Um dos pais do rock gaúcho como o conhecemos hoje, o mestre Frank Jorge está prestes a gravar um novo disco produzido por ninguém menos que Kassin: “Quero revisitar brega brasileiro 1970 com referências do rock mundial da mesma época, CBGB’s… Se conseguiremos fazer? Boa questão”, ele me antecipa. Enquanto o disco toma forma antes das gravações começarem, ele compartilha uma sessão que fez ao vivo no início do ano, contando com seus dois filhos como músicos de sua banda: Érico, de 20 anos, na guitarra e Glória, 15, na bateria. Foi a segunda vez que tocaram juntos – a primeira foi em dezembro do ano passado (na foto acima). Na sessão abaixo, gravada em janeiro deste ano, além de Frank, Érico e Glória, está o baixista Regis Sam.
Pai coruja, Frank reforça que os dois tocam juntos na banda Flanelas Desbotadas (que, olha só, tem futuro) e “a Glória toca na Orquestra de Bateria e Percussão Batucas, organizada pela Biba Meira, há quatro anos”, comenta orgulhoso da filha tocando no projeto da primeira baterista do Defalla.
Há quase uma década numa missão de aproximar “antigas, novas e possíveis tradições” da cultura africana para a cultura brasileira, o grupo Höröyá, idealizado pelo percussionista André Piruka, leva para o palco da choperia do Sesc Pompeia nesta quinta-feira mais uma celebração reunindo músicos e dançarinos em um espetáculo inédito, chamado de Höröyá Pan África Brasil, que reúne músicos e dançarinos da Guiné-Conacri (como o Mamady Keita, Djenab Soumah e Djanko Camara), a dançarina baiana Rosangela Silvestre e os senegaleses Aziz Mbay e Moustapha Dieng, celebrando a cultura do oeste africano (mais informações aqui). Aproveitei a deixa para bater um papo com Piruka sobre a renascença da cultura do continente negro em uma época tão bizarra quanto a que estamos vivendo politicamente.
Conversei com Cleber Facchi do Vamos Falar Sobre Música?, Fábio Silveira do Fast Forward, Lucio Ribeiro do Popcast e Thiago França do Sabe Som?, autores de podcasts que abordam diferentes aspectos da produção musical em uma reportagem para a revista da UBC – confere lá no site deles.
Depois de anos trabalhando como produtor eletrônico solitário, o ex-baixista do Defalla, foi aos poucos integrando amigos e conhecidos à execução de suas músicas, culminando com seu disco mais recente, Rocks (2013), quando montou diferentes grupos a partir de vários músicos no estúdio. Desta vez ele resolveu assumir de vez a natureza de banda no processo criativo e anuncia o lançamento de Mundo Novo, um disco em que também divide as canções com o mesmo grupo de músicos, batizado de Flu & Amigos: “O Marcelo Fornazier é meu parceiro musical desde o tempo do Defalla em 1992, nos entendemos bastante musicalmente. O Luciano Ganja entrou no século 21 pra turma e já é honorário. O mais novo é o Cláudio Calcanhoto que apesar de sermos amigos dos anos 80 nunca tinha chamado ele pra turma”, me explica o músico e produtor gaúcho por email, lançando o primeiro single deste disco, a singela e pesada “Porco”, em primeira mão no Trabalho Sujo. “Apesar de muita coisa ter feito sozinho rabiscando nuns brinquedinhos eletrônicos, o resultado final é criação de banda. Por isso resolvi virar banda e não mais artista solo. Eu mostro as bagunças e bagunçamos juntos pra dar um resultado final!”, ele continua.
Ele explica a escolha da música de apresentação do novo disco: “Desde que a gente começou a tocar eu via um grito de porco no riff de guitarra. Daí colocamos de brincadeira e foi ficando. Mas é aquele porco de quadrinhos, tipo o que o Max Sieber desenhou mesmo. Mundo divertido e infantil As crianças são muito espertas e sagazes”, ele explica, se referindo à capa do single, feita pelo filho do amigo Allan Sieber, Max Sieber.
“A sonoridade vai ser bastante variada”, ele prossegue, dizendo que ainda está fechando os arranjos finais. “Mas certo que vai ser mistura de locurinhas eletrônicas com riffs de guitarras, mais alguns rocks e umas de viola. A ideia de mundo novo é a de que tudo pode. Então vamos meter bronca nessa liberdade de criação!” O título do disco veio de uma região perto de Maquiné, no Rio Grande do Sul, onde ele passou um tempo longe da cidade. “O mato nos dá força e nos mostra que somos mais poderosos que a gente imagina”, ele se empolga, “É um olhar mais maluco sobre tudo, sem medos e receios desse momento fascista.”
