Idiotice dita pelo sujeito que teoricamente é o ministro da saúde comparava a proximidade do nordeste brasileiro com a Europa, o que tornaria a região mais suscetível ao inverno do hemisfério norte (pois é, esse governo é sempre pior do que podemos imaginar). A asneira, claro, virou meme, mas pelo menos serviu para relembrarmos de um dos primeiros curtas de Kleber Mendonça Filho, Recife Frio, de , quando, “daqui a alguns anos” como o futuro indeterminado de Bacurau, a capital pernambucana é assolada por uma frente fria interminável, que provoca inclusive (e, claro, em se tratando de quem é o diretor) felizes comentários sobre a desigualdade social brasileira.
Sem contar que tanto Junior Black quanto Lia de Itamaracá também aparecem. É ótimo.
O que mais Martin Scorsese poderia fazer durante a quarentena senão filmar? Foi assim que ele topou o desafio da historiadora e apresentadora de TV Mary Beard, que está apresentando a série Lockdown Culture, na emissora BBC. E assim, ele fez sua reflexão sobre o confinamento de 2020, filmada com seu celular, e inspirada no filme O Homem Errado, de Hitchcock, e com uma referência do sábio iraniano Kiarostami.
Se no ano passado Maurício Tagliari lançou o primeiro disco com seu nome em mais de três décadas de carreira (Maô: Contraponto e Fuga da Realidade, que foi a base para sua temporada no Centro da Terra), agora o músico, compositor e produtor paulistano lança um disco essencialmente sozinho, um sem colaboradores, o extremo oposto do disco de 2019. “Maô: Falta de Estudo #1 foi um disco pensado até antes de lançar o Contraponto e Fuga da Realidade”, ele me explica por email. “A ideia era fazer um trabalho espelho/oposto. Sem colaborações e com sonoridades mais estranhas”.
A quarentena acelerou este processo e ele montou um estúdio caseiro, debruçou-se na estrutura musical dos pigmeus, que deram origem a várias faixas diferentes, como se cada uma delas fosse um exercício específico. “‘Auto sample’ é auto explicativa. Me sampleei e incluí faixas inéditas, “Feedback & Distortion” é um teste de pedais novos, “Pigmeu Bate estaca’ é o som de um bate-estaca de uma obra infernal perto de casa, sampleado e reprocessado mil vezes, “Passageiro” é teste de microfonação para percussão e guitarras e por aí vai.” A gravação, a mixagem e até a capa levam o nome de Taliari. “Esse é solo de verdade, no outro eu estava muito protegido pelos amigos…”
Mas foi só um processo de quarentena (enquanto já vem cogitando um segundo volume), outros ainda incluem novidades do Tanino (grupo de improvisação ao lado de Guizado, Thomas Harres e Pedro Dantas), parcerias com Rodrigo Campos e Saulo Duarte, além de ter feito a trilha sonora para o reality show de zumbis (!) Reality Z.
O grupo paulistano Vitreaux está prestes a lançar seu segundo disco, Esperando na Fila, que marca sua consolidação como um conjunto criativo, uma vez que as músicas do disco de estreia foram feitas principalmente por seu líder, o guitarrista e vocalista Lucas Gonçalves, que também toca no grupo baiano Maglore. “Eu levei muita coisa pronta, o Ivan (Liberato, o outro guitarrista e vocalista) tinha acabado de entrar na banda e gravou sem saber as harmonias de algumas músicas, ficou pescando o disco inteiro – para a nossa sorte, ele é um ótimo pescador.”
Já o novo disco foi um trabalho coletivo. “Esse disco foi concebido em casa. Em 2016 estávamos morando juntos, eu, Ivan e João (Rocchetti, baixista e vocalista), todo o departamento de cordas e aí foram nascendo algumas das canções, em conjunto”, lembra Lucas. “Estávamos ouvindo muito Beto Guedes, Almendra, The Band, Clube da Esquina, Tarancón…”, continua. Completa o grupo o baterista Guib Silva. A primeira faixa do disco que sai no fim do mês, “Meia-Luz”, lançada em primeira mão no Trabalho Sujo, mostra esta nova sonoridade, distanciando-os da psicodelia do disco anterior e levando-os rumo à América que fala espanhol.
