Clássico palco de experimentações carioca, a Áudio Rebel começa o festival Rebel Vive, que reúne transmissões ao vivo online de shows de quase 50 artistas em dois fins de semanas a partir de hoje, às 17h. Começando com Negro Léo, o evento ainda conta com Vovô Bebê, Rubinho Jacobina, Joao Donato. Kassin, Kiko Dinucci, Rhaissa Bittar, Humberto Effe, Momo, Samuca e a Selva, Mauricio Pereira, Ana Frango Elétrico, Ava Rocha, Marcelo Callado, Romulo Froes, Duda Brack, Benjão, Mãeana e Bem Gil, entre muitos outros. “O evento surgiu dos próprios artistas que querem ajudar a Rebel”, conta o proprietário da casa de resistência cultural, Pedro Torres. “A gente conversou de tentar passar um pouco do espirito da Rebel para as casas das pessoas, fazer um lance que mantivesse o espirito intimista e pessoal da casa.” Conversamos mais por email sobre como a Áudio Rebel está se mantendo nesta época tão estranha.
Como surgiu a ideia do Rebel Vive?
O evento das lives surgiu dos próprios artistas que querem ajudar a Rebel. O Mihay e a Katia me procuraram porque eles já tinham mais conhecimento nesse terreno, o Mihay trabalha com vídeo… A gente conversou de tentar passar um pouco do espirito da Rebel para as casas das pessoas, fazer um lance que mantivesse o espirito intimista e pessoal da casa.
Como estavam as coisas com a Áudio Rebel antes da quarentena?
As coisas nunca foram fáceis, mas vinhamos uma maré boa, o carnaval nos gerou uma receita de blocos que queriam ensaiar e gravar, e na sequencia os shows voltaram começaram a engrenar bem. Parecia que apesar de todo o contexto externo as coisas iam engrenar bem, tínhamos bons shows agendados. com um bom retorno de público.
O festival é a primeira ação que vocês fazem neste período ou fizeram mais alguma coisa?
A primeira ação foi esvaziar nossa geladeira, como tínhamos uma agenda repleta de bons shows, tinha um dinheiro engessado em produto, e contas pra pagar, sem previsão de volta. Usamos as redes sociais pra divulgar um delivery de bebidas, pelo preço de comercio local da zona sul e em um final de semana vendemos tudo, consegui pagar o salario de um funcionário no final de março com essa ação. A segunda ação foi o delivery de produtos da loja encordoamentos de instrumentos, livros, discos e LPs, que teve uma saída boa também. A terceira ação foi no inicio de abril, quando chegou o inicio de mês e nenhuma perspectiva de trabalho ainda foi um crowdfunding nesse esquema do “pendura invertida”: o cliente adianta o valor para utilizar quando a casa reabrir.
Estão bolando mais algo para essa época de confinamento?
Sim, esse primeiro já foi um sucesso, temos bastante artistas interessados em seguir com o projeto. Seria ótimo que tivesse uma vacina rápida, ou uma solução definitiva de saúde pública, mas acho que não vai ser um processo rápido.
Como vocês cogitam voltar da quarentena? Acham que os shows e os hábitos do público vão mudar?
Acho que as coisas só vão voltar ao normal definitivamente quando tiver uma vacina de amplo acesso para a população. Dependendo do número de vítimas, podemos ter uma população mais temerosa ou menos. Mas o normal acho que vai demorar muito. Já estamos perdendo espaço para as diversões virtuais a anos, esse vírus letal só deve aumentar essa tendencia.
