Em tempos de clausura, o jeito é apelar para a internet. E assim, inspirado no festival português @festivaleuficoemcasa, que aconteceu na semana passada, mais de 60 artistas se reuniram para quatro dias de shows ao vivo, transmitidos a partir de suas casas, a partir desta terça-feira até a próxima sexta. São nomes como Emicida, Boogarins, Daniela Mercury, Rennan da Penha, Adriana Calcanhotto, Frank Jorge, Felipe Cordeiro, Maria Gadú, Francisco El Hombre, Brunks, Urias, Menores Atos, Z’África Brasil, Dudu Nobre, Fafá de Belém, Paulo Miklos, Academia da Berlinda e muito mais, que se apresentam nas dez horas de show diárias do @FestivalFicoemCasaBR, começando às 13h30 até as 23h30 de cada um dos dias, tocando meia hora de show por dia. Fui convidado para ser um dos apresentadores do festival ao lado de compadres e comadres como Pedro Antunes, Renata Simões, Roberta Martinelli, Didi Couto, Thunderbird, Sarah Oliveira, Jarmeson de Lima, Leonardo Lichote, Luisa Micheletti, Marina Person, Max B.O., Patricia Palumbo, Raquel Virginia, entre outros. O festival será transmitido pelo YouTube e pelo Facebook e todos os artistas farão seus lives a partir de suas contas no Instagram.
Terça, 24.3.2020
13h30 – Roger Cipó – @rogercipo
14h – Maria Gadú (SP) – @mariagadu
14h30 – Menores Atos (RJ) – @menoresatos
15h – Lucas Guido (SP) – @luc.guido
15h30 – Passaro Vivo (MG) – @soupassarovivo
16h – Luê (PA) – @luemusica
16h30 – Homem Banda (RS) – @homembanda
17h – Bel Medula (RS) – @bel_medula
17h30 – André Prando (ES) – @andreprando
18h – Francisco El Hombre (SP) – @franciscoelhombreoficial
18h30 – Guma (PE) – @gumabanda
19h – Preta Ferreira (SP) – @preferreira
19h30 – Z’África Brasil (SP) – @zafricabrasil
20h – Rael (SP) – @raeloficial
20h30 – Sabe quando oque (RJ) – @sabequandoque
21h – Felipe Cordeiro (PA) com part. de Aramá – @ofelipecordeiro e @arama_official
21h30 – Froid (DF) – @froid
22h – Daniela Mercury (BA) – @danielamercury
22h30 – Urias (MG) – @uriasss
23h – Boogarins (GO) – @boogarins
Quarta, 25.3.2020
13h30 – Samuel Gomes – @samuelgomes
14h – Luedji Luna (BA) – @luedjiluna
14h30 – Ciel Santos (PE) – @cielsantos
15h – Valéria Barcellos (RS) – @valeriabarcellosoficial
15h30 – Jordana Henriques (RS) – @jordanahenriquesoficial
16h – Mariana Soares (RJ) – @amarianasoares
16h30 – Moara (DF) – @moaramusica
17h – Negão da Serrinha (RJ) – @negaodaserrinha
17h30 – Babi Jacques e Lasserre (PE) – @babielasserre
18h – Banda Tantra (RJ) – @bandatantra
18h30 – Jesuton (RJ) – @jesuton
19h – Castello Branco (RJ) – @castellobranco
19h30 – Doralyce (PE) – @missbelezauniversal
20h – Torre (PE) – @torremusica
20h30 – Teresa Cristina (BA) – @teresacristinaoficial
21h – Graveto (SP) – @oficialgraveto
21h30 – Slim Rimografia (SP) – @slimrimografia
22h – Bia Ferreira (MG) – @igrejalesbiteriana
22h30 – Dudu Nobre (RJ) – @dudunobresamba
23h – Rennan da Penha (RJ) – @djrennandapenha
Quinta, 26.3.2020
13h30 – Influência Negra – @influencianegra
14h – Adriana Calcanhotto (RS) – @adrianacalcanhotto
14h30 – Bule (PE) – @buleoficial
15h – Iara Rennó (SP) – @iararenno
15h30 – Victor Vintage (RJ) – @viciovintageoficial
16h – Victor Mus (RJ) – @victormusoficial
16h30 – Supervão (RS) – @supervao
17h – Amsterdan (RJ) – @amsterdanrock
17h30 – Facção Caipira (RJ) – @faccaocaipira
18h – Frank Jorge (RS) – @frankjorge2267
18h30 – Rodrigo Alarcon (SP) – @rodrigoalarconoficial
19h – Davi SAbbag (GO) – @dav.i
19h30 – Ó do Forró (SP) – @odoforro
20h – BNegão (RJ) – @bnegaooficial
