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Entrevista

Rockers-Control

Como esquecer das clássicas sextas-feiras Susi in Dub no início dos anos 2000, quando o selecta Yellow P e a banda Rockers Control debulhavam raízes jamaicanas com um clima pesado e mágico no mitológico Susi in Transe, uma das mais importantes casas noturnas de São Paulo na virada do milênio? O supergrupo composto por Cris Scabello na guitarra, Mau no baixo e e Bruno Buarque na batera atravessou a primeira década do século engrossando o caldo jamaicano e celebrando a cultura do reggae e do dub numa São Paulo que se equilibrava entre o indie rock, o hip hop e a música eletrônica, abrindo, com groove, uma picada que hoje é uma rodovia. Os três formaram a base da banda Amigos Imaginários que acompanhava Anelis Assumpção e aos poucos foram ficando com muitos trabalhos à medida em que Cris fundou o Bixiga 70 e Mau e Bruno passaram a acompanhar Karina Buhr. Lançaram um disco que poucos ouviram em 2008 (Jacuípe Sessions) e entraram a década passada num ritmo bem mais lento que o que tocaram a anterior.

E agora eles estão voltando à ativa. Aproveitaram a quarentena para retomar os trabalhos e desde o mês passado vêm separando a última sexta do mês, como era na programação da festa, para lançar singles que fizeram nos últimos anos, mixados pelo mestre Victor Rice, outro integrante crucial daquela cena. O primeiro foi “Pluggin Out” (gravado com o vocalista Giba Nascimento e Rice nos teclados e escaleta), lançado no mês passado, e agora eles vêm com “Ancient Woman”, gravada com o vocalista nigeriano Afrikan Simba, que lançam em primeira mão no Trabalho Sujo – com direito, inclusive, a uma versão dub!

“O Rockers nunca parou de produzir, a gente continuou trabalhando do nosso jeito, sem pressa, sem pressão e sem um deadline para entregar”, explica Cris Scabello, por email. “Queríamos fazer algo bem feito, durasse o tempo que fosse necessário, trabalhando com as pessoas que a gente gosta – Victor na mix, Magrão na arte, etc. A gente parou de fazer shows porque, nesses últimos 10 anos, a gente se dedicou muito a outros trabalhos, bandas, produções, estúdios e por conta dessa dedicação e dessa demanda nesses inúmeros outros trabalhos, o Rockers acabou ficando um pouco de lado. E depois desse tempo todo, trabalhando com tanta gente, foi um processo natural a gente sentir a necessidade de botar mais energia no nosso trabalho.”

“Mas durante esse tempo todo, a gente seguiu trabalhando em novas gravações e re-trabalhando o material que a gente já tinha”, continua Mau. “A maioria desses singles que vamos lançar até o final do ano foi trabalhada nesse período em que estivemos ‘parados’…. ‘Ancient Woman’, por exemplo, é uma faixa gravada nas Jacuípe Sessions”. “Esse disco novo é o ‘Rockers Control apresenta Cristopher Dilovah'”, prossegue Bruno, “a idéia foi recriar as músicas que o Cristopher Dilovah cantava nas festas de rua com o Dubversão. A gente já vem trabalhando nesse disco faz um tempo. A sessão de gravação da base de ‘Bom Dia’, o próximo single, foi em 2017!”. Dilovah é o pseudônimo de um dos integrantes, que soltava a voz nas festa. A volta do grupo já havia sido planejada para este semestre e a quarentena não mudou os planos. “A gente achou legal manter o cronograma, apesar dessa loucura toda, colocar música boa no mundo num momento como esse, acaba sendo um serviço a humanidade…”, conclui Cris.

Gravado entre os estúdios Minduca, do Bruno, e Traquitana, de Cris, o disco contou com a participação da vocalista Marietta A.K.A MassaRock, do tecladista da Nômade Orquestra Marcos Maurício, dos metais do Bixiga 70 (Daniel Gralha no trompete, Cuca Ferreira no sax, Doug Bone no trombone) e do tecladista do Bixiga Maurício Fleury. A princípio o trabalho sairá apenas digitalmente e depois até poderia chegar ao formato vinil.

