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Entrevista

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Volto a colaborar com a Ilustrada da Folha de S. Paulo depois de cinco anos e publico uma entrevista que fiz em 2018 com o guitarrista do Gang of Four, Andy Gill, morto no início do mês, quando ele falou sobre a abordagem política das letras de sua banda, sobre a nova onda de extrema direita que assola o mundo (“os conservadores estavam preocupados com a ascensão do nacionalismo que poderia tomar seus votos, então resolveram que era melhor abraçar alguma destas filosofias. Não se faz esse tipo de escolha…”), sobre o estado do jornalismo atual e sobre a possibilidade de não conseguir visto para tocar nos EUA devido às letras de seu grupo – dá pra ler a entrevista toda aqui.

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Bati um papo com a cantora baiana Xênia França sobre o fim do ciclo de seu disco de estreia e o começo dos trabalhos do próximo álbum, que deve sair ainda este ano, em uma matéria que fiz para a edição de fevereiro da revista impressa da UBC.

A consciência de ser uma entidade

A baiana Xênia França se considera uma pessoa completamente diferente de seu primeiro álbum, lançado há dois anos, e prepara-se para começar a jornada do segundo trabalho ao mesmo tempo em que lustra sua carreira internacional

Mesmo às vésperas de mais uma viagem internacional e do início dos trabalhos em seu segundo álbum, a cantora e compositora baiana Xênia França, de 33 anos, sente-se insegura. “Eu tô começando tudo de novo, me sentindo completamente inexperiente e despreparada pra fazer esse disco, não sei se é a hora”, ela me conta às gargalhadas, que escondem um nervosismo que ela faz questão de deixar evidente. “Eu sou pisciana, sou muito ansiosa e já tô sofrendo, lógico!”

Quem a vê falando assim pode até acreditar no que ela fala – mas basta vê-la no palco para perceber que é excesso de zelo. Arma secreta do grupo paulistano Aláfia, ela lançou sua carreira solo no final de 2017 e anunciou a saída da banda no início do ano passado, quando tomou as rédeas de sua carreira de vez e atingiu patamares invejáveis para uma artista em seu primeiro disco solo. Depois de ter sido indicada para o Grammy Latino (nas categorias Melhor Álbum Pop Contemporâneo e Melhor Canção em Língua Portuguesa) em 2018, ela dividiu o palco do Rock in Rio em 2019 com o cantor inglês Seal e foi a primeira artista brasileira a participar do canal alemão Colors, além de não parar de fazer shows.

“Em agosto de 2018 eu dei início à minha carreira internacional, indo para os Estados Unidos, onde já me apresentei algumas vezes”, lembra, explicando que seu primeiro disco solo, batizado apenas de Xênia, ainda está no processo de lançamento no mercado exterior. “Acabei de lançar esse disco em vinil nos Estados Unidos, na Europa e no Japão, então ele ainda é uma novidade por lá. Já tenho algumas prospecções pro segundo semestre de 2020 com o primeiro disco no Canadá, na Austrália e nos Estados Unidos, além de provavelmente em alguns países da Europa.”

Ela insiste que é hora de partir para o segundo álbum, mesmo sem ter nada muito definido. “Já tô reduzindo a quantidade de shows porque preciso parar e entrar de cabeça. Eu tô há dois anos fazendo turnê com esse disco, são quase dois anos ininterruptos fazendo shows todo final de semana. Eu sou muito feliz por ter tido tanta benção com esse trabalho e tenho certeza que mesmo fazendo ele vai continuar sendo o que ele é, porque esse disco é uma potência, mas já estou me preparando pra fazer o segundo.”

O segundo disco, por sua vez, ainda está num estado embrionário, mas ela já sabe que quer manter a dupla de produtores que reuniu para o primeiro disco: Pipo Pegoraro e Lourenço Rebetez. “Eu queria que a produção transitasse pelo âmbito da intimidade, da escuta, porque eu tava saindo de uma banda enorme, com um monte de gente, e eu queria poder sentar pra fazer meu trabalho com uma galera que já me conhecia, que já tinha me escutado desde o princípio e quando comecei a pensar nisso, cheguei neles dois. E como eu é que eu ia trabalhar com dois produtores que não se conheciam? Mas deu muito certo, alquimia pura, e hoje eles produzem outros artistas juntos, viraram super amigos.”

