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20 mil dias na Terra com Nick Cave

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O filme 20,000 Days on Earth mistura realidade e ficção para entrar na cabeça e no coração de um dos maiores nomes da música pop em atividade – Nick Cave. Os diretores Iain Forsyth e Jane Pollard acompanharam o mito em constante formação entre bate-papos com velhos conhecidos, uma sessão de terapia de mentira e em seus momentos de criação para tirar um filme que só vem recebendo elogios, veja o trailer abaixo:

O filme passará no Brasil no Indie Festival (já deram uma sacada no que vem por aí? Muita coisa boa), fique ligado. E aproveitando o lançamento do filme, Nick descolou duas músicas novas – a inédita “Give Us A Kiss” e uma versão ao vivo gravada na Austrália para “Jubilee Street”, de seu disco mais recente.

Um filme sobre os Ramones dirigido por Martin Scorsese

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2016 marca os quarenta anos do lançamento do primeiro disco dos Ramones e os responsáveis pelo espólio do grupo já estão esquentando os motores para a efeméride. Além da coletânea de músicas selecionadas por Morrissey, outros projetos estão em andamento, entre eles um livro com memorabilia e registros de desde antes da formação do grupo e um documentário dirigido por Martin Scorsese. “Conseguimos garantir toneladas de filmes, grande parte delas nunca foi vista antes”, explica Jeff Jampol, um dos administradores do legado do grupo, à Billboard. “São cenas filmadas em turnê nos anos 70 e nos anos 80, que conseguimos com o próprio sujeito que filmou tudo, chamado George Seminara.” Scorsese aos poucos está se tornando o biógrafo documentarista oficial da história do rock, depois de dirigir filmes sobre Bob Dylan, Rolling Stones e George Harrison. Esse papel não podia estar em melhores mãos.

Heaven Adores You – um documentário sobre Elliot Smith

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Elliot Smith, que morreu há onze anos, é o assunto do documentário Heaven Adores You, financiado via crowdfunding pelo Kickstarter e dirigido pelo norte-americano Nickolas Rossi, que passou pelas três cidades em que Smith viveu (Portland, Los Angeles e Nova York) coletando depoimentos e recriando sua trajetória. O filme aos poucos deixa a fase de festivais e chega ao grande público. Abaixo segue o trecho inicial do filme, quando o compositor, um dos mais influentes para toda uma geração indie norte-americana, fala em uma entrevista a uma emissora holandesa sobre tocar na cerimônia do Oscar de 1998, quando sua “Miss Misery” foi indicada ao prêmio de melhor canção do ano devido ao filme Gênio Indomável: “Eu sou a pessoa errada para ser verdadeiramente grande e famoso”, diz, sem jeito, “foi divertido por um dia, mas eu não sei se seria divertido viver naquele mundo.”

Brasil 2014: “There will be Copa”

Junho de 2013 e a Copa de 2014

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Vi Junho há duas semanas. Seu diretor, João Wainer, tem um senhor mérito no currículo (que não é pequeno) que é o fato de ter tirado o jornalismo em vídeo feito na internet no Brasil da idade da TV universitária. Antes de ter assumido a coordenação da TV Folha, grande parte da produção audiovisual jornalística feita na internet brasileira era um filhote feio do telejornalismo. Mesas redondas sem graça feitas em um estúdio mínimo, que também servia de cenário para bancadas em que jornalistas eram transformados em apresentadores de TV para comentar as notícias. Em contraponto a isso redatores de texto que mutavam-se tímidos em videorrepórteres conversando com a câmera ou narrando cenas que filmavam com câmeras cada vez mais portáteis (“estamos aqui diretamente…” etc). O material era mais texto que imagem, importava mais o que era dito do que o que era mostrado.