Sobre a quarentena, o grupo responde em conjunto. “O trabalho não só diminuiu radicalmente, mas vai tomando outras formas… A nossa pretensão, a princípio, não é retomar a agenda de shows, mas como núcleo de produção – o que de fato somos – se juntar os discos que nós ou produziramos ou tocamos nos últimos anos, dá uma coleção legal. Se os shows vierem, se houver uma demanda, a gente vê o que faz. Até por que o Rockers agora somos nozes – Bruno, Cris e Mau – , então a gente teria que ver como isso iria funcionar. Mas a gente tem focado bastante nesses lançamentos, organizando e formatando melhor a ideia do nosso selo Garradna, capitaneado pelo Mau, projetar como isso será prensado em vinil, fortalecendo as redes sociais e se reapresentando para quem já nos conhecia e para quem ainda não nos conhece. De resto temos cuidado da cabeça e da casa, todos temos filhos pequenos, então as prioridades nesse momento são outras, mas temos estudado e pesquisado bastante também.”

Foto: Felipe Diniz (Divulgação)

Foto: Felipe Diniz (Divulgação)

“Tenho feito bastante música, revisitando gravações de celular, e vez ou outra encontro uns rascunhos interessantes”, me explica, por email, o guitarrista e principal compositor do grupo sergipano The Baggios, Júlio Andrade, quando pergunto se a faixa “Quareterna Serigy”, que o trio lança em primeira mão no Trabalho Sujo, já é um rumo para o sucessor de Vulcão, que o grupo lançou há dois anos. “Às vezes rolam alguns insights sobre temas mas ainda acho que é cedo pra dizer que temos um álbum desenhado, mas ‘Quareterna’ é um bom começo para uma nova jornada. Eu gosto mesmo quando fazemos um som que não remete fortemente algo que já lançamos e nesses experimentos que tenho feito aqui e compartilhado com os meninos têm me instigado justamente por isso.”

A faixa, psicodélica e esperançosa, mesmo que tensa, foi obviamente inspirada pela quarentena que estamos atravessando e começou a ser feita na casa de Júlio. “Nesses quatro meses de isolamento me dediquei muito a gravações caseiras. Como eu sonho em aprender tocar teclas pra valer, comecei me arriscando em fazer arranjos de cordas com os timbres estranhos do Mellotron para algumas demos que tenho produzido. Muitas vezes eu gero uma batida e começo a improvisar em cima do loop, e isso arranca de mim frases, riffs e melodias que se tornam canções embrionárias.”

“A letra sempre vem depois e as primeiras palavras que vieram com o desenho da melodia foram ‘sinto falta’, o que levou a falar sobre meus desejos nesses mais de 120 dias trancado em casa, pensando o quanto essa experiência vai nos transformar, o quanto vamos precisar um dos outros mais do que nunca”, continua o guitarrista. “Falei de alguns delírios e não poderia deixar de citar a desejada queda do pior presidente que já pude alcançar, afinal sonhar é de graça e esse cara é um pesadelo que vai passar, mas será lembrado nos capítulos mais sombrios da nossa história. Passei algumas semanas com ela sem saber como poderia usá-la, porque ela estava um pouco distante do som da Baggios, mas no fim conclui que como buscamos mudar de pele a cada trabalho e essa música poderia ser um bom começo pra enxergar um novo norte.”

Ele conta que a gravação o surpreendeu o grupo por ter sido feita com apenas dois microfones. “Gravei violões, mellotron, vocais e baixo em casa, enviei a guia para Gabriel gravar a bateria em sua casa com dois mics e um gravador portátil e depois Rafael recebeu tudo isso pré-mixado e incluiu órgãos e piano. Na sequência convidamos uma turma que pra mim faz parte de uma cena interessantíssima de Aracaju – Sandyalê, Luno Torres, Alex Sant’anna, Arthur Matos e Diane Veloso – e eles gravaram com que tinham a seu alcance em termos de equipamento e no final Leo Airplane que nos acompanha desde 2006 mixou e masterizou a música.”

Pergunto o que mais ele tem feito nesses dias de enclausuramento. “Tenho, além de ter tocado, gravado e editado vídeos, desenhado muito mais e tenho lido mais que os outros anos também. O desenho tem me salvado bastante das ansiedades e tenho me encantado com as novas formas de criação que ele me possibilita. Vim trazendo na manha a prática como parte da minha rotina e de repente me vejo com uma pasta recheada de desenhos de nanquim em folhas A3 e A4 e agora tô aprendendo a pintar com tinta acrílica, que é uma outra viagem! Estou realmente adorando isso, cara, tem alimentado a alma. Inclusive a capa do single é um desenho simples que fiz, tempos atrás. Falo quase diariamente com Gabriel, ele tem dado aula de bateria pela internet, jogando muito videogame e feito uns sons também. Rafa vive tocando bastante pelo que ele tem nos compartilhado. Quando soltarem esses bichos das jaulas, vão sair sedentos pra tocar em tudo que é lugar!”

