Trabalho Sujo - Home

Clipe

coisahorrorosa

“A Coisa Horrorosa nunca foi pensada pra existir na internet, era só a desculpa que eu usava pra juntar meus amigos pra tocar”, me explica por email Tefo Maccarini, idealizador do grupo punk que lança seu primeiro EP em primeira mão no Trabalho Sujo. “A banda nunca foi pra ser séria, nem pra ter uma ‘presença virtual forte’ ou qualquer coisa assim mais voltada pro mercado. Agora com a pandemia eu resolvi criar um grupo de zap, mais pra manter todo mundo em contato do que pra produzir músicas ou ser uma banda”, ele continua.

3 Própria e 1 Cover de Cólera é puxada por “Ecocídio”, que gerou um lyric vídeo que Tefo organizou à distância, reunindo os amigos que já passaram pela banda. “O lance é que nunca conseguimos repetir a formação pelos mais variados motivos: morte na família, compromissos de trabalho, braço quebrado um dia antes do show. A própria banda que gravou o EP nunca fez um show com essa formação”, ele explica, citando o grupo formado por Fábio Bianchini (Superbug) na guitarra e Carol Werutsky e Dora Hoff (ambas do La Leuca) respectivamente na bateria e no baixo. “Td mundo que aparece no vídeo em algum momento já tocou alguma coisa na banda e tem saco pra participar do nosso grupo do zap. Tem mais pessoas que já tocaram na banda que acabou que eu nem convidei pra participar do vídeo porque organizamos tudo pelo grupo mesmo.”

A banda fez pouquíssimos shows porque nunca pensou dentro dessa lógica de banda. “A banda fez uns seis shows desde o primeiro no natal de 2018. A minha intenção inicial é que não fosse uma banda, era pra ser uma coisa mais tipo um happening com instrumentos musicais e que o humor estivesse presente nos shows com bastante liberdade pra fazer e falar merda. Sempre rola muita falação em cima do palco, pessoas aleatórias sobem pra cantar uma música ou pra falar alguma coisa no microfone, um ou outro show já teve momentos que se aproximavam de performance, é uma bagunça organizada feita pra quem tá vendo se informar e se divertir”, comemora o idealizador do grupo. “Essa ‘flexibilidade’ acabou possibilitando que a gente tocasse dois shows em SP no ano passado com formações diferentes e músicos que eu sempre quis tocar junto mas devido a minha falta de habilidade musical dificilmente ia ter essa oportunidade. As músicas mudam muito de show pra show, dependendo de quem tá tocando e de quem tá assistindo e quando eu percebi, isso se tornou na hora a coisa que eu mais gostava da Coisa Horrorosa. Nenhum show era igual ao anterior mesmo o repertório não mudando. Subindo no palco – que geralmente não é um palco é só uma divisão imaginária entre artista e público – eu sabia que nenhum show ia ser nem de perto parecido com o anterior e isso era uma das coisas que me mantém muito afim de continuar esse projeto. E essa rotatividade me deixou livre pra marcar shows em qualquer lugar que eu tivesse amigos e amigas que tivessem a fim de fazer uma bagunça e soubessem tocar 3 acordes.”

Ele explica a escolha do hino punk brasileiro “Pela Paz em Todo Mundo” no repertório do primeiro EP. “Cólera pra mim é a banda mais importante da história do punk brasileiro. A vida e a obra do Redson Pozzi é uma coisa que tem que ser estudada por todo mundo que se interessa pelo lado mais político do punk. É um cara que sempre levantou bandeiras que são muito caras pra mim, e antes de todo mundo. Pautas como antimilitarismo, antifascismo, ecologia, combate a fome, condição dos trabalhadores, pobreza e vida na cidade brasileira em uma época de repressão brutal tão nos discos do Cólera desde o Grito Suburbano. ‘Pela Paz’ foi um das primeiras músicas que eu aprendi a tocar e cantar inteira no violão e levei pro ensaio do último show da Coisa Horrorosa na intenção de fazer um cover. Ai eu brinquei que tinha feito uma versão indie, com uma guitarra um pouco menos retona assim, nisso a Carol, do La Leuca, já mandou uma linha de bateria que saiu diretamente do Arctic Monkeys de 2006 e a Dora já saiu acompanhando no baixo.”

Mas a versão do grupo punk foi responsável por mudar o disco para que ele entrasse no Spotify. “Foi uma exigência da distribuidora que não quer ficar mal com o Spotify. Cada distribuidora tem suas regras arbitrárias do que pode e do que não pode e a gente fica sempre sem saber o que vai ser a chatice da vez. A distribuidora do nosso selo – Stock-a Records – exigiu que todas as menções a palavra “cover” e “Cólera” fossem tiradas da arte e do nome do EP sem dar nenhum motivo além de ‘evitar problemas legais’. É o segundo problema já que eu pessoalmente tenho distribuindo música no Spotify, o EP de outra banda que eu tocava, o Amarelo Piscante, foi negado pela ONE Rpm porque o algoritmo da empresa acusou que o disco de ‘gravação amadora e excesso de barulho’. Isso não aconteceu só comigo, eu sei de outros músicos que tiveram problemas parecidos por terem colocado a palavra ‘cover’ em alguma faixa ou nome do disco, além de nomes conhecidos de lo-fi, noise, bedroom pop que tiveram a distribuição negada pelo Spotify porque o som não estava ‘limpo’ ou ‘profissional’ o suficiente.”