Eis a programação do festival (mais informações aqui):
21 de maio
Negro Léo
André Prando
Renato Piau
David Alfredo
Rubinho Jacobina
Kiko Dinucci
22 de maio
Raquel Coutinho
Arthus Fochi
Federico Puppi
Pedro Mann
Luciane Dom
Udi Fagundes
23 de maio
Gabriel Muzak
jongui
Rhaissa Bittar
Ilessi
Anselmo Salles
Mari Blue e Mário Wamser
24 de maio
MOMO
Babi Sut
Mauricio Pereira
Romulo Froes
Marcelo Callado
Duda Brack
28 de maio
Humberto Effe
Lucas Hawkin
AnaBispo
Benjão
Vovô Bebê
Samuca e a Selva
29 de maio
Marco Homobono
Anna Lú
Bulo
Juliana Linhares
Dionísio
Paola Kirst
30 de maio
Pedro Moraes
Ave Máquina
Elisa Fernandes
Micah
Flávia Chagas
Simone Mazzer
31 de maio
Joao Donato
Kassin
Mãeana e Bem Gil
Ava Rocha
Mihay Vetyemy
Ana Frango Elétrico
Eis o segundo Bom Saber, programa semanal de entrevistas que estreei na semana passada, lá no meu canal do YouTube (não assina ainda? Assina lá!). E chamei minha querida comadre Roberta Martinelli para continuar o papo da primeira entrevista sobre as transformações que estão acontecendo em nossas vidas – e especificamente na cultura, mas não só – a partir deste caos que está nos atravessando em 2020. E além de falar das mudanças em sua rotina pessoal e profissional (com participação da minha sobrinha do coração Rosa), ela também fala de experiências que teve tanto em lives quanto em um curso via WhatsApp e uma peça que começa pelo telefone. Diga lá, Rô!
Não custa lembrar que quem colabora com o meu trabalho recebe a entrevista ainda no sábado (pergunte-me como no trabalhosujoporemail@gmail.com), mas toda terça, ele é aberto para todos.
Quem está acompanhando o CliMatias já sabe que eu comecei um programa de entrevistas semanal no fim de semana passado – que a princípio fica online primeiro para quem contribui com o meu trabalho (pergunte-me como no trabalhosujoporemail@gmail.com). Mas na terça-feira abro o programa pra todo mundo, portanto, olha aí a primeira edição, em que eu continuo o papo com o Bruno Torturra, desta vez puxando mais pras suas principais áreas de atuação: jornalismo e psicodelia. E é claro que isso se mistura com vários outros assuntos… Saca só:
E quem você quer que eu entreviste nos próximos programas? Diz aí…
Formada para acompanhar o rapper BNegão em seu primeiro disco solo – Enxugando Gelo, de 2003 -, a banda Seletores de Freqüência está prestes a lançar seu primeiro álbum. Astral será lançado em junho deste ano, consolida o grupo como uma banda instrumental e o grupo descolou o primeiro single, “Piloto de Fuga (N° 2)”, lançado em primeira mão no Trabalho Sujo. Aproveitei para conversar com o trompetista Pedro Selector, único integrante da formação original, que contava com o saudoso Fabio Kalunga no baixo, Pedro Garcia na bateria e Gabriel Muzak na guitarra em sua primeira formação, sobre esta nova fase da banda.
A capa e o nome das músicas do disco estão no final da entrevista.
Quando vocês começaram a entender que os Seletores são uma banda para além do trabalho do Bernardo?
Teve uma apresentação em São Paulo, em 2012, na Sala Funarte, que o Bê teve que sair no final do show porque tinha que pegar um vôo pro Rio pra tocar com o Planet Hemp, deu alguma confusão de agenda e os shows foram marcados no mesmo dia. Pra não cancelar, ficou combinado que ele tocaria o tempo que desse e ia correndo pro aeroporto. A gente seguiu o show, tocando umas versões instrumentais do repertório do BNSF e aproveitamos e colocamos uns temas que a gente estava compondo e que estavam sem letra ainda. Foi muito bom, a galera que tava lá adorou e reagiu superbem. Acho que o peteleco inicial foi aí. Lá pra 2014, a gente tava bolando mesmo um disco instrumental, que seria produzido pelo Bê, mas acabou que veio o Transmutação e mudou tudo, já que o foco passou a ser esse disco, que saiu em 2015. No ano seguinte, eu peguei quatro sons que a gente começou a gravar e tinham ficado de lado por conta do Transmutação e botei pilha na galera pra finalizar e lançar como Seletores de Frequência. Esse foi o EP SF. Foi legal poder mostrar que a gente não era somente a banda do Bê, que a gente também compunha e que representávamos total o sentimento de ser uma banda. Nisso, conseguimos engrenar alguns shows só nossos, chegamos a tocar no palco instrumental da Virada Cultural de São Paulo em 2018.
Quem é a banda hoje? Desde quando vocês mantém essa formação?