O trabalho de Wainer optou por zerar esses conceitos e partir para o cinema documental, área que já vinha trabalhando em anos anteriores. Vindo da fotografia, ele, como bom fotógrafo, prefere ausentar-se das cenas em vez de protagonizá-las, deixando esse papel para o personagem-alvo. Com esse novo tratamento, transformou reportagens insossas em vídeos vivos, que dificilmente iriam para um programa de TV. Seus minidocumentários transformam a notícia ou o entrevistado em fio condutor de si próprio, sem precisar de locução ou mediação – esta é conseguida na mesa de corte, editando trechos e superpondo-os para efeito de narrativa, a partir da direção de registros em movimento, ágeis, sem tripé, quase sempre acompanhando a movimentação do próprio cinegrafista.

Não é um mérito autoral dele – a câmera na mão e a ausência de contexto são ferramentas da própria narrativa do cinema documental e, claro, parte do nosso dia-a-dia de celulares com câmera e redes sociais. Wainer canaliza tendências que são fortes no cinema e nos meios digitais para o jornalismo. Seu trunfo na TV Folha é o mesmo da Mídia Ninja do Bruno Torturra – não é o ineditismo do formato, mas a forma como ele conseguiu fisgar um grande público no Brasil. Fiquei pensando nisso enquanto assistia ao Junho, o primeiro longa metragem que João dirigiu na TV Folha (“se esse der certo vai ficar mais fácil viabilizarmos outros”, ele me disse em entrevista por email), como a própria Mídia Ninja poderia fazer seu longa metragem e dar sua versão dos fatos sobre o que aconteceu naquele mês do ano passado.

“A ideia surgiu ainda durante o mês de junho, quando percebemos que havia algo grande acontecendo ali”, continua João. “Desde o começo da TV Folha eu tinha vontade de fazer um longa, mas ainda não tinha achado o assunto. Quando as manifestações começaram a pegar fogo decidimos que esse era o tema e passamos a trabalhar já pensando no filme.” E Junho é fruto direto daqueles primeiros vídeos que o canal começou a exibir ainda na época. Como filme, no entanto, ele perde um pouco do tom tenso que aqueles vídeos – e muitos outros, de muitas outras pessoas – tiveram naqueles dias. Quem viveu junho de 2013 no Brasil lembra direitinho de quando viu os primeiros depoimentos da fotógrafa da Folha Giuliana Vallone sobre como foi tomar um tiro na cara de um policial no fatídico dia 13 daquele mês.

Aí é jornalismo bruto, inclusive ao ser movido pela emoção – e instigá-la no leitor/espectador/telespectador/”~internauta~”. A série de vídeos que a TV Folha fez dos protestos do ano passado é exemplar ao nos lembrar o pingo de entretenimento contido na causa que é o jornalismo – não basta simplesmente contar, mostrar e denunciar, é preciso manter a atenção de quem acompanha a história.

Já Junho, o filme, parece movido por outras emoções. Seu tom é didático e certamente documental, chamando diferentes narradores (parte do quadro de colunistas do jornal, parte dos movimentos que estavam nas ruas) para tentar entender o que se aconteceu naquele mês. E embora capture o clima de paranóia, caos e euforia daqueles dias, ele tende a pesar para o pessimismo #ImaginaNaCopa em sua parte final. Ao ser lançado no mês em que a Copa do Mundo acontece no Brasil, ele tenta pautar a discussão em um tom mais grave e sombrio do que o resto do filme, que é caótico e intenso.

“A gente sempre soube que seria um tiro no pé tentar contar tudo sobre algo que estava e ainda esta em andamento”, continua o diretor. “Optamos por fechar a narrativa no mês de junho para contar como tudo começou. O filme termina da maneira que o mês terminou, com as glórias e incertezas relacionadas ao que estava acontecendo. O clima de euforia misturado com a desilusão do esvaziamento dos protestos é o que imperava no dia 30 de junho quando o Brasil atropelou a Espanha na Copa das Confederações. Tentamos trazer essa sensação para o trecho final do filme.”