Descrita por Lucas como “uma marcha violenta, uma guarânia tocada num porão frio”, a música surgiu após o cantor e compositor sentir os ecos da ditadura militar há seis anos. “Boa parte dela foi escrita em 2014, ano que marcava os cinquenta anos do golpe militar”, lembra o líder da banda. “Assisti a um documentário sobre o João Goulart, Operação Condor, e todo aquele cinza. Pelo documentário, vi o prédio do Doi-Codi em São Paulo e coloquei na cabeça que já havia passado na frente, onde hoje funciona uma delegacia. Meio tonto, tentei despejar esse clima ruim que ficou naquele quartinho de pensão no papel, com a ajuda do violão. Aí mostrei para a banda, num ensaio no ano seguinte. Ivan não estava, pois tinha ido acompanhar uma cantora pelo Paraguai, um detalhe que só agora me veio, mas acho que contribuiu de alguma forma para o disco. Em 2016, eu fui morar com João e terminamos a música, a estrutura. Os metais foram gravados pelo Douglas Antunes, do Bixiga 70, na introdução e no final, dobrando o solo de baixo do João.”
O clima pesado e melancólico se reflete pelo disco, segundo Lucas. “A gente queria fazer um disco conectado com a nossa realidade, enquanto latino-americanos”, explica. “Tentamos recriar algumas paisagens de episódios recentes na história do Brasil e da ‘gran pátria’. Um cenário de opressão, cortinas de fumaça, torturas, omissão por parte da mídia, mas também de luta contra o massacre que vem sofrendo o povo brasileiro. Miramos no realismo a partir de uma ótica pessimista.”
O disco foi produzido por Caio Alarcon e é o primeiro lançamento da 3Works, empresa idealizada pelo saxofonista do Bixiga 70, Cuca Ferreira, ao lado de seu compadre baixista, com quem toca no grupo de jazz punk Atønito, Ro Fonseca. “Faz muito tempo que conversamos sobre como de um tempo pra cá, a principal encrenca de um artista não é mais produzir um disco, isto está cada vez mais fácil, acessível e com qualidade cada vez melhor; a encrenca agora é lançar e fazer com que sua música chegue no público”, explica Cuca. “A maioria dos selos ainda coloca muita energia na produção, e depois que o disco é lançado, fica uma sensação de ‘e agora?’. E estamos montando a 3Works a partir da estrutura da Baticum, produtora de audio do Ro. Nem estamos chamando de selo, porque a ideia também é de trabalhar em conjunto com outros selos, focando na etapa de planejamento e lançamento. A quarentena de uma certa maneira catalisou as coisas. Nos impôs um tempo que antes não tínhamos e, principalmente, uma necessidade!”
E Cuca já antecipa os próximos trabalhos: o grupo Valentin, liderado por Julia Valiengo, e a banda Corte, com quem ele divide o palco com Alzira Espíndola, com os companheiros de Bixiga Daniel Gralha e Marcelo Dworecki e o baterista Nandinho Thomaz. “Nosso critério será sempre sons que a gente gosta. Nada técnico nem racional, só emocional”, resume.
Lembro quando convidei Rico Dalasam para uma temporada no Centro da Terra e ele me explicou que queria sair de onde estava se vendo preso, entre a pista de dança e a bateção de cabelo. Acompanhado de seu maestro, o tecladista Dinho Souza, ele apresentou quatro edições do show Elefantes, Mantras e Trava-Línguas, em que apresentava-se sobre beats eletrônicos, acompanhado de teclados e guitarras, a cargo de Moisés Guimarães, além de usar efeitos em sua voz. Deixava o hip hop e a dance music num segundo plano para abraçar o R&B em composições ousadas, que acompanharam nestes últimos anos, reconstruindo sua reputação para um lugar intimista, melancólico e quase sempre solitário. O novo EP Dolores Dala Guardião do Alívio, que além de Dinho também traz produções de Mahal Pita, ex-BaianaSsytem e parceiro de Giovani Cidreira na dupla Mano Mago, mostra o rapper concluindo esta transformação e achando um lugar próprio na música brasileira hoje.
