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Clipe

passarim30

Quando Tika, Kika, João Leão e Igor Caracas se juntaram para homenagear o disco que Tom Jobim lançou em 1987, mal sabiam o quanto esta união iria durar. “Estamos há três anos tocando o projeto que criamos sobre o álbum Passarim e nesse projeto reduzimos os arranjos de um disco gravado com orquestrações e coro para nossa formação de quatro integrantes – quatro vozes, bateria, piano, guitarra e sintetizador”, Kika relembra o início de Passarim30. “Fizemos uma pesquisa de timbres, escolhemos as frases mais marcantes do disco, tiramos as linhas vocais com fidelidade e gostamos do resultado, da sonoridade que alcançamos”. Agora o quarteto começa a gravitar em direção a outro mestre da música brasileira, João Gilberto, ídolo dos quatro, que é revisitado através de sua versão para “O Astronauta”, de Carlos Pingarrilho e Marcos Vasconcellos, lançada em primeira mão aqui no Trabalho Sujo no dia do primeiro aniversário sem sua presença entre nós, já que João morreu no ano passado.

“João Gilberto é uma grande referência pra nós, todos temos uma ligação muito forte com a obra dele. Quem lembrou de ‘Astronauta’ foi a Tika, que estava tirando essa harmonia no violão”, Kika continua. “Pensamos que a letra tinha um subtexto de despedida, ficamos imaginando o João Gilberto como sujeito da canção – ele agora mora só no pensamento ou então no firmamento… – e então decidimos que seria um presente pra ele, que se despediu ano passado quase em silêncio, sem muitas homenagens, sem uma nota oficial sequer. Concordamos que ele foi o maior artista brasileiro de todos os tempos, quisemos fazer nossa interpretação para ficar mais perto dele, como uma maneira de dizer que temos saudade e que sabemos o valor de tudo que ele deixou pra nós. O clipe é assinado por Guilherme ‘Guime’ Destro, que recolheu imagens do recôncavo baiano, filmadas numa vila de pescadores chamada Santiago do Iguape em Cachoeira, na Bahia, imagens que remetem às origens da nossa cultura e diversidade artística, além de já ser uma homenagem ao nosso homenageado, que é também baiano.”

O resultado, produzido por Victor Rice, é o primeiro registro fonográfico do grupo, que só havia se apresentado ao vivo, e traz o imaginário musical de João numa bossa nova setentista que acena para os timbres elétricos do soul e o jazz, mas sem perder o minimalismo e as harmonias ousadas do mestre baiano. “A mágica do João Gilberto está na interação da voz dele com o violão, na escolha dos acordes e tempos”, Kika continua falando sobre a versão. “Procuramos preservar ao máximo a harmonia dele e certas jogadas de tempo que ele faz. A maior dificuldade é a mesma de revisitar qualquer música da bossa nova, recriar algo que muitos julgam intocável, por isso temos um cuidado com a escolha do repertório, em não trazer temas que já foram exaustivamente revisitados.”

O registro faz com que o grupo pense para além da homenagem que vinha fazendo. “Há um tempo estamos trabalhando essa ideia de expansão do Passarim30”, continua a cantora. “Nós vemos um potencial enorme em um grupo formado por instrumentistas que são também compositores, produtores, cantores e têm o seu trabalho solo. Praticamente desde o início do projeto nós sempre demos um jeito de incluir alguma música autoral em nossos shows. Procuramos compor em parceria também, o que pode gerar um trabalho completamente autoral no futuro, mas esse primeiro passeio do grupo fora da obra do Tom com João Gilberto é uma consequência natural dessa nossa busca.” Além de “Astronauta”, o grupo também gravou “Borzeguim”, do Tom Jobim, que será lançada em breve.

ElvisCostello

Elvis Costello deixa a delicadeza das canções de lado e volta às suas raízes punk com o single “No Flag”, em que bate de frente com o patriotismo barato que domina esses nossos dias. Gravada em Helsinque, na Finlândia, em fevereiro, ela mostra que o veterano inglês não abandonou seus ideais básicos e volta a falar do que precisa ser dito, em uma época bizarra como esta que estamos vivendo.