Além disso, Julio prepara um outro disco, seu primeiro disco solo: “No meio disso tudo eu tô finalizando um disco que levará meu nome e onde busco usar mais arranjos de voz, violões, mas só que explorando o universo soul e funk brazuca, além do samba rock, uma onda Tim Maia, Jorge Ben, Funkadelic, só que deixando a guitarra menos feroz na composição, o que foi um desafio pra mim”, ele ri. “Por outro lado, tenho feito coisas mais nervosas para os Baggios e não consigo ficar muito tempo sem compor riffs. Tenho agradecido ao universo pelas inspirações e ânimo de me manter trabalhando em tempos tão pesados.”

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O encontro entre dois gigantes da cultura brasileira, Mano Brown e Drauzio Varella, que aconteceu nesta quarta-feira no canal do YouTube do doutor, anunciado com a hashtag #ManoDraw, foi mais uma aula sobre o racismo no Brasil e merece ser assistida na íntegra. “Acho que Brasil é corrupto para não abraçar ideologia de ninguém”, mandou Mano Brown, na lata, “Nem de extrema direita, extrema esquerda, nazista. Vai ser sempre um grupo pequeno que tem que ser combatido. Mas nunca vai pegar. Brasileiro, pelo que entendo, é misturado mesmo.” E seguiu: “A mentalidade racista está na cabeça de todos. Cada um no seu lugar de fala. Toda conjuntura é desfavorável. Todos pagam um preço. A leitura de um branco no meio de dois negões é de que ele é a vítima. Que temos que proteger o branco. O Brasil é isso aí.”

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Quando fiz a entrevista da semana passada do meu programa Bom Saber, com o escritor carioca João Paulo Cuenca, ele havia acabado de trancar sua conta no Twitter após ter publicado uma frase polêmica que lhe transformou em alvo das hordas digitais bolsonaristas. Mas o que poderia ser só mais um contratempo infeliz nessa época bizarra que vivemos, acabou por custar-lhe a coluna que mantinha no site brasileiro do canal alemão Deustche Welle. Considerei a possibilidade de retornar o papo para que ele pudesse dar sua versão da história e dar espaço para que ele falasse sobre o ocorrido e é por isso que este Bom Saber tem duas partes: na primeira ele apenas menciona o acontecimento no início e depois falamos sobre o processo de feitura de seu próximo livro, que conta com um diário multimídia de quarentena que vem sendo publicado na revista Quatro Cinco Um e sobre como o momento que atravessamos hoje mexe na criação artística.

O Bom Saber é meu programa semanal de entrevistas que chega primeiro para quem colabora com meu trabalho (pergunte-me como no trabalhosujoporemail@gmail.com), como uma das recompensas do Clube Trabalho Sujo. Além de JP, já conversei com Bruno Torturra, Roberta Martinelli, Ian Black, Negro Leo, Fernando Catatau, André Czarnobai e Alessandra Leão – todas as entrevistas podem ser assistidas aqui ou no meu canal no YouTube, assina lá.

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A entrevista que o filósofo e jurista Sílvio Almeida deu nesta segunda-feira, no Roda Viva da TV Cultura, é uma semente para começarmos a recontar a história do Brasil. Com uma tranquilidade impressionante e o didatismo sereno dos melhores professores, ele reforçou a importância, desde os anos 70, do movimento negro nas conquistas sociais na democracia brasileira, relacionou o racismo ao neoliberalismo, reforçou a importância do trio terreiro, escola de samba e favela e apontou uma série de caminhos para sairmos deste poço sem fundo em que estamos caindo desde o meio da década passada – e tudo passa por educação e luta contra o racismo. Ele fez em outra escala – menor, mas com muito mais capilaridade – o que o Emicida fez outro dia quando apareceu no Faustão.

