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Na Impressão Digital dessa semana, agora no YouPix, falei sobre uma briga que está acontecendo bem debaixo de nossos narizes e pode mudar completamente a forma como interagimos com a internet.

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A guerra do vídeo
A disputa de audiência entre Google e Facebook é só o prenúncio de uma mudança ainda maior – a passagem do texto para o vídeo

Há uma guerra acontecendo nos bastidores da web. Não estou falando de geopolítica digital nem de deepweb, pois essa briga acontece sob nossos narizes e não no submundo da internet. Somos todos cúmplices, vítimas e parceiros das mudanças que vêm ocorrendo – e ela definirá o futuro da web. É a guerra do vídeo.

Desde que a web se popularizou, no início dos anos 90, ela é um meio escrito. Por mais que a possibilidade multimídia já estivesse presente desde os primeiros rascunhos de Tim Berners-Lee, a grande comunicação através da rede acontece no formato de texto. O MP3 e o Flash permitiram que som e vídeo aos poucos entrassem entre os parágrafos, mas nem a popularização da música digital (via pirataria, iTunes ou sites de streaming) nem a aquisição do YouTube pelo Google (na maior transação financeira do mercado digital da década passada) foram suficientes para destronar o texto como principal formato da comunicação online. E-mails, SMS, newsletters, sites e blogs ainda são onipresentes e por mais que as redes sociais tenham assimilado recursos multimídia elas ainda se movimentam por palavras.

Ainda. Um dos grandes termômetros de que há algo prestes a expandir nossa comunicação para além do teclado (seja ele físico ou touchscreen) foi um número que pegou a todos de surpresa: desde o meio deste ano o Facebook exibe mais vídeos do que o YouTube em desktops.

Não é pouca coisa e o gráfico desenhado pela ComScore no mês passado é autoexplicativo: do meio do ano passado para o meio deste ano, o YouTube caiu de quase 16 bilhões de views por mês para pouco mais de 11 bilhões, enquanto o Facebook vem numa ascensão gritante, saindo de menos de um bilhão de views por mês para 12,3 bi em apenas um ano. E, assim, ultrapassando o YouTube em um bilhão de visualizações por mês. Repetindo: não é pouca coisa.

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A ascensão do Facebook começou graças a um recurso ridículo que já deve ter saltado a seus olhos por diversas vezes – fazendo, inclusive, você cair no truque e contribuído para o crescimento dos números de Mark Zuckerberg – o autoplay. Vídeos que começam a passar sem que seja preciso clicar na tecla play, mas, espertamente, com o som desligado. Assim, enquanto você está “zapeando” de cima abaixo pela sua timeline, vídeos começam a tocar sozinhos, sem som, e chamam sua atenção a ponto de fazer você clicar no volume para ver aquele filhote de bicho, aquele acidente espetacular, aquela animaçãozinha engraçadinha – e aumentar as estatísticas do Feice.
Mas não é o prenúncio de uma queda, afinal estamos falando apenas de dispositivos fixos. Os números divulgados não computam audiências em tablets ou smartphones, cada vez mais utilizados do que desktops atualmente. O dado também exclui o número de visualizações da plataforma Vevo, a marca que o YouTube mantém ao lado das grandes gravadoras e que funciona como servidor para os grandes sucessos do site de vídeos – clipes de artistas pop. Fora que a reação do YouTube já começou – e não por acaso você está vendo anúncios de alguns canais brasileiros no site, como o Porta dos Fundos, em ambientes offline, como pontos de ônibus e termômetros de rua.

Mas essa guerra não é apenas entre Google e Facebook – e tem tudo a ver com a migração da web de dispositivos fixos para aparelhos móveis. Pois a tendência iniciada com o celular não para por aí – e vai rumo à tal tecnologia “vestível” dos atuais Google Glass e computadores de pulso, cuja tendência é liberar nossas mãos de vez, inclusive da digitação.

A interface acionada por voz dos dispositivos do futuro já vem engatinhando quando conversamos via Facetime ou trocamos arquivos de áudio via Whatsapp em vez de digitar longas mensagens num tecladinho minúsculo. A melhoria das condições de infraestrutura da rede permite não apenas aplicativos de streaming de música, mas que também possamos conversar por áudio ou por vídeo através da internet.

Num outro extremo há a fusão da TV com a internet ainda em câmera lenta – principalmente no Brasil – mas já em andamento. Em pouco tempo o diálogo entre os aplicativos do celular e da TV será fluido e natural na rotina das pessoas, fazendo com que elas utilizem a TV, que em breve vai ter modelos com câmeras, inclusive para conversar com parentes e amigos e, num segundo momento, vlogar-se para o resto do mundo.

Ainda catamos milho em teclados virtuais, usando controles remotos feitos para trocar de canais para digitar a senha do Netflix ou soletrar lentamente nosso email. É um estágio transitório e que verá o smartphone assumindo o papel do controle da TV e, por que não, sua própria câmera. A segunda tela não será apenas textual, composta por comentários ou tweets por escrito – e vamos nos acostumar a ver dois vídeos simultaneamente (há muitos que já fazem isso atualmente).

E quando isso acontecer, talvez parte da nossa interação com a rede – a forma como fazemos buscas, como assinalamos o site para onde queremos ir, senhas e a troca de mensagens no dia-a-dia – não seja mais em texto. E sim em vídeo.

Aí teremos uma nova fase em que, aí sim, vamos descobrir os novos popstars do futuro. Que não são artistas, nem autores, nem celebridades vindas de outras mídias, mas pessoas que transformaram a web em seu próprio reality show. Já conhecemos vários exemplos do tipo atualmente, mas eles ainda não são massivos porque a rede ainda é baseada em texto. E não em vídeo.

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Fui convidado para participar do livro Hábitos Culturais dos Paulistas, uma pesquisa feita entre a JLeiva e o Datafolha, para falar sobre as transformações que a tecnologia impôs ao nosso contato com a cultura. A pesquisa é excelente, quebra alguns tabus e abre cenários bem interessantes para um futuro próximo – ela pode ser acessada neste site. Além do capítulo no livro (que ainda conta com textos de Hugo Possolo, dos Paralapatões, José Roberto Toledo, do Estadão Dados, entre outros), também participei de duas mesas de discussão nesta terça e quarta na Pinacoteca, com alguns dos envolvidos no livro (Baixo Ribeiro, da Choque Cultural, em um dia e Pena Schimidt e Alessandro Janoni, do Datafolha, no outro). Abaixo, o texto que escrevi para o livro, que pode ser baixado em PDF aqui.

Um país conectado

Viver no Brasil na segunda década do século 21 é habitar várias épocas ao mesmo tempo. O país atravessou o século passado sob a sombra de um epíteto infame, a frase “O Brasil é o país do futuro”.