Imagina um disco inteiro assim… Imagina…

coisahorrorosa

“A Coisa Horrorosa nunca foi pensada pra existir na internet, era só a desculpa que eu usava pra juntar meus amigos pra tocar”, me explica por email Tefo Maccarini, idealizador do grupo punk que lança seu primeiro EP em primeira mão no Trabalho Sujo. “A banda nunca foi pra ser séria, nem pra ter uma ‘presença virtual forte’ ou qualquer coisa assim mais voltada pro mercado. Agora com a pandemia eu resolvi criar um grupo de zap, mais pra manter todo mundo em contato do que pra produzir músicas ou ser uma banda”, ele continua.

3 Própria e 1 Cover de Cólera é puxada por “Ecocídio”, que gerou um lyric vídeo que Tefo organizou à distância, reunindo os amigos que já passaram pela banda. “O lance é que nunca conseguimos repetir a formação pelos mais variados motivos: morte na família, compromissos de trabalho, braço quebrado um dia antes do show. A própria banda que gravou o EP nunca fez um show com essa formação”, ele explica, citando o grupo formado por Fábio Bianchini (Superbug) na guitarra e Carol Werutsky e Dora Hoff (ambas do La Leuca) respectivamente na bateria e no baixo. “Td mundo que aparece no vídeo em algum momento já tocou alguma coisa na banda e tem saco pra participar do nosso grupo do zap. Tem mais pessoas que já tocaram na banda que acabou que eu nem convidei pra participar do vídeo porque organizamos tudo pelo grupo mesmo.”

A banda fez pouquíssimos shows porque nunca pensou dentro dessa lógica de banda. “A banda fez uns seis shows desde o primeiro no natal de 2018. A minha intenção inicial é que não fosse uma banda, era pra ser uma coisa mais tipo um happening com instrumentos musicais e que o humor estivesse presente nos shows com bastante liberdade pra fazer e falar merda. Sempre rola muita falação em cima do palco, pessoas aleatórias sobem pra cantar uma música ou pra falar alguma coisa no microfone, um ou outro show já teve momentos que se aproximavam de performance, é uma bagunça organizada feita pra quem tá vendo se informar e se divertir”, comemora o idealizador do grupo. “Essa ‘flexibilidade’ acabou possibilitando que a gente tocasse dois shows em SP no ano passado com formações diferentes e músicos que eu sempre quis tocar junto mas devido a minha falta de habilidade musical dificilmente ia ter essa oportunidade. As músicas mudam muito de show pra show, dependendo de quem tá tocando e de quem tá assistindo e quando eu percebi, isso se tornou na hora a coisa que eu mais gostava da Coisa Horrorosa. Nenhum show era igual ao anterior mesmo o repertório não mudando. Subindo no palco – que geralmente não é um palco é só uma divisão imaginária entre artista e público – eu sabia que nenhum show ia ser nem de perto parecido com o anterior e isso era uma das coisas que me mantém muito afim de continuar esse projeto. E essa rotatividade me deixou livre pra marcar shows em qualquer lugar que eu tivesse amigos e amigas que tivessem a fim de fazer uma bagunça e soubessem tocar 3 acordes.”

Ele explica a escolha do hino punk brasileiro “Pela Paz em Todo Mundo” no repertório do primeiro EP. “Cólera pra mim é a banda mais importante da história do punk brasileiro. A vida e a obra do Redson Pozzi é uma coisa que tem que ser estudada por todo mundo que se interessa pelo lado mais político do punk. É um cara que sempre levantou bandeiras que são muito caras pra mim, e antes de todo mundo. Pautas como antimilitarismo, antifascismo, ecologia, combate a fome, condição dos trabalhadores, pobreza e vida na cidade brasileira em uma época de repressão brutal tão nos discos do Cólera desde o Grito Suburbano. ‘Pela Paz’ foi um das primeiras músicas que eu aprendi a tocar e cantar inteira no violão e levei pro ensaio do último show da Coisa Horrorosa na intenção de fazer um cover. Ai eu brinquei que tinha feito uma versão indie, com uma guitarra um pouco menos retona assim, nisso a Carol, do La Leuca, já mandou uma linha de bateria que saiu diretamente do Arctic Monkeys de 2006 e a Dora já saiu acompanhando no baixo.”