Mesmo sem rumos e repertório definidos, ela sabe que quer ir além do primeiro álbum, sem apenas repeti-lo. “Já fiz muita coisa importante e tô com vontade de cantar outras coisas, de experimentar outras sonoridades e musicalidades, mas eu sofro. Tenho umas crises de ansiedade, mas tô trabalhando nisso, me cercando de amor e de carinho e das pessoas que eu gosto”, conta. “Minha dificuldade agora é reorganizar, praticamente dar um reset na minha vida pra ficar completamente à disposição desse trabalho. Como eu virei meu próprio parâmetro, meu maior desafio agora é conseguir fazer um trabalho que seja um próximo capítulo mesmo. O Pipo voltou a tocar, fez seu disco novo, o Lou lançou o projeto dele, todo mundo já mudou muito. Tenho certeza que não vai ser igual, a gente escuta uma coisa diferente e manda um pro outro. É outra atmosfera, já atualizamos nossos aplicativos.”

Ela faz mistério sobre os rumos do próximo trabalho, embora afirme que queira trabalhar com menos músicos (foram quase 30 no disco de estreia) e ter flexibilidade para gravar em outros estúdios, fora de São Paulo. “O projeto do disco se chama ‘a natureza das coisas’ que é um conceito bem abrangente mas que é muito pautado no lado feminino da natureza, pois sem o feminino nada se cria, nada acontece sem a energia feminina. Tô vivendo uma atmosfera que é minha relação com a natureza, de perceber a natureza como parte de mim e que eu também faço parte dela, deixar a natureza se manifestar.”

Insisto sobre os temas que ela quer abordar no próximo álbum, uma vez que o primeiro era muito calcado no tema da diáspora africana. “Fico escrevendo palavras soltas baseadas no que eu gostaria de dizer no próximo disco. Me transformei muito, eu tô muito ligada em existencialismo, em astrologia e espiritualidade. De me perceber como mais do que uma entertainer ou uma artista que está em cima do palco, mas como uma pessoa que tá trocando experiências com pessoas que saem de suas casas pra ver a gente tocar. Alguns momentos do show são muito focados nessa troca, de como a gente se percebe como entidades espirituais, como pessoas que estão no mundo para fazer a diferença, para melhorar como pessoa, como espírito.”

“E ao longo desses dois anos eu comecei a estudar mais sobre autoentendimento, autorresponsabilidade, lendo livros, vendo filmes, fazendo terapias, pra poder me distituir de certos traumas que ainda estão na minha vida – e que estão muito aparentes no meu primeiro disco”, ela prossegue, convicta. “Quero passar de fase, mas para isso preciso curar, olhar pra isso, tratar com compaixão, carinho, amor esses traumas. Traumas da vida, a respeito da minha ancestralidade preta, da minha presença como mulher no mundo, da minha vida infantil, coisas emocionais que uma boa pisciana consegue trabalhar direitinho, se jogar bem no buraco. Emocionalmente eu sempre fui uma pessoa muito frágil e o meu primeiro disco me deu um certo lastro, eu pude abordar coisas no primeiro disco que me fizeram colocar alguns monstrinhos na mesa pra trocar uma ideia com eles. E ao longo desse período na estrada, pude ir trabalhando isso no palco, com as pessoas, com o público, com a minha equipe, com meus músicos. Tenho certeza que não sou aquela mesma pessoa do primeiro disco, já passei por um portal e estou me preparando pra passar por outro. Ainda estou elocubrando muitas coisas, mas já tive boas conversas com pessoas próximas a mim e sinto que é uma mudança de fase.”

Ela cita a força de músicas como “Pra Que Me Chamas?” e “Reach the Stars” como fundamentais nessa autodescoberta. “’Pra Que Me Chamas?”’ que é a primeira música do disco é um monstro, é uma música difícil, letra difícil, e eu chego em qualquer lugar e as pessoas cantam de cabo a rabo. Cantei no carnaval da Bahia em 2018 e as pessoas cantavam essa música no carnaval, eu tava em choque. Já ‘Reach the Stars’ quase não entrou por ser em inglês, mas a minha resposta é que eu gosto muito dela e ela faz sentido pra mim. E no show, ela é o meu portal espiritual: todo mundo fecha os olhos e se conectam com quem elas são, eu abro os olhos e elas estão chorando, recebo relatos nas minhas redes sociais sobre o momento dessa música. Então, de fato, o repertório do disco e a força do show tomaram outra dimensão, Esse é o meu objetivo, porque eu tô aprendendo a ser eu através do meu trabalho, o meu processo de autoconhecimento passa pelo meu trabalho, ele funciona como uma ferramenta pra que eu cresça e me torne uma pessoa melhor. Talvez eu já tivesse essa consciência, mas não tinha a dimensão no que ele poderia se transformar.”