20h30 – 7NaRoda (DF) – @7naroda
21h – O PlantaE (DF) – @oplantae
21h30 – Biltre (SP) – @bandabiltre
22h – Brvnks (GO) – @brvnks
22h30 – Romero Ferro (PE) – @romeroferro
23h – Puro Suco (DF) – @purosucobr
Sexta, 27.3.2020
13h30 – Tia Má – @tiamaoficial
14h – Chico César (PB) – @oficialchicocesar
14h30 – Giovani Cidreira (BA) – @giovanicidreira
15h – Paola Kirst (RS) – @paolakirst
15h30 – Amanda Magalhães (RJ) – @amandzmagalhaes
16h – Majur (BA) – @majur
16h30 – Roberta Gomes – @robertagomescantora
17h – James Bantu (SP) – @jamesbantu
17h30 – Emicida (SP) – @emicida
18h – Pedro Salomão (SP) – @salomaopedro
18h30 – Academia da Berlinda (PE) – @academia_da_berlinda_oficial_
19h – Verbara (RJ) – @verbaraverbara
19h30 – Black Pantera (MG) – @blackpanteraoficial
20h – Dois ou Dez (RJ) – @bandadoisoudez
20h30 – O Vento Solar (SP) – @oventosolar
21h – Folks (RJ) – @folksoficial
21h30 – Canto Cego (RJ) – @cantocego
22h – Lucas Silveira (Fresno) (RS) – @lucasfresno
22h30 – Valesca Popozuda (RJ) – @valescapopozuda
23h – Paulo Miklos (SP) – @miklospaulo
Larissa Conforto chama a alegoria da caverna de Platão em mais um single antes de seu primeiro disco solo, no trabalho que assina como Àyié. Na colagem audiovisual “O Mito E A Caverna”, que tem a participação do Lupe de Lupe Vitor Brauer, ela mistura a intensidade deprimente e violenta dos dias atuais num spoken word que se abre em camadas líricas e melódicas que misturam drum’n’bass, trip hop, samples de jazz e palavras de ordem, conectando as notícias deste século com a história da humanidade.
É só um aperitivo do que podemos esperar deste primeiro disco, batizado de Gratitrevas, que será lançado na próxima sexta, dia 20.
O artista digital tcheco Filip Hodas é tão fissurado em fazer crânios no computador que resolveu deixar sua imaginação fluir ao cogitar versões esqueléticas de nossos desenhos animados favoritos. Originalmente, como ele conta em seu portfólio online, onde exibe a exposição Cartoon Fossils, ele queria expor personagens como Popeye, Tio Patinhas, Pateta e Bob Esponja como se fossem esqueletos de dinossauros, mas alguns não eram tão reconhecíeis, então ele resolver acrescentar acessórios dos personagens para facilitar o reconhecimento dos mesmos.
Tem mais lá na página do Behance dele, onde ele também comenta sobre o processo de criação desas figuras.
Revelando mais uma faixa de seu novo álbum, Traditional Techniques, o mestre Stephen Malkmus agora olha para este mundo digital que coabitamos com um leve e bem-vindo estranhamento, seja apagando-se pixeladamente de velhos vídeos do Pavement ou transformando-se em uma máscara eletrônica tipo um filtro para vídeo selfies no Instagram – cujo tema é ele mesmo! A letra de “Shadowbanned” segue o tom macabro apocalíptico do clipe, falando em karma reddit, rios de Red Bull, paródias de TED Talks e momentos de picos de interação, numa letra meio beat, meio dada, sobre um country lento que parece rogar uma praga irônica: “Que a palavra se espalhe como um emoji quebrado”, canta, enquanto chapas de Malkmus utilizam o tal filtro e revelam seus rostos em microssegundos – pisque e perca Sharon Van Etten, Mac DeMarco, Kim Gordon, Jason Schwartzman, Kurt Vile, Conor Oberst, entre outros).
Conversei com Cleber Facchi do Vamos Falar Sobre Música?, Fábio Silveira do Fast Forward, Lucio Ribeiro do Popcast e Thiago França do Sabe Som?, autores de podcasts que abordam diferentes aspectos da produção musical em uma reportagem para a revista da UBC – confere lá no site deles.