Ele tem outros amigos em vista para agregar ao grupo inicial. “Além da banda base, por enquanto, chamei o amigo Diego Medina, que foi da banda Video Hits, baita artista. O Gabriel Guedes, do Pata de Elefante e Cumbia Negra, que fez o solo final do próximo single. Ainda conversando com o Paulo Beto pra desenvolver uma parceria que tinha começado com o Miranda e precisa de muitos ajustes”, ele explica, falando que está armando a vinda para São Paulo em um show na Casa do Mancha, em São Paulo. “Ao vivo sempre é bem rock. As firulas eletrônicas se transformam em riffs de guitarras e fica bem pesado!”, conclui.
“Ao meu redor só se fala em fase de transição”, desabafa o cantor e compositor capixaba Juliano Gauche, quando lhe pergunto sobre a inspiração para seu novo trabalho, o EP Bombyx Mori, que ele antecipa em primeira mão para o Trabalho Sujo e que chega nessa sexta às plataformas digitais. “São tantas as mudanças necessárias que fica até difícil enumerar. acho que tudo que eu tenho lido, ouvido ou assistido, gira em torno disso. O Água Viva da Clarice Lispector foi uma rajada de inspiração; a literatura espírita, principalmente os livros do Chico Xavier, de onde tirei a expressão que dá título ao EP, foi outra rajada; a leveza de cantoras como a Alice Phoebe Lou, a YMA, a Angel Olsen, também. a inspiração, de uma forma geral, veio das necessidades de mudança mesmo”
Bombyx Mori é o nome científico do bicho da seda, escolhido a partir de uma aparição como metáfora na literatura espírita, que havia embarcado. “Mas não foi só o que ele significa que me prendeu. Foi como apareceu no momento da leitura, a grafia da palavra, bomb, byx, y x, muito moderna, minha cabeça pop também olha essas coisas. Eu ainda nem tinha escrito as músicas, mas quando olhei essas palavras eu disse, vai ser isso.”
Bombyx Mori começa com um trovão que é antônimo de toda sua leveza musical. Gravado ao lado dos compadres Kaneo Ramos (violão), Klaus Sena (synth) e Marcos Vitoriano (piano), ele soa acústico e delicado, radicalmente oposto do elétrico e pop (quase rock, como o trovão do início) Afastamento, o ótimo disco que lançou, em 2018. Mas sua matriz composicional segue firme o caminho que já vinha trilhando, afastando-se mais esteticamente do que em termos essenciais. Ele escolheu lançar as três canções juntas pois fazem parte de um mesmo arco artístico: “As três canções estão ali pra contar a mesma história, é bom que sejam ouvidas juntas, naquela ordem, elas pertencem ao mesmo corpo”, explica.
Mas a mudança também faz parte da essência deste trabalho. “Ela só me faz crescer, é assim que eu sinto. Num momento em que o conservadorismo quer voltar com tudo, o simples fato de abraçar as mudanças passa a ser instinto de sobrevivência. Me parece o único movimento possível. Do jeito que as coisas estão é que não dá mais. E é claro que vale repetir que para as coisas mudarem nós temos que mudar. Gradativamente eu fui parando de comer carne, cortando o álcool, dormindo mais cedo, tentando me manter o mais forte possível. Politicamente, me sinto numa guerra desde 2013. E desde lá venho trabalhando nisso”, disseca.
A mudança também foi geográfica, quando mudou-se de volta para o Espírito Santo depois de uma temporada em São Paulo. “Sair um pouco de São Paulo faz parte de todas essas transformações que estou falando”, explica. “A repetição é um inferno, estou tentando me movimentar o máximo que posso, internamente e geograficamente. Mas não consigo me ver desconectado de São Paulo mais não. Mesmo não estando ai, toda a vibração da cidade ainda está em mim. E ainda tenho feito tudo ai, como a gravação deste EP, por exemplo. Corro, corro, mas na hora H eu só penso em Sampa.”
O disco também não está só. “O EP é só mais um movimento. Tem dois livrinhos que escrevi enquanto compunha as músicas que também gostaria de lançar este ano”, antecipa.