Em seu terceiro disco, Mahmundi mostra que está cada vez mais à vontade no espaço musical que criou para si. Desde que surgiu, no início da década passada, Marcela Vale trabalha este universo paralelo que batiza seu pseudônimo – nome que batizava seu antigo blog, quando era conhecida apenas por “Mah”. Neste Mundo Novo, ela apenas reforça o equilibra questões sérias do dia a dia com a suavidade da melhor música pop. Suas tintas são oitentistas e ela deixa cair aquele pop sintético em que o R&B e o soul eletrônico se mistura com a MPB da década que consolidou a sigla como sinônimo da música brasileira, aquela pista de dança diurna que reúne Terence Trent D’Arby, Djavan e Marina Lima. O tom do disco é mais solar que o anterior, o belo e melancólico Para Dias Ruins, e consolida este universo musical de forma maiúscula e ao mesmo tempo poética. As parcerias com Castello Branco (a faixa-título e a balada-sambinha “Nós De Fronte”), ao lado da versão synthpop para um samba-reggae que Jorge Mautner compôs para Caetano cantar num álbum de Dadi (a ótima “No Coração da Escuridão“) e da belíssima “Vai”, que encerra o álbum dando a fórmula de seu sucesso (“abre um sorriso e vai”), são os pontos altos de Mundo Novo, um disco curto e direto, que consolida Mahmundi como um dos grandes nomes da nova música pop brasileira.
A cantora australiana de dreampop Hatchie se uniu aos recém-terminados norte-americanos The Pains of Being Pure at Heart – que voltaram a tocar juntos para esta versão – para revisitar “Sometimes Always”, o doce single que o Jesus & Mary Chain lançou em 1994 com a vocalista do Mazzy Star, Hope Sandoval, divindindo os vocais.
Ficou bonitinho.
Elvis Costello deixa a delicadeza das canções de lado e volta às suas raízes punk com o single “No Flag”, em que bate de frente com o patriotismo barato que domina esses nossos dias. Gravada em Helsinque, na Finlândia, em fevereiro, ela mostra que o veterano inglês não abandonou seus ideais básicos e volta a falar do que precisa ser dito, em uma época bizarra como esta que estamos vivendo.
Imagina um disco inteiro assim… Imagina…
“A Coisa Horrorosa nunca foi pensada pra existir na internet, era só a desculpa que eu usava pra juntar meus amigos pra tocar”, me explica por email Tefo Maccarini, idealizador do grupo punk que lança seu primeiro EP em primeira mão no Trabalho Sujo. “A banda nunca foi pra ser séria, nem pra ter uma ‘presença virtual forte’ ou qualquer coisa assim mais voltada pro mercado. Agora com a pandemia eu resolvi criar um grupo de zap, mais pra manter todo mundo em contato do que pra produzir músicas ou ser uma banda”, ele continua.
3 Própria e 1 Cover de Cólera é puxada por “Ecocídio”, que gerou um lyric vídeo que Tefo organizou à distância, reunindo os amigos que já passaram pela banda. “O lance é que nunca conseguimos repetir a formação pelos mais variados motivos: morte na família, compromissos de trabalho, braço quebrado um dia antes do show. A própria banda que gravou o EP nunca fez um show com essa formação”, ele explica, citando o grupo formado por Fábio Bianchini (Superbug) na guitarra e Carol Werutsky e Dora Hoff (ambas do La Leuca) respectivamente na bateria e no baixo. “Td mundo que aparece no vídeo em algum momento já tocou alguma coisa na banda e tem saco pra participar do nosso grupo do zap. Tem mais pessoas que já tocaram na banda que acabou que eu nem convidei pra participar do vídeo porque organizamos tudo pelo grupo mesmo.”
A banda fez pouquíssimos shows porque nunca pensou dentro dessa lógica de banda. “A banda fez uns seis shows desde o primeiro no natal de 2018. A minha intenção inicial é que não fosse uma banda, era pra ser uma coisa mais tipo um happening com instrumentos musicais e que o humor estivesse presente nos shows com bastante liberdade pra fazer e falar merda. Sempre rola muita falação em cima do palco, pessoas aleatórias sobem pra cantar uma música ou pra falar alguma coisa no microfone, um ou outro show já teve momentos que se aproximavam de performance, é uma bagunça organizada feita pra quem tá vendo se informar e se divertir”, comemora o idealizador do grupo. “Essa ‘flexibilidade’ acabou possibilitando que a gente tocasse dois shows em SP no ano passado com formações diferentes e músicos que eu sempre quis tocar junto mas devido a minha falta de habilidade musical dificilmente ia ter essa oportunidade. As músicas mudam muito de show pra show, dependendo de quem tá tocando e de quem tá assistindo e quando eu percebi, isso se tornou na hora a coisa que eu mais gostava da Coisa Horrorosa. Nenhum show era igual ao anterior mesmo o repertório não mudando. Subindo no palco – que geralmente não é um palco é só uma divisão imaginária entre artista e público – eu sabia que nenhum show ia ser nem de perto parecido com o anterior e isso era uma das coisas que me mantém muito afim de continuar esse projeto. E essa rotatividade me deixou livre pra marcar shows em qualquer lugar que eu tivesse amigos e amigas que tivessem a fim de fazer uma bagunça e soubessem tocar 3 acordes.”