A banda hoje sou eu, Pedro Selector, no trompete, Robson Riva na batera, Sandro Lustosa na percussão, Nobru Pederneiras no baixo, Gilber T na guitarra e Marco Serragrande no trombone. É a mesma formação que acompanha o Bê nos shows. O Nobru já tinha entrado pra tocar com no BNSF no lugar do Kalunga, porque o Kalunga tinha resolvido sair da banda, isso foi antes dele falecer, tipo um ano antes. Fica registrado aqui tb que esse disco todos nós dedicamos a ele, nosso amigo e irmão, Fabio Kalunga.
Então, o Nobru já vinha tocando com a gente e tal, e rolou o convite do Dado Villa-lobos e do produtor Estevão Casé pra gravar o disco e lançar pela Rockit!, isso em 2017. Só que durante a pré-produção, antes mesmo de ir pro estúdio da Rockit! o Fabiano Moreno, que era o guitarrista resolveu sair da banda. A gente conversou e como o Bruno também toca guitarra decidimos que ele ia gravar as guitarras do disco. Daí o Estevão sugeriu chamar o Pedro Dantas pra gravar os baixos, tocando da maneira dele as linhas de baixo que o Nobru tinha criado. Ficou animal. Tivemos ainda as participações fundamentais do Bidu Cordeiro, no trombone, do Thiago Queiroz no barítono, do Rodrigo Pacato na percussão e do Roberto Pollo no Hammond. Foi muito importante ter essa galera somando com a gente, no momento que a banda tava se re-inventando e prestes a começar uma nova etapa. O último a entrar foi o Gilbert, camarada de longa data, tocamos em outros projetos juntos, justamente porque pintou o show da Virada e a gente precisava definir a formação da banda. Das deu super certo e seguimos até hoje.
Por que vocês escolheram em se manter como uma banda instrumental e sobre como você vê a tradição de grupos de música instrumental no Brasil.
Essa escolha foi natural, muito pq as letras do Bê são um referência muito forte pra tanta gente e pra nós também, acho que se a gente quisesse escrever ia ser impossível seguir como Seletores de Frequência, né? Mas como unidade sonora, acredito que nós temos um DNA bem definido do nosso som, que flui por todo o trabalho junto com o Bê, que diz muito o que a gente é pela música, somente. E pelo prazer mesmo que temos em tocar junto e da liberdade também que a música instrumental proporciona, de não direcionar o sentimento de quem ta escutando com palavras, e sim só com as melodias; Aqui no Brasil, acredito que a gente dialoga com os grupos contemporâneos que fazem música instrumental sem ser aquele velho clichê do músico que sola pra caramba. Tem a Nômade Orquestra que curto muito, o Bixiga 70, a Abayomi, tem a turma do Beach Combers. Em termos de tradição, eu vou puxar pro lado da Banda Black Rio, do Fogo nos Metais do maestro Portinho, daquele suíngue esperto do Azymuth, do samba-no-prato do Edison Machado, J.T. Meirelles a gente vai bebendo nessas fontes. Tem aquele disco do Wilson das Neves também, O Som Quente, referência total.
Que outras influências musicais vocês têm?
Além das que citei, tem uma influência brutal pra nossa maneira de tocar que são os instrumentais dos Beastie Boys. Acho aquela essência ali muito foda, porque todos tocam pra música e acho que a gente tem essa mesma pegada. Não ser só uma gastação de onda. Ser um som verdadeiro ali, natural e sem estrelismos.
Como vocês vão fazer para lançar um disco durante a quarentena?
A gente levou quase dois anos pra terminar o disco, entre idas e vindas no estúdio, muito também por conta de outros compromissos, por vezes a gente ficava meses sem mexer em nada e dali a pouco andava mais um cadinho com a gravação. O disco ficou pronto em novembro do ano passado, mas achamos melhor esperar pra lançar depois do carnaval, aquele clássico. Daí veio a pandemia, todo mundo ficou meio desmotivado. Foi o Bê que me ligou um dia botando pilha, falou algo do tipo – “mano, o disco de vocês tá pronto? Lança essa parada que vai ajudar muita gente nesse momento bizarro que estamos passando”. Fiquei com isso na cabeça e realmente não tinha porque segurar mais. Sei que não temos ideia de quando iremos poder apresentar o disco ao vivo, num show, mas pelo menos saber que ele vai estar sendo escutado nesse momento que tá todo mundo bolado, que ele possa talvez ajudar a trazer algum conforto sonoro pra pessoas já vale tudo.
