O canal no YouTube do programa do apresentador norte-americano Ed Sullivan (1901-1974) já tinha uma vasta mina de ouro em seu acervo, mas a quarentena vem acelerando este processo – e há alguns dias eles começaram a subir umas pérolas daquelas: os Temptations azeitadíssimos, as Supremes maravilhosas, Marvin Gaye cantando como nunca, Beach Boys mandando “Good Vibrations” (a voz do Carl!), Gladys Knight (que voz!) & The Pips cantando num hospital, os Jackson 5 mandando ver em “Stand!”, Neil Diamond cantando seu clássico “Sweet Caroline”, Smokey Robinson cantando “Yesterday”…
…e pelo visto tem muito mais vindo aí…
A dupla canadense Chromeo lança o EP Quarantine Casanova, que faz dançar enquanto canta as dores do enclausuramento de 2020. “Na real começou como uma piada”, explica o vocalista do duo, Dave 1. “No começo da quarentena nós fomos para o estúdio e improvisamos uma música chamada ‘Clorox Wipe’ (“lenço com água sanitária”, em referência à prática de desinfetar tudo contra o coronavírus) e a publicamos na internet pra animar as pessoas. A resposta foi impressionante. Então gravamos outra e outra e os fãs perguntaram se a gente ia lançá-las de verdade e depois de umas semanas, mós topamos.” São cinco faixas que tratam diretamente das questões da pandemia, falando em máscaras, ficar em casa de moletom, em desinfetar as coisas, conversas em vídeo, cabelos sem cortar e de distanciamento social. O resultado desliza como se o tal novo normal fosse só esta fase que estamos atravessando…
Depois de mostrar três canções solo após um longo período longe da música, Michael Stipe parece estar próximo de lançar seu primeiro disco solo. Primeiro foram as faixas “Your Capricious Soul” e “Drive to the Ocean” e depois a demo de “No Time for Love Like Now”, lançada já durante a quarentena, que agora ganha um novo corpo ao lado do grupo Big Red Machine, que reúne o homem-Bon Iver Justin Vernon e o guitarrista e tecladista do grupo National Aaron Dessner, que também produziu a faixa, que ficou ainda mais linda, como eu tinha imaginado.
Jarvis Cocker teve de adiar o lançamento do disco de estreia de sua nova banda devido à pandemia. A estreia do grupo Jarv Is, que o vocalista do Pulp criou para compor músicas ao vivo, em frente ao público, durante os shows, estava programada para o começo de maio, mas foi postergada para o meio de julho e, com isso, ele adiantou mais um single, o reggae eletrônico “Save the Whale”, em que sussurra à la Leonard Cohen ao mesmo tempo em que chacoalha com a desenvoltura de Serge Gainsbourg na Jamaica. Coisa fina, claro…
O clipe foi editado pelo próprio Jarvis, isolado em sua casa.
Nosso querido David Lynch segue alimentando seu canal no YouTube e acaba de desenterrar o primeiro episódio da série Rabbits, que produziu em 2002. Um sitcom nonsense de terror, a série tem nove episódios e é estrelada pelos mesmos atores que participam do imortal Cidade dos Sonhos, do ano 2000: Scott Coffey, Laura Elena Harring e Naomi Watts, que dividem uma sala de estar e diálogos que não fazem muito sentido, intermediado por uma claque pré-gravada. A trilha sonora do seriado é do compositor favorito dos filmes de Lynch, Angelo Badalamenti.
Em breve ele deve soltar os outros… Em breve…
Não bastasse lançar todas as gravações do clássico Fun House em uma caixa, vem aí mais uma raridade do baú dos Stooges: o único show do grupo gravado em uma mesa de som, o último com a formação original da banda, vai virar disco! Live at Goose Lake: August 8th, 1970 será lançado exatamente 50 anos depois desta apresentação e reúne Iggy Pop (claro) nos vocais, o guitarrista Ron Asheton, o baterista Scott Asheton e o baixista Dave Alexander, que foi expulso da banda após este mesmo show (como reza a lenda, por não ter conseguido tocar, o que o disco acaba desmentindo). Para antecipar o disco, eis uma versão turbo para “T.V. Eye”.
O grupo tocou a íntegra do recém-lançado Fun House e a gravadora de Jack Black Third Man, responsávek pelo lançamento e que já o colocou em pré-venda em vinil, brinca que algumas perguntas sobre aquela apresentação finalmente serão respondidas: Iggy Pop incitou o público a depredar o lugar? Por isso mesmo, a organização do evento cortou a energia do show da banda antes do fim? A ouvir – por enquanto, segue o repertório do show e do disco.