Ela foi dita pela primeira vez, com ironia, por um personagem do livro País do Carnaval, de Jorge Amado, nos anos 1930. Virou título do livro ufanista do austríaco Stefan Zweig em 1941 e, no final dos anos 1960, foi transformada em mote nacionalista pelo ditador militar Emílio Garrastazu Médici. Hoje, por linhas tortas, ela parece ter deixado de ser futuro do pretérito para se tornar presente.

“O futuro já começou” não é mero arremedo da letra do jingle que Marcos Valle compôs para o final de ano da TV Globo nos anos 1970 – a realidade digital para onde estamos sendo tragados desde a popularização da world wide web há vinte anos vem borrando nossa sensação de futuro e nos fazendo crer em um mundo de não ficção científica. Ainda estamos longe dos carros voadores ou de morar na Lua, mas a transformação provocada pela internet na virada do milênio foi colossal e seu impacto talvez seja maior do que a urbanização do planeta, um processo que começou há pouco mais de um século e que atingirá seu auge nas próximas décadas (a ONU estima que, em quinze anos, 70% da população do mundo morará em grandes cidades).

Nossa sensação de futuro foi embaçada pela onipresença da rede e pela miniaturização dos dispositivos de acesso a ela – repare como todo filme de ficção científica produzido até 1994 ficou datado pelo simples fato de não cogitar a existência da internet no futuro.

O que antes chamávamos de “futuro” foi ultrapassado pela realidade de redes sociais e smartphones. Fazemos reservas de restaurante e compramos ingresso para o cinema apenas via celular – e sem usar a voz. O conteúdo sob demanda já está nas TVs e nos sites e logo chegará às rádios. Livros e discos eletrônicos são vendidos diretamente para o aparelho de consumo, mudando a natureza das lojas. Aplicativos nos ajudam a achar o melhor caminho para chegar em casa ou a chamar táxis mais rapidamente. Wi-fi em todo lugar. Movimentações bancárias e comerciais podem ser feitas de casa, por qualquer um, sem haver a menor necessidade de manusear dinheiro. Registramos cada passo de nossos filhos para publicar para amigos e familiares ao descobrirmos que a melhor câmera é aquela que está sempre à mão – ou melhor, no bolso ou nos próprios celulares.

Qualquer dúvida pode ser saciada com uma busca, qualquer endereço pode ser encontrado com poucos cliques, e o celular virou uma mistura de central de entretenimento com controle remoto da realidade. Todos andamos encurvados, tateando fixamente um retângulo preto nas mãos. Em pouco tempo, essa caixinha irá para os óculos e para o pulso, da mesma forma que os computadores tradicionais (notebook ou desktop) estão perdendo espaço para o smartphone. Repare: você já usa mais seu celular do que seu PC.

Nova realidade digital
Calhou de essa nova realidade digital pairar sobre o mundo no mesmo momento em que o Brasil passa a se equilibrar com as próprias pernas. Estamos saindo de nossa adolescência pátria ao mesmo tempo que o mundo se horizontaliza com a internet – e, aos poucos, estamos conquistando o planeta. De repente, “ser brasileiro” ganhou conotações completamente diferentes dos clichês do passado, que figuravam o país em algum ponto equidistante entre Carmen

Miranda, o filme Cidade de Deus, Gisele Bündchen e o funk carioca. Aos olhos estrangeiros, o Brasil sempre foi um animal bonito e exótico, mas o início de nossa maturidade cívica, escancarada nos protestos de junho de 2013, mudou a visão externa sobre o país.

E a forma como usamos a internet é crucial nessa nova abordagem para o resto do mundo. Somos o segundo país que mais consome smartphones e o vice-líder em presença no Facebook, além de dominarmos outras tantas redes sociais com uma presença massiva que só não ultrapassa a dos Estados Unidos. O Brasil é conhecido por ter se embrenhado em diferentes áreas do mundo digital e ter conseguido deter autoridade nos pontos mais remotos desse universo. Do pioneirismo da adoção do software livre em gestão pública ao maior encontro de pessoas conectadas do planeta (a Campus Party de São Paulo ultrapassou a versão original, espanhola, há dois anos), das plataformas de transparência política ao sistema bancário eletrônico (considerado superior ao de países europeus em termos de segurança), do maior festival de cultura da internet do mundo (o YouPix, em São Paulo, reúne quase 20 mil pessoas por ano) a enormes comunidades de gamers on-line, o Brasil é reconhecido constantemente como um gigante digital. E muitos desses hábitos, ainda em transformação, são detectados com clareza nesta pesquisa.

Embora a TV aberta ainda seja o hábito mais comum entre todos os entrevistados, é fácil perceber que esse cenário está mudando drasticamente – basta confrontar a quantidade de pessoas que não acessa a internet (27%, número que tende a cair) com o fato de que metade dos que responderam à pesquisa acessa a rede diariamente, seja para entrar em contato com amigos e familiares, seja para consumir conteúdo, que pode ser tanto informação como entretenimento.

É interessante notar a natureza social da rede. Ela não é usada unicamente para benefício próprio ou interesses individuais, mas é um lugar de diálogo e de relações pessoais. É onde as pessoas mantêm contato mais frequente, ainda que na forma de likes, tuítes, links e vídeos compartilhados. E reforça tanto o caráter gregário quanto o clima de festa típicos da sociedade brasileira, que podem pender essa intensidade para um lado mais depreciativo, ao qual assistimos tanto nos comentários das notícias quanto nas redes sociais. E estamos todos nelas – 90% dos entrevistados que acessam a internet participam de alguma rede social, e 83% deles têm perfil no Facebook, a maior rede social do mundo atualmente.

Pirataria
Uma das particularidades da internet brasileira é a adoção do download ilegal. O Brasil foi um dos primeiros países a abraçar o Napster, software que permite o compartilhamento de arquivos de um computador para outro, sem que ambos estejam conectados a um servidor principal, vivendo o auge da pirataria digital simultaneamente a Estados Unidos e Europa. O país se beneficiou ao ter acesso a esse tipo de conteúdo exatamente quando seus serviços de banda larga começaram a ganhar território, substituindo a obtusa conexão via linha telefônica que dominou a primeira fase de popularização da web, na última década do século passado. O usuário de internet brasileiro médio baixa música gratuitamente mais do que qualquer outro tipo de conteúdo e não se vê pagando por material digital.

Embora seja o principal conteúdo baixado, a música não está sozinha como líder de downloads ilegais. Cada vez mais gente baixa filmes pela internet em vez de assisti-los no cinema. Na pesquisa realizada, quase um em cada cinco entrevistados assiste a filmes que foram baixados da internet. É curioso perceber que não são assistidos no computador em que foi feito o download, mas na própria TV de casa. Seja conectando o computador ao televisor ou usando HDs, consoles de videogame ou pen drives para ter acesso a conteúdo audiovisual, mais da metade dos entrevistados usa um aparelho de televisão para assistir aos filmes baixados ilegalmente.

