of strife
Enemy of the unlived meaningless life
I ain’t no false prophet
I just know what I know
I go where only the lonely can go
I’m first among equals
Second to none
Last of the best
You can bury the rest
Bury ’em naked with their silver and gold
Put them six feet under and pray for their souls
What are you lookin’ at
There’s nothing to see
Just a cool breeze that’s encircling me
Let’s go for a walk in the garden
So far and so wide
We can sit in the shade by the fountain-side
I search the world over
For the Holy Grail
I sing songs of love
I sing songs of betrayal
Don’t care what I drink
Don’t care what I eat
I climbed the mountains of swords on my bare feet
You don’t know me darlin’
You never would guess
I’m nothing like my ghostly appearance would suggest
I ain’t no false prophet
I just said what I said
I’m just here to bring vengeance on somebody’s head
Put out your hand
There’s nothing to hold
Open your mouth
I’ll stuff it with gold
Oh you poor devil look up if you will
The city of God is there on the hill
Hello stranger
A long goodbye
You ruled the land
But so do I
You lost your mule
You got a poison brain
I’ll marry you to a ball and chain
You know darlin’
The kind of life that I live
When your smile meets my smile something’s got to give
I ain’t no false prophet
No I’m nobody’s bride
Can’t remember when I was born
And I forgot when I died
Mais do que a cantora do hit “My Boy Lollipop”, Millie Small, que faleceu nesta terça-feira (vítima de um derrame), foi a primeira popstar jamaicana e lançou o ska para o resto do mundo em 1964.
“Tou começando a enlouquecer, tou esquecendo de me amar, meu coração vai endurecer ou me entortar”, canta o refrão da primeira música que o pernambucano Tagore mostra de seu próximo disco, o sucessor do ótimo Pineal, de 2016. Cada vez mais psicodélico, Tagore Suassuna também teve sua programação de lançamento afetada pela pandemia, o que lhe fez antecipar a ordem dos lançamentos, mostrando “Drama”, que gravou ao lado dos Boogarins, como primeira amostra do novo álbum. “Nutríamos há algum tempo a vontade de lançar um feat.e com a crise que estamos atravessando, resolvemos antecipar e inverter um pouco a ordem dos lançamentos, priorizando essa parceria com os Boogarins, com quem temos uma longe relação de carinho e admiração mútua”, ele explica, falando da música que lança em primeira mão no Trabalho Sujo. O single chega às plataformas digitais nesta sexta, mas já pode ser ouvido abaixo.
O novo álbum, que chama-se Maya, deverá ser lançado apenas no segundo semestre e foi produzido por Pupillo Oliveira, que também toca bateria no disco, composta em parceria com o guitarrista da banda goiana, Dinho Almeida. “’Drama’ é um grito no espelho, um pedido de ajuda ao seu próprio reflexo, em busca de forças pra encarar as desventurar da existência, entre elas, os desamores”, continua.
“Iniciamos o processo de gravação em maio de 2018, em São Paulo, logo após participarmos do SXSW e Lollapalooza em sequência”, ele continua contando sobre o disco e fala sobre sua convivência com a quarentena. “”Estou num sítio em uma montanha chamada Taquaritinga do Norte, interior pernambucano. Trouxe todo meu equipamento e estou aproveitando pra registrar material novo e me aprofundar nos estudos de mixagem e masterização. Estamos planejando estratégias alternativas para o lançamento do disco, focando principalmente no suporte visual, com sessions acústicas, mais cruas, clipes e ilustrações.”
Mesmo em quarentena, Thurston Moore não para de lançar música. Foram duas de seu grupo Chelsea Light Moving, “Sunday Stage” e “No Go”, desenterradas de gravações do começo da década passada, e agora ele lança músicas com a banda que vem lhe acompanhava no meio da década, batizada de Thurston Moore Group, com o baterista do Sonic Youth Steve Shelley, a baixista do My Bloody Valentine Deb Googe e o guitarrista do Nought James Sedwards. Primeiro, o grupo lançou a noisy “Instant Transcendent Conjecture”, gravada em 2016.
Agora é a vez de lançar “May Daze”, esperando que seus conterrâneos norte-americanos se registrem para votar nas eleições para presidente deste ano. “Nós podemos mudar o mundo – liberte todos os presos políticos – insurreição pela decência comum – consciência rock’n’roll” brada ao anunciar a nova música, que parece saída dos discos do início do século de sua antiga banda.
Com a morte de Florian Schneider, o que chamamos de música eletrônica fica órfã. Um dos fundadores do Kraftwerk, o músico alemão foi um dos pioneiros do gênero e começou a desconstruir sua musicalidade quando passou a submeter seu principal instrumento – a flauta transversal – a uma série de pedais de efeito, mudando inclusive o papel do instrumento nas formações em que tocava, até o final dos anos 60. A partir daí, conheceu o eterno parceiro Ralf Hütter, e aos poucos foi abraçando os sintetizadores e a pós-produção, criando o principal grupo alemão da história da música pop, que abriu fronteiras inimagináveis ao processar o rock progressivo dentro das rígidas regras do minimalismo eletrônico, influenciando até mesmo David Bowie, que compôs uma música em sua homenagem (“V-2 Schneider“, do disco “Heroes”). A causa da morte não foi anunciada.
Um pouco da importância do mestre carioca Aldir Blanc pode ser absorvida através do ótimo documentário Aldir Blanc: Dois Pra Lá, Dois Pra Cá, dirigido em 2013 por Alexandre Ribeiro de Carvalho, André Sampaio e José Roberto de Morais, que está disponível online. Nele, o boêmio carioca lembra da infância e da adolescência na zona norte do Rio de Janeiro, suas parcerias (João Bosco e Guinga falam sobre este que consideram seu principal parceiro musical), seu envolvimento com o Movimento Artístico Universitário e seu papel na luta pelos direitos autorais, além de ver como Aldir era bom contador de histórias e querido por onde passava.
Dica do Aliche, o diretor do festival In-Edit Brasil.
Mais uma joia deste encontro entre dois seres humanos sublimes – depois de cantarem juntos “Não Existe Amor em SP” como primeiro gostinho do EP Existe Amor, que será lançado nesta sexta, a dupla Milton Nascimento e Criolo faz o jogo de volta e dessa vez cantam uma canção do primeiro, a eterna “Cais”. Como na primeira música, esta também tem arranjo do gigante Amaro Freitas e produção de Daniel Ganjaman – que, por sua vez, antecipou a capa do disco e as outras duas músicas que completam o repertório, as inéditas “Dez Anjos” – parceria de Criolo com Milton – e “O Tambor” – que junta Criolo e o maestro Arthur Verocai.
Precisamos de beleza nestes tempos tão duros
Mais uma vítima do coronavírus, Ciro Pessoa era mais que “o nono Titã”, por ter sido um dos primeiros a embarcar na ideia da criação do grupo paulistano, era um poeta urbano e cronista paulistano, que sintetizou sua essência num dos discos-chave do pós-punk brasileiro, Fósforos de Oxford, de seu Cabine C.
Ciro vinha se tratando de um câncer, o que lhe fez ser contagiado pelo covid-19. Triste perda, vai na paz.
Com a morte de Aldir Blanc, o Sesc resgatou a íntegra do show que seu maior parceiro, o mineiro João Bosco, fez no fim do mês passado, dia 25 de abril, a partir de sua casa, uma vez que já estávamos em quarentena. Ele aproveita para pedir forças para o velho compadre, já internado por conta do coronavírus, que acabou por levá-lo. João Bosco e seu violão não precisa de muito mais, certo? E ele ainda canta Tincoãs…