Quem frequenta o Trabalho Sujo e olha para o menu na lateral já deve ter percebido que há um campo de inscrição chamado de Trabalho Sujo por Email – é a minha newsletter, que chega aos leitores inscritos sempre na quarta-feira. É um estudo em andamento – a princípio vou reunir os principais links do site nas semanas anteriores, além de ressuscitar posts antigos, linkar para vídeos que fiz, anunciar shows e festas que produzo, além de começar a pensar em conteúdo exclusivo – ou em primeira mão – direto neste formato. Estou aberto a sugestões também, se tiver alguma ideia, diga lá. Para receber as novidades por email, basta enviar o seu email no campo abaixo.
É meu segundo passo rumo ao detox das redes sociais. Como anunciei no 24° aniversário do Trabalho Sujo, estou disposto a primeiro reduzir o ritmo dos posts e depois, quem sabe, parar de usá-las de vez para me dedicar apenas à internet e outras formas de comunicação offline. É um desafio proposto mas também uma necessidade fisiológica – o vício nestas redes e no celular vem consumindo muito o meu tempo e a minha atenção, que estou preferindo dedicar a outras atividades. O primeiro passo foi abandonar o Facebook pessoa física (mantendo apenas um post por mês, quase uma reunião virtual do AA comigo mesmo) e manter apenas as versões pessoa jurídica (o site, a festa e o podcast) para aos poucos deixando o universo de Jack e Zuck em segundo plano – e só isso já me conseguiu arrumar ainda mais tempo para fazer outras coisas. A partir de fevereiro abandono excesso de RTs no Twitter para publicar apenas informações de próprio punho (mesmo que comentando RTs) e começo a newsletter para encontrar outra forma de estar em contato com vocês. Outras novidades virão por aí, mas um jeito de fácil de acompanhá-las e assinando a Trabalho Sujo por Email. Se gostar, recomende a um amigo.
Ninguém esperava por essa: o Radiohead acaba de lançar sua própria biblioteca pública, mastigando todo seu conteúdo online de bandeja para os fãs. E não estou falando só de discos e clipes – o grupo reuniu num mesmo acervo online inúmeros shows, produtos de marketing e camisetas de diferentes fases (que começarão a ser vendidas online no dia 4 de fevereiro), gravações raras, entrevistas e conteúdo digital que criaram nestas décadas de atividade, como os curtas da série The Most Gigantic Lying Mouth of All Time, o disco de remixes e o aplicativo que fizeram para o disco The King of Limbs, transmissões feitas pela internet e um acervo digital para seus próprios sites, labirintos online que faziam os fãs se perder semanas online antes do lançamento de novos discos.
https://t.co/Gk4BUXwjsg has always been infuriatingly uninformative and unpredictable. We have now, predictably, made it incredibly informative.
We present: the RADIOHEAD PUBLIC LIBRARY. pic.twitter.com/H7Ft6lNuuN
— Radiohead (@radiohead) January 20, 2020
“O Radiohead.com sempre foi irritantemente desinformativo e imprevisível”, disseram em suas redes sociais ao anunciar a biblioteca, “agora nós, de forma previsível, o tornamos incrivelmente informativo”. O Radiohead foi a banda que melhor soube utilizar a internet para divulgar seu trabalho, avançando diferentes fases de sua carreira pelas fronteiras digitais conhecidas, moldando-se às mudanças que aconteciam na internet. Desde os boatos que Kid A teria sido vazado na internet três meses antes de seu lançamento pela própria banda até o lançamento repentino de In Rainbows, que permitia que o público baixasse o disco pagando o preço que quisesse (inclusive nada), passando por apagões em mídias sociais e um disco distribuído via torrent. A biblioteca vem consolidar esta vanguarda do grupo, organizando sua história de forma didática e cutucando essa época bizarra que vivemos ao levantar as bandeiras da biblioteca – numa época em que o estudo e o intelectualismo parece que são falhas de caráter -, da gratuidade – você tem todo o conteúdo livre para desfrutar, sem pagar nada – e do serviço público. O site ainda permite que se crie uma carteira intransferível de sócio da biblioteca – muito foda. Já fez a sua? Faça aqui.
Eu, Mini, Bruno e Arnaldo falamos do saudoso portal que criamos em 2007 e matamos em 2015 para discutir comunicação e internet e seu futuro a partir de um mundo pós-redes sociais no Festival de Interatividade e Comunicação que acontece nestas segunda e terça, em Porto Alegre. Nossa mesa acontece nesta segunda-feira, às 16h15, na Unisinos – as inscrições podem ser feitas no site do FIC 2019.
“Está acontecendo de novo!”