Da web para a rua
Muito se engana quem acha que uma população conectada é uma população isolada e trancafiada em apartamentos, mesmo porque boa parte das pessoas usa a internet como ponto de partida para a rua. E não se trata apenas dos protestos de junho de 2013, quando o país juntou-se ao momento histórico que reuniu importantes levantes populares, como a Primavera Árabe, os Indignados da Espanha, os tumultos em Londres e o movimento Occupy Wall Street. Mais do que protestar, as pessoas querem desfrutar de eventos culturais – muitos realizados em praça pública e ao ar livre.

Entre os entrevistados, 40% dizem se informar sobre atrações culturais por meio da internet, sendo que 23% de todos ficam sabendo das atrações por meio das redes sociais. Mais da metade dos que usam internet e redes sociais usam portais e sites de mídia para descobrir novidades sobre a programação cultural da cidade e usa as páginas oficiais dos eventos nas redes sociais para descobrir mais informações. Um dado curioso se reflete no ato da compra: a grande maioria ainda prefere adquirir ingressos para esses eventos pessoalmente, na bilheteria, em vez de usar a internet.

O que a pesquisa mostra é que a estrada digital é um caminho sem volta. Os aparelhos continuarão diminuindo até praticamente desaparecer diante de nossos olhos. Um dos melhores exemplos dessa tendência dos aparelhos “vestíveis” parece uma anomalia tecnológica ao acoplar um minimonitor a um par de óculos, mas já nasce com cara de datado, de filme de ficção científica retrô. Essa tendência de aparelhos “vestíveis” é inevitável: basta ver o smartwatch como o controle de interface de nossos smartphones, como uma “filial” do celular. Nem precisaremos tirar o telefone do bolso, basta acioná-lo – muito provavelmente por voz – usando outro pequeno computador, amarrado em seu pulso, substituindo o velho relógio.

É um futuro em que controlaremos as telas sem usar as mãos e em que nos tornaremos cada vez mais independentes do computador de mesa, da escrivaninha e do escritório. A mobilidade digital nos joga para a rua, nos tira de uma zona de conforto que, na verdade, era uma zona de medo. Já estamos retomando as ruas graças às tecnologias disponíveis. E não param de aparecer novidades, portanto, não basta esperarmos que o futuro aconteça. Ele já está acontecendo. É preciso ir ao encontro dele e começar a fazer algo.

Agora você já sabe por que suas preces nunca foram atendidas…

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Um cartum da Liana Finck, na New Yorker de umas semanas atrás.

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Na minha coluna dessa semana no Brainstorm9, falei sobre o vazamento do trailer do Vingadores 2 na semana passada e da forma como a Marvel encarou o contratempo, jogando a seu favor.

Jogando com a internet
Com o vazamento do trailer de “Vingadores 2: A Era de Ultron”, a Marvel aprende que não dá para controlar a internet, mas também ensina como é a melhor forma de lidar com ela

“Maldita Hydra!”, resmungou a conta do Twitter da Marvel na semana passada, horas depois do vazamento do primeiro aguardado trailer do filme “Vingadores 2: A Era de Ultron”.

O trailer estava programado para ir ao ar após o episódio de ontem, terça-feira, dia 28, do seriado “Agents of S.H.I.E.L.D.”, também produzido pela Casa das Ideias. Mas um imprevisto vazamento fez uma versão em baixa qualidade do trailer aparecer no início da noite da quinta-feira passada, dia 23. Em segundos sites de notícias de cinema, quadrinhos e cultura pop linkavam o vídeo pirata com o aviso para que seus leitores assistissem logo, pois o trailer iria sair do ar.

Afinal, esse é o hábito da indústria. Assim que um disco, filme ou seriado aparece online, há exércitos de programadores e advogados prontos para retirar o arquivo do ar, ameaçando sites e derrubando conteúdos através de acordos pré-estabelecidos com redes como YouTube e Facebook.

O YouTube especificamente conta com um algoritmo de reconhecimento de conteúdo alheio que simplesmente impede o dono de uma conta de publicar um vídeo caso ele tenha diagnosticado que aquele vídeo é de uma terceira parte, mesmo que seu publicador não a identifique.

Mas isso não quer dizer que consigam reduzir a pirataria digital. Diminuem o impacto, bloqueando os principais pontos de acesso – mas só para vídeo há dezenas de sites semelhantes ao YouTube que não contam com tecnologia tão ágil para retirada de conteúdo, o que obriga essa ação ser realizada manualmente, com advogados entrando em contato com departamentos jurídicos dos sites.

Além destes, as pessoas têm trocado conteúdo em redes de relacionamento fechadas, emails e fóruns e a versão pirata do trailer de Era de Ultron circulou inclusive via WhatsApp. O próprio YouTube pode ser enganado – e quase sempre o é – quando usuários alteram minimamente a velocidade do arquivo ou invertem horizontalmente a imagem ou a publicam dentro de uma moldura, impossibilitanto a inteligência artificial do site de reconhecer automaticamente a versão. Isso sem contar o mar de torrents, impossível de ser rastreado.

Mas a Marvel fez diferente. Ao twittar o resmungo contra a Hydra – a rede nazista que derrubou a S.H.I.E.L.D. nos filmes do estúdio – ela oficializou a pirataria, ao divulgar em seu próprio canal do YouTube o trailer em alta resolução – com toda a pompa, circunstância, cores e sons que deveria aparecer apenas hoje, na transmissão norte-americana do seriado Agents of S.H.I.E.L.D. Em vez de derrubar as milhares de versões piratas de seu trailer e causar a frustração em milhões de fãs que não conseguiram assistir ao filme, a Marvel baixou a guarda e faturou ela mesma aquela síndrome de atenção.

A Marvel está liderando a construção de uma nova narrativa a longo prazo que foi antecipada pelos delírios transmídia da década passada, quando “Matrix” e “Lost” mostravam as maravilhas que poderiam ser conseguidas quando se misturava a história principal do cinema ou da TV com quadrinhos, desenhos animados, videogames, além de inúmeras pistas espalhadas pela internet e outras tantas cogitadas pelos fãs.

Trabalhando em cima de uma mitologia clássica – seus próprios super-heróis – ela primeiro transpôs de forma bem sucedida os títulos dos quadrinhos para o cinema (com os primeiros filmes do “Homem Aranha”, “X-Men” e “Quarteto Fantástico”) e depois virou ela mesma um estúdio de cinema para produzir seus próprios títulos.

A partir de “Homem de Ferro” começou a contar uma história que se espalhava por outros filmes (“Thor”, “Capitão América”, “Homem de Ferro 2” e “Thor 2”) para culminar com o encontro dos heróis no primeiro Vingadores. O final dessa primeira fase ainda contou com a estreia do seriado “Agents of S.H.I.E.L.D.” que conversou com os filmes do Capitão América e com o segundo filme de Thor nas mesmas semanas em que estas produções estrearam mundialmente.