Vamos sair desta e as luzes no fim deste túnel estão surgindo…

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O melhor de fazer estas longas entrevistas do Bom Saber é a possibilidade de me aprofundar em histórias, pensamentos e sensações que habitam as cabeças de amigos que também são mestres. O aprendizado é contínuo e esta semana ele vem em dose dupla. Depois de conversar com o André Czarnobai, pude também chamar para uma prosa a encantadora Alessandra Leão, Artista com A maiúsculo, e nossa conversa passou pela quarentena para falar do processo interrompido de seu próximo trabalho, as caminhadas à deriva do processo chamado Acesa, sua ligação com a música de terreiro e seu papel como mulher instrumentista dentro e fora deste universo, bem como seus próximos passos durante o isolamento social.

O papo com o Cardoso e as outras entrevistas que venho fazendo (já falei com o Negro Leo, o Bruno Torturra, a Roberta Martinelli, o Ian Black e o Fernando Catatau) podem ser vistas aqui.

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O melhor de fazer estas longas entrevistas do Bom Saber é a possibilidade de me aprofundar em histórias, pensamentos e sensações que habitam as cabeças de amigos que também são mestres. O aprendizado é contínuo e esta semana ele vem em dose dupla. Primeiro conversei com o André Czarnobai, essa entidade online que conheci como Cardoso (por causa do mítico fanzine por email CardosOnLine e que está em processo artesanal de lançamento de seu segundo livro, O Sensual Adulto. Conversamos sobre a produção deste livro – tanto como ideia quanto como produto – bem como uma de suas atuais obsessões: a pandemia do coronavírus e a forma como ela está mexendo com a cabeça das pessoas.

O outro papo dessa semana foi com a Alessandra Leão e tanto a conversa com ela quanto as outras entrevistas que venho fazendo (já falei com o Negro Leo, o Bruno Torturra, a Roberta Martinelli, o Ian Black e o Fernando Catatau) podem ser vistas aqui.

Foto: Livia B

Foto: Livia B

O produtor carioca Cadu Tenório embarcou numa viagem introspectiva muito antes da quarentena, quando, na metade do ano passado, decidiu dissecar diferentes áreas de sua musicalidade num mesmo disco. “O estalo foi a minha peça ‘No Longer Human’, depois que ela ficou pronta comecei a imaginar a possibilidade de um trabalho, um disco, que fosse uma espécie de jornada, onde exploraria os limites de todo meu corpo de produção mantendo tudo costurado por um fio, numa narrativa, a meu ver, cinematográfica”, me explica em entrevista por email. Assim é Monument for Nothing, que o músico experimental lança nesta quinta-feira pelo selo QTV, que antecipa em primeira mão a segunda faixa, “Garden”, para o Trabalho Sujo. O músico também disseca o disco faixa-a-faixa ao final desta entrevista.

Outra característica de Monument for Nothing é o número de os convidados que Cadu chamou para o disco: Juçara Marçal, Carla Boregas, Maurício Takara, Sara Não Tem Nome, Emygdio, Lucindo, Rogério Skylab e Vitor Brauer. “A única participação que já tinha em mente desde o ano passado, era a da Juçara”, ele explica, citando a cantora com quem gravou o festejado Anganga, em 2015. “Todos os outros participantes foram surgindo agora no processo final do disco quando eu já estava com toda a direção meio que tomada e não resisti a convida-los já no início do período de quarentena”, ele explica, mencionando que só não havia colaborado com Sara e Lucindo, além de Daniel Semanas, responsável pela arte do disco. “Tivemos uma troca de emails gigantesca na produção da arte do disco trocando um sem fim de referências. Sou fã do cara, foi outra realização que achei que precisaria tentar, mandei um email descompromissado e acabou rolando”, festeja.

monumentfornothing

A chegada da quarentena foi crucial para a entrada destes novos integrantes, bem como a uma nova abordagem do que o disco estava se tornando. “Ele ganhou uma certa urgência”, explica. “É um trabalho gigante pra mim, meu ano todo seria baseado nele, fui percebendo que qualquer possibilidade de trilhar caminhos normais ao lançamento de um disco, shows, etc., estava inviabilizada. E inclusive a peça, ‘Monument for Nothing’, que eu queria que tivesse participação da Ju, ainda estava sem voz. Nesse contexto passei a ficar ouvindo tudo que tinha e a pensar a respeito. Por ironia do destino durante esse período, logo no iniciozinho, surgiu um freela de trilha sonora que Ju e eu fomos convidados a fazer. Dei maior força pra gente topar e com isso ela começou a desenvolver métodos de gravar em casa. Conforme vi que estava dando bastante certo resolvi finalmente enviar a ‘Monument for Nothing’ pra ela e no processo acabamos compondo ‘Breeze ASMR’ também, que foi a última peça do disco a surgir.”

