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Céu revisita o clássico “Carinhoso”, de Pixinguinha, transformando-o em um simpático reggae – o desenho da capa do single é um autorretrato da própria cantora.

A música é uma das doze versões que a canção terá dentro de uma nova série do Netflix da Globo, Todas as Mulheres do Mundo, que ainda terá interpretações feitas por Elza Soares, Marisa Monte, Alcione, Ana Cañas, Elis Regina, Maria Bethânia, Nara Leão e mais.

bnegao2020

Bati um papo com BNegão, Mariana Aydar, Hamilton de Holanda e Fernanda Takai sobre suas novas rotinas em tempos de quarentena, época de shows feitos pela internet e de introspecção técnica e criativa em uma matéria para o site da UBC, confere lá.

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O período da quarentena é inevitavelmente fértil para quem trabalha com criação – e quem está prestes a lançar mais um disco registrado no período é o músico sergipano Allen Alencar, que aproveitou a solidão para preparar um EP colaborativo com alguns amigos, sempre à distância. Rastro será lançado nesta sexta-feira e o músico antecipa uma das faixas, a melancólica e delicada “1964”, poema de seu amigo Felipe Bier, que assina como Lobo Guará, em primeira mão para o Trabalho Sujo, com direito até a clipe.

“Bati o olho um dia no poema, já à noite, e foi saindo a música, como uma coisa só”, lembra Allen. “Foi bem rápido, o que não é muito comum pra mim nesses casos. O poema tem o ano do golpe militar e fala um pouco sobre essa sensação de deslocamento, de um estado da mente que se está meio dormindo, meio acordado, como num vôo de avião, depois de um Dramin. Acho que de alguma forma ele se conecta com esse momento maluco que estamos vivendo, tanto nessa reedição de um autoritarismo aqui no Brasil e de se sentir ao mesmo estrangeiro e familiarizado com seu país, quanto no sentido fantástico e quase onírico de viver uma pandemia e todo esse momento, quase parecido com um sonho ruim, ou algo do tipo.”

“O disco foi realizado todo a distância”, continua o músico. “Gravei as coisas aqui em casa, o que era possível de fazer sozinho eu fiz, e outras coisas mandei pros amigos, músicos que eu confio e admiro. Dudu Prudente, produtor e baterista, amigo de longa data de Aracaju, gravou a bateria de uma delas, Daniel Doctors, parceiro em vários projetos gravou baixo, e Zé Ruivo, parceiro costumeiro, gravou alguns teclados. Me meti a mixar, eu mesmo, foi uma aventura.”

Náusea mineira

Foto: Natália Bandera

Foto: Natália Bandera

A cena mineira está sempre em transformação – e a quarentena traz à nota mais uma destas mutações musicais que pouco a pouco mexem a cara com a música de Belo Horizonte. Náusea é um trio formado por ex-integrantes das bandas Miêta e El Toro Fuerte, que buscam outras referências musicais para além dos estilos que investigavam em seus grupos originais e lança a primeira música, “Tarde Demais”, em primeira mão no Trabalho Sujo.

“Era um experimento que adiamos um bocado, eu e o João (Carvalho) tocamos juntos há cinco anos na El Toro Fuerte e sempre comentamos sobre fazer um som juntos explorando outras linguagens, indo pra outro caminho”, explica a baixista Marcela Lopes, que convidou sua companheira de Miêta, a guitarrista Bruna Vilela para esta nova experiência no final do ano passado. “A partir disso, fizemos um encontro pra trocar ideia sobre música e a vida num geral na minha casa”, continua Bruna. “A gente tinha muita ideia na cabeça pra palestrar sobre tudo. E, no segundo encontro, já na casa da Marcela, fizemos uma jam da qual nasceram as premissas de todas as faixas do EP. Ficamos meio assustades com a sintonia, a congruência de caminhos e o rendimento.” “Acho que a gente já se conhecia há muito tempo, e já tinha percebido que queríamos estar mais próximos e criando mais juntos, e foi o primeiro momento pensando nas nossas agendas e nos nossos outros trabalhos em que foi possível a gente se aproximar. E tá dando muito certo!”

Bruna segue explicando os novos rumos musicais: “Acho que todos tinham um desejo forte de encontrar um espaço de produção alheio ao que já dedicávamos nos nossos outros projetos. Pode ter sido um caminho alternativo do alternativo. mas acredito que nós, enquanto músicos, sempre nos prendemos de alguma forma em nossas criações. E uma das coisas a se fazer com essa sina inconsciente é tentar achar sempre outros lugares que fujam do que já foi feito. A Náusea se tornou esse espaço de tentativa do incomum e da busca por uma expressão mais orgânica e primitiva, ainda que com muitas arestas do que imaginamos que isso possa ser.”