Estamos agora no meio da segunda fase da Marvel, que termina com o próximo Vingadores e já teve o segundo “Capitão América” e o terceiro “Homem de Ferro” (além de “Guardiões das Galáxias”) como episódios iniciais. O seriado produzido pela ABC também conversará com o fim desta segunda fase. E a terceira fase – anunciada ontem por Kevin Feige, em evento na California – contará com novos heróis e seriados, além de quatro séries estão sendo produzidas em parceria com o Netflix. Confira as datas:

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“Capitão América: Guerra Civil” – 6 de maio de 2016
“Doutor Estranho” – 4 de novembro de 2016
“Guardiões da Galáxia 2” – 5 de Maio de 2017
“Thor 3: Ragnarok” – 28 de julho de 2017
“Pantera Negra” – 3 de novembro de 2017
“Capitã Marvel” – 6 de julho de 2018
“Inumanos” – 2 de novembro de 2018
“Avengers: Infinity War – Parte I” – 4 de maio de 2018
“Avengers: Infinity War – Parte II” – 3 de maio de 2019

O incidente envolvendo o trailer novo do segundo Vingadores mostra que a Marvel vem aprendendo a lidar com a internet, que sempre pode estragar a brincadeira ao revelar segredos antes da hora. Mas é didático para outras empresas de produção de conteúdo – não dá para controlar a internet, é preciso trabalhar com ela. Certamente o trailer do novo filme faria mais sentido após a exibição do episódio, que conversaria com o a Era de Ultron. Tanto que a Marvel anunciou que iria exibir uma cena inédita do novo filme junto com o episódio, para tentar diminuir o estrago.

Aos poucos isso vai ser testado com outros filmes e seriados – ainda mais agora que a DC Comics anunciou 10 filmes para compor seu multiverso ao redor dos filmes da Liga da Justiça, com Batman e Super-Homem à frente. Isso sem contar as inúmeras outras mitologias – originais e adaptadas – que serão filmadas nas próximas décadas…

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Outro dia comentaram comigo sobre essa entrevista que dei para o Portal A&C e que eu ainda não a tinha visto publicada. Copio-a a seguir para quem também não viu:

​“Já estamos cercados por tecnologias com inteligência artificial”
Um papo sobre avanços tecnológicos recentes e seus impactos sobre nossas vidas com o jornalista Alexandre Matias

Já parou para pensar no quanto as novas tecnologias têm mudado nossas vidas nos últimos anos? Internet e softwares, com o suporte dos mais variados tipos de dispositivos, têm modificado comportamentos, modos de produção, os fluxos de informação, influenciado o jeito de fazer arte e produzir cultura, transformado a educação e o ensino. E isso parece ser só o começo.

O jornalista Alexandre Matias tem acompanhado tudo isso de perto profissionalmente. Ao longo de sua carreira, foi editor do “Link”, o caderno de tecnologia do jornal Estado de São Paulo, editor chefe da revista de ciência Galileu, além de ter editado umas das primeiras revistas no Brasil a falar de comportamento digital, a “Play”. É também reconhecido pelo seu blog “Trabalho Sujo”. O Portal AeC conversou com Matias sobre os impactos e transformações propiciados pelas novas tecnologias e o convidou a fazer algumas apostas em relação ao futuro.

Você começou sua carreira cobrindo música, foi editor do caderno de tecnologia no Estadão, editor da Revista Galileu e seu blog Trabalho Sujo é referência para muitas pessoas. Como você enxerga hoje a profissão de jornalista? Qual é o papel dele num mundo onde se fala em excesso de informação e um baixo limiar de atenção?
Acho que a chegada da internet é uma fase de transição que parece que tem demorado para passar porque a estamos atravessando desde os anos 90. Mas quem tem 18 anos hoje não sabe o que é o mundo sem internet, provavelmente nem sequer se refere à internet desta forma – não paga contas “online”, apenas paga contas; não compra ingressos “online”, apenas compra ingressos; não sai com alguém que conheceu “online” e sim com alguém que conheceu. A maioria das profissões e dos profissionais entrou em parafuso e ainda tateia na rede – tem muita gente mais velha que a gente que está começando a acessar a rede em 2014, tendo seu primeiro email, abrindo seu primeiro perfil em uma rede social, acreditando naqueles velhos boatos que caímos em 1997 e clicando sem querer em correntes, vírus ou spywares. Tudo isso pra dizer que o cerne da profissão jornalista não mudou muito e é tão necessário (talvez mais) do que antes. É preciso apurar, editar, filtrar, checar, descobrir coisas novas, fuçar em assuntos que ninguém quer se meter – cada vez mais. Se o Facebook (ou a próxima rede social) é o blog de qualquer um e qualquer um com um blog pode ser um jornalista, somos todos jornalistas – mas isso não quer dizer que somos bons jornalistas. Cabe a esses bons separar o joio do trigo e trazer assuntos apurados, checados e analisados. O problema é que a mudança provocada pela internet vem desnudando uma série de veículos e modus operandi que não têm nada a ver com jornalismo, que fazem propaganda (comercial ou política) disfarçada disso. Então uma série de “pilares” do jornalismo vêm caindo ou se segurando para não cair, enquanto os novos nomes ainda estão surgindo, experimentando formatos, vendo como se pagam as contas. É um momento bem interessante e me sinto muito feliz em poder participar tão ativamente desta mudança. Editei uma revista que falava de comportamento digital em 2001 (a Play), editei um caderno que unificou a produção do online e do impresso pela primeira vez numa grande redação brasileira (o Link) e tenho um site que vai mudando de acordo com a minha vontade e as novidades da época (o Trabalho Sujo). São apenas três experiências pelas quais passei entre muitas outras que mostram como estamos mudando e cada vez mais conscientes desta mudança.

Um pequeno exercício de especulação e futurologia para quem acompanha o mercado tech de perto: assim como o filme Minority Report influenciou interfaces touch quando do seu lançamento, fala-se que Ela, de Spike Jonze, pode ter o mesmo impacto na design da experiência do usuário. Ou seja, interfaces menos visuais e com comandos vocais. Você apostaria nisso? Como você enxerga possíveis futuras interfaces?
Não sei, acho que o futuro está cada vez mais imprevisível – procure a internet na ficção científica do século 20 e ela só começa a ser cogitada a partir de 1984, com Neuromancer, quando a internet já existia para além das universidades e laboratórios de tecnologia. Mesmo as interfaces do Minority Report ainda não chegaram – estamos arrastando coisas na tela com o mouse, por mais que nossos dedos já deslizem os celulares e tablets. E as telas no filme de Spielberg não existiam, eram projetadas no vazio, uma interface que ainda vamos ver surgindo. Sobre Ela – e outros filmes e livros que abordam tais interfaces – vamos ver os robôs do futuro não como androides que fazem as coisas pra gente, mas como assistentes pessoais. Mas creio que eles não se tornarão tão humanos como a personagem do filme de Jonze – já conversamos com aparelhos hoje em dia (fizemos uma matéria em 2007 sobre pessoas que batizavam a voz que saía de seus aparelhos GPS). Acho que a tendência de qualquer interface é emular uma interface anterior – não à toa ainda chamamos a área de trabalho de “desktop” (escrivaninha em inglês) ou usamos termos como “pastas” e “arquivos” para nos referir a locais que não se parecem pastas e bits que não nos lembram em nada arquivos. Qual vamos escolher no futuro? Prefiro dizer que já conectaram o computador ao neurônio e que ativar as coisas com o pensamento deverá ser rotina em 20 anos. Por isso não sei se vamos precisar de uma cara ou de uma personalidade para estas coisas…