“Piloto de Fuga (No 2)”
“Tony Árabe”
“Só Pra Salvar”
“Boca Maldita”
“Riva Doobie”
“Trem do Cão”
“Biza”
“Sambatido”
“…E Segue o Baile!”
“Fumaça”
“Leva Fé (Lá)”
Bruno Torturra me chamou para conversar sobre as transformações que a pandemia está impondo à cultura no programa Tem Alguém em Casa?, que ele mantém no canal do YouTube de seu Estúdio Fluxo.
Resgatei uma entrevista que fiz pra Ilustrada com o pai do afrobeat Tony Allen, que saiu deste plano na última quinta, na primeira vez que ele veio ao Brasil, em 2004. A foto que ilustra o post saiu do Radiola Urbana do Ramiro, que fez uma playlist no Spotify em celebração ao mestre.
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Pulso de Tony Allen une Brasil e África
Baterista nigeriano que tocou nas bandas de Fela Kuti apresenta-se pela primeira vez no país, ao lado de Sandra de Sá
Como o multiinstrumentista nigeriano Fela Kuti (1938-97) exigiu o holofote da história para seus discursos de ritmo incendiário, o baterista Tony Allen foi deixado em segundo plano como uma espécie de Sancho Pança do jazz-funk africano. Mas basta ouvir qualquer álbum de Kuti para entender que Allen era a força motriz e a arma secreta das bandas do artista – Koola Lobitos e Africa 70.
Allen era companheiro de longa data e tocava com Kuti desde os tempos em que sua banda chamava Koola Lobitos. Formado nos anos 60 apenas por estudantes nigerianos que faziam faculdade em Londres, o grupo logo passaria por uma drástica transformação em sua primeira turnê aos EUA.
Lá, Fela Kuti foi apresentado à nata de uma cultura negra em plena ebulição, que incluía free jazz, movimentos políticos e rock alto. Absorveu com a mesma intensidade as palavras de Jimi Hendrix, Malcolm X, Ornette Coleman, Sly Stone e Eldrigde Cleaver e mudou a banda: a partir daquela viagem de 1969, os Koola Lobitos se tornavam Fela Kuti & Africa 70 e nascia um novo gênero musical, o afro-beat.
Idealizado por Kuti, o gênero não sairia do lugar não fosse o pulso preciso de Allen, que se apresenta hoje e amanhã dentro da programação do Fórum Mundial de Cultura. Kuti morreu em 1997, mas o trabalho de Allen continua a pleno vapor. Ele, que já havia colaborado com grandes nomes do pop africano (como Manu Dibango e Ray Lema), passou as duas últimas décadas experimentando gêneros desconhecidos e possibilidades em estúdio. Lançou seu último disco, “Home Cooking!”, em 2003, e tem colaborado com Damon Albarn, vocalista do grupo inglês Blur, e com o novíssimo MC e produtor inglês Ty. Leia a seguir os principais trechos da entrevista que Tony Allen deu à Folha.
Que semelhanças você vê entre a música brasileira e a do continente africano?
Tony Allen – O Brasil tem muitas semelhanças com a África, por serem continentes de ritmos que surgiram do sofrimento. Tivemos a escravidão no passado, que nos tornou irmãos de sangue. E são culturas de países que não tiveram oportunidade de desenvolvimento, por isso são culturas nascidas na pobreza, mas que não são pobres. Há um lado na pobreza que não é tão negativo, que faz com que os pobres vivam mais do que os ricos, tenham mais experiência e intimidade com a vida do que aqueles que se dizem ricos. E, para falar dessa vida, eles colocam a boca no mundo.
Você tem algum artista brasileiro favorito?
Gosto especificamente de Gilberto Gil, que é uma pessoa em que eu sempre presto atenção. Ele é tão político quanto artista, tem uma desenvoltura muito boa para falar e idéias que realmente importam. E tem estilo. Seu violão é uma assinatura inconfundível.
Ele é o atual ministro da cultura do Brasil…
Sim, eu sei, e parece uma escolha óbvia para o cargo -não por ser um artista representativo do Brasil, que também ele é, mas por ter uma visão ampla de toda a situação. Acredito que o fato de eu estar finalmente indo para o Brasil está diretamente ligado ao seu cargo no governo. Não que ele tenha me convidado ou intercedido ao meu favor, mas estamos na mesma sintonia.
