O melhor de fazer estas longas entrevistas do Bom Saber é a possibilidade de me aprofundar em histórias, pensamentos e sensações que habitam as cabeças de amigos que também são mestres. O aprendizado é contínuo e esta semana ele vem em dose dupla. Primeiro conversei com o André Czarnobai, essa entidade online que conheci como Cardoso (por causa do mítico fanzine por email CardosOnLine e que está em processo artesanal de lançamento de seu segundo livro, O Sensual Adulto. Conversamos sobre a produção deste livro – tanto como ideia quanto como produto – bem como uma de suas atuais obsessões: a pandemia do coronavírus e a forma como ela está mexendo com a cabeça das pessoas.
O outro papo dessa semana foi com a Alessandra Leão e tanto a conversa com ela quanto as outras entrevistas que venho fazendo (já falei com o Negro Leo, o Bruno Torturra, a Roberta Martinelli, o Ian Black e o Fernando Catatau) podem ser vistas aqui.
O produtor carioca Cadu Tenório embarcou numa viagem introspectiva muito antes da quarentena, quando, na metade do ano passado, decidiu dissecar diferentes áreas de sua musicalidade num mesmo disco. “O estalo foi a minha peça ‘No Longer Human’, depois que ela ficou pronta comecei a imaginar a possibilidade de um trabalho, um disco, que fosse uma espécie de jornada, onde exploraria os limites de todo meu corpo de produção mantendo tudo costurado por um fio, numa narrativa, a meu ver, cinematográfica”, me explica em entrevista por email. Assim é Monument for Nothing, que o músico experimental lança nesta quinta-feira pelo selo QTV, que antecipa em primeira mão a segunda faixa, “Garden”, para o Trabalho Sujo. O músico também disseca o disco faixa-a-faixa ao final desta entrevista.
Outra característica de Monument for Nothing é o número de os convidados que Cadu chamou para o disco: Juçara Marçal, Carla Boregas, Maurício Takara, Sara Não Tem Nome, Emygdio, Lucindo, Rogério Skylab e Vitor Brauer. “A única participação que já tinha em mente desde o ano passado, era a da Juçara”, ele explica, citando a cantora com quem gravou o festejado Anganga, em 2015. “Todos os outros participantes foram surgindo agora no processo final do disco quando eu já estava com toda a direção meio que tomada e não resisti a convida-los já no início do período de quarentena”, ele explica, mencionando que só não havia colaborado com Sara e Lucindo, além de Daniel Semanas, responsável pela arte do disco. “Tivemos uma troca de emails gigantesca na produção da arte do disco trocando um sem fim de referências. Sou fã do cara, foi outra realização que achei que precisaria tentar, mandei um email descompromissado e acabou rolando”, festeja.
A chegada da quarentena foi crucial para a entrada destes novos integrantes, bem como a uma nova abordagem do que o disco estava se tornando. “Ele ganhou uma certa urgência”, explica. “É um trabalho gigante pra mim, meu ano todo seria baseado nele, fui percebendo que qualquer possibilidade de trilhar caminhos normais ao lançamento de um disco, shows, etc., estava inviabilizada. E inclusive a peça, ‘Monument for Nothing’, que eu queria que tivesse participação da Ju, ainda estava sem voz. Nesse contexto passei a ficar ouvindo tudo que tinha e a pensar a respeito. Por ironia do destino durante esse período, logo no iniciozinho, surgiu um freela de trilha sonora que Ju e eu fomos convidados a fazer. Dei maior força pra gente topar e com isso ela começou a desenvolver métodos de gravar em casa. Conforme vi que estava dando bastante certo resolvi finalmente enviar a ‘Monument for Nothing’ pra ela e no processo acabamos compondo ‘Breeze ASMR’ também, que foi a última peça do disco a surgir.”