Ela continua falando sobre o primeiro single: “‘Tarde Demais’ se mostrou como uma das primeiras músicas em que conseguimos desenvolver uma narrativa com tudo o que queríamos experimentar. É uma faixa nascida de jam e aperfeiçoada dentro dela. Ela apresenta dinâmicas diferentes que se construíram de forma orgânica e abriram possibilidade pra diversas espaços sonoros que nos representam. É uma música de ideia concisa mas que, na prática, se expande muito. Todos nós gostamos muito dela já de cara. E ela já tava basicamente pronta desde as primeiras execuções. Pareceu uma faixa de abertura de caminhos muito simbólica.” “Foi uma questão do acaso mesmo”, completa João. “Foi a primeira música que ficou pronta – no que se referem aos processos de mixagem e tudo mais, mas não tomamos nenhuma decisão consciente a esse respeito. Curiosamente, eu acho que ela dialoga com tudo que tem acontecido. É muito apocalíptica em algum sentido, mas é o resultado de uma potência de criação muito intensa de nós três… acho que o fim de alguma coisa é sempre o começo de uma nova.”

“Tarde Demais” faz parte do primeiro EP, que já está a caminho: “Ele já tem basicamente toda a estrutura gravada”, explica Bruna. “Talvez a gente tenha que acrescentar alguma linha ou ajustar algumas coisinhas. Mas estamos trabalhando com calma dentro dessa quarentena, na medida em que o corpo e a cabeça permitem – buscando fazer limonadas diárias -, para ir ajeitando todo o registro e lançar quando for possível. Temos outros projetos individuais e outros em que os três também atuam juntos. Ainda precisamos analisar as limitações para fazer com que esse seja um processo efetivo, seguro e prazeroso no meio dessa loucura.”

A dúvida agora diz respeito ao lançamento do disco, uma vez que não poderá ser feito ao vivo por motivos de epidemia. “A gente tava, desde o ano passado, em uma rotina bem desenhada de criação”, continua Marcela. “Toda semana na minha casa a gente sentava pra ouvir música, discutir questões da finaleira do EP. Tamo morrendo de saudades desses encontros, mas tamo dando conta de se comunicar legal online e redesenhar, aos poucos, nosso plano de lançamento do EP – respeitando as limitações técnicas, práticas e emocionais.”

stones2020

O decano grupo Rolling Stones lança sua primeira música inédita em oito anos; “Living in a Ghost Town”, gravada remotamente por seus integrantes, comenta esses dias de isolamento e, mesmo que seja um single bem previsível, mostra que a banda ainda tem o que dizer.

Yma submarina

yma2020

Depois de lançar um dos melhores discos do ano passado, a cantora paulistana Yma começa a ensaiar seu futuro próximo e lança o primeiro single após Par de Olhos nessa sexta-feira, antecipando a balada beatlesca “No Aquário” em primeira mão aqui para o Trabalho Sujo. A faixa faz parte da coletânea Emaranhado, produzida pelo site Crush em Hi-Fi, que propôs uma espécie de amigo oculto entre cantores e compositores, deixando o acaso formar parcerias. A letra de “No Aquário”, composta pelo músico Lau, do projeto Lau e Eu, foi parar nas mãos de Yasmin Mamedio, que trouxe a letra solitária para o universo misterioso de Yma.

“Esse single foi uma experiência mágica e inteiramente coletiva”, ela me explica por email. “Quando recebi a letra do projeto Emaranhado, me veio uma melodia de samba, me juntei com o Uiu e o Dreg e fizemos um sambão. Ficou interessante, mas tinha a sensação de que ainda poderia ser outra coisa. Não lembro se foi no mesmo dia, mas Dreg começou arranhar uma harmonia aqui, Uiu foi ajudando e colocando as notas no baixo ali, e eu falei que tinha que ter a onda a graça e malemolência de ‘Grilos’ de Erasmo Carlos. Logo fui soltando a melodia e voi là! Depois de um show que participei da banda de jazz do baterista Marquinho, fomos pro estúdio gravar. Pensa que a sessão de gravação começou 1h da madrugada e o Nando Rischbieter, o produtor, é uma pessoa super matinal. Acho que a parte graciosa e sonhadora do arranjo tem a ver com isso, ele já estava em outro plano naquela hora”, ri.

Quando pergunto sobre o futuro de seu trabalho após o disco de estreia, ela se estende: “Acho que tem muita novidade em relação ao Par de Olhos. O disco tinha uma amarração, uma atmosfera de voz bem peculiar. E pra mim single é uma oportunidade de ser mais inconsequente, no bom sentido. Testar, entortar as coisas, ver no que dá… Mas sinto que mantém aquela energia surreal, onírica. Acho bem Yma. Vejo esse single dessa forma: uma experiência divertida, gostosa, ao mesmo tempo desafiadora – não foi fácil abrir mão dos efeitos do pedal de voz. É cedo dizer que indica um novo caminho… Não sei. Pode ser. Talvez… Quem sabe?”