Você o conhece?
Não, mas adoraria. Quem sabe, nessa viagem… Também não conheço Sandra de Sá, com quem irei tocar aí, mas acho que terei uma ótima oportunidade para conhecer seu trabalho.
Desde os anos 80, você está atento a outros gêneros musicais e novas técnicas de gravação…
Houve uma época em que eu percebi que o afro-beat poderia se estagnar, parar no tempo. E a música tem que se mover. E, se havia a possibilidade de um ritmo rico e forte como o afro-beat parar no tempo, eu mesmo teria que colocá-lo andando de novo. Por isso comecei a me aproximar de artistas de hip hop, produtores de dub e de dance music.
TONY ALLEN E SANDRA DE SÁ.
Quando: hoje (sábado, 26 de junho de 2004), às 20h30, no Sesc Pompéia (r. Clélia, 93, Pompéia, SP, tel. 0/xx/11/3871-7700), e amanhã, às 15h, no Sesc Itaquera (av. Fernando do Espírito Santos Alves Matos, 1.000, Itaquera, SP, tel. 0/xx/11/6521-7272). Ingressos: R$ 15.
“Vixe, um monte de coisa, eu tinha a turnê de lançamento do Grandeza em Portugal e mais umas 40 datas entre abril e agosto na Europa”, lembra Sessa quando o pergunto sobre seus planos para esse ano que foram atropelados pela pandemia. Quarentenado em São Paulo, começou a trabalhar nos passos seguintes após seu disco de estreia, antecipando planos e lança em primeira mão no Trabalho Sujo o primeiro single após aquele disco, “Sereia Sentimental”.
“‘Sereia Sentimental’ é uma música que eu já vinha arranjando pensando num som novo pra um próximo trabalho, é um registro de um tatear no escuro por esse som”, me explica o músico paulistano por email. “As músicas do Grandeza ficam na minha cabeça muito ligadas ao jeito que eu fiz o disco, compondo e gravando tudo meio junto, misturado, entre turnês, em sessões curtas de um, dois dias. “Sereia Sentimental” eu fui pensando, fazendo com mais calma, aconteceu essa coisa de eu usar uma bateria numa música minha que é algo que eu nunca tinha feito antes, mas veio nesse processo de caçar um som, eu ficava ouvindo esse chimbauzinho sacana…”
A bossinha molenga foi gravada em plena quarentena num processo à distância com os outros músicos, o baterista d’O Terno Biel Basile e o baixista norte-americano Mikey Coulton. “Gravei as coisas em casa aqui na Consolação com a motos passando, ai mandei pro Biel botar a bateria em cima e depois pro Mikey botar o baixo e mixar em Nova York”, ele continua. “Confesso que foi um pouco esquisito, eu nunca tive muito tesão em tocar todos os instrumentos numa música, sabe? Pra mim gravar sempre foi uma coisa de botar um monte de gente junta no estúdio pra ver onde a coisa ia dar, na bagunça. Agora teve que ser diferente, mas foi legal também. ”
Sessa, como muitos, aproveita a quarentena para uma fase inevitavelmente mais introspectiva da vida. “Tenho tentado cuidar da casa, da comida, da cabeça, do corpo e das pessoas próximas. Dias melhores e dias piores, não é? Tenho também tomado cuidado pra não ficar me cobrando pra sair desse período com um disco escrito. Acho isso meio perigoso, encarar tudo o que está acontecendo, sem nem compreendermos direito o que isso é, já é uma tarefa entanto…”, divaga.
E quando pergunto sobre o que ele está achando deste período, ele vai além: “Bom, no Bolsonaristão, acho que sempre vale reiterar que esse período apresenta um problema sério e real: tem um vírus contagioso, sobre o qual não sabemos muito, matando muita gente por ai. Ai também acho que pode ser uma janela para uma lição de humildade. Fiquei triste em ter tantos shows cancelados, e fico preocupado com a grana e a perspectiva de trabalho, é claro, mas acho que ficar focando só na falta e na perda não ajuda também. Acho que esse freio brusco na máquina do mundo é bom em certo sentido pra gente pensar pra que mundo a gente que voltar, e que seja um mundo mais justo e ecológico.” Tá certo.