Mas a versão do grupo punk foi responsável por mudar o disco para que ele entrasse no Spotify. “Foi uma exigência da distribuidora que não quer ficar mal com o Spotify. Cada distribuidora tem suas regras arbitrárias do que pode e do que não pode e a gente fica sempre sem saber o que vai ser a chatice da vez. A distribuidora do nosso selo – Stock-a Records – exigiu que todas as menções a palavra “cover” e “Cólera” fossem tiradas da arte e do nome do EP sem dar nenhum motivo além de ‘evitar problemas legais’. É o segundo problema já que eu pessoalmente tenho distribuindo música no Spotify, o EP de outra banda que eu tocava, o Amarelo Piscante, foi negado pela ONE Rpm porque o algoritmo da empresa acusou que o disco de ‘gravação amadora e excesso de barulho’. Isso não aconteceu só comigo, eu sei de outros músicos que tiveram problemas parecidos por terem colocado a palavra ‘cover’ em alguma faixa ou nome do disco, além de nomes conhecidos de lo-fi, noise, bedroom pop que tiveram a distribuição negada pelo Spotify porque o som não estava ‘limpo’ ou ‘profissional’ o suficiente.”

E quais são os planos de uma banda que foi criada para existir apenas ao vivo sobrevive numa época em que não se faz mais shows? “Nada menos do que a dominação mundial através da rede do internacional do pop underground”, ri Tefo. “Mas pra isso a gente precisa que a pandemia acabe. A Coisa Horrorosa existe pra reunir os amigos e fazer um som, até a gente conseguir fazer isso a banda está meio parada. Estamos em contato, conversando, tendo ideias bizarras, alguns estão compondo, tentando manter a chama acesa. Tem o sonho de tocar no Japão e fazer uma turnê pela América Latina mas eu acho que por enquanto isso não vai rolar. Também vamos participar da coletânea “Rock Triste Contra o Corona Vírus” com um mashup de “Canalha” do Walter Franco com “Uncontrollable Urge” do Devo. A coletânea é uma iniciativa de mais de 40 músicos da cena independente pra levantar grana pro Movimento de Luta nos Bairros que tá fazendo uma frente de combate ao COVID-19 em muitas quebradas e ocupações pelo Brasil. Temos uma página do Bandcamp em que toda sexta sai um cover de um desses artista. Você pode comprar por lá e toda grana vai pro movimento, também é possível doar direto pro movimento se você mora no Brasil.”

blackpantera-icantbreathe

O grupo mineiro Black Pantera lança a pesada “I Can’t Breathe”, composta em referência às últimas palavras de George Floyd, assassinado pela polícia norte-americana no fim do mês passado e estopim dos levantes que têm tomado os EUA na última semana.

Bob-Mould

O herói indie norte-americano Bob Mould anuncia seu décimo quarto álbum solo, Blue Hearts, que deve ser lançado em setembro e já está em pré-venda, com a pesada “American Crisis”, em que ele tem a proeza de rimar o título da canção com “evangelical ISIS”, para descrever o nível crítico de cisão política que seu país, como o nosso, atravessa:

Eis a capa do disco e o título das músicas:

Bob-Mould-Blue-Hearts

“Heart on My Sleeve”
“Next Generation”
“American Crisis”
“Fireball”
“Forecast of Rain”
“When You Left”
“Siberian Butterfly”
“Everyth!ng to You”
“Racing to the End”
“Baby Needs a Cookie”
“Little Pieces”
“Leather Dreams”
“Password to My Soul”
“The Ocean”

jairnaves2020

O paulistano Jair Naves começou a gravar seu próximo disco no início do ano, mas só conseguiu finalizar uma música antes da quarentena começar. “Em vez de esperar finalizarmos o restante do repertório para divulgarmos qualquer uma das canções, achei que faria sentido divulgar essa agora, mesmo não sendo o melhor momento em termos estratégicos, mercadológicos ou seja lá qual for o termo que você ache mais adequado”, escreveu em sua página no Facebook, explicando antecipar o lançamento de “Irrompe”, que também chega como clipe. “Embora tenham sido escritos quando o planeta ainda vivia a sua antiga normalidade, os versos dessa música ainda fazem sentido no contexto. Talvez até mais do que quando foram gravados. Entre as muitas leituras possíveis, gosto de pensar que ‘Irrompe’ fala não só sobre uma brutalidade coletiva irracional que surge aparentemente do nada e foge de qualquer controle, mas também sobre quem ou o que nos serve de abrigo quando tudo parece ter ficado difícil demais.”

Foto: Rodrigo Tinoco

Foto: Rodrigo Tinoco

Larissa Conforto segue sua transformação em Àiyé, desta vez destacando uma das músicas do primeiro EP – lançado no início da quarentena – num belo clipe filmado em Portugal, onde ela passou uma temporada no ano passado. “Pulmão” foi filmado nas regiões do Alentejo e do Vale do Tejo e a paisagem vazia e a dança solitária da cantora e compositora carioca ganha uma nova leitora à luz deste clima da pandemia. “Enche meu pulmão mas desgasta os meus ossos”, canta entre beats eletrônicos e acústicos, “Pesam as dúvidas do desconhecido, transborda o caos da rotina, livros nãos lidos não ensinam nada”.

waynecoyne2020

O grupo norte-americano Flaming Lips lança o primeiro single do ano, a bela e introspectiva “Flowers of Neptune 6”, uma balada composta por seu guitarrista Steven Drozd, cujo clipe flagra o líder e vocalista da banda Wayne Coyne, andando em sua bolha de isolamento social (hit da banda muito antes da pandemia nos assolar) por regiões desertas dos Estados Unidos, carregando a bandeira de seu país nos ombros quase com pesar. A vocalista Kacey Musgraves faz uma participação acompanhando o vocalista no refrão.

Yolatengomania!

yo-la-tengo-tom-courtenay

Ainda abrindo um baú de 25 anos de idade, o grupo Yo La Tengo resgata o clássico clipe de “Tom Courtenay” como parte das comemorações do relançamento de seu disco de 1995, Electr-O-Pura, que volta em formato duplo em setembro deste ano. É a primeira vez que o clipe aparece oficialmente no YouTube, no lugar daquelas versões velhas em fitas de vídeo gravadas por indies da época. E a história de como o trio nova-iorquino poderia ter aberto o show de volta dos Beatles nos anos 90 segue intacta tanto como um causo da história do rock, uma piada interna indie e uma crítica bem humorada às estranhas manias dos fãs – especificamente dos fãs de Beatles – e ao mainstream da indústria fonográfica:

O grupo aproveitou a oportunidade para lembrar histórias do clipe ao lado do diretor Phil Morrison em uma videoconferência, aproveitando para contar quem eram todos os atores e figurantes do clipe e que o próprio Tom Courtnay foi consultado para atuar como o empresário dos Beatles, além de, como no clipe, quase receber a presença de um beatle…

Eles são a banda mais legal do mundo, diz aí.

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Quando Sharon Van Etten juntou-se a Josh Homme para regravar uma versão lindíssima para “(What’s So Funny ‘Bout) Peace, Love and Understanding?”, do Elvis Costello, este lado do planeta ainda não estava cogitando entrar em quarentena e o isolamento social não era nem um futuro próximo. Mas como tudo mudou em poucos meses, os dois viram-se forçados a lançar a colaboração com um clipe gravado à distância, filmado com celulares, flagrando cada um em sua casa, ao redor dos filhos, dando uma conotação completamente diferente à canção original.

A colaboração também foi uma forma que Sharon achou para divulgar a live que fará nesta sexta-feira, tocando seu primeiro álbum, Because I Was in Love, só com seu violão. A transmissão será paga e realizada pelo site Seated e a arrecadação do evento irá para a banda e a equipe técnica da cantora, além de ajudar à National Independent Venue Association (como o nome diz, uma associação norte-americana de casas de shows independentes). Boa, Sharon!