Aproveitando o lançamento de seu ótimo Rastilho, bati um papo com o jovem mestre Kiko Dinucci para a revista Trip e embarcamos numa longa jornada rumo a seu passado musical, passando do metal ao samba, do hardcore à música eletrônica, dois batismos de fogo (um tocando “One” do Metallica e outro cantando “Se você jurar” de Ismael Silva), diferentes bairros de São Paulo, entre clubes de choro, brigas de punks, terreiros e encontros preciosos – lê lá!
Prestes a lançar seu segundo disco, o grupo Amanticidas escancara sua principal influência, a vanguarda musical que girava ao redor do teatro Lira Paulistana durante os anos 80 e convida uma de suas principais seguidoras desta linhagem, no single que antecipa o novo lançamento. “Paisagem Apagada” é um pequeno e importante aperitivo de Teto, que foi produzido por Fernando Catatau, e está sendo antecipado em primeira mão para o Trabalho Sujo. A faixa também é um comentário sobre o Brasil de 2020 ao cantar que “Foi minha distração, sou eu que sou culpada, agora condenada assistir o desmonte do meu mundo”.
“A gente escolheu a Juçara muito tempo atrás, ela que foi ficar sabendo depois! Quando o Alex (Huszar, baixista e vocalista) chegou com essa canção, voz e violão, lá em 2017, foi imediato e unânime: a gente quer, a gente precisa, ouvir isso na voz dela”, explica o guitarrista e vocalista João Sampaio. “Não sabemos se é a letra, o clima, tudo isso junto: a gente sabia que tinha que ser a Juçara. Aí no ano passado durante as gravações nosso produtor Fernando Catatau – sem palavras, que homem – fez a ponte e o negócio virou realidade. Trabalhar com ela foi um prazer, uma honra e uma aula: é sempre bom quando você é fã de uma pessoa faz tempo e descobre que além do talento ela também é generosa, gente boa e uma baita profissional.”
João continua fazendo a conexão entre a cena que inspirou a criação do grupo, cujo nome saiu de uma música de seu maior ídolo, Itamar Assumpção, e a cena atual. “O legado mais forte talvez seja essa afirmação de que é possível fazer música autoral, original, diferente e interessante nessa cidade esquisita e imensa. Que tem gente pra fazer, gente pra ouvir, que não é fácil mas que vale a pena. Mas é um pouco difícil falar em descendência porque o pessoal da vanguarda original via de regra ainda tá por aí a mil, lançando coisa nova, então as gerações vão se confundindo, trocando. A gente quer mais é entrar nessa confusão”.
E não mediram esforços para se misturar: além da inspiração em Itamar, o grupo já dividiu o palco com alguns dos principais protagonistas daquela cena (Arrigo Barnabé, Banda Isca de Polícia, Ná Ozzetti, Alzira E, Suzana Salles, Orquídeas do Brasil, entre outros) e de se enturmar com artistas que orbitam ao redor deste grupo (como Tulipa Ruiz, Tom Zé, Maurício Pereira), além de ter seu primeiro álbum produzido por Paulo Lepetit. “A inspiração, na verdade, veio um pouco da necessidade”, continua João. “Lá nos idos de 2012 o Alex já tinha juntado a gente pra fazer um som assim meio vanguarda paulista. Tínhamos ensaiado umas poucas vezes, começado a levantar um repertório e conversado sobre as influências – Itamar já era a maior -, mas tudo naquele estágio bem preliminar de banda que quase-existe. Aí uma outra banda que o Sampaio tinha acabou e eles tinham um show marcado pra dali a duas semanas; ele ligou pra todo mundo, a gente escolheu o nome, se matou de ensaiar – algo que logo se tornaria um hábito -, levantou um show e seguiu dali.” Além de João e Alex, a banda ainda conta com Luca Frazão (violão de sete cordas e voz) e Joera Rodrigues (bateria).
O guitarrista lembra dos primeiros contatos que fizeram com os integrantes da vanguarda paulistana: “Teve um marco inicial bem claro nisso tudo que foi um evento em 2015 no qual tocamos antes da Isca de Polícia – a ideia dos produtores era justamente esse encontro de gerações. Aí tiramos um arranjo bem cascudo do Itamar pra impressionar – “Peço Perdão”, do disco Às Próprias Custas S/A – e funcionou: conhecemos o pessoal todo da Isca e o Lepetit falou pra gente que tinha um estúdio e adoraria que a gente gravasse lá. Dito e feito, em 2016 sai nosso primeiro disco com produção dele, que trouxe junto as participações incríveis de Arrigo Barnabé e Tom Zé. Com esse impulso inicial do Lepetit a gente foi indo atrás dos nossos caminhos pra buscar todo mundo daquela geração, querendo aprender: dividimos palco com Suzana Salles e Vange Milliet, com as Orquídeas do Brasil, Alzira E, gravamos no disco do Tom Zé, só alegria. Em 2018 fizemos uma turnê estadual em que cada show teve uma participação diferente desse pessoal, como o Maurício Pereira e a Ná Ozzetti. Estamos sempre nessa busca, que enxergamos um pouco como um longo processo de pesquisa mas também como uma realização pessoal e profissional gigante.”