“Daí, ouvindo tudo que tinha comecei a pensar que valeria muito a pena ter outras pessoas comigo nesse momento também, botei na cabeça que produziria esse disco como se fosse meu último, até porque, dado o contexto do que consigo imaginar que venha a ser um novo normal, me parece que será muito difícil produzir algo desse tamanho novamente”, prossegue. “E foi aí que vieram as outras participações, fui procurando saber se o que fiz com Ju não daria certo com outras pessoas que já tinha em mente, entre elas pessoas com quem já havia trabalhado e significaram muito na minha história e outras com quem já tinha o desejo de trabalhar há muito tempo – e essa poderia ser a última oportunidade. E isso foi o momento final e mais trabalhoso da produção mas acho que valeu muito a pena, consigo ver minha história toda nesse disco, tudo que já fui e sou. E acho que foi muito legal narrativamente ter as participações surgindo na metade final do disco.”

Mesmo com a variedade de temas musicais explorados no disco, da canção a experimentos com timbres, texturas, estruturas, trilhas, atmosferas e mixagens, Monument for Nothing tem um farol, que determina inclusive seu batismo. “Acho que a maior foi o Makoto Aida e seu TEKITO. A faixa-título já existia mas ela ainda não dava nome ao disco até eu adquirir em janeiro desse ano, depois de anos desejando, o catálogo ‘Monument for Nothing’ do artista. O livro que adquiri pertenceu ao Miranda, foi muito legal receber o livro em casa com um bilhetinho de um dos familiares dele dizendo que esse era um dos itens preferidos dele na coleção, isso me tocou profundamente e acho que no mesmo dia o nome do disco estava decidido e tudo passou a fazer muito sentido e influenciou todas as outras escolhas pra arte”.

Cético em relação ao período que está lançando o disco, ele prefere não exercer muita futurologia, quando o pergunto sobre a relação do disco com esta fase de quarentena. “Não sei, vamos descobrir. Mas pra mim faz muito sentido, não sabemos muito do que vem pela frente”, responde. Sobre desdobramentos a partir deste lançamento, Cadu também não faz ideia. “Ele vai estar no mundo, o que será feito disso eu ainda não descobri”, divaga. “Tem sido um período difícil pra gente, né… Pra todo mundo. O mundo todo tá discutindo isso agora e é seguro dizer que não temos muitas respostas que não sejam conjecturas e no Brasil a gente tem visto diariamente que o buraco é ainda mais embaixo… Eu ainda sei te dizer exatamente como eu vejo esse momento, ainda tô muito colado a coisa, no processo de adaptação. Talvez seja um momento pra nos juntarmos, mesmo, pra que possamos discutir e quem sabe já começar os preparativos pro tal do novo normal.”

Monument for Nothing faixa-a-faixa, por Cadu Tenório

“Garden”
“A ideia inicial pra essa peça nasceu da vontade que nutri por anos de criar uma trilha sonora pra acompanhar a leitura de ‘Garden’ do Yuichi Yokoyama. No decorrer fiquei convencido de que a trilha funcionaria também em outro trabalho do Yokoyama que me é muito caro, ‘Travel’, mas me mantive fiel ao nome inicial. No processo tive a de ter um ‘beat circular’ apesar de quebrado trouxesse vagamente a lembrança das rodas no trilho enquanto as texturas e o tema flutuassem e nos levassem às paisagens com formas impossíveis, distorcidas pela velocidade, vistas pela janela do trem. Nisso imaginei também as vozes dos personagens tão peculiares do Yokoyama preenchendo esse trajeto, mesmo que a gente não os veja falando nos livros, sempre foi interessante pra mim imagina-los lendo comigo as onomatopeias que preenchem as paisagens do Yuichi.”