Ela no entanto não tem nada do segundo disco definido. “Tô compondo, sem pressa. Acho que o assunto segundo disco ainda vai pintar no horizonte. Quero experimentar e me aventurar nos singles enquanto isso. Mas é um dia por vez. Agora temos que ser criativos também para resolver a logística de se fazer música e ser artista nessas condições”, conta. Quando pergunto sobre o lançamento acontecer na quarentena, ela me conta que o lançamento já estava previsto para agora, mesmo antes do confinamento começar. “A pandemia virou tudo de cabeça pra baixo e pensei muito no que significa lançar alguma coisa neste cenário”, divaga. “Ouvi recentemente ótimos trabalhos que me trouxeram momentos de paz e alegria e me senti encorajada a seguir em frente. E acabou que a letra de ‘No Aquário’ parece dialogar com tudo isso do isolamento.”

snoop-dogg-alcione

Abatido, o rapper Snoop Dogg chorou o clima tenso nos EUA nesta terça-feira ouvindo o clássico “Você Me Vira a Cabeça (Me Tira do Sério)“, da nossa sambista Alcione, entre baforadas num post na sua conta no Instagram

I feel you.

Crime Caqui demais

Foto: Jeff @caodenado (Divulgação)

Foto: Jeff @caodenado (Divulgação)

Uma das minhas bandas novas favoritas, o quarteto paulistano Crime Caqui estava planejando terminar seu disco de estreia neste primeiro semestre, mas foi abalroado, como todos nós, pela pandemia e pela quarentena. Mas como já tinham alguns singles na gaveta, resolveram começar por estes – e o primeiro da lista, cujo clipe está sendo lançado em primeira mão aqui no Trabalho Sujo, é a segunda versão de um single que elas já haviam lançado anteriormente, “Somos Demais”.

“A nova versão ganhou uma profundidade maior por conta das camadas de som e realce de timbres”, explica a baixista e vocalista Yolanda Oliveira. “A produção da Desirée Marantes – em conjunto com a mixagem da Flávia Fontolan – se fez mais presente nessa versão, incorporando com maestria camadas de cordas, vozes, elementos eletrônicos e alguns efeitos inusitados, criando nuances e uma ambiência diferente para a canção.” O clipe foi feito antes da quarentena, continua a baterista Fernanda Fontolan: “‘Absorver’, ‘represar’, ‘espelho’, ‘saliva’ são palavras da música que se relacionam com água e formas de retê-la. Escolhemos o copo com água como símbolo forte desse sentimento e palavras, a ideia foi abordar aquilo que transborda ou pode transbordar, como quando absorvemos além do que precisamos ou, num prisma aguçado e inevitavelmente feminino, deixamos abundar tamanha densidade”. A banda cita os clipes do grupo Minor Victories (“Give Up the Ghost” ou “A Hundred Ropes”) e o da banda Stray Dogg (“Time”) como referências.

Sobre lançar uma segunda versão de uma música já conhecida em vez de um novo single, Fernanda e Yolanda explicam juntas: “Havíamos planejado fazer uma nova versão da ‘Somos Demais’ para o lançamento do clipe contando com a produção da Desi Marantes. A ideia era lançar um pouco depois do primeiro lançamento porém os prazos foram totalmente extrapolados. Ainda assim, escolhemos manter essa linearidade, pois o processo todo, ainda que atravancado estava em andamento e o material estava amadurecendo de uma forma muito bonita com a produção e a nova mixagem da Flavia Fontolan. Concluímos que, mesmo que fosse a versão de uma música já lançada ainda assim seria interessante. Curiosamente, o lançamento culminou na pandemia, o que nos fez refletir sobre a demora do processo de criação e produção das nossas músicas e demais materiais – algo que também acontece com muitos artistas, principalmente aqueles que produzem de forma independente como nós – num panorama de fluxo excessivo de conteúdo ao qual nos expomos e a ansiedade que isso gera em contraste com o momento mundial em que tudo e todos tiveram que brecar os processos cotidianos de trabalho, produção, relacionamento, etc. Uma reflexão que aceitamos e foi muito bem-vinda.”