Ela voltou de sua turnê pelos EUA no início do ano e apresentou-se no Sesc Pinheiros, em São Paulo, e numa festa do músico Max Viana, filho de Djavan (“um DNA que eu amo muito”, ri, sem saber se o pai de Max, um de seus ídolos máximos, já ouviu seu disco), no Rio de Janeiro e começa a trabalhar no novo disco ainda em fevereiro, quando vê também o lançamento do disco do projeto Acorda Amor, idealizado pela jornalista Roberta Martinelli e pelo produtor e baterista do grupo Bixiga 70 Décio 7, ao lado das cantoras Maria Gadu, Letrux, Luedji Luna e Liniker. E isso apenas no início do ano. 2020 promete!

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Um dos pais do rock gaúcho como o conhecemos hoje, o mestre Frank Jorge está prestes a gravar um novo disco produzido por ninguém menos que Kassin: “Quero revisitar brega brasileiro 1970 com referências do rock mundial da mesma época, CBGB’s… Se conseguiremos fazer? Boa questão”, ele me antecipa. Enquanto o disco toma forma antes das gravações começarem, ele compartilha uma sessão que fez ao vivo no início do ano, contando com seus dois filhos como músicos de sua banda: Érico, de 20 anos, na guitarra e Glória, 15, na bateria. Foi a segunda vez que tocaram juntos – a primeira foi em dezembro do ano passado (na foto acima). Na sessão abaixo, gravada em janeiro deste ano, além de Frank, Érico e Glória, está o baixista Regis Sam.

Pai coruja, Frank reforça que os dois tocam juntos na banda Flanelas Desbotadas (que, olha só, tem futuro) e “a Glória toca na Orquestra de Bateria e Percussão Batucas, organizada pela Biba Meira, há quatro anos”, comenta orgulhoso da filha tocando no projeto da primeira baterista do Defalla.

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Há quase uma década numa missão de aproximar “antigas, novas e possíveis tradições” da cultura africana para a cultura brasileira, o grupo Höröyá, idealizado pelo percussionista André Piruka, leva para o palco da choperia do Sesc Pompeia nesta quinta-feira mais uma celebração reunindo músicos e dançarinos em um espetáculo inédito, chamado de Höröyá Pan África Brasil, que reúne músicos e dançarinos da Guiné-Conacri (como o Mamady Keita, Djenab Soumah e Djanko Camara), a dançarina baiana Rosangela Silvestre e os senegaleses Aziz Mbay e Moustapha Dieng, celebrando a cultura do oeste africano (mais informações aqui). Aproveitei a deixa para bater um papo com Piruka sobre a renascença da cultura do continente negro em uma época tão bizarra quanto a que estamos vivendo politicamente.

podcast-ubc

Conversei com Cleber Facchi do Vamos Falar Sobre Música?, Fábio Silveira do Fast Forward, Lucio Ribeiro do Popcast e Thiago França do Sabe Som?, autores de podcasts que abordam diferentes aspectos da produção musical em uma reportagem para a revista da UBC – confere lá no site deles.