“Daí, ouvindo tudo que tinha comecei a pensar que valeria muito a pena ter outras pessoas comigo nesse momento também, botei na cabeça que produziria esse disco como se fosse meu último, até porque, dado o contexto do que consigo imaginar que venha a ser um novo normal, me parece que será muito difícil produzir algo desse tamanho novamente”, prossegue. “E foi aí que vieram as outras participações, fui procurando saber se o que fiz com Ju não daria certo com outras pessoas que já tinha em mente, entre elas pessoas com quem já havia trabalhado e significaram muito na minha história e outras com quem já tinha o desejo de trabalhar há muito tempo – e essa poderia ser a última oportunidade. E isso foi o momento final e mais trabalhoso da produção mas acho que valeu muito a pena, consigo ver minha história toda nesse disco, tudo que já fui e sou. E acho que foi muito legal narrativamente ter as participações surgindo na metade final do disco.”
Mesmo com a variedade de temas musicais explorados no disco, da canção a experimentos com timbres, texturas, estruturas, trilhas, atmosferas e mixagens, Monument for Nothing tem um farol, que determina inclusive seu batismo. “Acho que a maior foi o Makoto Aida e seu TEKITO. A faixa-título já existia mas ela ainda não dava nome ao disco até eu adquirir em janeiro desse ano, depois de anos desejando, o catálogo ‘Monument for Nothing’ do artista. O livro que adquiri pertenceu ao Miranda, foi muito legal receber o livro em casa com um bilhetinho de um dos familiares dele dizendo que esse era um dos itens preferidos dele na coleção, isso me tocou profundamente e acho que no mesmo dia o nome do disco estava decidido e tudo passou a fazer muito sentido e influenciou todas as outras escolhas pra arte”.
Cético em relação ao período que está lançando o disco, ele prefere não exercer muita futurologia, quando o pergunto sobre a relação do disco com esta fase de quarentena. “Não sei, vamos descobrir. Mas pra mim faz muito sentido, não sabemos muito do que vem pela frente”, responde. Sobre desdobramentos a partir deste lançamento, Cadu também não faz ideia. “Ele vai estar no mundo, o que será feito disso eu ainda não descobri”, divaga. “Tem sido um período difícil pra gente, né… Pra todo mundo. O mundo todo tá discutindo isso agora e é seguro dizer que não temos muitas respostas que não sejam conjecturas e no Brasil a gente tem visto diariamente que o buraco é ainda mais embaixo… Eu ainda sei te dizer exatamente como eu vejo esse momento, ainda tô muito colado a coisa, no processo de adaptação. Talvez seja um momento pra nos juntarmos, mesmo, pra que possamos discutir e quem sabe já começar os preparativos pro tal do novo normal.”
Monument for Nothing faixa-a-faixa, por Cadu Tenório
“Garden”
“A ideia inicial pra essa peça nasceu da vontade que nutri por anos de criar uma trilha sonora pra acompanhar a leitura de ‘Garden’ do Yuichi Yokoyama. No decorrer fiquei convencido de que a trilha funcionaria também em outro trabalho do Yokoyama que me é muito caro, ‘Travel’, mas me mantive fiel ao nome inicial. No processo tive a de ter um ‘beat circular’ apesar de quebrado trouxesse vagamente a lembrança das rodas no trilho enquanto as texturas e o tema flutuassem e nos levassem às paisagens com formas impossíveis, distorcidas pela velocidade, vistas pela janela do trem. Nisso imaginei também as vozes dos personagens tão peculiares do Yokoyama preenchendo esse trajeto, mesmo que a gente não os veja falando nos livros, sempre foi interessante pra mim imagina-los lendo comigo as onomatopeias que preenchem as paisagens do Yuichi.”“No Longer Human”