“A ideia é continuar a produção de material novo pra este ano porém estamos nesse processo, junto com todo o mundo, de entender os tempos que estamos passando e encontrar maneiras de produzir mesmo a distância e em isolamento”, continua a baixista. “As gravações e formatos como havíamos planejado não vão acontecer e isso derruba as nossas expectativas de prazo mas as possibilidades ainda são muitas. É interessante lidar com essa nova lógica, como você mesmo disse no seu diário, ‘como se fosse durar pra sempre’, e pensando dessa forma o caminho é continuar produzindo, ainda que não do mesmo jeito ou com a sonoridade que era esperada.”

A guitarrista Larissa Lobo, nova integrante que faz dupla com a outra guitarrista, May Manão, fala sobre esta redefinição de planos: “Antes da quarentena tínhamos planos de celebrar os próximos singles com alguns shows. Pensávamos até em fazer uma festinha em Sorocaba para um dos lançamentos. Em abril começaríamos as gravações do nosso primeiro disco. Agora os planos foram adaptados. Os singles, que já estão prontos, seguirão a agenda e no mais estamos aprendendo a viver essa intensidade virtual e tentando usufruir disso também. Além das lives, temos interagido muito mais pelo nosso perfil do instagram e também pensado em novas maneiras de juntar as quatro – já que cada uma está em um canto – em forma de vídeo. A ideia é que saia um vídeo clipe produzido a partir de registros dessa temporada.”

Foto: Leo Longo (Divulgação)

Foto: Leo Longo (Divulgação)

“Acredito que essa pandemia trouxe um agravamento de várias questões que já enfrentávamos”, me explica por email a artista mineira Sara Não Tem Nome, que resolveu oficializar a versão caseira da composição “Agora”, que lançou no início do período da quarentena autoimposta. “Vários valores da humanidade estão sendo colocados em xeque e estamos nos deparando com mudanças estruturais na sociedade. As notícias têm sido muito imediatas, novas informações e acontecimentos são divulgados a todo instante. Fiz essa música refletindo também essa angústia de tentar entender o que está acontecendo e como lidar com tudo isso.” Ela lança a versão oficial da faixa, que terá clipe no mês que vem, aqui no Trabalho Sujo.

Pergunto sobre a relação da faixa com “Cidadão de Bens“, que ela lançou há menos de dois anos e que, como “Agora”, conversava com a situação política da época em que foi lançada. “‘Cidadão de bens’ é uma música que faz parte do álbum A Situação, que estava programado para ser lançado este ano. Com todos esses acontecimentos, não sei se ele sairá esse ano. ‘Agora’ será lançado apenas como single, mesmo tendo uma pegada bem próxima das composições que fazem parte do álbum novo.”

Ela fala mais sobre a transformação da música de demo na versão finalizada acima. “O processo de gravação foi todo caseiro. Gravei voz, guitarra, teclado e bateria em casa, no meu homestudio Quintal intergaláctico. Enviei o material para o Victor Galvão, que contribui em diversos projetos meus, e faz parte da banda Tarda, que também faço parte. Ele fez a mixagem, a arte da capa e os desenhos que fazem parte do lyric video. A masterização é da Lina Kruze. O lançamento é a minha primeira parceria com a Loop Discos. A sugestão de fazer um lyric video veio deles. Pensamos que ter a letra da música com fácil visibilidade, ajudaria a mensagem a ser recebida e propagada. O clipe surgiu de conversas com Pedro Veneroso, meu parceiro de vida e que já trabalha comigo há muitos anos. Será uma animação em 3D, com situações baseadas em notícias, memes e criações nossas pensando na situação atual do mundo.”

Aproveito para perguntar como anda a situação na quarentena: “Na parte prática, estou conseguindo ficar no isolamento sem muitos problemas. Já trabalhava grande parte do tempo em casa, então isso não mudou muito. Na parte emocional, me sinto bem flutuante, têm dias que estou mais disposta, mas em outros, tenho dificuldade em levantar da cama e trabalhar. Acho que é normal não se sentir bem numa situação dessas que estamos vivendo. Fico buscando formas de cuidar do corpo e da mente para não me deprimir e adoecer. Acho que tentar manter uma rotina tem me ajudado.” Ela conta também que está gravando mais músicas em casa e, além do clipe de “Agora”, também lançará outro clipe, da banda Tarda, chamado “Breath”.

iggypop

Iggy Pop resolveu dar o presente pros fãs ao completar 73 anos nesta terça-feira, ressuscitando uma versão que nunca tinha lançado para a clássica “Family Affair”, do Sly & The Family Stone, gravada em 1985 – e que contou com ninguém menos que Bootsy Collins no baixo e Bill Laswell na produção. Muito fino.

E não custa lembrar que ele acabou de anunciar o lançamento de uma caixa de sete CDs que cobre o período que gravou dois discos clássicos na Alemanha (The Idiot e Lust for Life) sob a tutela de David Bowie.