“Em São Paulo fiz como faço normalmente quando vou pra algum lugar pela primeira vez, costumo pedir pra muita gente muita música – e na bagunça que isso gera, alguma mágica começa a acontecer”, lembra o francês Vincent Moon, que está lançando uma gravação que fez com Kiko Dinucci e Thiago França em 2010 como o EP batizado com o nome dos dois, lançado por seu selo Petites Planètes e apresentado em primeira mão aqui no Trabalho Sujo. “Vou chamar isso de criar ordem através da técnica do caos. E assim o nome do Kiko aparecia bem no alto das recomendações de muita gente. Não me lembro nem se o Metá Metá já existia. Mas era bem óbvio, eu ouvia o nome dele na voz de todos, por isso decidi gravar algo com ele e na gravação ele chegou com o Thiago.”
O registro flagra Kiko e Thiago passeando pelo camelódromo do Brás enquanto improvisa entre os transeuntes, captando toda a cacofonia do ambiente. “Esse dia foi muito louco”, lembra Kiko, “o Vincent foi lá em casa, eu dividia o apartamento com o Serginho Machado, e ele queria fazer esse vídeo, sugerindo o camelódromo do Brás. A gente se encontrou na Pinacoteca e foi andando até lá, desceu a rua das noivas ali na São Caetano e na Avenida do Estado já tinha uma entrada no camelódromo. Daí a gente entrou na feira e tocamos no meio das barracas, com a participação de ruídos e gritos, falas e sons do ambiente…”
Kiko vinha com seu violão pendurado no pescoço e um amplificador de pilha a tiracolo e Thiago o acompanhava de perto, mas não do lado, sendo seguido por Vincent, que registrava o áudio e uma de suas alunas que filmou o percurso. O vídeo não funcionou, mas o registro sonoro é preciso: “”Alguém me disse ‘minhas memórias são minhas gravações’ – talvez tenha sido eu mesmo. Por isso não me lembro muito além os barulhos do mercado, o passeio bagunçado por aquela área, o fluxo incrível da música – quero dizer, que músicos extraordinários esses caras são! Parecia tão fácil para eles, tocar, captar a vibe ao redor e integrá-la à sua própria música…”, lembra Vincent. Kiko se empolga com a memória: “Eu lembro que eu me perdia do Thiago pelas barracas e depois reencontrava. Aí tem uma criança que sopra uma cornetinha no meio da música, gente gritando… O bagulho é caótico e a gente fez umas músicas mais agitadas, pelo camelódromo inteiro tocando – ninguém entendia nada. Foi bem louco.”
A passagem de Vincent por São Paulo à época foi bem frutífera e rendeu ótimos vídeos, capturando o calor da cena paulistana há dezx anos. “Fui convidado para dar aulas numa escola de cinema, que foi também o motivo de gravarmos essa sessão”, lembra o cineasta. “Obviamente tudo era pretexto pra outra coisa – nesse caso, era uma fantástica oportunidade para circular, gravar todas aquelas pessoas ao redor desta cidade insana – me apaixonei à primeira vista por SP, mas foi mais uma febre urbana na época, mudei um pouco depois disso… Terminei indo pros melhores lugares de samba com a Dona Inah, filmei com Thiago Pethit no Minhocão, passeei numa noite mágica com José Domingos, fui a festas insanas com o Holger, explorei o centro da cidade com M. Takara, filmei Lulina em seu apartamento, dancei na laje do prédio de Tom Zé… Cara, foi pura mágica, sabe? Eu não acredito que tudo isso aconteceu em tão pouco tempo. Mas, mais uma vez, é a excitação do desconhecido que motiva nossas almas aos feitos mais puros.”
Mas logo Vincent se apaixonou pelo Brasil onde viveu por quatro anos até o ano passado, com base no Rio, fazendo registros de rituais transcendentais por todo o país, fazendo o projeto Híbridos, ao lado de sua esposa, Priscilla Telmon. “Exploramos profundamente a relação entre a música e o transe, a música e o sagrado em várias formas de rituais, em todo o país. Acho que filmamos cerca de 60 rituais diferentes, alguns bem pouco conhecidos – como o Almas e Angola no sul – ou bem novos – como a Fraternidade Kayman. Não dá pra se decepcionar em termos de música…”, diz, explicando porque não acompanha mais a cena contemporânea brasileira.