“Essa peça começou a tomar forma quando descobri que seria traduzida e lançada no ocidente a versão em mangá do Junji Ito pro livro Ningen Shikkaku de Osamu Dazai. É um livro que marcou muito por diversos motivos e sou apaixonado pelo trabalho do Ito, fiquei bastante curioso sobre como ele adaptaria. Na euforia e ansiedade por ter o mangá que ainda demoraria meses pra ter em mãos, comecei a esboçar umas ideias enquanto ouvia as trilhas do Carpenter que ouço com frequência e enquanto rolavam minhas audições anuais de Hymnen do Stockhausen que é uma dos trabalhos favoritos da vida por aqui. Claro, sei que é muita pretensão tentar unir esses dois mundos, hahaha, e longe de mim querer acertar ou fazer literalmente isso. Mas eram parte significativa do que perambulava no ambiente enquanto compunha e acho que faz muito sentido citar. E claro, Ero-Guro, Suehiro Maruo… E eis a peça, com diversos momentos que desembocam como afluentes de rio em cada parte com a atmosfera sombria que sofre mutação gradual, mudanças microtonais em camadas de violino que te carregam até a nostalgia dos tempos que não voltam através de um arp e pesam no peito com os acordes no piano.”“Shinobu”
“Shinobu tem o fio de continuidade a partir do piano que dá um gosto na faixa anterior mas a mudança de paisagem aqui é rápida, existe uma tentativa de flerte com o city pop e o lo-fi jazz/hip hop do Nujabes MAS colocando mais em evidência algo de fusion com free jazz radical e texturas mais agressivas que desembocassem em um ápice que transformaria a peça em ambient gostoso de ouvir com várias e várias camadas e linhas de teclado sem sustain que se transformaria em uma textura meio de “taping”. Todos os meus discos nos últimos costumam ter pelo menos uma peça com um clima noir, um arranjo de sax penetrante, então podemos dizer que essa é como uma continuação natural ‘Marlowe & Spade ポリスノーツ’ e ‘Pelagea Noir Roleplay’ do Corrupted Data. Rola um lance meio AOR no tema que abre e fecha a faixa e nos meus vocais soterrados por reverb e pitch shifter nessas partes.”“Saffron Witch” e “Hazel Priestess”
“Essas duas faixas nasceram quase juntas. Digo que são um díptico. No meu trabalho sempre tive certa obsessão por camadas e detalhes, tantos detalhes que muitas vezes ninguém senão eu notam, haha. Nessas duas eu queria tornar as coisas muito mais intimistas, utilizando apenas uma linha de sintetizar e o preenchimento e acompanhamento ser apenas delay. Acho que fui bem sucedido a única coisa é que em “Hazel” eu não resisti e acabei adicionando gravações de campo que acho que engrandeceram bastante as texturas. São peças ambient que na minha cabeça tem muito Eno presente mas também Boards Of Canada, Autechre e Aphex Twin, influências minhas desde moleque. Claro ficar citando nome grande é fácil, a intenção não foi emular ninguém mas essas referências acabam vindo na cabeça quando ouço ambas.”“R’lyeh.exe”
“Essa peça nasce da puxada de textura das duas faixas anteriores começando no espectro agudo mas aqui certa ‘megalomania’ retorna, quis acrescentar nela ruídos de brinquedos de criança e objetos eletrônicos de baixo custo criando camadas de ruídinhos que se misturam a gravações de campo de cantos de passarinhos e gritos gravados por aqui e é tudo costurado por uma linha de synth meio blade runner. Já demarca uma transição pro universo lovecraftiano, Dagon já brotou no quarto no final do labirinto, que nem a mina do exorcista.”“@tekeli_li”
“Essa peça é de fato a entrada do disco em outro terreno, ela tem um arp rápido e um beat em 400 bpm algo que me ligaria direto ao digital hardcore do ATR texturizando que desemboca em uma bateria de verdade enquanto os berros parecem chamar algo que é colocado de forma literal quando as vozes digitais clamam ‘BLAAAAAACK METAARU'”“Monument for Nothing (Feat. Juçara Marçal)”
“E entra o black metal synth, blast beat, riffs, synth, a voz da Juçara costurando melodicamente quase como outra linha de synth se misturando e bifurcando, harmonizando e o arp chega pra tomar tudo de assalto e megalomania, detalhe, impacto. A bateria é tanto textura como todos os outros elementos. E é tudo ao mesmo tempo e agora mas com uma ordem muito própria, melodias estão lá dentro. catarse e tudo acaba na paz. Faixa que dá nome ao disco. extraída diretamente de Makoto Aida como a dedicatória não deixa dúvida.”“Breeze ASMR (Feat. Juçara Marçal)”