Começou com um tweet nostálgico de David Lynch, lembrando do lugar onde filmou sua clássica série, no meio do mês passado:
Dear Twitter Friends, I love the people in King County. I love the locations in King County. We had a perfect place to shoot Twin Peaks and perfect people to work with. Both Dow Constantine and Kate Becker are great! All-in-all it made shooting Twin Peaks there a dream.
— David Lynch (@DAVID_LYNCH) September 18, 2019
“Caros amigos do Twitter, eu amo as pessoas em King County. Amo as locações em King County. Arrumamos um lugar perfeito para filmar Twin Peaks e as pessoas perfeitas para trabalhar com a gente. Tanto Dow Constantine quanto Kate Becker são ótimos! No fim das contas, isso tornou filmar Twin Peaks ali um sonho.”
Mas daí que, no dia 29 de setembro, surge este tweet do Hollywood Horror Museum, que dizia:
Someone we know who is "in the know" just let something Very Interesting slip about the future of TWIN PEAKS
If it's true, we'll be squealing and giddy in 2020!
— Hollywood Horror Museum (@horrormuseum) September 27, 2019
“Alguém que nós conhecemos que ‘está por dentro’ deixou escapar algo bem interessante sobre o futuro de Twin Peaks. Se for verdade, estaremos rindo e excitados com 2020!”
E continuava:
We don't want to get anyone in trouble (for being stupid enough to tell us!) So we can't say more until THEY do, but this isn't just a rumor.
— Hollywood Horror Museum (@horrormuseum) September 27, 2019
“Não queremos meter ninguém em apuros (apenas por ser estúpido o suficiente para nos contar!). Então não podemos falar mais até que ELES falem, mas isso não é só um boato.”
E mais:
All we can say is, the people in charge are preparing for something big in 2020. Until the people who have a right to say more do, we have to stay silent.
— Hollywood Horror Museum (@horrormuseum) September 27, 2019
“Tudo que podemos dizer é que as pessoas que cuidam disso estão preparando algo grande pra 2020. Até que elas falem disso, teremos que ficar quietos.”
Não custa mencionar que filha de Lynch, Jennifer, faz parte do conselho deste museu do horror em Hollywood, Los Angeles. No dia seguinte, dia 30, o ator Michael Horse, o xerife Hawk, publica uma foto de seu personagem nos anos 90 vendo um pedido para manter silêncio em sua conta no Instagram.
E no dia seguinte, dia 1° de outubro, Kyle MacLachlan, o eterno Agente Cooper, twitta o seguinte:
Love this dapper suit, but definitely thinking about…donuts this morning 💭🍩 pic.twitter.com/mmutiMc75N
— Kyle MacLachlan (@Kyle_MacLachlan) October 1, 2019
“Amo este terno elegante, mas estou pensando em donuts nesta manhã.”
Neste domingo, dia 6 de outubro, completam exatos cinco anos que David Lynch e Mark Frost anunciaram a terceira temporada de sua série, algo que era considerado impossível e inconcebível e se revelou a grande obra de arte do século 21 até agora. Será que veremos a quarta temporada em 2020? Um filme? Uma versão em realidade virtual? Ou em ASMR? Ou é só um truque pra vender mais uma edição deluxe do Blu-ray?
ESTÁ ACONTECENDO DE NOVO!? SERÁ POSSÍVEL?
Na minha primeira colaboração para a revista da UBC – na edição número 41 – falo sobre como as transformações tecnológicas acabaram por virar o jornalismo que cobre música do avesso – pulverizando-a em centenas de novos autores que ainda não se conversam nem se organizam, por isso não são vistos como uma força importante, nem por si mesmos, muito menos pelo público.
A crítica de música nunca esteve tão viva
O estado de confusão e a sensação de fim de ciclo são sintomas de uma nova fase da produção jornalística musical brasileira, que está prestes a renascer em outra escala
É comum ouvirmos dizer que a crítica musical ou jornalismo voltado para a música desapareceu e que estas atividades, que antes eram resumidas diariamente nos cadernos de cultura dos principais jornais do país, perderam espaço para a agenda cultural, pauta onipresente nestas mesmas publicações.
Isso é uma generalização. Há uma profusão gigantesca de textos jornalísticos ou de opinião sobre a igualmente extensa produção musical brasileira. Mas se antes só precisávamos acompanhar determinados veículos para saber o que estava acontecendo, agora precisamos fazer um verdadeiro trabalho de mineração para descobrir onde se discute a produção musical brasileira atual, quem a discute e em que formato acontece esta discussão.