“Eu lembro que uma vez, durante uma sessão de Umbandaime na praia, todo mundo sob a influência do ayahuasca, incorporando espíritos de animais”, ele lembra, traçando um paralelo entre o mundo ancestral e o moderno. “Foi maravilhoso e completamente maluco ao mesmo tempo e, de repente, eles começaram a tocar uma música do Metá Metá! Foi fantástico – nós ouvimos muito sobre a música sair do uso ritualístico para os chamados usos profanos, mas o movimento contrário é algo que está me fascinando no Brasil – e uma grande inspiração para nossa geração híbrida global, claro.”
Pergunto sobre como anda a quarentena na França e ele responde aliviado que as coisas vão bem: “Tenho sorte, a situação na França parece razoavelmente fácil de se lidar, pois a sociedade vem desenvolvendo um sistema de saúde pública forte pelas últimas décadas, mesmo que boa parte de nossas riquezas venham da exploração de outras terras por muito tempo. E também não temos um maluco completo no comando”.
Mas ele é cético em relação à volta para a vida que levávamos antes. “Não acho que iremos voltar ao normal, mas quem seria estúpido suficiente para desejar tal coisa? Eu acabei de publicar um pequeno ensaio sobre isso – The Nyépi-Demic – que discute as muitas questões relacionadas a possíveis evoluções da cena artística, etc.”
Ele aproveita para explicar o que está acontecendo hoje à luz de sua pesquisa de rituais. “Muitos anciãos por todo o mundo, de diferentes origens indígenas, têm sido muito caros a passar, nas últimas décadas, para nossa geração, este conhecimento profundo – que a realidade externa e material é só um espelho do nível interior da consciência de toda nossa sociedade. É o conhecimento mais antigo da humanidade, provavelmente, você pode ler isso formulado de diferentes formas em todas os caminhos espirituais ancestrais, da Índia a Grécia, do Egito aos xamãs…”
“O que isso quer dizer?”, prossegue. “Que a imaginação é muito mais importante do que pensamos neste nosso mundo pós-industrial. Que a imaginação é o CENTRO da realidade nesta terceira dimensão. Então é bom que imaginemos o amanhã. Para fazer isso, sugiro que paremos de ler tudo que venha da mídia de massas e que inventemos nossas ficções alternativas.”
Enquanto a pandemia não passa, ele fala sobre o projeto que vinha trabalhando antes do surto, que quer retomar logo em seguida. “Estou tentando explorar a relação entre o cinema e os estados de transe, vibrações e o código da realidade e criar alguns protocolos de cura para longe do mundo do cinema mas mais com cara de híbridos – nós estamos começando o Teatro da Cura assim que essa pandemia começar a diminuir – uma experiência faça-você-mesmo em que as pessoas, qualquer um, nos convida para suas casas para uma sessão de música, cinema e cura. Vamos continuar a publicar todos nossos trabalhos na internet, sob licenças de código aberto, através de nosso selo de música digital e você pode conferir algumas performances recentes no site da Petites Planètes.
A cantora cearense Soledad mostra em primeira mão no Trabalho Sujo o segundo clipe de seu disco Revoada, lançado no ano passado, mais uma parceria com a diretora Patrícia Araujo. O clipe é da ótima versão que ela fez para a tocante “Pássaros, Mulheres e Peixe”, de Alessandra Leão. “O que está visível hoje?”, pergunta-me de volta quando a pergunto a relação entre o novo clipe e a situação que atravessamos por conta do coronavírus. “O isolamento pandêmico destaca e fortalece as diferenças sociais, políticas e culturais nas quais as mulheres são inseridas. Ficamos ainda mais expostas ao desamparo e às violências do machismo, o aumento do feminicídio em alguns países desde que a quarentena começou comprova isso, por exemplo.”
O clipe foi gravado antes do período de confinamento, à exceção das imagens de Soledad, feitas por ela mesma com inspiração em técnica de stop-motion da cineasta Agnès Varda “Eu e Pati conversamos há algum tempo sobre como a arte e os valores feministas podem, e devem, refletir a nossa responsabilidade cidadã e humana, e também a de personagens da natureza. Como artistas, precisamos estabelecer alguma conversa com o mundo e sua realidade, vislumbrando transformações. Desde o nascimento do Revoada, nós ficamos muito atraídas pela ideia de criarmos juntas um vídeo-arte para essa canção, pelo que ela conta e nos une afetivamente e politicamente na nossa condição de mulher, esse momento se deu agora. É impressionante o que uma música, uma dança, um texto, ou um filme podem comunicar, atravessar e construir.”