“Quase uma coda da faixa anterior, sua antítese, uma canção de ninar, pra acalmar os ânimos, relaxar. O diálogo da bocca chiusa com os synths, voz respondendo máquina, máquina respondendo voz, harmonia. A voz humana ainda com a ausência de palavras.”“Yog-Sothoth is the gate (Feat. Carla Boregas & Maurício Takara)”
“Peça que faz a transição pra última parte do disco, pegando o clima mínimo e sutil instaurado pela faixa anterior mas levando a frequência pro espectro mais grave. Minha voz totalmente processada balbuciando lentamente antevendo uma mudança de cena com a entrada de Boregas e Takara, mais uma faixa referencial à Carpenter. ”“Nublado (ft. Sara Não Tem Nome)”
“Aproveitando a deixa das frequências graves “Nublado” é a primeira peça da parte final do disco, a voz humana clara e com palavras aparece pela primeira vez aqui apesar de rapidamente com a participação da Sara no final.”“Conchas (ft. Sara Não Tem Nome)”
“Essa é uma canção que me puxa muito pras minhas influências primordiais, quis que ela entrasse aqui como um traço de humanidade forte, a letra que pedi pra Sara encaixar na melodia expõe sentimento e dialoga com Innsmouth. A voz humana clara, no meio do caos adocicado. O arranjo intimista, soturno e direto, distorção e melodia, muito do que gosto da música dos anos 80 ainda mantendo a identidade de timbres do disco, no fim a faixa mais pop talvez seja o lado de experimentalismo mais ousado do disco. ”“Astral Clocktower (ft. Lucindo)”
“Peça que leva diretamente pra DLC de Bloodborne, Cocteau Twins, maré cheia, canto de ‘sereias’ vindo do farol ou seria das pedras. Os agudos aqui rasgam a alma, é a viagem astral através das frequências.”“Entreportas (ft. Rogério Skylab)”
“Rogério está no limbo, acordou lá, existe redenção e muitas portas. Pós-punk. Silent Hill ou Innsmouth?”“Mãos (ft. Vitor Bauer)”
“Lampejo de memória, synth rock, urgência, sintetizadores com fuzz, Vitor Brauer acordou de um sonho ruim, sangue nos travesseiros. Quarentena, culpa.”“Gatos de Ulthar na Rua dos Quatro Ventos (Feat. Emygdio)”
“No fim só restarão os gatos, são eles que vão contar nossas histórias, são eles que vão trazer os outros seres até nós. São eles que mandam. Chambers os entendeu como ninguém. “
O guitarrista Guilherme Held está preparando lentamente seu primeiro disco solo, chamado de Corpo Nós, projeto que vem acalentando há uma década. “O cara que mais me pôs pilha pra gravar esse disco foi o Rômulo Froes, que vem me falando sobre isso há uns dez anos. Quando o chamei para fazer a direção artística do disco, ele topou”, me conta o guitarrista, que está lançando o terceiro single deste seu disco de estreia, “Sorongo”, uma homenagem ao mítico percussionista autor do clássico Krishnanda, que conta com a participação de ninguém menos que o maestro baiano Letieres Leite, que não só fez o arranjo da banda como providenciou metais e percussão para este afrossamba à paulistana, que será lançado nesta sexta-feira nas plataformas digitais e que ele antecipa em primeira mão no Trabalho Sujo, num vídeo dirigido por Luan Cardoso.
“‘Sorongo’ é uma faixa instrumental que veio como um afrossamba e eu já tinha a ideia de fundir isso com elementos de música eletrônica e timbres que remetessem aos anos 80, apesar de ela soar bem setentista, porque eu uso um fuzz na parte do final que sugere aquela onda na psicodelia setentista nigeriana”, ele me explica, antecipando como convidou o maestro baiano para participar da faixa. “O Let é um amigo de longa data, a gente trabalhou pela primeira vez juntos no disco Cavaleiro Selvagem da Mariana Aydar e ficamos amicíssimos, ele é um ídolo e um cara que tenho uma consideração muito grande. E com isso a gente teve a ideia de chamar a Orquestra Rumpilezzinho, que é um projeto que ele tem em Salvador, que reúne jovens carentes com um talento musical inacreditável – as percussões e os metais são deles. A ideia desta fusão de Bahia com São Paulo, trazendo elementos do synthbass do Marcelo Cabral, da linguagem da bateria do Serginho Machado, para entender essa sacada da música africana com elementos de música eletrônica, foi o time perfeito.” A capa do single (abaixo) foi feita por Diego Max.