Flu metal

Foto: Rogério Ferrari

Foto: Rogério Ferrari

Depois de anos trabalhando como produtor eletrônico solitário, o ex-baixista do Defalla, foi aos poucos integrando amigos e conhecidos à execução de suas músicas, culminando com seu disco mais recente, Rocks (2013), quando montou diferentes grupos a partir de vários músicos no estúdio. Desta vez ele resolveu assumir de vez a natureza de banda no processo criativo e anuncia o lançamento de Mundo Novo, um disco em que também divide as canções com o mesmo grupo de músicos, batizado de Flu & Amigos: “O Marcelo Fornazier é meu parceiro musical desde o tempo do Defalla em 1992, nos entendemos bastante musicalmente. O Luciano Ganja entrou no século 21 pra turma e já é honorário. O mais novo é o Cláudio Calcanhoto que apesar de sermos amigos dos anos 80 nunca tinha chamado ele pra turma”, me explica o músico e produtor gaúcho por email, lançando o primeiro single deste disco, a singela e pesada “Porco”, em primeira mão no Trabalho Sujo. “Apesar de muita coisa ter feito sozinho rabiscando nuns brinquedinhos eletrônicos, o resultado final é criação de banda. Por isso resolvi virar banda e não mais artista solo. Eu mostro as bagunças e bagunçamos juntos pra dar um resultado final!”, ele continua.

Ele explica a escolha da música de apresentação do novo disco: “Desde que a gente começou a tocar eu via um grito de porco no riff de guitarra. Daí colocamos de brincadeira e foi ficando. Mas é aquele porco de quadrinhos, tipo o que o Max Sieber desenhou mesmo. Mundo divertido e infantil As crianças são muito espertas e sagazes”, ele explica, se referindo à capa do single, feita pelo filho do amigo Allan Sieber, Max Sieber.

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“A sonoridade vai ser bastante variada”, ele prossegue, dizendo que ainda está fechando os arranjos finais. “Mas certo que vai ser mistura de locurinhas eletrônicas com riffs de guitarras, mais alguns rocks e umas de viola. A ideia de mundo novo é a de que tudo pode. Então vamos meter bronca nessa liberdade de criação!” O título do disco veio de uma região perto de Maquiné, no Rio Grande do Sul, onde ele passou um tempo longe da cidade. “O mato nos dá força e nos mostra que somos mais poderosos que a gente imagina”, ele se empolga, “É um olhar mais maluco sobre tudo, sem medos e receios desse momento fascista.”

Ele tem outros amigos em vista para agregar ao grupo inicial. “Além da banda base, por enquanto, chamei o amigo Diego Medina, que foi da banda Video Hits, baita artista. O Gabriel Guedes, do Pata de Elefante e Cumbia Negra, que fez o solo final do próximo single. Ainda conversando com o Paulo Beto pra desenvolver uma parceria que tinha começado com o Miranda e precisa de muitos ajustes”, ele explica, falando que está armando a vinda para São Paulo em um show na Casa do Mancha, em São Paulo. “Ao vivo sempre é bem rock. As firulas eletrônicas se transformam em riffs de guitarras e fica bem pesado!”, conclui.

Foto: Ellen Flegler

Foto: Ellen Flegler

“Ao meu redor só se fala em fase de transição”, desabafa o cantor e compositor capixaba Juliano Gauche, quando lhe pergunto sobre a inspiração para seu novo trabalho, o EP Bombyx Mori, que ele antecipa em primeira mão para o Trabalho Sujo e que chega nessa sexta às plataformas digitais. “São tantas as mudanças necessárias que fica até difícil enumerar. acho que tudo que eu tenho lido, ouvido ou assistido, gira em torno disso. O Água Viva da Clarice Lispector foi uma rajada de inspiração; a literatura espírita, principalmente os livros do Chico Xavier, de onde tirei a expressão que dá título ao EP, foi outra rajada; a leveza de cantoras como a Alice Phoebe Lou, a YMA, a Angel Olsen, também. a inspiração, de uma forma geral, veio das necessidades de mudança mesmo”

Bombyx Mori é o nome científico do bicho da seda, escolhido a partir de uma aparição como metáfora na literatura espírita, que havia embarcado. “Mas não foi só o que ele significa que me prendeu. Foi como apareceu no momento da leitura, a grafia da palavra, bomb, byx, y x, muito moderna, minha cabeça pop também olha essas coisas. Eu ainda nem tinha escrito as músicas, mas quando olhei essas palavras eu disse, vai ser isso.”

Bombyx Mori começa com um trovão que é antônimo de toda sua leveza musical. Gravado ao lado dos compadres Kaneo Ramos (violão), Klaus Sena (synth) e Marcos Vitoriano (piano), ele soa acústico e delicado, radicalmente oposto do elétrico e pop (quase rock, como o trovão do início) Afastamento, o ótimo disco que lançou, em 2018. Mas sua matriz composicional segue firme o caminho que já vinha trilhando, afastando-se mais esteticamente do que em termos essenciais. Ele escolheu lançar as três canções juntas pois fazem parte de um mesmo arco artístico: “As três canções estão ali pra contar a mesma história, é bom que sejam ouvidas juntas, naquela ordem, elas pertencem ao mesmo corpo”, explica.