No princípio eram as revistas independentes e fanzines, que aos poucos migraram para a internet e se transformaram em revistas eletrônicas (ou e-zines). No final do século passado veio a invenção do blog – inicialmente um diário online de cunho pessoal -, que permitia que neófitos da rede pudessem publicar seus conteúdos sem entender de tecnologia e das linguagens eletrônicas que transformavam um texto em um site. Blogs e sites começaram a conviver numa espécie de realidade paralela que se expandiu em razão exponencial com a chegada das redes sociais, que impulsionaram ainda mais a autopublicação. E logo esta discussão não era nem mesmo mais escrita – e mesmo quando era, tornava-se fragmentada.
Estou falando de listas de discussão por email, fóruns online, comunidades digitais, grupos de interesses específicos no Facebook e discussões encadeadas no Twitter, canais no YouTube, perfis no LinkedIn, podcasts, textos no Medium, grupos no WhatsApp. Além da produção que foi para outras mídias para além das digitais: jornalistas que viraram biógrafos ou autores de livros sobre música, que transformaram críticas em teses acadêmicas, que realizam entrevistas com artistas em frente a um público pagante, que foram para a frente das câmeras ou para os microfones das rádios. A vasta produção de jornalismo e crítica musicais no país expande-se para atividades que não eram consideradas jornalísticas, como discotecagens, cobertura em mídias sociais, curadorias e direção artística.
O jornalismo passa, nesta segunda década do século, por uma situação semelhante à da música no início dos anos 2000. Quando o MP3 e o compartilhamento P2P permitiu que as pessoas tivessem acesso gratuito a todo o tipo de música, a música digital saiu de sua infância e entrou em uma puberdade que, como tal, tinha tons dramáticos. Era o apocalipse: o fim do mercado fonográfico como o conhecíamos, o fim das grandes gravadoras, o fim do CD e até falou-se no fim da música.
A mesma coisa acontece com as notícias, só que em vez de um software, a ameaça são as redes sociais – especificamente o ecossistema do Facebook (principalmente o WhatsApp). Ali o público não paga por notícias e as consome regurgitadas por amigos, parentes e desconhecidos, que copiam e colam textos sem dar a origem da informação, que publicam informações falsas como se fossem verdadeiras e criam novos vínculos de confiança, abandonando os velhos títulos que balizavam o mercado das notícias.
Os jornais impressos são como as gravadoras no final do século passado: lidam principalmente com um produto (o jornal ou o CD) e entram em parafuso com a novidade que espalha notícias para além de seus domínios. A fragmentação da sociedade em milhares de nichos a partir da popularização da internet, fez que ela perdesse eixos centrais na sustentação de realidade que determinavam parâmetros seguidos de forma coletiva globalmente e o jornalismo talvez tenha sido uma de suas vítimas mais emblemáticas. Como aconteceu com a indústria, a arte, a política e o entretenimento, a indústria da comunicação foi frontalmente atingida pela internet e pelas redes sociais. Rádio e TV sobreviveram às duras penas, enquanto a mídia impressa parece fatalmente ferida.
Mas isso é uma fase. O que vem acontecendo é uma reestruturação de parâmetros que nos faz perceber que o jornalismo de outrora agia exatamente como as redes sociais fazem hoje: reduzindo as informações a um único bloco de agentes, desprezando todos os outros que não dançavam conforme sua música. As redes sociais têm a desculpa de que este padrão é robótico, seu algoritmo é dirigido pela inteligência artificial. Antes, o algoritmo do jornalismo era humano e restringia o acesso do público às novidades a partir do gosto e dos interesses de um crítico ou um editor, criando a falsa ilusão de que aquelas escolhas eram a realidade musical existente.
Isso acabou. Jornalistas encastelados em suas torres de marfim, recebendo discos e informações privilegiadas direto dos artistas e da indústria e decidindo o que o público deve ler ou ouvir é um passado quase caricato de tão distante. O jornalista corre atrás das notícias, estabelece novos vínculos com artistas e produtores e expande os horizontes de seu público. O grande desafio atual é fazer este jornalismo chegar ao público de forma sustentável – desafio semelhante que a indústria da música tinha antes desta nova era de aplicativos de streaming. E do mesmo jeito que o Spotify ainda não é a melhor solução (outras virão em breve), um Spotify de notícias também não resolverá este problema – mas pensar em caçar e distribuir esta produção jornalística em vez de simplesmente considerá-la inexistente por não vir à superfície em escala industrial é a chave para voltarmos a ter um jornalismo de música consistente – e, diferente de antes, plural, acessível, profundo e divertido. A consciência desta nova fase é o primeiro passo desta redescoberta.