“Sorongo” é o terceiro single que o guitarrista já lançou do novo disco, depois de “Pólvora” (que contava com as participações de Tulipa e Gustavo Ruiz) e “Direito Humano” (com Ná Ozzetti e Juliana Perdigão) e as participações em cada single são só uma amostra do time que ele conseguiu reunir um time de artistas, músicos e intérpretes que resumia sua trajetória musical. “Desde o começo, a gente já sabia que era um disco do meu lado compositor mais que guitarrista”, ele continua. “Até porque eu já toquei tanto esse meu lado em tantos discos e shows, que faltava mostrar esse outro lado. Nisso, observando as músicas, percebi que cada música remetia a pessoas que eu já acompanhei, cantores e músicos que fazem parte da minha caminhada. Na empolgação disso tudo, a gente acabou cedendo pra ser um disco de confraternização de meus amigos da música, que tem uma ficha técnica extensa, tem cinco bateristas, cinco baixistas, dezessete cantores…”
Ele começa a enumerar: “Criolo, Maria Gadu, Lanny Gordin, Letieres Leite, Rodrigo Campos, André Lima, Simone Sou, Pedro Fontes, Cuca Ferreira, Daniel Gralha, Thalma de Freitas, Iara Rennó, Douglas Antunes, Thomas Harres, Tulipa Ruiz, Juçara Marçal, Rubel, Curumin, Mariana Aydar, Ná Ozzetti, Péricles Cavalcanti, Fernando Catatau, Ròmulo Froes, Felipe Catto, Juliana Perdigão, Beto Bruno, Marcelo Mitsu, Kika, Thiago França, Sérgio Machado, Décio 7, Felipe Roseno, Dustan Gallas, Fabio Sá, Bruno Buarque, Marcelo Cabral, Rômulo Nardes, Maurício Badé… Até eu canto!”, ri, falando sobre a faixa de abertura do disco.
O processo de produção foi um mergulho naquilo que Rômulo chamou de “o baú do Gui Held”, uma pasta no computador do guitarrista em que ele ia gravando várias ideias musicais. “São inúmeras músicas, completas, incompletas, fatias e pedaços de músicas, só harmonias, riffs, cacos sortidos, que a gente pra juntava um caco de um ano com um caco de outro. Somando tudo devem dar uns três mil arquivos de uns dez, doze anos que venho juntando, sempre guardando daquele jeito que músico compõe e guarda. A gente fez uma peneira, chegamos em 75 músicas, depois em 35 e fechamos em 17”, fechando o disco que é produzido pelo próprio guitarrista, que está começando a mexer com isso.
“É o primeiro disco que eu produzo e foi quase um ano de agendas”, ele explica. “Apesar de não ser um disco tão guitarrístico, ele tem um polimento e cuidado com timbres e escolhas de caminhos de linguagem a partir dos equipamentos que tenho, pedais antigos, guitarras de décadas e estilos diferentes, microfones… Ele tem todo um cuidado estético”.
Esta semana trago uma ótima conversa com Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, como principal atração do Clube Trabalho Sujo. É a quinta edição do meu programa semanal de entrevistas, Bom Saber, em que o cantor, compositor e músico cearense reavalia a história de sua banda, sua volta para Fortaleza e o mergulho em si mesmo que o conduziram ao seu primeiro disco solo, que deve materializar-se em breve. Fernando mudou-se novamente para São Paulo para consolidar esta nova fase, mas, como todos, foi surpreendido pela quarentena e teve de readequar seus planos para este novo estágio, mas de peito aberto. Assim foi a conversa com Catatau, cada vez mais tranquilo e consciente de seu papel como artista, personalidade pública e autor.
O Bom Saber é meu programa semanal de entrevistas, atualizado todo sábado em meu canal do YouTube (assina lá!). Já conversei com o Bruno Torturra, a Roberta Martinelli, o Ian Black e o Negro Leo (assista a todas entrevistas aqui) e quem colabora financeiramente com o meu trabalho (pergunte-me como no trabalhosujoporemail@gmail.com) assiste ao programa no dia do lançamento, no próprio sábado. Quem não paga, assiste na semana seguinte.