Ele explica a escolha do hino punk brasileiro “Pela Paz em Todo Mundo” no repertório do primeiro EP. “Cólera pra mim é a banda mais importante da história do punk brasileiro. A vida e a obra do Redson Pozzi é uma coisa que tem que ser estudada por todo mundo que se interessa pelo lado mais político do punk. É um cara que sempre levantou bandeiras que são muito caras pra mim, e antes de todo mundo. Pautas como antimilitarismo, antifascismo, ecologia, combate a fome, condição dos trabalhadores, pobreza e vida na cidade brasileira em uma época de repressão brutal tão nos discos do Cólera desde o Grito Suburbano. ‘Pela Paz’ foi um das primeiras músicas que eu aprendi a tocar e cantar inteira no violão e levei pro ensaio do último show da Coisa Horrorosa na intenção de fazer um cover. Ai eu brinquei que tinha feito uma versão indie, com uma guitarra um pouco menos retona assim, nisso a Carol, do La Leuca, já mandou uma linha de bateria que saiu diretamente do Arctic Monkeys de 2006 e a Dora já saiu acompanhando no baixo.”
Mas a versão do grupo punk foi responsável por mudar o disco para que ele entrasse no Spotify. “Foi uma exigência da distribuidora que não quer ficar mal com o Spotify. Cada distribuidora tem suas regras arbitrárias do que pode e do que não pode e a gente fica sempre sem saber o que vai ser a chatice da vez. A distribuidora do nosso selo – Stock-a Records – exigiu que todas as menções a palavra “cover” e “Cólera” fossem tiradas da arte e do nome do EP sem dar nenhum motivo além de ‘evitar problemas legais’. É o segundo problema já que eu pessoalmente tenho distribuindo música no Spotify, o EP de outra banda que eu tocava, o Amarelo Piscante, foi negado pela ONE Rpm porque o algoritmo da empresa acusou que o disco de ‘gravação amadora e excesso de barulho’. Isso não aconteceu só comigo, eu sei de outros músicos que tiveram problemas parecidos por terem colocado a palavra ‘cover’ em alguma faixa ou nome do disco, além de nomes conhecidos de lo-fi, noise, bedroom pop que tiveram a distribuição negada pelo Spotify porque o som não estava ‘limpo’ ou ‘profissional’ o suficiente.”
E quais são os planos de uma banda que foi criada para existir apenas ao vivo sobrevive numa época em que não se faz mais shows? “Nada menos do que a dominação mundial através da rede do internacional do pop underground”, ri Tefo. “Mas pra isso a gente precisa que a pandemia acabe. A Coisa Horrorosa existe pra reunir os amigos e fazer um som, até a gente conseguir fazer isso a banda está meio parada. Estamos em contato, conversando, tendo ideias bizarras, alguns estão compondo, tentando manter a chama acesa. Tem o sonho de tocar no Japão e fazer uma turnê pela América Latina mas eu acho que por enquanto isso não vai rolar. Também vamos participar da coletânea “Rock Triste Contra o Corona Vírus” com um mashup de “Canalha” do Walter Franco com “Uncontrollable Urge” do Devo. A coletânea é uma iniciativa de mais de 40 músicos da cena independente pra levantar grana pro Movimento de Luta nos Bairros que tá fazendo uma frente de combate ao COVID-19 em muitas quebradas e ocupações pelo Brasil. Temos uma página do Bandcamp em que toda sexta sai um cover de um desses artista. Você pode comprar por lá e toda grana vai pro movimento, também é possível doar direto pro movimento se você mora no Brasil.”
Ah esses mundos paralelos que só o mashup consegue fazer pra você… Olha essa versão de “Paranoid” com os vocais de “Break on Through” publicado pelo Arnau Orengo Guardiola.
Que maravilha!