“O jeito que esse processo de pesquisa se traduz no nosso trabalho é um pouco misterioso pra nós mesmos, continua o guitarrista. “A gente tenta assimilar, se apropriar e depois fazer do nosso jeito, mas o que sai e o que soa fica por conta do ouvinte. Mas claro que existem algumas inspirações mais diretas e conscientes, como estar no nosso processo de arranjo a coisa Itamarística das linhas instrumentais individuais se somando, um negócio meio contraponto até, que sempre nos fascinou e que a gente enxerga muito também nos trabalhos de um pessoal mais recente aqui de SP que admiramos demais, como Metá Metá, Passo Torto, Juçara Marçal…”
Teto será lançado nesta sexta-feira.
Célebre autora de obras intrinsecamente ligadas ao dia a dia do paulistano, como o Masp e o Teatro Oficina, a arquiteta Lina Bo Bardi é homenageada pela Trupe Chá de Boldo no primeiro lançamento do grupo em 2020, o EP Viva Lina. São cinco faixas que festejam a importância da artista paulistana e falam da relação que a arquiteta tem com a própria banda, que escolheu o Trabalho Sujo para lançar o primeiro single, “À Lina”, cujo clipe, gravado no próprio Oficina, você vê em primeira mão abaixo. O disco será lançado no último dia deste mês.
Também bati um papo com alguns dos integrantes da banda, que fará o show de lançamento no teatro do Sesc Pompeia (outra obra da Lina) no próximo dia 8 de fevereiro (mais informações aqui).
Entrevistei, para a revista Trip, a jornalista Roberta Martinelli, o produtor Décio 7 e as cantoras Letrux e Luedji Luna sobre o espetáculo Acorda Amor, que apresentam canções de resistência da história da música brasileira ao lado de Maria Gadu, Xênia França e Liniker Barros e que agora virou disco – e também antecipamos a capa do disco, que será lançado no dia 28 de janeiro. Confere lá.
“A vida só começou”, canta o cantor e compositor paulista Bruno Schiavo no single “Califórnia”, que lança em primeira mão no Trabalho Sujo. Gravado por Negro Leo e por Ana Frango Elétrico (com quem compôs “Tem Certeza?” de seu disco mais recente), Bruno está prestes a lançar seu primeiro disco solo, depois de passar pelo grupo Eueueu, que descreve como “um power trio entre a canção e o improviso de garagem baseado no ideal de horizontalidade em voga em 2013”, que montou ao lado de Daniel Scandurra e Chico França (autor da ótima “Promessas e Previsões”, lançada por Ana, no ano passado).
No novo trabalho, o foco é a canção pop. “De modo geral, esse primeiro trabalho é metade uma compilação entre o que fiz nos últimos dez anos, metade escrito no calor das gravações. Dá pra entender cada faixa como uma descoberta a seu modo, um álbum feito todo de começos”, me explica. “O disco teria uma definição específica ou pessoal de pop, possivelmente um metapop que envolve gradações de curiosidade do ouvido, exemplos: o quanto a escuta pôde ser ampliada em meio ao mainstream dos anos 90 e 2000; desde o pop de invenção dos Beatles; a partir de uma procura específica música popular brasileira adentro; do choque multicultural do download e da obsessão musical que ele democratizou. Um pop que passa pela noção de que estranhar intervalos, dissonâncias, contratempos e em seguida assimilá-los é um processo tão ou mais fundador da experiência quanto a repetição; que acredita na dialética entre tais modos como lugar privilegiado de investigação. Processo de composição tendente ao zero, ao utópico do presente imediato do improviso na canção, sem recurso a gênero, baseado na desmontagem da própria gestualidade musical afetada pelo pop, cujos resquícios são selecionados, mantidos e valorizados. Como numa investigação retroativa do ouvido programado: deixei iscas de superfície, especialmente melódicas e na sonoridade geral, e iscas de profundidade, que vão se apresentando nas escutas sucessivas, daí principalmente nas harmonias e nas letras.”