“No Longer Human”
“Essa peça começou a tomar forma quando descobri que seria traduzida e lançada no ocidente a versão em mangá do Junji Ito pro livro Ningen Shikkaku de Osamu Dazai. É um livro que marcou muito por diversos motivos e sou apaixonado pelo trabalho do Ito, fiquei bastante curioso sobre como ele adaptaria. Na euforia e ansiedade por ter o mangá que ainda demoraria meses pra ter em mãos, comecei a esboçar umas ideias enquanto ouvia as trilhas do Carpenter que ouço com frequência e enquanto rolavam minhas audições anuais de Hymnen do Stockhausen que é uma dos trabalhos favoritos da vida por aqui. Claro, sei que é muita pretensão tentar unir esses dois mundos, hahaha, e longe de mim querer acertar ou fazer literalmente isso. Mas eram parte significativa do que perambulava no ambiente enquanto compunha e acho que faz muito sentido citar. E claro, Ero-Guro, Suehiro Maruo… E eis a peça, com diversos momentos que desembocam como afluentes de rio em cada parte com a atmosfera sombria que sofre mutação gradual, mudanças microtonais em camadas de violino que te carregam até a nostalgia dos tempos que não voltam através de um arp e pesam no peito com os acordes no piano.”

“Shinobu”
“Shinobu tem o fio de continuidade a partir do piano que dá um gosto na faixa anterior mas a mudança de paisagem aqui é rápida, existe uma tentativa de flerte com o city pop e o lo-fi jazz/hip hop do Nujabes MAS colocando mais em evidência algo de fusion com free jazz radical e texturas mais agressivas que desembocassem em um ápice que transformaria a peça em ambient gostoso de ouvir com várias e várias camadas e linhas de teclado sem sustain que se transformaria em uma textura meio de “taping”. Todos os meus discos nos últimos costumam ter pelo menos uma peça com um clima noir, um arranjo de sax penetrante, então podemos dizer que essa é como uma continuação natural ‘Marlowe & Spade ポリスノーツ’ e ‘Pelagea Noir Roleplay’ do Corrupted Data. Rola um lance meio AOR no tema que abre e fecha a faixa e nos meus vocais soterrados por reverb e pitch shifter nessas partes.”

“Saffron Witch” e “Hazel Priestess”
“Essas duas faixas nasceram quase juntas. Digo que são um díptico. No meu trabalho sempre tive certa obsessão por camadas e detalhes, tantos detalhes que muitas vezes ninguém senão eu notam, haha. Nessas duas eu queria tornar as coisas muito mais intimistas, utilizando apenas uma linha de sintetizar e o preenchimento e acompanhamento ser apenas delay. Acho que fui bem sucedido a única coisa é que em “Hazel” eu não resisti e acabei adicionando gravações de campo que acho que engrandeceram bastante as texturas. São peças ambient que na minha cabeça tem muito Eno presente mas também Boards Of Canada, Autechre e Aphex Twin, influências minhas desde moleque. Claro ficar citando nome grande é fácil, a intenção não foi emular ninguém mas essas referências acabam vindo na cabeça quando ouço ambas.”

“R’lyeh.exe”
“Essa peça nasce da puxada de textura das duas faixas anteriores começando no espectro agudo mas aqui certa ‘megalomania’ retorna, quis acrescentar nela ruídos de brinquedos de criança e objetos eletrônicos de baixo custo criando camadas de ruídinhos que se misturam a gravações de campo de cantos de passarinhos e gritos gravados por aqui e é tudo costurado por uma linha de synth meio blade runner. Já demarca uma transição pro universo lovecraftiano, Dagon já brotou no quarto no final do labirinto, que nem a mina do exorcista.”

“@tekeli_li”
“Essa peça é de fato a entrada do disco em outro terreno, ela tem um arp rápido e um beat em 400 bpm algo que me ligaria direto ao digital hardcore do ATR texturizando que desemboca em uma bateria de verdade enquanto os berros parecem chamar algo que é colocado de forma literal quando as vozes digitais clamam ‘BLAAAAAACK METAARU'”

“Monument for Nothing (Feat. Juçara Marçal)”
“E entra o black metal synth, blast beat, riffs, synth, a voz da Juçara costurando melodicamente quase como outra linha de synth se misturando e bifurcando, harmonizando e o arp chega pra tomar tudo de assalto e megalomania, detalhe, impacto. A bateria é tanto textura como todos os outros elementos. E é tudo ao mesmo tempo e agora mas com uma ordem muito própria, melodias estão lá dentro. catarse e tudo acaba na paz. Faixa que dá nome ao disco. extraída diretamente de Makoto Aida como a dedicatória não deixa dúvida.”