Quando Tika, Kika, João Leão e Igor Caracas se juntaram para homenagear o disco que Tom Jobim lançou em 1987, mal sabiam o quanto esta união iria durar. “Estamos há três anos tocando o projeto que criamos sobre o álbum Passarim e nesse projeto reduzimos os arranjos de um disco gravado com orquestrações e coro para nossa formação de quatro integrantes – quatro vozes, bateria, piano, guitarra e sintetizador”, Kika relembra o início de Passarim30. “Fizemos uma pesquisa de timbres, escolhemos as frases mais marcantes do disco, tiramos as linhas vocais com fidelidade e gostamos do resultado, da sonoridade que alcançamos”. Agora o quarteto começa a gravitar em direção a outro mestre da música brasileira, João Gilberto, ídolo dos quatro, que é revisitado através de sua versão para “O Astronauta”, de Carlos Pingarrilho e Marcos Vasconcellos, lançada em primeira mão aqui no Trabalho Sujo no dia do primeiro aniversário sem sua presença entre nós, já que João morreu no ano passado.
“João Gilberto é uma grande referência pra nós, todos temos uma ligação muito forte com a obra dele. Quem lembrou de ‘Astronauta’ foi a Tika, que estava tirando essa harmonia no violão”, Kika continua. “Pensamos que a letra tinha um subtexto de despedida, ficamos imaginando o João Gilberto como sujeito da canção – ele agora mora só no pensamento ou então no firmamento… – e então decidimos que seria um presente pra ele, que se despediu ano passado quase em silêncio, sem muitas homenagens, sem uma nota oficial sequer. Concordamos que ele foi o maior artista brasileiro de todos os tempos, quisemos fazer nossa interpretação para ficar mais perto dele, como uma maneira de dizer que temos saudade e que sabemos o valor de tudo que ele deixou pra nós. O clipe é assinado por Guilherme ‘Guime’ Destro, que recolheu imagens do recôncavo baiano, filmadas numa vila de pescadores chamada Santiago do Iguape em Cachoeira, na Bahia, imagens que remetem às origens da nossa cultura e diversidade artística, além de já ser uma homenagem ao nosso homenageado, que é também baiano.”
O resultado, produzido por Victor Rice, é o primeiro registro fonográfico do grupo, que só havia se apresentado ao vivo, e traz o imaginário musical de João numa bossa nova setentista que acena para os timbres elétricos do soul e o jazz, mas sem perder o minimalismo e as harmonias ousadas do mestre baiano. “A mágica do João Gilberto está na interação da voz dele com o violão, na escolha dos acordes e tempos”, Kika continua falando sobre a versão. “Procuramos preservar ao máximo a harmonia dele e certas jogadas de tempo que ele faz. A maior dificuldade é a mesma de revisitar qualquer música da bossa nova, recriar algo que muitos julgam intocável, por isso temos um cuidado com a escolha do repertório, em não trazer temas que já foram exaustivamente revisitados.”
O registro faz com que o grupo pense para além da homenagem que vinha fazendo. “Há um tempo estamos trabalhando essa ideia de expansão do Passarim30”, continua a cantora. “Nós vemos um potencial enorme em um grupo formado por instrumentistas que são também compositores, produtores, cantores e têm o seu trabalho solo. Praticamente desde o início do projeto nós sempre demos um jeito de incluir alguma música autoral em nossos shows. Procuramos compor em parceria também, o que pode gerar um trabalho completamente autoral no futuro, mas esse primeiro passeio do grupo fora da obra do Tom com João Gilberto é uma consequência natural dessa nossa busca.” Além de “Astronauta”, o grupo também gravou “Borzeguim”, do Tom Jobim, que será lançada em breve.