“Intro”
“Loose”
“Down On The Street”
“T.V. Eye”
“Dirt”
“1970 (I Feel Alright)”
“Fun House”
“L.A. Blue”
O guitarrista Guilherme Held está preparando lentamente seu primeiro disco solo, chamado de Corpo Nós, projeto que vem acalentando há uma década. “O cara que mais me pôs pilha pra gravar esse disco foi o Rômulo Froes, que vem me falando sobre isso há uns dez anos. Quando o chamei para fazer a direção artística do disco, ele topou”, me conta o guitarrista, que está lançando o terceiro single deste seu disco de estreia, “Sorongo”, uma homenagem ao mítico percussionista autor do clássico Krishnanda, que conta com a participação de ninguém menos que o maestro baiano Letieres Leite, que não só fez o arranjo da banda como providenciou metais e percussão para este afrossamba à paulistana, que será lançado nesta sexta-feira nas plataformas digitais e que ele antecipa em primeira mão no Trabalho Sujo, num vídeo dirigido por Luan Cardoso.
“‘Sorongo’ é uma faixa instrumental que veio como um afrossamba e eu já tinha a ideia de fundir isso com elementos de música eletrônica e timbres que remetessem aos anos 80, apesar de ela soar bem setentista, porque eu uso um fuzz na parte do final que sugere aquela onda na psicodelia setentista nigeriana”, ele me explica, antecipando como convidou o maestro baiano para participar da faixa. “O Let é um amigo de longa data, a gente trabalhou pela primeira vez juntos no disco Cavaleiro Selvagem da Mariana Aydar e ficamos amicíssimos, ele é um ídolo e um cara que tenho uma consideração muito grande. E com isso a gente teve a ideia de chamar a Orquestra Rumpilezzinho, que é um projeto que ele tem em Salvador, que reúne jovens carentes com um talento musical inacreditável – as percussões e os metais são deles. A ideia desta fusão de Bahia com São Paulo, trazendo elementos do synthbass do Marcelo Cabral, da linguagem da bateria do Serginho Machado, para entender essa sacada da música africana com elementos de música eletrônica, foi o time perfeito.” A capa do single (abaixo) foi feita por Diego Max.
“Sorongo” é o terceiro single que o guitarrista já lançou do novo disco, depois de “Pólvora” (que contava com as participações de Tulipa e Gustavo Ruiz) e “Direito Humano” (com Ná Ozzetti e Juliana Perdigão) e as participações em cada single são só uma amostra do time que ele conseguiu reunir um time de artistas, músicos e intérpretes que resumia sua trajetória musical. “Desde o começo, a gente já sabia que era um disco do meu lado compositor mais que guitarrista”, ele continua. “Até porque eu já toquei tanto esse meu lado em tantos discos e shows, que faltava mostrar esse outro lado. Nisso, observando as músicas, percebi que cada música remetia a pessoas que eu já acompanhei, cantores e músicos que fazem parte da minha caminhada. Na empolgação disso tudo, a gente acabou cedendo pra ser um disco de confraternização de meus amigos da música, que tem uma ficha técnica extensa, tem cinco bateristas, cinco baixistas, dezessete cantores…”
Ele começa a enumerar: “Criolo, Maria Gadu, Lanny Gordin, Letieres Leite, Rodrigo Campos, André Lima, Simone Sou, Pedro Fontes, Cuca Ferreira, Daniel Gralha, Thalma de Freitas, Iara Rennó, Douglas Antunes, Thomas Harres, Tulipa Ruiz, Juçara Marçal, Rubel, Curumin, Mariana Aydar, Ná Ozzetti, Péricles Cavalcanti, Fernando Catatau, Ròmulo Froes, Felipe Catto, Juliana Perdigão, Beto Bruno, Marcelo Mitsu, Kika, Thiago França, Sérgio Machado, Décio 7, Felipe Roseno, Dustan Gallas, Fabio Sá, Bruno Buarque, Marcelo Cabral, Rômulo Nardes, Maurício Badé… Até eu canto!”, ri, falando sobre a faixa de abertura do disco.
O processo de produção foi um mergulho naquilo que Rômulo chamou de “o baú do Gui Held”, uma pasta no computador do guitarrista em que ele ia gravando várias ideias musicais. “São inúmeras músicas, completas, incompletas, fatias e pedaços de músicas, só harmonias, riffs, cacos sortidos, que a gente pra juntava um caco de um ano com um caco de outro. Somando tudo devem dar uns três mil arquivos de uns dez, doze anos que venho juntando, sempre guardando daquele jeito que músico compõe e guarda. A gente fez uma peneira, chegamos em 75 músicas, depois em 35 e fechamos em 17”, fechando o disco que é produzido pelo próprio guitarrista, que está começando a mexer com isso.
“É o primeiro disco que eu produzo e foi quase um ano de agendas”, ele explica. “Apesar de não ser um disco tão guitarrístico, ele tem um polimento e cuidado com timbres e escolhas de caminhos de linguagem a partir dos equipamentos que tenho, pedais antigos, guitarras de décadas e estilos diferentes, microfones… Ele tem todo um cuidado estético”.
O pianista pernambucano Zé Manoel lança a lindíssima e triste “História Antiga” para lembrar que a ferida do racismo segue aberta.