“Breeze ASMR (Feat. Juçara Marçal)”
“Quase uma coda da faixa anterior, sua antítese, uma canção de ninar, pra acalmar os ânimos, relaxar. O diálogo da bocca chiusa com os synths, voz respondendo máquina, máquina respondendo voz, harmonia. A voz humana ainda com a ausência de palavras.”

“Yog-Sothoth is the gate (Feat. Carla Boregas & Maurício Takara)”
“Peça que faz a transição pra última parte do disco, pegando o clima mínimo e sutil instaurado pela faixa anterior mas levando a frequência pro espectro mais grave. Minha voz totalmente processada balbuciando lentamente antevendo uma mudança de cena com a entrada de Boregas e Takara, mais uma faixa referencial à Carpenter. ”

“Nublado (ft. Sara Não Tem Nome)”
“Aproveitando a deixa das frequências graves “Nublado” é a primeira peça da parte final do disco, a voz humana clara e com palavras aparece pela primeira vez aqui apesar de rapidamente com a participação da Sara no final.”

“Conchas (ft. Sara Não Tem Nome)”
“Essa é uma canção que me puxa muito pras minhas influências primordiais, quis que ela entrasse aqui como um traço de humanidade forte, a letra que pedi pra Sara encaixar na melodia expõe sentimento e dialoga com Innsmouth. A voz humana clara, no meio do caos adocicado. O arranjo intimista, soturno e direto, distorção e melodia, muito do que gosto da música dos anos 80 ainda mantendo a identidade de timbres do disco, no fim a faixa mais pop talvez seja o lado de experimentalismo mais ousado do disco. ”

“Astral Clocktower (ft. Lucindo)”
“Peça que leva diretamente pra DLC de Bloodborne, Cocteau Twins, maré cheia, canto de ‘sereias’ vindo do farol ou seria das pedras. Os agudos aqui rasgam a alma, é a viagem astral através das frequências.”

“Entreportas (ft. Rogério Skylab)”
“Rogério está no limbo, acordou lá, existe redenção e muitas portas. Pós-punk. Silent Hill ou Innsmouth?”

“Mãos (ft. Vitor Bauer)”
“Lampejo de memória, synth rock, urgência, sintetizadores com fuzz, Vitor Brauer acordou de um sonho ruim, sangue nos travesseiros. Quarentena, culpa.”

“Gatos de Ulthar na Rua dos Quatro Ventos (Feat. Emygdio)”
“No fim só restarão os gatos, são eles que vão contar nossas histórias, são eles que vão trazer os outros seres até nós. São eles que mandam. Chambers os entendeu como ninguém. “

guilhermeheld-letieres

O guitarrista Guilherme Held está preparando lentamente seu primeiro disco solo, chamado de Corpo Nós, projeto que vem acalentando há uma década. “O cara que mais me pôs pilha pra gravar esse disco foi o Rômulo Froes, que vem me falando sobre isso há uns dez anos. Quando o chamei para fazer a direção artística do disco, ele topou”, me conta o guitarrista, que está lançando o terceiro single deste seu disco de estreia, “Sorongo”, uma homenagem ao mítico percussionista autor do clássico Krishnanda, que conta com a participação de ninguém menos que o maestro baiano Letieres Leite, que não só fez o arranjo da banda como providenciou metais e percussão para este afrossamba à paulistana, que será lançado nesta sexta-feira nas plataformas digitais e que ele antecipa em primeira mão no Trabalho Sujo, num vídeo dirigido por Luan Cardoso.

“‘Sorongo’ é uma faixa instrumental que veio como um afrossamba e eu já tinha a ideia de fundir isso com elementos de música eletrônica e timbres que remetessem aos anos 80, apesar de ela soar bem setentista, porque eu uso um fuzz na parte do final que sugere aquela onda na psicodelia setentista nigeriana”, ele me explica, antecipando como convidou o maestro baiano para participar da faixa. “O Let é um amigo de longa data, a gente trabalhou pela primeira vez juntos no disco Cavaleiro Selvagem da Mariana Aydar e ficamos amicíssimos, ele é um ídolo e um cara que tenho uma consideração muito grande. E com isso a gente teve a ideia de chamar a Orquestra Rumpilezzinho, que é um projeto que ele tem em Salvador, que reúne jovens carentes com um talento musical inacreditável – as percussões e os metais são deles. A ideia desta fusão de Bahia com São Paulo, trazendo elementos do synthbass do Marcelo Cabral, da linguagem da bateria do Serginho Machado, para entender essa sacada da música africana com elementos de música eletrônica, foi o time perfeito.” A capa do single (abaixo) foi feita por Diego Max.