Mas uma coisa é a Copa das Confederações outra coisa é a Copa do Mundo. A atmosfera pesada que parecia acinzentar 2014 aos poucos vem se dissipando com a proximidade da Copa. Cada vez mais a presença de estrangeiros e de seleções internacionais no Brasil vem nos lembrando que somos um país engraçado, curioso, bizarro, inusitado – e que gostamos disso. E mesmo que você odeie a Fifa e seu evento com todas as forças (o que não é nem um pouco incomum, basta ver o que é a Fifa), a Copa do Mundo instiga nossos ímpetos coletivos de festa, de celebração, de confraternização. Como brasileiros, gostamos de estar junto, de rir com os amigos, de conversar em voz alta, de beber, dançar e cantar. E a Copa do Mundo – como o carnaval, os feriadões e a praia – é uma sensação presente em nossas vidas. Mas, por uma série de motivos (e grande parte com razão), a Copa virou justo o contrário disso.

A polarização entre comunas e reaças (“ou você é um ou outro”, nos lembram diariamente) que vem acontecendo desde antes de junho do ano passado, instigada principalmente entre a partir da popularização da internet (e da ascensão do Facebook) no Brasil vem há muito fazendo que nós mesmos voltássemos a pensar o que é ser brasileiro. Há tempos tratamos o oba-oba “samba-carnaval-café-gostosa” com pesada ironia, mas recentemente essa Carmen Miranda sorridente transformou-se na melhor fantasia de um feitor de escravos com sede de sangue. O processo de autocrítica brasileiro – ainda em andamento – entrou em sua fase mais densa e pessimista, tendo que confrontar-se com anos e anos de corrupção e violência, traduzido de forma cada vez mais avergonhada sobre o “jeitinho brasileiro” que antes tanto nos orgulhava.

Junho de 2013 confrontou cidadão e consumidor. De que adianta carro, TV de tela plana e viagem pro exterior sendo que não temos transporte público decente, educação básica ou saúde que funcione? O brasileiro médio viu que há coisas que seu dinheiro direto não pode comprar – mas que vem pagando caro por isso há anos sem nenhum retorno. Essas reclamações se materializaram na Copa do Mundo futura, saudada como o maior elefante branco da história do Brasil. Em poucos meses, aquilo que poderia ser o maior carnaval de todos os tempos virou motivo de ódio e indignação. E a polarização voltou a pesar entre o #VaiTerCopa e o #NãoVaiTerCopa.

O filme de Wainer peca por optar pelo #NãoVaiTerCopa em sua parte final, em vez de manter-se na intensidade sem rumo de sua primeira hora – era assim que nos sentimos naquele mês, perdidos. O pessimismo sobre o evento da Fifa em território nacional parecia esperar por outro levante popular contra tudo e contra todos, na mesma proporção que no mês passado. Nesse sentido, Junho é um filme que fala tanto sobre o mês que pretende discutir quanto o mês de seu lançamento: há uma expectativa forte de que a Copa do Mundo possa aumentar ainda mais um clima de mal estar coletivo de 2014, que ainda vem temperado pelas eleições presidenciais e pelos comentaristas da internet.

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Mas não é o que estamos vendo, pelo menos nesses minutos antes da Copa, pouco antes da expressão “imagina na Copa” expirar de vez. A expectativa está mudando e o pesar está ficando mais leve. Os brasileiros estão redescobrindo a felicidade de ser brasileiro, pelo menos durante os jogos, e aos poucos começam a se empolgar com o que virá por aí. E não estou falando em hexacampeonato, mas em nosso futuro como nação.

Afinal, como pergunto pra todo taxista que me puxa papo com o velho “e a Copa, hein?”, imagina se não tivesse Copa. Imagina se a Copa do Mundo fosse em outro país? Estaríamos discutindo nossa falta de educação, falando em repressão policial, em gastos exorbitantes, nos referindo ao Brasil como nação? Estaríamos sim pintando as calçadas de verde-e-amarelo, pendurando bandeirinhas nas ruas e nos retrovisores dos carros, torcendo pra seleção não fazer feio e perguntando como isso influenciaria nas eleições. Mas talvez só isso.