E quais são os planos de uma banda que foi criada para existir apenas ao vivo sobrevive numa época em que não se faz mais shows? “Nada menos do que a dominação mundial através da rede do internacional do pop underground”, ri Tefo. “Mas pra isso a gente precisa que a pandemia acabe. A Coisa Horrorosa existe pra reunir os amigos e fazer um som, até a gente conseguir fazer isso a banda está meio parada. Estamos em contato, conversando, tendo ideias bizarras, alguns estão compondo, tentando manter a chama acesa. Tem o sonho de tocar no Japão e fazer uma turnê pela América Latina mas eu acho que por enquanto isso não vai rolar. Também vamos participar da coletânea “Rock Triste Contra o Corona Vírus” com um mashup de “Canalha” do Walter Franco com “Uncontrollable Urge” do Devo. A coletânea é uma iniciativa de mais de 40 músicos da cena independente pra levantar grana pro Movimento de Luta nos Bairros que tá fazendo uma frente de combate ao COVID-19 em muitas quebradas e ocupações pelo Brasil. Temos uma página do Bandcamp em que toda sexta sai um cover de um desses artista. Você pode comprar por lá e toda grana vai pro movimento, também é possível doar direto pro movimento se você mora no Brasil.”

blackpantera-icantbreathe

O grupo mineiro Black Pantera lança a pesada “I Can’t Breathe”, composta em referência às últimas palavras de George Floyd, assassinado pela polícia norte-americana no fim do mês passado e estopim dos levantes que têm tomado os EUA na última semana.

Bob-Mould

O herói indie norte-americano Bob Mould anuncia seu décimo quarto álbum solo, Blue Hearts, que deve ser lançado em setembro e já está em pré-venda, com a pesada “American Crisis”, em que ele tem a proeza de rimar o título da canção com “evangelical ISIS”, para descrever o nível crítico de cisão política que seu país, como o nosso, atravessa:

Eis a capa do disco e o título das músicas:

Bob-Mould-Blue-Hearts

“Heart on My Sleeve”
“Next Generation”
“American Crisis”
“Fireball”
“Forecast of Rain”
“When You Left”
“Siberian Butterfly”
“Everyth!ng to You”
“Racing to the End”
“Baby Needs a Cookie”
“Little Pieces”
“Leather Dreams”
“Password to My Soul”
“The Ocean”

jairnaves2020

O paulistano Jair Naves começou a gravar seu próximo disco no início do ano, mas só conseguiu finalizar uma música antes da quarentena começar. “Em vez de esperar finalizarmos o restante do repertório para divulgarmos qualquer uma das canções, achei que faria sentido divulgar essa agora, mesmo não sendo o melhor momento em termos estratégicos, mercadológicos ou seja lá qual for o termo que você ache mais adequado”, escreveu em sua página no Facebook, explicando antecipar o lançamento de “Irrompe”, que também chega como clipe. “Embora tenham sido escritos quando o planeta ainda vivia a sua antiga normalidade, os versos dessa música ainda fazem sentido no contexto. Talvez até mais do que quando foram gravados. Entre as muitas leituras possíveis, gosto de pensar que ‘Irrompe’ fala não só sobre uma brutalidade coletiva irracional que surge aparentemente do nada e foge de qualquer controle, mas também sobre quem ou o que nos serve de abrigo quando tudo parece ter ficado difícil demais.”

Foto: Rodrigo Tinoco

Foto: Rodrigo Tinoco

Larissa Conforto segue sua transformação em Àiyé, desta vez destacando uma das músicas do primeiro EP – lançado no início da quarentena – num belo clipe filmado em Portugal, onde ela passou uma temporada no ano passado. “Pulmão” foi filmado nas regiões do Alentejo e do Vale do Tejo e a paisagem vazia e a dança solitária da cantora e compositora carioca ganha uma nova leitora à luz deste clima da pandemia. “Enche meu pulmão mas desgasta os meus ossos”, canta entre beats eletrônicos e acústicos, “Pesam as dúvidas do desconhecido, transborda o caos da rotina, livros nãos lidos não ensinam nada”.

waynecoyne2020

O grupo norte-americano Flaming Lips lança o primeiro single do ano, a bela e introspectiva “Flowers of Neptune 6”, uma balada composta por seu guitarrista Steven Drozd, cujo clipe flagra o líder e vocalista da banda Wayne Coyne, andando em sua bolha de isolamento social (hit da banda muito antes da pandemia nos assolar) por regiões desertas dos Estados Unidos, carregando a bandeira de seu país nos ombros quase com pesar. A vocalista Kacey Musgraves faz uma participação acompanhando o vocalista no refrão.