sorongo

“Sorongo” é o terceiro single que o guitarrista já lançou do novo disco, depois de “Pólvora” (que contava com as participações de Tulipa e Gustavo Ruiz) e “Direito Humano” (com Ná Ozzetti e Juliana Perdigão) e as participações em cada single são só uma amostra do time que ele conseguiu reunir um time de artistas, músicos e intérpretes que resumia sua trajetória musical. “Desde o começo, a gente já sabia que era um disco do meu lado compositor mais que guitarrista”, ele continua. “Até porque eu já toquei tanto esse meu lado em tantos discos e shows, que faltava mostrar esse outro lado. Nisso, observando as músicas, percebi que cada música remetia a pessoas que eu já acompanhei, cantores e músicos que fazem parte da minha caminhada. Na empolgação disso tudo, a gente acabou cedendo pra ser um disco de confraternização de meus amigos da música, que tem uma ficha técnica extensa, tem cinco bateristas, cinco baixistas, dezessete cantores…”

Ele começa a enumerar: “Criolo, Maria Gadu, Lanny Gordin, Letieres Leite, Rodrigo Campos, André Lima, Simone Sou, Pedro Fontes, Cuca Ferreira, Daniel Gralha, Thalma de Freitas, Iara Rennó, Douglas Antunes, Thomas Harres, Tulipa Ruiz, Juçara Marçal, Rubel, Curumin, Mariana Aydar, Ná Ozzetti, Péricles Cavalcanti, Fernando Catatau, Ròmulo Froes, Felipe Catto, Juliana Perdigão, Beto Bruno, Marcelo Mitsu, Kika, Thiago França, Sérgio Machado, Décio 7, Felipe Roseno, Dustan Gallas, Fabio Sá, Bruno Buarque, Marcelo Cabral, Rômulo Nardes, Maurício Badé… Até eu canto!”, ri, falando sobre a faixa de abertura do disco.

O processo de produção foi um mergulho naquilo que Rômulo chamou de “o baú do Gui Held”, uma pasta no computador do guitarrista em que ele ia gravando várias ideias musicais. “São inúmeras músicas, completas, incompletas, fatias e pedaços de músicas, só harmonias, riffs, cacos sortidos, que a gente pra juntava um caco de um ano com um caco de outro. Somando tudo devem dar uns três mil arquivos de uns dez, doze anos que venho juntando, sempre guardando daquele jeito que músico compõe e guarda. A gente fez uma peneira, chegamos em 75 músicas, depois em 35 e fechamos em 17”, fechando o disco que é produzido pelo próprio guitarrista, que está começando a mexer com isso.

“É o primeiro disco que eu produzo e foi quase um ano de agendas”, ele explica. “Apesar de não ser um disco tão guitarrístico, ele tem um polimento e cuidado com timbres e escolhas de caminhos de linguagem a partir dos equipamentos que tenho, pedais antigos, guitarras de décadas e estilos diferentes, microfones… Ele tem todo um cuidado estético”.

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Esta semana trago uma ótima conversa com Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, como principal atração do Clube Trabalho Sujo. É a quinta edição do meu programa semanal de entrevistas, Bom Saber, em que o cantor, compositor e músico cearense reavalia a história de sua banda, sua volta para Fortaleza e o mergulho em si mesmo que o conduziram ao seu primeiro disco solo, que deve materializar-se em breve. Fernando mudou-se novamente para São Paulo para consolidar esta nova fase, mas, como todos, foi surpreendido pela quarentena e teve de readequar seus planos para este novo estágio, mas de peito aberto. Assim foi a conversa com Catatau, cada vez mais tranquilo e consciente de seu papel como artista, personalidade pública e autor.

O Bom Saber é meu programa semanal de entrevistas, atualizado todo sábado em meu canal do YouTube (assina lá!). Já conversei com o Bruno Torturra, a Roberta Martinelli, o Ian Black e o Negro Leo (assista a todas entrevistas aqui) e quem colabora financeiramente com o meu trabalho (pergunte-me como no trabalhosujoporemail@gmail.com) assiste ao programa no dia do lançamento, no próprio sábado. Quem não paga, assiste na semana seguinte.