Mas a mudança também faz parte da essência deste trabalho. “Ela só me faz crescer, é assim que eu sinto. Num momento em que o conservadorismo quer voltar com tudo, o simples fato de abraçar as mudanças passa a ser instinto de sobrevivência. Me parece o único movimento possível. Do jeito que as coisas estão é que não dá mais. E é claro que vale repetir que para as coisas mudarem nós temos que mudar. Gradativamente eu fui parando de comer carne, cortando o álcool, dormindo mais cedo, tentando me manter o mais forte possível. Politicamente, me sinto numa guerra desde 2013. E desde lá venho trabalhando nisso”, disseca.

A mudança também foi geográfica, quando mudou-se de volta para o Espírito Santo depois de uma temporada em São Paulo. “Sair um pouco de São Paulo faz parte de todas essas transformações que estou falando”, explica. “A repetição é um inferno, estou tentando me movimentar o máximo que posso, internamente e geograficamente. Mas não consigo me ver desconectado de São Paulo mais não. Mesmo não estando ai, toda a vibração da cidade ainda está em mim. E ainda tenho feito tudo ai, como a gravação deste EP, por exemplo. Corro, corro, mas na hora H eu só penso em Sampa.”

O disco também não está só. “O EP é só mais um movimento. Tem dois livrinhos que escrevi enquanto compunha as músicas que também gostaria de lançar este ano”, antecipa.

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Aproveitando o lançamento de seu ótimo Rastilho, bati um papo com o jovem mestre Kiko Dinucci para a revista Trip e embarcamos numa longa jornada rumo a seu passado musical, passando do metal ao samba, do hardcore à música eletrônica, dois batismos de fogo (um tocando “One” do Metallica e outro cantando “Se você jurar” de Ismael Silva), diferentes bairros de São Paulo, entre clubes de choro, brigas de punks, terreiros e encontros preciosos – lê lá!

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Prestes a lançar seu segundo disco, o grupo Amanticidas escancara sua principal influência, a vanguarda musical que girava ao redor do teatro Lira Paulistana durante os anos 80 e convida uma de suas principais seguidoras desta linhagem, no single que antecipa o novo lançamento. “Paisagem Apagada” é um pequeno e importante aperitivo de Teto, que foi produzido por Fernando Catatau, e está sendo antecipado em primeira mão para o Trabalho Sujo. A faixa também é um comentário sobre o Brasil de 2020 ao cantar que “Foi minha distração, sou eu que sou culpada, agora condenada assistir o desmonte do meu mundo”.

“A gente escolheu a Juçara muito tempo atrás, ela que foi ficar sabendo depois! Quando o Alex (Huszar, baixista e vocalista) chegou com essa canção, voz e violão, lá em 2017, foi imediato e unânime: a gente quer, a gente precisa, ouvir isso na voz dela”, explica o guitarrista e vocalista João Sampaio. “Não sabemos se é a letra, o clima, tudo isso junto: a gente sabia que tinha que ser a Juçara. Aí no ano passado durante as gravações nosso produtor Fernando Catatau – sem palavras, que homem – fez a ponte e o negócio virou realidade. Trabalhar com ela foi um prazer, uma honra e uma aula: é sempre bom quando você é fã de uma pessoa faz tempo e descobre que além do talento ela também é generosa, gente boa e uma baita profissional.”

João continua fazendo a conexão entre a cena que inspirou a criação do grupo, cujo nome saiu de uma música de seu maior ídolo, Itamar Assumpção, e a cena atual. “O legado mais forte talvez seja essa afirmação de que é possível fazer música autoral, original, diferente e interessante nessa cidade esquisita e imensa. Que tem gente pra fazer, gente pra ouvir, que não é fácil mas que vale a pena. Mas é um pouco difícil falar em descendência porque o pessoal da vanguarda original via de regra ainda tá por aí a mil, lançando coisa nova, então as gerações vão se confundindo, trocando. A gente quer mais é entrar nessa confusão”.