Meu convidado desta semana no programa Bom Saber é meu querido amigo, o grande Negro Leo, um dos artistas mais inquietos e instigantes da nova música brasileira. Maranhense deslocado para o Rio no início do século, mudou-se para São Paulo há três anos com sua companheira Ava Rocha e a filha Uma, estabelecendo uma carreira que começou a florescer ainda mais nesta nova cidade. Leo tem feito conexões internacionais e extramusicais, trabalhou como ator na Pretoperitamar, musical que celebrava os 70 anos de Itamar Assumpção, e finalmente prepara a chegada de seu próximo álbum, Desejo de Lacrar, que deve ser lançado em julho deste ano, após quase três anos de gestação, ao lado do baterista Sergito Machado, do baixista Fabio Sá e do tecladista Chicão. O disco seria lançado no final de março, mas a quarentena adiou ainda mais os planos e eu parto deste disco para falar sobre arte, quarentena, lives, São Paulo, política e outros assuntos que fluem nesse papo sempre franco e bem humorado com este jovem mestre.
O Bom Saber é meu programa semanal de entrevistas, atualizado todo sábado em meu canal do YouTube (assina lá!). Já conversei com o Bruno Torturra, a Roberta Martinelli e o Ian Black e quem colabora financeiramente com o meu trabalho (pergunte-me como no trabalhosujoporemail@gmail.com) assiste ao programa no dia do lançamento, no próprio sábado. Quem não paga, assiste na semana seguinte.
Tá aí o terceiro Bom Saber, programa semanal de entrevistas que estou atualizando no meu novo canal do YouTube (Assina lá!). E o convidado de agora é meu amigo Ian Black, que conheço desde antes dos blogs serem blogs e das redes sociais existirem, acompanhando a evolução da vida digital no Brasil atentamente, cada um a partir de seu ponto de vista – eu junto ao jornalismo, ele à publicidade -, mas sempre interessados nas questões mais amplas da transição da velha para a nova comunicação. O chamei para conversar a partir do texto que ele publicou há pouco (A esquerda precisa amadurecer digitalmente, agora) e aproveito o gancho para falar sobre o que é essa tal maturidade digital, assunto que começo a partir da entrevista que Felipe Neto deu ao Roda Viva no início da semana passada.
Os primeiros entrevistados do Bom Saber foram a Roberta Martinelli e o Bruno Torturra (assista às suas entrevistas nos respectivos links). E não custa lembrar que quem colabora com o meu trabalho recebe a entrevista ainda no sábado (pergunte-me como no trabalhosujoporemail@gmail.com), mas toda terça, ele é aberto para todos.
Clássico palco de experimentações carioca, a Áudio Rebel começa o festival Rebel Vive, que reúne transmissões ao vivo online de shows de quase 50 artistas em dois fins de semanas a partir de hoje, às 17h. Começando com Negro Léo, o evento ainda conta com Vovô Bebê, Rubinho Jacobina, Joao Donato. Kassin, Kiko Dinucci, Rhaissa Bittar, Humberto Effe, Momo, Samuca e a Selva, Mauricio Pereira, Ana Frango Elétrico, Ava Rocha, Marcelo Callado, Romulo Froes, Duda Brack, Benjão, Mãeana e Bem Gil, entre muitos outros. “O evento surgiu dos próprios artistas que querem ajudar a Rebel”, conta o proprietário da casa de resistência cultural, Pedro Torres. “A gente conversou de tentar passar um pouco do espirito da Rebel para as casas das pessoas, fazer um lance que mantivesse o espirito intimista e pessoal da casa.” Conversamos mais por email sobre como a Áudio Rebel está se mantendo nesta época tão estranha.
Como surgiu a ideia do Rebel Vive?
O evento das lives surgiu dos próprios artistas que querem ajudar a Rebel. O Mihay e a Katia me procuraram porque eles já tinham mais conhecimento nesse terreno, o Mihay trabalha com vídeo… A gente conversou de tentar passar um pouco do espirito da Rebel para as casas das pessoas, fazer um lance que mantivesse o espirito intimista e pessoal da casa.
Como estavam as coisas com a Áudio Rebel antes da quarentena?
As coisas nunca foram fáceis, mas vinhamos uma maré boa, o carnaval nos gerou uma receita de blocos que queriam ensaiar e gravar, e na sequencia os shows voltaram começaram a engrenar bem. Parecia que apesar de todo o contexto externo as coisas iam engrenar bem, tínhamos bons shows agendados. com um bom retorno de público.
O festival é a primeira ação que vocês fazem neste período ou fizeram mais alguma coisa?