Que música maravilhosa…
Esta semana trago uma ótima conversa com Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, como principal atração do Clube Trabalho Sujo. É a quinta edição do meu programa semanal de entrevistas, Bom Saber, em que o cantor, compositor e músico cearense reavalia a história de sua banda, sua volta para Fortaleza e o mergulho em si mesmo que o conduziram ao seu primeiro disco solo, que deve materializar-se em breve. Fernando mudou-se novamente para São Paulo para consolidar esta nova fase, mas, como todos, foi surpreendido pela quarentena e teve de readequar seus planos para este novo estágio, mas de peito aberto. Assim foi a conversa com Catatau, cada vez mais tranquilo e consciente de seu papel como artista, personalidade pública e autor.
O Bom Saber é meu programa semanal de entrevistas, atualizado todo sábado em meu canal do YouTube (assina lá!). Já conversei com o Bruno Torturra, a Roberta Martinelli, o Ian Black e o Negro Leo (assista a todas entrevistas aqui) e quem colabora financeiramente com o meu trabalho (pergunte-me como no trabalhosujoporemail@gmail.com) assiste ao programa no dia do lançamento, no próprio sábado. Quem não paga, assiste na semana seguinte.
Quando Tika, Kika, João Leão e Igor Caracas se juntaram para homenagear o disco que Tom Jobim lançou em 1987, mal sabiam o quanto esta união iria durar. “Estamos há três anos tocando o projeto que criamos sobre o álbum Passarim e nesse projeto reduzimos os arranjos de um disco gravado com orquestrações e coro para nossa formação de quatro integrantes – quatro vozes, bateria, piano, guitarra e sintetizador”, Kika relembra o início de Passarim30. “Fizemos uma pesquisa de timbres, escolhemos as frases mais marcantes do disco, tiramos as linhas vocais com fidelidade e gostamos do resultado, da sonoridade que alcançamos”. Agora o quarteto começa a gravitar em direção a outro mestre da música brasileira, João Gilberto, ídolo dos quatro, que é revisitado através de sua versão para “O Astronauta”, de Carlos Pingarrilho e Marcos Vasconcellos, lançada em primeira mão aqui no Trabalho Sujo no dia do primeiro aniversário sem sua presença entre nós, já que João morreu no ano passado.
“João Gilberto é uma grande referência pra nós, todos temos uma ligação muito forte com a obra dele. Quem lembrou de ‘Astronauta’ foi a Tika, que estava tirando essa harmonia no violão”, Kika continua. “Pensamos que a letra tinha um subtexto de despedida, ficamos imaginando o João Gilberto como sujeito da canção – ele agora mora só no pensamento ou então no firmamento… – e então decidimos que seria um presente pra ele, que se despediu ano passado quase em silêncio, sem muitas homenagens, sem uma nota oficial sequer. Concordamos que ele foi o maior artista brasileiro de todos os tempos, quisemos fazer nossa interpretação para ficar mais perto dele, como uma maneira de dizer que temos saudade e que sabemos o valor de tudo que ele deixou pra nós. O clipe é assinado por Guilherme ‘Guime’ Destro, que recolheu imagens do recôncavo baiano, filmadas numa vila de pescadores chamada Santiago do Iguape em Cachoeira, na Bahia, imagens que remetem às origens da nossa cultura e diversidade artística, além de já ser uma homenagem ao nosso homenageado, que é também baiano.”
O resultado, produzido por Victor Rice, é o primeiro registro fonográfico do grupo, que só havia se apresentado ao vivo, e traz o imaginário musical de João numa bossa nova setentista que acena para os timbres elétricos do soul e o jazz, mas sem perder o minimalismo e as harmonias ousadas do mestre baiano. “A mágica do João Gilberto está na interação da voz dele com o violão, na escolha dos acordes e tempos”, Kika continua falando sobre a versão. “Procuramos preservar ao máximo a harmonia dele e certas jogadas de tempo que ele faz. A maior dificuldade é a mesma de revisitar qualquer música da bossa nova, recriar algo que muitos julgam intocável, por isso temos um cuidado com a escolha do repertório, em não trazer temas que já foram exaustivamente revisitados.”
O registro faz com que o grupo pense para além da homenagem que vinha fazendo. “Há um tempo estamos trabalhando essa ideia de expansão do Passarim30”, continua a cantora. “Nós vemos um potencial enorme em um grupo formado por instrumentistas que são também compositores, produtores, cantores e têm o seu trabalho solo. Praticamente desde o início do projeto nós sempre demos um jeito de incluir alguma música autoral em nossos shows. Procuramos compor em parceria também, o que pode gerar um trabalho completamente autoral no futuro, mas esse primeiro passeio do grupo fora da obra do Tom com João Gilberto é uma consequência natural dessa nossa busca.” Além de “Astronauta”, o grupo também gravou “Borzeguim”, do Tom Jobim, que será lançada em breve.