Você vê chances da inteligência artificial, num futuro próximo, ser tão fantástica e integrada à rotina do cidadão comum, como é no filme Ela?
Sim. Na verdade, já estamos cercados por inteligência artificial. É ela que nos indica amigos no Facebook, livros na Amazon, filmes no Netflix, os melhores caminhos via Waze e descobre a música que está tocando na festa via Shazam. A tendência é que esses algoritmos vão ficar mais complexos e começar a cruzar informações entre si – a ponto de saber que quando sua mãe estiver querendo falar com você, o volume do som ou da TV irão baixar automaticamente. E esse é um exemplo simples que devemos ver funcionando em poucos anos.

A internet vem alterando significativamente a forma como produzimos e consumimos cultura. Do iPod ao Netflix, passando pelo Kindle e pelo ProTools, qualquer um hoje, em teoria, pode criar o próximo best seller sem sair de casa, além de ter acesso quase imediato a tudo que a humanidade já produziu. Como você analisa este momento?
Acho que isso pode significar uma desglamourização do processo artístico, da produção cultural. Hoje qualquer um pode gravar um disco ou escrever um livro a partir de casa, e muitos já conseguem editar filmes inteiros com pouco auxílio de terceiros. Mas estamos falando de filmes, livros, discos – conceitos forjados e popularizados no século 20. Fico muito mais curioso para saber quais são os itens culturais do século 21. Games, sites e experiências interativas são apenas o rascunho do que veremos no futuro. E, com isso, “ser artista” vai ser corriqueiro e deixa de ser mítico, inalcançável. Claro que ainda vão existir grandes artistas – no que diz respeito a tamanho e qualidade – mas eles vão ser cada vez mais raros e provavelmente se lançarão por conta própria.

A internet, também, por meio de suas redes sociais, está dando voz política a cada vez mais pessoas. É chegada a era de uma democracia 2.0?
A minha dúvida maior é sobre o congresso. Como o jornal de papel que chega toda manhã na sua casa com as notícias de ontem, as assembleias legislativas tiveram uma importância fundamental para a história da humanidade. Afinal, era muito difícil saber o que toda uma cidade, um estado ou um país pensavam e queriam, daí escolher representantes pelo voto. Mas é um formato que parece fadado a morrer, mesmo porque já viciou-se em uma série falhas que pouco dizem respeito à sua função original. Mas vamos ter um plenário formado pelas próprias pessoas? Acho inviável um plebiscito para qualquer assunto. Acho que a principal mudança politica diz mais respeito à política do dia a dia, de aos poucos as pessoas perceberem que a calçada quebrada, o buraco na rua, a avenida que engarrafa e o bairro que inunda são problemas de todos e não apenas ficar esperando soluções de cima. Acho que há uma tendência à municipalização das discussões políticas e à retomada da comunidade como unidade de gerência. O escritor de ficção científica Neal Stephenson cogitou em seu livro Nevasca pequenos condomínios autônomos que conversam entre si. Não acho um futuro impossível, embora vai demorar um tempo para chegar.

Atualmente, educação é um setor que tem sido explorado exaustivamente por empresas de tecnologia: cursos via web, universidades e escolas virtuais etc. Ao seu ver, é uma nova fronteira que se abre e de fato transforma o ensino e o aprendizado ou é apenas mais uma tendência do mercado tech como foram tantas outras?
As duas coisas. A escola também foi afetada pela chegada do digital. E era um modelo idêntico ao criado na era industrial. Analisando friamente, a escola nunca foi um local de aprendizado, e sim onde os pais podem deixar os filhos quando vão ao trabalho. Ao mesmo tempo em que os filhos eram doutrinados para entender o trabalho no futuro. A escola imita a fábrica, a sirene do recreio é a mesma do intervalo, há filas, chamada, horários, etc. Mas se o próprio trabalho está mudando, é inevitável que a escola também mude. A duvida, neste caso, é saber onde vamos deixar nossos filhos quando estivermos fazendo outras coisas. E o que eles deverão aprender quando estiverem neste lugar. É melhor aprender a cozinhar ou trigonometria? É melhor aprender a gerir um negócio ou leis da física? Precisamos de uma sala de aula? O professor já não é mais a autoridade do saber que era, um adolescente com um smartphone pode descobrir uma série de enganos perpetrados por um professor de história mal intencionado, algo impossível há vinte anos.

Tendo em mente a tecnologia existe para melhorar a existência humana, para você, qual foi o maior avanço tecnológico dos últimos 10 anos?
Se fossem dos últimos 20, sem dúvida a world wide web, que tornou a popularização da internet possível. Dos últimos 10, talvez seja a mutação do telefone portátil em computador de bolso. Mas é uma revolução passageira, daqui a dez anos não carregaremos nenhum aparelho no bolso. E acho que o computador de pulso vai ser mais popular que o óculos-computador. Mas vai saber se alguém não inventa o teletransporte ou algo que torne dormir algo obsoleto…

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Há tempo venho ensaiando a volta da minha coluna Impressão Digital, que mantinha primeiro no Caderno 2 e depois no Link do Estadão, e agora ela ressurge no YouPix. O tema segue o mesmo: o impacto da cultura digital em nosso comportamento, com mais ênfase na internet porque essa é a área do YouPix. E a pedido da editora do site Bia Granja reestréio a coluna fazendo um balanço das eleições desse ano – de uma perspectiva online.

Eleições 2014: entre a zoeira e o rancor
A internet brasileira superpõe duas realidades – a onipresença do Facebook e a cara violenta do Brasil – rumo ao nosso amadurecimento político

2014 foi um ano bem esclarecedor. Independentemente do resultado do time para quem você estava torcendo, Copa e Eleições em 2014 tiveram o tempero carregado da internet brasileira, metade zoeira, metade rancor. Milhões de brasileiros pendurados no Twitter ou no Facebook, fingiam que estavam trabalhando ou lendo mensagens no celular para ultrapassar o clichê dos 200 milhões de técnicos de futebol ou 200 milhões de analistas de política que a cada quatro anos nos incorpora.

O brasileiro online se move em hordas, grupos de conhecidos que gastam energia pegando pesado entre si e, muitas vezes, despejam bordoadas em semiconhecidos que só estão passando. A voracidade da presença do brasileiro na internet é comemorada não apenas na vice posição das maiores redes sociais do mundo mas também em hypes que vivem auges e depois desaparecem – como o Fotolog, o Formspring, o Old Reader e, aparentemente, há pouco tempo, o Ello.
Mas ela também é lamentada em jogos online por vários jogadores graças à sua natureza destrutiva – são famosos os clãs brasileiros que riem “huehuehuehue” e existem apenas para dizimar as construções de outros jogadores, sem motivo algum. O bullying online é constante nas redes sociais e isso traduz duas realidades que o Brasil vive ao mesmo tempo: a popularidade do Facebook e a história de violência do país.

Esta primeira realidade, que vivemos desde 2010, quando a rede começou a crescer exponencialmente no Brasil, também é a infância digital de milhões de pessoas. Desde os chamados millennials à pessoas da terceira e quarta idade começaram a conhecer a internet em um ambiente em que tudo que é escrito é publicado para todo mundo e quantificado com likes e shares. O Facebook é o primeiro blog, a primeira lista de discussão por email, o primeiro leitor de RSS, o primeiro fórum e o primeiro Flickr ou conta do YouTube de milhões de pessoas. Dezenas de milhões de pessoas.

Gente que vive a internet entre links, imagens, textos curtos ou gigantescos e vídeos que se movimentam entre o Whatsapp, o Facebook, o Twitter, o email e mensagens de SMS – e só. A multiplicidade de funções do Facebook e a onipresença das pessoas na rede social é uma draga de tempo e praticamente isola as pessoas do resto da internet. O que parecia ser uma enorme favela torna-se um feudo cada vez mais fechado, um castelo murado que isola a internet em uma insuportável troca de insultos, amigáveis ou não.

A segunda realidade é da natureza do Brasil. O país erguido sobre o exotique que exalta a exuberância disfarça uma das sociedades mais violentas do mundo. A face sorridente brasileira (Amazônia, mulata, Carmen Miranda, futebol, samba, Copacabana, carnaval) esconde uma história de tortura e sangue, extermínios e massacres, sadismo e crueldade. É um país de feitores, torturadores, bandeirantes, “dotôs delegados”, coronéis, milicianos. Resolver as coisas na base da coerção física sempre foi parte do cotidiano brasileiro e o século 20 foi eficaz em encobrir para debaixo do tapete toda essa história de violência. Mas ela continua aí.

Junte uma web 2.0 em profusão geométrica, com milhões e milhões de pessoas descobrindo a maravilha que é conversar com o mundo inteiro (e sozinho, ao mesmo tempo) com essa tendência a resolver as coisas no braço e eis a internet brasileira em 2014.

Na Copa, a violência ficou reprimida. Pois a simples percepção de que o maior evento do mundo, aquele que sempre crescemos acompanhando à distância, iria acontecer perto de casa criou uma situação de desequilíbrio mental em todos nós. Uma Copa do Mundo sendo realizada no Brasil nos chapou com uma loucura leve e mesmo os mais críticos não resistiram ao contato com os estrangeiros, às situações inusitadas que foram presenciadas nesta que não por acaso consagrou-se “a Copa das Copas”. O VTNC à Dilma no primeiro jogo do evento e o fatídico 7 x 1 foram momentos em que a face violenta do brasileiro ameaçou vir à tona, mas só aquela saraivada de piadas sobre o Podolswki em menos de 24 horas no Twitter já foram o suficiente para mostrar o quanto o país estava inebriado, flutuando no delírio de ser o país sede de uma Copa.

Já as eleições sintonizaram o dial do inconsciente brasileiro no outro extremo. Sim, a zoeira teve mais grandes momentos do que o rancor durante a Copa do Mundo, mas vamos lembrar que a eleição começou pra valer de uma forma trágica e pesada, quando o avião de Eduardo Campos caiu em Santos. A partir daquele 13 de agosto o Brasil entrava numa montanha russa de emoções sem precedentes na história recente – e propulsionada à toda força graças ao volume de troca de informação nas rede sociais.

Assistimos ao doutor Jeckyll da Copa do Mundo transformando-se no senhor Hyde das eleições repetindo a revelação final de Felipe Barreto em O Dono do Mundo – que ele não era bonzinho porra nenhuma e vocês vão ver só. A enxurrada de informação é estarrecedora. Piadas nonsense, trocadilhos afiados, montagens perfeitas, vídeos editados segundos depois de uma notícia ir ao ar, sites de notícias assumidamente falsas, blogs petralhas e blogs reaças, programas humorísticos de telejornalismo, canais no YouTube, páginas no Facebook, texto aplicado em foto, longos artigos exaltando ou condenando um país em que a esquerda é caviar e a direita é coxinha.

Os candidatos a cargos legislativo fizeram a festa nas redes e o Facebook virou o grande palanque de 2014, inclusive para a imprensa, que abraçou as redes sociais ainda mais avidamente que em eleições anteriores. Já os candidatos à presidência foram desconstruídos e reconstruídos dezenas de vezes por centenas de pontos de vista. Dilma, Aécio e Marina passaram por devassas pesadas de suas carreiras enquanto Luciana Genro e Eduardo Jorge deixaram o zoológico dos nanicos para ganhar voz e criaram bases sólidas para suas futuras carreiras políticas. Levy Fidelix saiu do armário do conservadorismo e deixou de ser o seu Barriga do aerotrem enquanto o Pastor Everaldo entrou para a história como a primeira pessoa a confessar ter peidado em um programa de TV no Brasil.
Mas mesmo com a vitória conservadora no legislativo e o país rachado politicamente entre Aécio e Dilma, estes aspectos são coadjuvantes frente a algo que assistimos neste ano – a intensa participação política dos brasileiros e nossos primeiros passos rumo a discussões civilizadas. A nação violenta animou-se com o teclado e passou a cuspir besteiras para quem quisesse se sentir ofendido. Tanto faz qual tendência política – é fácil pensar nas estrelas conservadoras e progressistas que se degladiam em diferentes mídias, encontrando-se nas redes sociais para equiparar links de colunas, programas de TV ou posts nas próprias redes. Essa fúria motiva as pessoas ao menos para se posicionar politicamente, pelos motivos certos ou não, em vez de fingir desinteresse por política para depois aliar-se ao vencedor.

Pois essa é outra característica brasileira: nunca há uma ruptura, um dissenso, uma tensão em qualquer mudança histórica do país. O Brasil tornou-se independente quase como uma herança, a abolição da escravatura foi aceita de imediato, a República também não foi contestada e foram preciso 15 anos para derrubar Getúlio, que voltou dez anos depois. Sua morte também foi assimilada rapidamente assim como a mudança do Golpe de 64 e a Nova República, Collor, Fernando Henrique e o PT. Essa raiva toda na internet não vai nos levar a uma guerra civil como muitos temem, mas faz parte de um processo de amadurecimento político brasileiro que está apenas começando… Por isso 2014 está sendo bem esclarecedor.

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Além do filme novo do Jason Reitman, a Gi Ruaro também viu outro filme promissor no London Film Festival, The Imitation Game, em que o nosso querido Benedict “Sherlock” Cumberbatch vive o maior nome inglês da história da computação (desculpa, Tim Berners-Lee) – Alan Turing. Eis o trailer e, a seguir, o comentário da Gi sobre o filme:

Sabe o Turing? Morreu. Faz tempo, mas o mundo está redescobrindo o matemático e herói da Segunda Guerra no novo filme The Imitation Game. Benedict Cumberbatch é o jovem Alan Turing, contratado em 1939 para quebrar o código Enigma e salvar a humanidade. Parece coisa de filme de Hollywood.

Colocando em miúdos: os nazistas usavam a máquina Enigma para codificar todas as mensagens na Segunda Guerra. Era até então a máquina perfeita, capaz de encriptar comunicação e modificar o segredo a cada 24 horas com 150 trilhões de regulagens. Os ingleses conseguiam ver as mensagens, sem entender o sentido.

Turing, fã de palavras-cruzadas e desafios lógicos em geral, acreditava que para possamos entender uma máquina temos que criar uma outra máquina. Elas conversam melhor entre si do que conosco.

Depois de três anos construindo uma máquina automática, apelidada no filme carinhosamente de Christopher, Turing conseguiu desvendar o segredo em 1943. Mas, ainda em meio a guerra, este virou o maior segredo. Afinal, se os nazistas soubessem que os Aliados tinham a solução do Enigma, inventariam uma nova versão.

Ou seja, todos os movimentos de Hitler entre 1943 e 1945 estavam sendo interceptados pelos aliados e monitorados. Havia também um grande cuidado de inteligência para justificar ações que vinham das mensagens do Enigma. O Dia D não teria sido possível sem Turing. A Guerra teria se arrastado por mais alguns anos. A blitz poderia ter acabado com Londres. Hitler poderia ter vencido. 150 trilhões de possibilidades de um futuro bem diferente.

A Segunda Guerra acabou em 1945, então era hora de contar pro mundo como Turing salvou a pátria. Mas o medo de uma nova guerra mundial fez os ingleses destruírem todos os registros de guerra de Turing, para que os nazistas não soubessem que Enigma era kaput.

De maneira simplista como o meu texto, é essa a história que The Imitation Game quer contar. E conta de maneira bem Escola Weinstein de Oscar Garantido, tipo O Discurso do Rei. Ruim, não é. É breguinha. Fofinho. Bonitinho.

Mas vamos falar do que o filme quase não fala. Além de quebrar o Enigma, Turing era gay. Christopher era o nome do seu amor de adolescência e o apelido da máquina (será isso real ou invenção do filme?). Turing se encontrava com garotos de programa em Londres e em 1952, foi condenado a dois anos de prisão por sair com um garoto. A alternativa ao tempo em prisão era tratamento hormonal – ou castração química. Turing optou pela castração porque na prisão ele não poderia continuar seu trabalho, e depois de um ano de tratamento, os efeitos colaterais ficaram cada vez mais difíceis de aceitar. Tremores, dificuldade de concentração ou de raciocínio. Turing não aguentou e em 1954, se suicidou.

Nesta época, 49 MIL gays foram condenados a prisão ou castração química por serem homossexuais. Em 2013, a rainha finalmente o perdoou pelo seu crime. Em 2013, ano passado. Ser homossexual era ilegal na Inglaterra até 1967, na Escócia até 1980 e Irlanda do Norte, 1982.

É claro que os direitos LGBT evoluíram muito na última década, mas há ainda 76 países onde ser gay é ilegal. A Europa é o único continente em que nenhum país tem leis contra homossexualidade. O fato de ser ilegal ser gay destruiu a carreira de um dos grandes heróis ingleses e no fim acabou matando-o. Turing tinha 41 anos e muitos anos de estudos pela frente – num mundo que parece tão distante, mas na verdade está tão perto. Nossos pais cresceram neste mundo.

Uma máquina entende outra máquina e apenas uma pessoa pode entender outra pessoa (filosoficamente falando, tipo Samantha em Her). O grande jogo da imitação foi de Alan Turing, que usou seu autismo para criar uma nova maneira de entender o mundo. Imitando colegas, amigos e familiares, conseguiu se ver normal numa sociedade em que não era.

A máquina automática de Turing evoluiu e agora você está lendo este texto dentro dela. Com inúmeros uns e zeros, Turing criou o primeiro computador.

The Imitation Game é um filme mais baunilha pra agradar uma audiência maior e este é o primeiro passo: conhecer Turing e reconhecer seu trabalho.

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Participo hoje, às 20h, do seminário Música, Performance e Mercado organizado nas quintas-feiras de outubro pelo Sesc Ipiranga. Falo sobre “Mídias sociais, marketing digital e a era da nuvem”, relacionando essas recentes transformações com as mudanças no mercado da música, num papo com o Vinicius Apoena da agência digital MK&Vapps. A entrada é gratuita e os ingressos começam a ser distribuídos com uma hora de antecedência no local. A mediação é feita por Thales de Menezes.

Cidadania digital

Escrevi a capa da revista Sãopaulo, da Folha, neste domingo – uma matéria sobre grupos de moradores de São Paulo que utilizam a internet para fazer política com as próprias mãos.

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Cidadania digital
Mobilizações conectadas à internet redesenham a política da cidade

Depois de facilitar a vida do paulistano –que pode chamar um táxi, escapar do trânsito ou encontrar rapidinho um restaurante próximo–, a migração da internet para o celular passou a colaborar com a transformação do espaço público da cidade. Com acesso de qualquer lugar, as pessoas estão se mobilizando mais rapidamente e colaborando com mais frequência.

“Estamos nas ruas e vendo a internet, e não vendo as ruas pela internet. Somos o oposto dos ativistas de sofá”, afirma a arquiteta e produtora Laura Sobral, 29.

Com a ajuda da rede para divulgar atividades e criar um fórum de discussão, Laura fundou, em janeiro deste ano, um movimento para ocupar o árido largo da Batata, em Pinheiros, região oeste. Todas as sextas-feiras à noite, membros e simpatizantes do grupo A Batata Precisa de Você, que já beira 4.000 integrantes no Facebook, se reúnem no largo para conversar, ouvir música ao vivo e discutir por quais melhorias a área pode passar.

O movimento Minha Sampa também quer uma cidade mais aprazível. Criado em fevereiro deste ano, o grupo desenvolve ferramentas on-line para incentivar mobilizações e pressionar autoridades diretamente. Um desses instrumentos é o site de reivindicações Panela de Pressão (paneladepressao.nossascidades.org), que reúne propostas de usuários para transformar a cidade, entre elas uma que sugere que a avenida Paulista seja fechada aos domingos, como acontece com o Minhocão. Se concordar com a ideia, o usuário pode enviar na hora um e-mail à CET e ao prefeito Fernando Haddad para engrossar o coro.

Ao navegar no “Panela”, dá para ver as iniciativas consideradas vitoriosas pela plataforma, como o impedimento do vagão exclusivo para mulheres nos trens (vetado pelo governador Alckmin) e a proteção dos teatros pequenos ameaçados pela especulação imobiliária (em andamento na prefeitura).

“Damos suporte às mobilizações iniciadas por cidadãos, da concepção ao acompanhamento de resultados”, afirma Anna Livia Arida, 30, diretora do Minha Sampa. O projeto é irmão mais novo do Meu Rio, movimento criado há dois anos que reúne 130 mil cariocas, a maioria jovens.

Na mesma onda, o Hey! Sampa promove debates, passeios e atividades culturais para “valorizar o patrimônio da cidade e difundir a história dos bairros para seus moradores”. “As ferramentas digitais facilitam tanto para chamar a atenção da comunidade como para cobrar o poder público”, conta Paula Dias, 29, cofundadora da plataforma.

Outra iniciativa é o Wikipraça, movimento que pretende conclamar on-line pessoas para utilizar espaços públicos. O primeiro alvo é o largo do Arouche, na região central, onde um grupo encarou o calorão do sábado retrasado (11/10) para construir bancos de madeira. “Mais do que para se comunicar, a internet é um espaço para se organizar”, conta Bernardo Gutierrez, do Wikipraça.

Veterano se comparado a alguns exemplos citados nesta reportagem, o site SP Honesta virou hit ao mapear restaurantes bons e baratos. A página, criada no auge da discussão sobre os preços abusivos na cidade, no ano passado, é produzida com informações de usuários e deve virar aplicativo para celular.

Na rua, na praça ou no restaurante, o discurso é de união por uma cidade “colaborativa”. “A internet torna mais fácil a reunião de pessoas com interesses em comum. Sozinho é muito difícil fazer política. Mas, quando você tem pessoas ao seu redor, concretizar essas iniciativas fica muito mais fácil e divertido”, afirma Tatiana de Mello Dias, 28, uma das criadoras do SP Honesta.

Para a economista Ana Carla Fonseca, as relações entre público, privado e sociedade civil estão cada vez mais porosas. “É um movimento natural de pessoas, empresas e instituições que unem dois traços: trabalham na fronteira da vanguarda, ou seja, não esperam, e entendem que é preciso ser protagonista ou coprotagonista da mudança que defendem, em vez de passar a lista para os outros”, diz ela, que dirige a Garimpo de Ideias, empresa que gere conteúdos, projetos e iniciativas ligados à economia criativa.

Telefone sem fio
Três em cada quatro celulares vendidos no Brasil são smartphones. Dos quase 18 milhões de aparelhos que deixaram as lojas entre abril e junho de 2014, 4,6 milhões eram celulares simples e 13,3 milhões tinham acesso à internet. Não há dados da cidade de São Paulo. “Embora o brasileiro ainda fale mais ao celular do que utilize a internet no aparelho, esse hábito vem mudando”, diz João Paulo Bruder, gerente de telecom da consultoria IDC Brasil.

Mas cadê a internet sem fio e de graça? Embora ainda tímido se comparado a outras capitais do mundo, o projeto Praças Wi-Fi, da Prefeitura de São Paulo, quer estimular a ocupação de 120 praças públicas da cidade a partir da utilização da internet gratuita (veja lista em wifilivre.sp.gov.br). Atualmente, 65 estão em operação.

Outro projeto, da MobiLab (Laboratório de Mobilidade da SPTrans), fundado em parceria com a USP, quer transformar os 15 mil ônibus da frota da cidade em pontos de acesso à rede sem fio. Por enquanto, apenas 20 deles estão em circulação.

Em setembro de 2013, São Paulo se tornou a primeira cidade na América Latina a abrir integralmente e em tempo real os dados do GPS dos ônibus para desenvolvedores.

“Já são mais de 60 aplicativos utilizando essa informação para melhorar o uso do transporte público”, afirma Ciro Biderman, chefe de gabinete da SPTrans.

Biderman diz que pretende implantar o wi-fi também nos 17 mil pontos de ônibus da capital paulista, mas o projeto ainda não saiu do papel. “Seria ainda mais impactante. Além de serviço mais estável do que nos coletivos em movimento, funcionaria durante 24 horas.”

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Minha incansável busca pelo Bloody Mary perfeito via Instagram começou de brincadeira e foi parar na matéria de capa do caderno Comida da Folha de São Paulo de hoje. Segue o texto:

Na busca do drinque perfeito, o que importa é a própria busca

Desceu tão bem que eu tive que registrar. Era véspera do Natal de 2012 em Nova York eu fui com minha mulher comer no bistrô Artisanal, na Park Avenue.

Vinha de um ano embalado em bloody marys feitos em casa, na minha primeira e quase irônica tentativa de voltar a cozinhar —fazendo um drinque.

Mas quando tomei o bloody mary daquele lugar, puxei o celular discretamente para lembrar-me da cara dele. Ao chegar de volta ao hotel, marquei a foto com uma hashtag de brincadeira, que deu origem a uma caça: #embuscadobloodymaryperfeito.

Sabia da contradição. Afinal, ao contrário da maioria dos drinques, o bloody mary não tem receita específica —e até sua origem histórica é uma das mais imprecisas entre as bebidas modernas.

Ele vai ao gosto do barman, que por vezes prefere mais encorpado, outras mais suave, umas vezes mais discreto e outras mais marcante. Não há bloody mary perfeito e sim aquele que cai do jeito certo na hora certa (como os do Sub Astor, do Epice, do Bravin, do Jacarandá, do Mimo, do Ecully, do Ici ou do Spot).

Já desdenhei da mistura como troçava meu mestre da cozinha, o saudoso Fred Leal, que sempre ria ao ver o drinque e pedia para “jogar logo uma carne moída pra agilizar esse bolonhesa!”. Mas o bloody mary bateu naquela hora mágica —a da ressaca.

A mistura embrenha-se nas entranhas e na cabeça com a mesma intensidade, acalentando enquanto arde, despertando e desopilando —e, de repente, o estalo que faz tudo aquilo fazer sentido.

Sigo em busca do cálice inalcançável. Atrás do equilíbrio exato dos sabores do tomate, do álcool e do limão, da espessura densa do suco de tomate feito em casa, do ponto perfeito entre a ardência da pimenta e o salgado do molho inglês, sal de aipo na borda do copo, sem muita frescura na decoração (basta só uma rodela de limão…) e, de preferência, um canudo preto. Sem bacon, sem guarda-solzinho, sem aquela triste cenoura ornamental.

O que importa é a busca, afinal.

Alexandre Matias, 39, é jornalista e busca o bloody mary perfeito em sua conta no Instagram @trabalhosujo