A primeira ação foi esvaziar nossa geladeira, como tínhamos uma agenda repleta de bons shows, tinha um dinheiro engessado em produto, e contas pra pagar, sem previsão de volta. Usamos as redes sociais pra divulgar um delivery de bebidas, pelo preço de comercio local da zona sul e em um final de semana vendemos tudo, consegui pagar o salario de um funcionário no final de março com essa ação. A segunda ação foi o delivery de produtos da loja encordoamentos de instrumentos, livros, discos e LPs, que teve uma saída boa também. A terceira ação foi no inicio de abril, quando chegou o inicio de mês e nenhuma perspectiva de trabalho ainda foi um crowdfunding nesse esquema do “pendura invertida”: o cliente adianta o valor para utilizar quando a casa reabrir.
Estão bolando mais algo para essa época de confinamento?
Sim, esse primeiro já foi um sucesso, temos bastante artistas interessados em seguir com o projeto. Seria ótimo que tivesse uma vacina rápida, ou uma solução definitiva de saúde pública, mas acho que não vai ser um processo rápido.
Como vocês cogitam voltar da quarentena? Acham que os shows e os hábitos do público vão mudar?
Acho que as coisas só vão voltar ao normal definitivamente quando tiver uma vacina de amplo acesso para a população. Dependendo do número de vítimas, podemos ter uma população mais temerosa ou menos. Mas o normal acho que vai demorar muito. Já estamos perdendo espaço para as diversões virtuais a anos, esse vírus letal só deve aumentar essa tendencia.
Eis a programação do festival (mais informações aqui):
21 de maio
Negro Léo
André Prando
Renato Piau
David Alfredo
Rubinho Jacobina
Kiko Dinucci
22 de maio
Raquel Coutinho
Arthus Fochi
Federico Puppi
Pedro Mann
Luciane Dom
Udi Fagundes
23 de maio
Gabriel Muzak
jongui
Rhaissa Bittar
Ilessi
Anselmo Salles
Mari Blue e Mário Wamser
24 de maio
MOMO
Babi Sut
Mauricio Pereira
Romulo Froes
Marcelo Callado
Duda Brack
28 de maio
Humberto Effe
Lucas Hawkin
AnaBispo
Benjão
Vovô Bebê
Samuca e a Selva
29 de maio
Marco Homobono
Anna Lú
Bulo
Juliana Linhares
Dionísio
Paola Kirst
30 de maio
Pedro Moraes
Ave Máquina
Elisa Fernandes
Micah
Flávia Chagas
Simone Mazzer
31 de maio
Joao Donato
Kassin
Mãeana e Bem Gil
Ava Rocha
Mihay Vetyemy
Ana Frango Elétrico
Eis o segundo Bom Saber, programa semanal de entrevistas que estreei na semana passada, lá no meu canal do YouTube (não assina ainda? Assina lá!). E chamei minha querida comadre Roberta Martinelli para continuar o papo da primeira entrevista sobre as transformações que estão acontecendo em nossas vidas – e especificamente na cultura, mas não só – a partir deste caos que está nos atravessando em 2020. E além de falar das mudanças em sua rotina pessoal e profissional (com participação da minha sobrinha do coração Rosa), ela também fala de experiências que teve tanto em lives quanto em um curso via WhatsApp e uma peça que começa pelo telefone. Diga lá, Rô!
Não custa lembrar que quem colabora com o meu trabalho recebe a entrevista ainda no sábado (pergunte-me como no trabalhosujoporemail@gmail.com), mas toda terça, ele é aberto para todos.
Quem está acompanhando o CliMatias já sabe que eu comecei um programa de entrevistas semanal no fim de semana passado – que a princípio fica online primeiro para quem contribui com o meu trabalho (pergunte-me como no trabalhosujoporemail@gmail.com). Mas na terça-feira abro o programa pra todo mundo, portanto, olha aí a primeira edição, em que eu continuo o papo com o Bruno Torturra, desta vez puxando mais pras suas principais áreas de atuação: jornalismo e psicodelia. E é claro que isso se mistura com vários outros assuntos… Saca só:
E quem você quer que eu entreviste nos próximos programas? Diz aí…