Yolatengomania!

yo-la-tengo-tom-courtenay

Ainda abrindo um baú de 25 anos de idade, o grupo Yo La Tengo resgata o clássico clipe de “Tom Courtenay” como parte das comemorações do relançamento de seu disco de 1995, Electr-O-Pura, que volta em formato duplo em setembro deste ano. É a primeira vez que o clipe aparece oficialmente no YouTube, no lugar daquelas versões velhas em fitas de vídeo gravadas por indies da época. E a história de como o trio nova-iorquino poderia ter aberto o show de volta dos Beatles nos anos 90 segue intacta tanto como um causo da história do rock, uma piada interna indie e uma crítica bem humorada às estranhas manias dos fãs – especificamente dos fãs de Beatles – e ao mainstream da indústria fonográfica:

O grupo aproveitou a oportunidade para lembrar histórias do clipe ao lado do diretor Phil Morrison em uma videoconferência, aproveitando para contar quem eram todos os atores e figurantes do clipe e que o próprio Tom Courtnay foi consultado para atuar como o empresário dos Beatles, além de, como no clipe, quase receber a presença de um beatle…

Eles são a banda mais legal do mundo, diz aí.

sharon-josh

Quando Sharon Van Etten juntou-se a Josh Homme para regravar uma versão lindíssima para “(What’s So Funny ‘Bout) Peace, Love and Understanding?”, do Elvis Costello, este lado do planeta ainda não estava cogitando entrar em quarentena e o isolamento social não era nem um futuro próximo. Mas como tudo mudou em poucos meses, os dois viram-se forçados a lançar a colaboração com um clipe gravado à distância, filmado com celulares, flagrando cada um em sua casa, ao redor dos filhos, dando uma conotação completamente diferente à canção original.

A colaboração também foi uma forma que Sharon achou para divulgar a live que fará nesta sexta-feira, tocando seu primeiro álbum, Because I Was in Love, só com seu violão. A transmissão será paga e realizada pelo site Seated e a arrecadação do evento irá para a banda e a equipe técnica da cantora, além de ajudar à National Independent Venue Association (como o nome diz, uma associação norte-americana de casas de shows independentes). Boa, Sharon!

disclosure--2020

O EP Ecstasy foi só um aperitivo. O duo inglês Disclosure começou a ameaçar músicas novas no começo do ano e logo revelou um EP que tinham na manga, o que lhe deixou com o campo das expectativas livre para anunciar seu terceiro álbum como uma surpresa. E assim os irmãos Howard e Guy Lawrence anunciam Energy, com o single homônimo, construído a partir de um discurso do pastor Eric Thomas, que eles já tinham sampleado na pedrada “When a Fire Starts to Burn”, em 2013. A percussão malemolente do início mostra como eles estão cada vez mais imersos na música negra, como o EP de fevereiro já mostrava, desta vez bebendo direto do samba brasileiro, que funciona como tempero para a base house quatro por quatro que carrega o groove da música. O hilário clipe faz clara referência a um dos quadros mais memoráveis do clássico de Tudo O Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo, Mas Tinha Medo de Perguntar, de Woody Allen.

Energy, que já está em pré-venda, será lançado no fim de agosto e contará com a participação de vários MCs, como Common, Slowthai, Syd, Kelis, entre outros. Eis a capa e o nome das músicas, abaixo:

disclosure-energy

“Watch Your Step (feat. Kelis)”
“Lavender (feat. Channel Tres)”
“My High (feat. Aminé and slowthai)”
“Who Knew? (feat. Mick Jenkins)”
“Douha (Mali Mali) (feat. Fatoumata Diawara)”
“Fractal (Interlude)”
“Ce N’est Pas (feat. Blik Bassy)”
“Energy”
“Thinking ’Bout You (Interlude)”
“Birthday (feat. Kehlani and Syd)”
“Reverie (feat. Common)”

tika2020

Gravado durante sua estada em Portugal, no ano passado, o primeiro clipe de Tika, “Nós”, que estreia em primeira mão aqui no Trabalho Sujo, aconteceu quase de improviso a partir do primeiro show que ela fez em Lisboa, quando tocou na rua e reconheceu, no público, o editor e diretor Fernando Coster e a performer Josefa Pereira. Sabendo que o amigo cineasta Luan Cardoso estava chegando em pouco tempo, pensou em juntar os três neste primeiro clipe e escolheram a faixa que batiza o EP que lançou no ano passado, “Nós”. Coster dirigiu, Luan fez a direção de fotografia e Josefa atuou ao lado de Tika, num clipe gravado na Balsa, casa em que a cantora se apresentou em sua temporada lusitana.

Ela também está prestes a lançar um compacto de seu projeto Passarim, em que recria o clássico disco de Tom Jobim de 1987 ao lado de Kika, João Leão e Igor Caracas, com produção de Victor Rice. E deve fazer algumas apresentações ao vivo na internet no formato guitarra e voz, além de manter colaborações com outros artistas e começar um projeto mais caseiro de músicas gravadas durante a quarentena, e começar a trabalhar em seu segundo álbum.