“Há quarenta dias tento deixar a respiração pacífica para que seja possível imaginar o mar e desenhar uma linha do horizonte para a vida futura”, responde quando pergunto a ela sobre os dias de isolamento social. “Mergulho em leituras e filmes que me dão possibilidades de criar uma paisagem melhor para essa vida, a desejada por mim e pelas pessoas que se colocam perto e distante. Também tenho me dedicado ao pequeno livro que pretendo lançar em breve e a tentar entender se o que produzo contribui para a transformação social que manterá o planeta e as pessoas vivas ou não. Difícil falar sobre a pós pandemia agora, por enquanto penso o quão é importante nos posicionarmos politicamente e enxergarmos nossas responsabilidade sócio-afetivas.” Ela planeja lançar mais um clipe deste mesmo disco (a música escolhida ainda é segredo), mas já começa a compor novamente…
Depois de lançar um dos melhores discos do ano passado, a cantora paulistana Yma começa a ensaiar seu futuro próximo e lança o primeiro single após Par de Olhos nessa sexta-feira, antecipando a balada beatlesca “No Aquário” em primeira mão aqui para o Trabalho Sujo. A faixa faz parte da coletânea Emaranhado, produzida pelo site Crush em Hi-Fi, que propôs uma espécie de amigo oculto entre cantores e compositores, deixando o acaso formar parcerias. A letra de “No Aquário”, composta pelo músico Lau, do projeto Lau e Eu, foi parar nas mãos de Yasmin Mamedio, que trouxe a letra solitária para o universo misterioso de Yma.
“Esse single foi uma experiência mágica e inteiramente coletiva”, ela me explica por email. “Quando recebi a letra do projeto Emaranhado, me veio uma melodia de samba, me juntei com o Uiu e o Dreg e fizemos um sambão. Ficou interessante, mas tinha a sensação de que ainda poderia ser outra coisa. Não lembro se foi no mesmo dia, mas Dreg começou arranhar uma harmonia aqui, Uiu foi ajudando e colocando as notas no baixo ali, e eu falei que tinha que ter a onda a graça e malemolência de ‘Grilos’ de Erasmo Carlos. Logo fui soltando a melodia e voi là! Depois de um show que participei da banda de jazz do baterista Marquinho, fomos pro estúdio gravar. Pensa que a sessão de gravação começou 1h da madrugada e o Nando Rischbieter, o produtor, é uma pessoa super matinal. Acho que a parte graciosa e sonhadora do arranjo tem a ver com isso, ele já estava em outro plano naquela hora”, ri.
Quando pergunto sobre o futuro de seu trabalho após o disco de estreia, ela se estende: “Acho que tem muita novidade em relação ao Par de Olhos. O disco tinha uma amarração, uma atmosfera de voz bem peculiar. E pra mim single é uma oportunidade de ser mais inconsequente, no bom sentido. Testar, entortar as coisas, ver no que dá… Mas sinto que mantém aquela energia surreal, onírica. Acho bem Yma. Vejo esse single dessa forma: uma experiência divertida, gostosa, ao mesmo tempo desafiadora – não foi fácil abrir mão dos efeitos do pedal de voz. É cedo dizer que indica um novo caminho… Não sei. Pode ser. Talvez… Quem sabe?”
Ela no entanto não tem nada do segundo disco definido. “Tô compondo, sem pressa. Acho que o assunto segundo disco ainda vai pintar no horizonte. Quero experimentar e me aventurar nos singles enquanto isso. Mas é um dia por vez. Agora temos que ser criativos também para resolver a logística de se fazer música e ser artista nessas condições”, conta. Quando pergunto sobre o lançamento acontecer na quarentena, ela me conta que o lançamento já estava previsto para agora, mesmo antes do confinamento começar. “A pandemia virou tudo de cabeça pra baixo e pensei muito no que significa lançar alguma coisa neste cenário”, divaga. “Ouvi recentemente ótimos trabalhos que me trouxeram momentos de paz e alegria e me senti encorajada a seguir em frente. E acabou que a letra de ‘No Aquário’ parece dialogar com tudo isso do isolamento.”