Gravado a partir de 2018 no estúdio Rockit!, o disco foi conduzido pelo mesmo Eduardo Manso que ajudou Ava Rocha a moldar seu Trança – e isso acabou aproximando ainda mais Bruno da cena carioca, trazendo um time pesado desses artistas para o álbum. “Além de uma percepção de estilo totalmente imune a quaisquer desvios mais caretas meus, Manso tem uma noção inacreditável da função do ‘inaudível’ numa faixa, do lugar fundamental de não-evidência”, ele continua. “O incrível Trança de Ava Rocha cuja direção musical foi dele e de Negro Leo habitava minha imaginação sonora nesse período inicial das gravações. Convidei muito honradamente músicos que observava de perto há anos, admiração e afinidades só cresciam: Thomas Harres, Marcelo Callado e Antônio Neves tocam bateria; Felipe Zenicola e Pedro Dantas, baixo; Thiago Nassif, o próprio Manso e Marcos Campello, guitarras; Chicão, piano e sintetizadores; Nana Carneiro, Raquel Dimantas, Ana Frango Elétrico e Ava Rocha participam em coros. Luxo total, maior presente da vida. Vários amigos também estiveram próximos, ouvindo, comentando, discutindo, me recebendo no Rio, ajudando na produção em geral, da capa, imagens de divulgação e clipe.”
“Califórnia” é mais do que uma boa amostra de seu trabalho como uma introdução perfeita para o disco, um fio da meada que puxa para um universo tão estranho quanto pop, que mistura camadas de ruídos sonoros a melodias assobiáveis e letras contemplativas – e reconstruídas (“Amores Incríveis” é minha favorita). “O olhar pelo lado mortificante da rotina por si só propõe um distanciamento das coisas do mundo que, então, podem reaparecer tão objetivas e frias no plano da linguagem a ponto de exigirem do sujeito um ato de reconexão, de refundação de sentidos. Penso nas ‘superfícies plásticas coloridas desiludindo no sol’ do refrão de ‘Amores Incríveis’, uma canção só superficialmente alegre. A ironia, inapreensível de primeira pra muitos, é um produto da desconfiança na naturalidade dos gestos gastos, dos vícios do comportamento apesar de suas repetidas manifestações. O teatro que revela uma verdade ou a emulação da sinceridade parecem efeitos complementares em mão dupla que podem ambos engendrarem deslocamentos ‘desejantes’. Por esse caminho, não existe afirmação da vida sem trazer à baila negativa a transparência de segunda ordem. Há correspondências evidentes entre escalas, estilos, gêneros musicais cristalizados e afetos-padrão, ou seja, encontros que são o material incontornável da canção. Seria possível uma história da música popular enquanto provocação astuciosa a esse absolutismo sentimental, irmão mais velho da parte anestesiada do ouvido?”
Pergunto sobre as referências musicais para esse disco e a resposta é tão difusa – e passageira – quanto as próprias canções, embora dê uma bela medida do que pode ser ouvido. “Sou fascinado por gravações caseiras de versões demo de compositores que gosto, Cobain, Macalé, Lennon, Michael Jackson. Minha primeira aquisição fonográfica consciente – com muitas aspas – foi Dangerous. A segunda, Mamonas. Os Mutantes e os desdobramentos de Rita Lee e Arnaldo Baptista foram irreversíveis junto com João Gilberto na adolescência; o Gilberto Gil da apresentação na USP e do Luminoso; Low de Bowie, a estranheza pop ali. Noel Rosa e Assis Valente, Duke Ellington, Nina Simone e todos os songbooks da Ella Fitzgerald, Djavan, Björk, Lupicínio, Radiohead, Super Diamono, Antena 1. Essa pergunta sempre evoca um palimpsesto perigoso, essa é uma lista hoje, só, e hoje também posso trocar com a diversidade da minha geração, o que certamente é o melhor de tudo.”
E já que o assunto é geração, pergunto sobre a influência desta cena carioca da última década, em constante reinvenção, tão presente no disco, e ele aponta para o selo Quintavant. “O conhecimento da cena musical carioca em torno da noite e do selo Quintavant me causou espanto: avanços intensos do free jazz ao ruído, sempre permeado por uma grave consciência minimalista e por uma ética técnica sem engessamento. O que é muito incrível, acompanhado por uma crítica forte e ao mesmo tempo generosa como a de Bernardo Oliveira. Algo que com certeza merece um aprofundamento histórico e cuja influência ainda não sabemos como medir, mas com certeza será profunda.”