E não mediram esforços para se misturar: além da inspiração em Itamar, o grupo já dividiu o palco com alguns dos principais protagonistas daquela cena (Arrigo Barnabé, Banda Isca de Polícia, Ná Ozzetti, Alzira E, Suzana Salles, Orquídeas do Brasil, entre outros) e de se enturmar com artistas que orbitam ao redor deste grupo (como Tulipa Ruiz, Tom Zé, Maurício Pereira), além de ter seu primeiro álbum produzido por Paulo Lepetit. “A inspiração, na verdade, veio um pouco da necessidade”, continua João. “Lá nos idos de 2012 o Alex já tinha juntado a gente pra fazer um som assim meio vanguarda paulista. Tínhamos ensaiado umas poucas vezes, começado a levantar um repertório e conversado sobre as influências – Itamar já era a maior -, mas tudo naquele estágio bem preliminar de banda que quase-existe. Aí uma outra banda que o Sampaio tinha acabou e eles tinham um show marcado pra dali a duas semanas; ele ligou pra todo mundo, a gente escolheu o nome, se matou de ensaiar – algo que logo se tornaria um hábito -, levantou um show e seguiu dali.” Além de João e Alex, a banda ainda conta com Luca Frazão (violão de sete cordas e voz) e Joera Rodrigues (bateria).

O guitarrista lembra dos primeiros contatos que fizeram com os integrantes da vanguarda paulistana: “Teve um marco inicial bem claro nisso tudo que foi um evento em 2015 no qual tocamos antes da Isca de Polícia – a ideia dos produtores era justamente esse encontro de gerações. Aí tiramos um arranjo bem cascudo do Itamar pra impressionar – “Peço Perdão”, do disco Às Próprias Custas S/A – e funcionou: conhecemos o pessoal todo da Isca e o Lepetit falou pra gente que tinha um estúdio e adoraria que a gente gravasse lá. Dito e feito, em 2016 sai nosso primeiro disco com produção dele, que trouxe junto as participações incríveis de Arrigo Barnabé e Tom Zé. Com esse impulso inicial do Lepetit a gente foi indo atrás dos nossos caminhos pra buscar todo mundo daquela geração, querendo aprender: dividimos palco com Suzana Salles e Vange Milliet, com as Orquídeas do Brasil, Alzira E, gravamos no disco do Tom Zé, só alegria. Em 2018 fizemos uma turnê estadual em que cada show teve uma participação diferente desse pessoal, como o Maurício Pereira e a Ná Ozzetti. Estamos sempre nessa busca, que enxergamos um pouco como um longo processo de pesquisa mas também como uma realização pessoal e profissional gigante.”

“O jeito que esse processo de pesquisa se traduz no nosso trabalho é um pouco misterioso pra nós mesmos, continua o guitarrista. “A gente tenta assimilar, se apropriar e depois fazer do nosso jeito, mas o que sai e o que soa fica por conta do ouvinte. Mas claro que existem algumas inspirações mais diretas e conscientes, como estar no nosso processo de arranjo a coisa Itamarística das linhas instrumentais individuais se somando, um negócio meio contraponto até, que sempre nos fascinou e que a gente enxerga muito também nos trabalhos de um pessoal mais recente aqui de SP que admiramos demais, como Metá Metá, Passo Torto, Juçara Marçal…”

Teto será lançado nesta sexta-feira.

Foto: Manoela Meyer

Foto: Manoela Meyer

Célebre autora de obras intrinsecamente ligadas ao dia a dia do paulistano, como o Masp e o Teatro Oficina, a arquiteta Lina Bo Bardi é homenageada pela Trupe Chá de Boldo no primeiro lançamento do grupo em 2020, o EP Viva Lina. São cinco faixas que festejam a importância da artista paulistana e falam da relação que a arquiteta tem com a própria banda, que escolheu o Trabalho Sujo para lançar o primeiro single, “À Lina”, cujo clipe, gravado no próprio Oficina, você vê em primeira mão abaixo. O disco será lançado no último dia deste mês.

Também bati um papo com alguns dos integrantes da banda, que fará o show de lançamento no teatro do Sesc Pompeia (outra obra da Lina) no próximo dia 8 de fevereiro (mais informações aqui).