A realização da Copa no Brasil – e uma possível reprise de uma final de Copa do Mundo no Maracanã, desta vez com final em aberto – vem nos ajudar a sair de nossa adolescência pátria. Claro que muita coisa pode acontecer – boa ou ruim – e isso faz parte deste processo. E independentemente de termos outro maracanazo ou não, isso inevitavelmente nos levará para uma nova fase, como a sombra da derrota na final de 1950 pairou sobre toda uma fase anterior. Na nova etapa voltaremos a nos confrontar com nossos fantasmas, nossos defeitos, nossos poréns como todo adulto, mas espero que não esqueçamos nossa graça infantil, nossa alegria de país jovem. A Copa vem nos lembrar disso – que se você fechar a cara pra tudo o mundo perde bastante a graça.

Vai ter Copa.

Um Dia na Vida, de Eduardo Coutinho

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O penúltimo filme do mestre documentarista recém-falecido Eduardo Coutinho chama-se Um Dia na Vida e não pode ser exibido comercialmente, devido a questão de direitos autorais. O motivo é óbvio: o filme é uma edição de uma hora e meia de dezenove horas de material registrado no Rio de Janeiro entre a manhã do dia 1° e a madrugada do dia 2 de outubro de 2009 em diferentes canais da TV aberta. O resultado é uma colcha de retalhos bizarra e contraditória, o tecido esquizofrênico que mistura família, violência, consumo, obsessão por forma física e religião que constitui o espelho cruel que nossa televisão serve à brasilidade.

Propagandas de brinquedos, cervejas, dietas e remédios, Marca Goldsmith, telenovelas brasileiras e mexicanas, Wagner Montes, câmeras escondidas ou postas em helicópteros, Chaves e o Jornal Nacional, crimes reencenados, Sandra Annenberg, Ana Maria Braga tocando Guitar Hero, uma entrevista com Dr. Rey e outra com Lula, Sônia Abrão, televangélicos de todos os tons, Sílvio Santos dormindo com uma cachorra, panicats, infomerciais e Amaury Júnior – tudo tirado de contexto e dando ao Brasil uma aura de mosaico de bestas mitológicas. Tudo ainda ganha contornos ainda mais surreais quando nos deparamos com reportagens sobre a candidatura do Rio de Janeiro para a Olimpíada de 2016 ou o Massacration tocando com o Falcão fantasiado de faraó em um premiação da MTV.

Com a morte do cineasta no último domingo, o filme foi parar no YouTube – e funciona como uma apresentação à queima-roupa de um Brasil pouco vendido lá fora. É tão hilário quanto desagradável e constrangedor – o que dá uma boa medida do longo caminho que temos pela frente como nação. Assista antes que tirem do ar:

Theory of Obscurity: Um filme sobre os Residents

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Um dos segredos ainda bem guardados da música gravada no século 20, o quarteto Residents está prestes a ser apresentado de maneira didática para uma platéia novíssima disposta a absorver toda a obra ímpar desse coletivo de arte experimental disfarçado de banda de pop bizarro. O filme Theory of Obscurity já foi pago via crowdfunding (mas ainda recebe doações para quem quiser ganhar versões exclusivas do filme) e além de trazer para o grande pública uma história tão difícil de ser contada ainda funcionará como ponto de partida para recuperar a obra do grupo para o século 21, graças às restaurações de vídeos de época que os produtores do documentário encontraram pelo caminho da pesquisa.

Grant Morrison falando com deuses

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Ame-o ou deixe-o, Grant Morrison não aceita meios termos e o documentário Talking with Gods talvez não seja a melhor introdução à sua obra devido ao excesso de referências, citações e opiniões. Mas, pensando bem, talvez seja justamente por isso – é pegar ou largar. Ei-lo na íntegra com legendas em espanhol – o que já ajuda bastante para entender o próprio sotaque escocês do autor:

Assista antes que o YouTube tire do ar.

The Clash – Audio Ammunition

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“A única banda que importa” foi revisitada nesse documentário Audio Ammunition, produzido pelo Google (!), que pôs Mick Jones, Topper Headon e Paul Simonon para conversar sobre os cinco discos do Clash, além de usar cenas antigas do falecido Joe Strummer, também comentando os mesmos discos. Coisa fina, checa aí embaixo: