A gente sabia que Chaz Bundick, o grande Toro y Moi, estava preparando alguma – aí, sem a menor cerimônia ele lança das faixas pesadas que já havia mostrado anteriormente (a saber “2Late“, “Room for 1zone” e “Pitch Black“) junto com outras 17 músicas em uma mixtape que foi anunciada pelo Instagram pra download via Dropbox. Sério!
O link pra download da música está no perfil de sua conta no Insta (onde Chaz atende por @lukespukashells), o que sugere que ele encontrou uma forma rápida de anunciar um disco e fazer as pessoas o ouvirem quase que instantaneamente, uma vez que a rede social é feita para ser acessada via celular e que é através do celular é onde a maoiria das pessoas escutam musica hoje. A mixtape chama-se Samantha (uma ex?) e traz etree os convidados nomes como Rome Fortune, Kool A.D. e Washed Out!
Fui convidado pela editora Intrínseca para entrevistar o norte-americano Stephen Witt sobre seu primeiro livro, o ótimo Como a Música Ficou Grátis, que mostra como a internet mudou a indústria do disco e ainda vai influenciar bastante nosso comportamento.
Uma mudança sem volta
Stephen Witt, autor de Como a música ficou grátis, explica como o digital mudará ainda mais nossa relação com a cultura
Um alemão e dois norte-americanos funcionam como os principais personagens do primeiro livro do jornalista Stephen Witt, Como a música ficou grátis: O fim de uma indústria, a virada do século e o paciente zero da pirataria. A obra acompanha a trajetória de três sujeitos completamente diferentes: o cientista Karlheinz Brandenburg, o operário Dell Glover e o executivo Doug Morris.
O primeiro passa mais de uma década debruçado na possibilidade de reduzir o tamanho de ondas sonoras para o formato digital, sofrendo cobranças e derrotas ao tentar transformar o MP3, um formato de áudio desenvolvido por um instituto de pesquisas governamental, em algo que possa ser explorado comercialmente. O segundo trabalha em uma fábrica de CDs da PolyGram, no estado norte-americano da Carolina do Norte, empacotando produtos que serão lançados semanas depois de passar por suas mãos. O terceiro começa a ascender profissionalmente quando entende que os álbuns mais vendidos não são necessariamente os melhores, e se torna um dos maiores executivos que a indústria fonográfica já viu.
São três biografias que se misturam à medida em que a web e a banda larga se popularizam, no final do século passado, e, como anuncia a contracapa do livro, quando uma geração inteira passa a cometer o mesmo crime: baixar músicas de graça da internet. As mudanças transformam Brandenburg em um visionário e Morris em um pária dos negócios. Mas talvez a história mais intrigante narrada por Witt seja a de Glover, a quem se refere como “paciente zero da pirataria” — o primeiro sujeito a fazer os álbuns aparecerem on-line antes mesmo de chegarem às lojas, matando o CD e dando início à revolução digital.
Como a música ficou grátis é um raio X de uma era crucial não apenas na transformação (ainda em curso) da indústria fonográfica, mas também para entendermos outras mudanças (e polêmicas) causadas pela vida digital em áreas que não têm nada a ver com música — como o aplicativo Uber em contraponto à profissão de taxista, o serviço Netflix comparado à televisão tradicional ou o programa de troca de mensagens instantâneas WhatsApp como alternativa às operadoras de telefonia. Ao focar nos três personagens escolhidos, Witt vai além da invenção do Napster ou do processo contra os hackers do The Pirate Bay para mostrar que essas transformações, na verdade, podem acontecer no coração da própria indústria. Conversei com o autor pelo telefone.
No seu livro você conta a história de três figuras incríveis que não conhecíamos tão profundamente até a publicação. Qual delas você considera a mais importante?
Witt – A história de Dell Glover, que durante sete anos trabalhou em uma fábrica de CDs e vazou dois mil discos na internet, é incrível. Como ele trabalhava na linha de produção e tinha acesso a CDs às vezes meses antes do lançamento, ele acabou se tornando o ponto de origem de literalmente centenas de milhões de arquivos de MP3 que enchiam iPods por todo o planeta. Se os leitores têm alguns MP3 em seus computadores que eles não sabem de onde vêm, é provável que tenham saído dos vazamentos que Dell realizou no início da década passada. Ele é um cara fascinante, uma das melhores pessoas que eu conheço — e ninguém sabia de sua história.
Dell não estava sozinho nessa rede.
Witt – Sim, como digo no livro, era uma conspiração: havia caras no Japão que conseguiam CDs que eram lançados lá semanas antes do resto do mundo. Havia jornalistas britânicos que recebiam CDs antes do lançamento para escrever resenhas e acabavam vazando esse conteúdo on-line. Apresentadores de rádio, DJs. Havia caras na Itália que lidavam com a parte promocional na Europa… Era literalmente global.
E isso não acontecia só na música, mas também em outras áreas. Havia caras que entravam nos cinemas com filmadoras ou que conseguiam as cópias dos filmes destinadas aos jurados do Oscar. Tinha os que craqueavam DVDs e videogames e gente que trabalhava em emissoras de TV a cabo, que disponibilizavam, programas de TV on-line gratuitamente. Esse movimento se autodenominava The Scene (A Cena) e dispunha de pessoas espalhadas por todo o mundo, lidando com todo tipo de mídia.
É interessante notar como a internet nunca foi vista como uma ameaça pela indústria dos CDs.
Witt – A indústria andava bem preocupada com o gravador de compact discs porque sempre se preocupou com pirataria. Mas eles estavam tão focados nos gravadores que deixaram o MP3 passar. Se você for ler sobre quais eram os riscos que esses negócios temiam no final dos anos 90, vai ver que eles constantemente estavam preocupados com o gravador de CDs e nem sequer mencionavam o MP3. É porque isso já havia acontecido antes, nos anos 80, com o lançamento dos gravadores de fitas cassete com duplo deck, que permitiam às pessoas fazer quantas cópias quisessem. Aquilo afetou os lucros como eles achavam que o gravador de CDs fosse afetar.
Essa falta de percepção mudou completamente o mercado a ponto de tornar as grandes gravadoras obsoletas — pelo menos como as conhecíamos. Mas elas ainda são uma parte importante do mercado, diferentemente do que ouvíamos falar há dez anos, que a internet mataria a música…
Witt – Hoje em dia é muito mais fácil você trabalhar com música sem ter que se envolver com uma grande gravadora. Mas o lado ruim é que tem cada vez mais gente se lançando, são dezenas de milhares de álbuns novos todos os anos e eu nem sei por onde começar. O que a gravadora fazia, historicamente, era ter alguém que cuidava da direção artística, o cara de A&R (artistas e repertório), que funcionava como um filtro. Era um sistema muito corrupto, sei que não era o melhor cenário, mas era assim que eles faziam.
Agora é muito mais difícil conseguir se fazer ouvir no meio de tanto ruído, mesmo que seu trabalho seja incrível. Além disso, as gravadoras contam com marketing, publicidade, distribuição, desenvolvimento de carreira… Coisas que os artistas ainda querem. Consigo pensar em pouquíssimos artistas que realmente dispensam esse tipo de trabalho.
A internet acabou sendo uma desculpa perfeita para um modelo de negócios que vivia uma bolha financeira que inevitavelmente estouraria…
Witt – Olha só o que acontecia: por um bom tempo, eles vendiam álbuns ou compact discs com uma margem de lucro enorme. Nos Estados Unidos, um CD que era vendido por cerca de 14 ou 15 dólares custava 1 ou 2 dólares para ser produzido. E muitas dessas empresas eram movidas por artistas de um hit só, que tocavam muitas vezes no rádio. Dessa forma, as pessoas gastavam 14 ou 15 dólares em um disco que tinha uma ou duas músicas que elas realmente queriam ouvir. E as outras faixas nem eram ouvidas.
A mudança para o digital significou o fim dessa lógica. Se um artista só tinha um hit, você não precisava comprar o disco inteiro, e foi isso que matou o negócio. Na era do streaming, as pessoas pagam exatamente pelo que ouvem, e nada mais. Do ponto de vista do ouvinte é ótimo, é um bom negócio. Do ponto de vista da indústria é péssimo, porque todas aquelas músicas ruins que estavam sendo vendidas quase como lucro não serão tocadas nem farão dinheiro. Não há mais como disfarça-la.
A tecnologia também permitiu que mais gente conseguisse gravar com um padrão de qualidade antes restrito a poucos agentes da indústria fonográfica.
Witt – Sim. Se você olhar para sites como Soundcloud ou Mixcloud, a maioria dos artistas que estão hospedados ali é de amadores. Gente que ama música e que coloca suas faixas ali. Claro que alguns estão tentando fazer carreira como DJ, mas a maioria está lá apenas pela diversão. E como você disse, antigamente era preciso um estúdio grande e caro para conseguir boas gravações, mas agora é possível recriar toda essa tecnologia num laptop. Você baixa, sei lá, uma versão pirata do programa Live Ableton e dispõe da mesma tecnologia de ponta que um produtor classe A. É muito mais fácil, é realmente a democratização da cultura.
E o que você acha que aconteceu com a produção musical após essa mudança?
Witt – Acho que duas coisas estão acontecendo. Em termos de produção nós estamos em um estágio revolucionário. Há pessoas que estão fazendo coisas com áudio que não eram possíveis anteriormente e há muita gente experimentando, o que acho ótimo, é muito inventivo do ponto de vista sônico. O lado humano, por outro lado, se tornou completamente comercial, ninguém mais corre riscos artísticos, como os que Bob Dylan ou, do ponto de vista de vocês, brasileiros, Caetano Veloso, costumava correr. Não há mais ninguém assim atualmente. Talvez você tenha um Kanye West, mas ele não está correndo os mesmos riscos. Por isso a mensagem se tornou totalmente comercial e muito uniforme, a ponto de ser entediante. Então, ao mesmo tempo, estamos numa época sonicamente brilhante, e do ponto de vista lírico, bem rala.
Falamos hoje muito sobre a “revolução” da internet, mas toda a história da indústria fonográfica é composta por tecnologias que foram tão revolucionárias em seu tempo quanto a internet é hoje — pelo menos em relação à música.
Witt – Você está coberto de razão. Imagine ouvir o som gravado pela primeira vez — foi ainda mais revolucionário. Isso só aconteceu no começo do século XX. Minha geração já passou por quatro mudanças de formato: vinil para CD, CD para MP3 e agora MP3 para streaming. Cada uma dessas mudanças mexe não só na forma como as pessoas consomem a música, mas também na forma como a produzem.
Eu concordo que atualmente, principalmente agora, passados 15, 20 anos desde que começamos a usar a internet, as pessoas comecem a ter (não sei se é um movimento reacionário) uma espécie de ressaca. Houve essa abordagem “revolucionária”, que as pessoas compraram quando ouviram dizer que a rede mudaria suas vidas — o que realmente aconteceu. Agora tem muita gente se perguntando se valeu à pena. As pessoas estão começando a se sentir oprimidas pela internet e a música é uma das áreas em que vemos isso acontecendo.
Mas acho que é parte da história da tecnologia da gravação de áudio. Ela só tem cem anos e já passou por mudanças radicais. Acredito que os formatos estejam evoluindo para outra coisa, bem diferente de um suporte de armazenamento físico que você vai lá e compra. Não seriam nem algo que você possa possuir. É como se fossem uma utilidade, algo que você paga pela utilização, mais ou menos como a energia elétrica.
Leia um trecho de Como a música ficou grátis: O fim de uma indústria, a virada do século e o paciente zero da pirataria.
O criador dos Creative Commons entrou na campanha presidencial para enfrentar um dilema parecido com o nosso: consertar o sistema. Ele se dispôs a ser o “candidato-plebiscito” e assumir concorrer a presidência de seu país para resolver a questão dos financiamentos de campanha e reestruturar o congresso representativo. Um problemaço, mas, como ele diz, talvez seja o maior deles – e o mais urgente a ser definido. Eis sua declaração:
E aqui, mais objetivamente, o papel que ele tentará exercer na campanha presidencial do ano que vem.
Se alguém achar uma versão legendada do vídeo ou simplesmente quiser traduzir tudo, basta postar nos comentários que eu publico aqui.
Eis mais uma aula com um assunto, um professor e um tema que sai da da grade do Ecossistema da Música no Século 21 para ganhar vida própria: desta vez é João Marcello Bôscoli, da Trama, que conta a transição do analógico para o digital do ponto de vista das gravadoras, que perderam o fio da meada para deixar isso na mão da internet. A aula “O novo mercado da música” acontece no próximo dia 20 de junho no Espaço Cult, em São Paulo, e vai tratar do seguinte:
Como a queda da indústria do disco e a ascensão da internet renovou o interesse do público.
A digitalização da música nos anos 80 aumentou a massificação dos lucros das gravadoras, que perderam o vínculo afetivo com o público e passaram a tratá-lo como mero consumidor. Quando a internet renovou o interesse emocional pela música, surgiram brechas para novas iniciativas musicais que retomaram a paixão pela música como algo que faz parte da vida das pessoas e não mera trilha sonora.
– O que eram as gravadoras
– O que aconteceu com as gravadoras nos anos 80
– A invenção do CD, a maximização dos lucros e o início da pirataria física
– As majors: o auge da indústria fonográfica
– A invenção do MP3 e a chegada do Napster
– A popularização massiva da web e o download ilegal
– O papel da Apple e o iPod
– As redes socias
– A invenção do YouTube
– Os aplicativos de streaming
Participo da aula apresentando e mediando a conversa, cujas inscrições podem ser feitas aqui.
O brasileiro Bruno Leo Ribeiro recriou bandas clássicas como se fossem emojis. Não é uma idéia propriamente nova (remete diretamente aos já clássicos MiniPops de Michael Beazley), mas são simpáticos.
O estúdio australiano DropBear fez um clipe para a música “Quack Fat” do produtor Opiuo colocando várias mídias mortas – do disquete ao VHS, passando por videogames Atari, fitas cassete e um Walkman – para dançar conforme a música via stop-motion. Ficou fera.
Mais um filme que vira joguinho antigo pelas mãos dos caras do Cinefix.
A artista digital Kelli Anderson reconstruiu o clássico Powers of Ten do casal Eames (veja abaixo) a partir de imagens recolhidas via Google Images, dando diferentes pontos de vista para a mesma cena de aproximação e afastamento em potências de dez.
Há também versões interativa do vídeo acima, uma digital no site dela e outra física, no formato de flipbook (a imagem acima). E, abaixo, o vídeo clássico original.
Não é culpa sua se você acha às vezes que está assistindo a um videogame e não a um filme de ação ou ficção científica, como o pessoal do StoryBrain explica neste vídeo (em inglês):
Segundo o diretor de arte com insônia português João Rocha só existem dois tipos de pessoas no mundo: as que acham seu tumblr 2KindsOfPeople hilário e as pessoas sem nenhum senso de humor. Veja outras formas de separar o mundo em duas partes:











