Vida Fodona #578: 23 anos do Trabalho Sujo

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23 em quase sete horas.

Red Hot Chili Peppers – “One Hot Minute”
Linguachula – “Língua”
Karnak – “Cala A Boca Menina(o)”
Beck – “Novacane”
DJ Shadow – “What Does Your Soul Look Like, Pt. 4”
Olivia Tremor Control – “Define a Transparent Dream”
Legião Urbana – “Leila”
Blur – “Look Inside America”
Yo La Tengo – “Autumn Sweater”
Grenade – “Rubber Maid Heart”
Chemical Brothers – “Elektrobank”
Radiohead – “Electioneering”
Racionais MCs – “Tô Ouvindo Alguém Me Chamar”
Beastie Boys – “Three MCs and One DJ”
Massive Attack – “Exchange”
Pulp – “This is Hardcore”
Suede – “Everything Will Flow”
Flaming Lips – “The Spark That Bled”
Built to Spill – “Center of the Universe”
Planet Hemp – “12 Com Dezoito”
Mundo Livre S/A – “O Mistério do Samba”
Avalanches – “Since I Left You”
Wado – “Uma Raiz, Uma Flor”
Los Hermanos – “Retrato pra Iaiá”
Playgroup – “Number One”
N*E*R*D – “Run to the Sun”
Casino – “Samba-Dada”
Daft Punk – “Something About Us”
De Leve – “Essa é pros Amigos”
Marcelo D2 – “A Maldição do Samba”
BNegão + Seletores de Frequência – “V.V.”
Gabriel Muzak – “Estética Terceiro Mundo”
Danger Mouse – “My 1st Song”
Outkast – “Roses”
Curumin – “Solidão Gasolina”
Mombojó – “Absorva”
Hurtmold – “Chuva Negra”
Wilco – “At Least That’s What You Said”
Nação Zumbi – “Na Hora De Ir”
Supercordas – “3000 folhas”
Kassin + 2 – “Futurismo”
Gnarls Barkley – “Crazy”
Spoon – “Rhthm & Soul”
National – “Brainy”
Apples in Stereo – “Energy”
Vanguart – “Semáforo”
Benji Hughes – “You Stood Me Up”
Cut Copy – “Hearts on Fire”
Midnight Juggernauts – “Into the Galaxy”
Ladyhawke – “Paris is Burning”
Miami Horror – “Sometimes”
Xx – “Crystalised”
Cidadão Instigado – “Contando Estrelas”
Céu – “Bubuia”
Nina Becker – “Toc Toc”
Tulipa Ruiz – “A Ordem das Árvores”
Breakbot + Irfane – “Baby I’m Yours”
Metronomy – “The Bay”
Washed Out – “Eyes Be Closed”
Destroyer – “Kaputt”
Lana Del Rey – “Video Games”
Rapture – “Miss You”
Chromatics – “Lady”
Sexy Fi – “Looking Asa Sul, Feeling Asa Norte”
Frank Ocean – “Lost”
Poolside – “Harvest Moon”
Sambanzo – “Capadócia”
Arcade Fire – “Porno”
Glue Trip – “Elbow Pain”
My Bloody Valentine – “New You”
Unknown Mortal Orchestra – “So Good at Being in Trouble”
Lorde – “Royals”
Kendrick Lamar – “Bitch Don’t Kill My Vibe”
Sia – “Chandelier”
Criolo + Juçara Marçal – “Fio de Prumo (Padê Onã)”
Bixiga 70 – “100% 13”
Taylor Swift – “Blank Space”
Siba – “O Inimigo Dorme”
Ava Rocha – “Transeunte Coração”
Boogarins – “6000 Dias (Ou Mantra Dos 20 Anos)”
Tame Impala – “Let It Happen (Soulwax Remix)”
Emicida – “Mandume”
Beyoncé – “Formation”
Rihanna – “Needed Me”
Solange – “Cranes in the Sky”
BaianaSystem – “Cigano”
Otto – “Soprei”
Don L – “Eu Não Te Amo”
Flora Matos – “10:45”
Thundercat – “Friend Zone”
Angel Olsen – “Special”
Courtney Barnett – “Need a Little Time”
Stephen Malkmus + The Jicks – “Kite”
Karol Conká – “Fumacê”
Baco Exu do Blues + Tuyo – “Flamingos”
Luiza Lian – “Mira”

Vida Fodona #567: Tudo voltar ao normal

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Esperando entrar setembro…

Erasmo Carlos – “26 Anos de Vida Normal”
Cramps – “Human Fly”
Blood Orange – “Charcoal Baby”
Bolerinho – “Necrópsia do Nosso Caso de Amor”
Memory Tapes – “Green Knight”
Letuce – “Fio Solto”
JJ – “Things Will Never Be the Same”
Paul McCartney – “Ram On”
Rockers Control – “Soltinho Dub”
Gilberto Gil – “OK OK OK”
Tim Maia – “João Coragem”
Pink Floyd – “Sheep”
Alphabeat – “Digital Love”
Cidadão Instigado – “Contando Estrelas”
Of Montreal – “Spoonful Of Sugar”
Caetano Veloso – “Trem das Cores”
Teenage Fanclub – “Neil Jung”

17 de 2017: 5) Virada Cultural no CCSP

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Outro senhor desafio foi levar a Virada Cultural para a Sala Adoniran Barbosa do Centro Cultural São Paulo, fazendo-a girar 24 horas com shows gratuitos que contemplavam a nova fase da música brasileira. Um desafio interno, principalmente, para convencer a produção do CCSP que era possível fazer trocas de palco em menos de uma hora, que havia público para assistir a shows às quatro da manhã e que todos os shows estariam lotados. Dito e feito: Juçara Marçal, Anelis Assumpção, Mariana Aydar, Cidadão Instigado, Mahmundi, Bárbara Eugenia, Siba, Karina Buhr, Curumin e Tiê transformaram a arena do Centro Cultural em um palco intenso e vivo, reflexo da ótima fase que atravessa nossa música.

Fagner e Cidadão pirateados

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O sagaz Olvécio Estava Lá disponibiliza mais um de seus bootlegs, desta vez capturando a reunião de 2011 entre dois ícones da canção cearense.

Os indicados de 2017 da APCA

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Mais uma leva de indicados às categorias anuais da categoria de melhores do ano em Música Popular de acordo com o júri da Associação Paulista de Críticos de Arte, do qual faço parte. Depois das duas levas de discos (do primeiro e do segundo semestre), agora é a vez de saber quem são os indicados nas categorias artista do ano, show do ano, artista revelação e música do ano. A Adriana os antecipou em sua coluna no UOL e eu os trago pra cá. São eles:

ARTISTA DO ANO
Anitta
Chico Buarque
Mano Brown
Rincon Sapiência
Tim Bernardes

SHOW DO ANO
Cidadão Instigado – 20 anos
Curumin – (Boca ao vivo)
Far From Alaska – (Unlikely ao vivo)
Luiza Lian – (Oyá Tempo ao vivo)
Mano Brown – (Boogie Naipe ao vivo)

ARTISTA REVELAÇÃO
Baco Exu do Blues
Giovani Cidreira
Linn da Quebrada
My Magical Glowing Lens
Pabllo Vittar

MÚSICA DO ANO
Baco Exu do Blues – “Te Amo Disgraça”
Chico Buarque – “As Caravanas”
MC Fioti – “Joga o Bum Bum Tam Tam”
Pabllo Vittar – “K.O.”
Rincon Sapiência – “Meu Bloco”

Além de mim, votaram também nos indicados Marcelo Costa e José Norberto Flesch. O resultado da votação será divulgada na semana que vem.

O rock brasileiro do século vinte e um

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O UOL celebrou o dia do rock e me pediram pra elencar dez bandas de rock para calar a boca de quem diz que não existe mais rock feito no Brasil lá no meu blog.

Uma reclamação constante que ganha força no infame “dia do rock” é que não há mais rock bom sendo feito no Brasil. Normalmente esta reclamação vem de gente que se acostumou a acompanhar as novidades pelo rádio, um meio que, infelizmente, preferiu optar pela redundância comercial do que pela curiosidade artística. E o próprio rock preferiu se distanciar. Se escondendo em rótulos e nichos, várias bandas conseguem se estabelecer longe das massas, criando carreiras e discografias sólidas em anos de trabalho. Algumas até flertam com o mercado pop mas acabam sendo ofuscada pela ostentação intensa de artistas de forte apelo popular. Mas, sim, há muita banda boa fazendo rock atualmente. Separei dez das que considero mais representativas na atual cena do Brasil, mas quem quiser citar mais nomes, por favor, use a área de comentários para isso (e não para seguir reclamando de que não há nada de novo, sem nem se dar ao trabalho de ouvir as bandas).

Autoramas
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A decana banda liderada por Gabriel Thomaz – que hoje conta com a esposa Érica Martins (ex-Penélope) na formação – já pode ser considerada um clássico do atual rock brasileiro. Contemporânea do grupo Los Hermanos, o hoje quarteto começou como um trio e rebola entre o rock mais dançante e sujo dos anos 60 e a new wave e o punk rock dos anos 70, com letras em português e refrões grudentos. Seu disco mais recente, O Futuro dos Autoramas, prova que é possível ser pesado e fazer dançar sem deixar de soar rock.

The Baggios

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A dupla sergipana – que agora é um trio – lançou um dos discos mais pesados do ano passado, o excelente Brutown, e aos poucos também se estabelece como uma das bandas que mais circulam pelo circuito independente do país. Rock bruto e cru com letras em português para não deixar ninguém parado.

Boogarins

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A principal banda da nova cena psicodélica brasileira, o grupo goiano Boogarins foi responsável por dar origem a toda uma nova safra de bandas que bebem tanto no rock lisérgico dos anos 60 quanto no indie rock deste século. Vocais sussurrados, guitarras derretidas e uma cozinha precisa cravam a precisão do grupo, que acaba de lançar o ousado Lá Vem a Morte, flertando com a eletrônica e a pós-produção. Seu disco anterior, o já clássico Manual Guia Livre de Dissolução dos Sonhos, é um dos principais trabalhos de rock brasileiro deste século.

Cidadão Instigado

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Liderada pelo guitar hero Fernando Catatau, a banda cearense Cidadão Instigado já se estabeleceu como uma banda contemporânea de rock clássico e completa, neste ano, duas décadas de atividade. Com os pés no rock dos anos 70 e a cabeça entre praias ensolaradas e a o concreto quente, o grupo é conhecido por viagens instrumentais pesadas que orbitam entre o rock psicodélico, o rock progressivo e o art rock, com um sotaque definitivamente brasileiro. Seu disco mais recente, o manifesto Fortaleza, também é seu disco mais pesado.

E a Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante

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Quarteto paulistano de pós-rock, o grupo E a Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante explora paisagens sonoras com timbres pesados e levada ambient, criando pinturas instrumentais de texturas pesadas e forte carga emotiva. Estão lentamente compondo e gravado seu disco de estreia, e seu lançamento mais recente (o single com as músicas “Medo de Morrer” e “Medo de Tentar”) captura sua intensidade melancólica.

Far from Alaska

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Reconhecidos inclusive no exterior, a banda potiguar Far from Alaska é um dos principais nomes do nu metal brasileiro e acaba de gravar seu segundo disco, Unlikely, que será lançado ainda neste semestre. O single de “Cobra”, igualmente pesado e melódico, é uma ótima amostra do que podemos esperar deste novo disco.

Maglore

maglore

Banda baiana liderada pelo compositor Teago Oliveira está prestes a lançar seu quarto disco e o culto ao redor de suas canções e apresentações segue crescendo. Com fortes cores melódicas, o grupo segue a trilha abandonada pelos Los Hermanos no terceiro disco, sem perder a força elétrica dos riffs e solos de guitarra. O terceiro disco da banda, chamado apenas de III, é uma ótima porta de entrada para o trabalho do grupo.

Rakta

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Banda paulistana de formação feminina, o Rakta é minha banda brasileira de rock favorita atualmente. Sem guitarra, concentram o ruído entre as linhas de baixo de Carla Boregas e os teclados de Paula Rebellato, que também tocam percussão no meio do show, transformando a apresentação em um ritual de bruxaria elétrica. As influências vão da no wave ao krautrock, passando pela psicodelia e pelo pós-punk – e seu terceiro disco, batizado apenas de III, é uma obra-prima.

O Terno

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Trio liderado por Tim Bernardes (filho do Mulheres Negras Maurício Pereira), O Terno é uma usina de som e seus shows são catárticos. Entre o rock épico, a psicodelia e a música brasileira, eles bebem tanto em bandas clássicas dos anos 60 quanto em ícones dos anos 80 e malditos da MPB, fazendo um amálgamo sonoro intenso, elétrico e com letras que apelam para a metalinguagem. Seu disco mais recente, Melhor do Que Parece, é mais melancólico que as apresentações do grupo – por isso escolho o segundo disco, batizado apenas com o nome da banda.

Ventre

ventre

Outro grupo que segue levantando a bandeira do rock melódico que já foi dos Los Hermanos, o trio carioca Ventre é conhecido por suas apresentações intensas e por entortar soluções pop de forma inusitada, além da presença carismática da baterista Larissa Conforto, gigante em seu instrumento. Seu disco de estreia, homônimo, já é um dos grandes discos de rock brasileiro desta década.

20 anos de Cidadão Instigado

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A banda cearense Cidadão Instigado encerrou o ciclo do disco Fortaleza no show que fizeram na Virada Cultural do Centro Cultural São Paulo – e a partir deste fim de semana começa a comemorar duas décadas de atividade com dois shows no Sesc Pompeia, nesta sexta e sábado (mais informações aqui), que devem se espalhar para outras cidades em breve. Além dos shows, que prometem músicas de todas fases da banda, toda discografia do grupo foi lançada em vinil numa caixa luxuosa bolada pelo selo EAEO (que está nas últimas unidades!). Hoje o Cidadão firmou-se em uma formação que reúne o líder, criador e guitar hero Fernando Catatau, o baterista Clayton Martin e os multiinstrumentistas Régis Damasceno, Rian Batista e Dustan Gallas, além do sexto elemento – que pilota o som da banda de fora do palco – Yuri Kalil. Conversei com o Catatau sobre estas duas décadas instigadas.

O que você fazia antes de criar o Cidadão Instigado?
Essa é uma pergunta bem abrangente… Fiz muitas coisas antes de montar o Cidadão. Em termos musicais eu toquei em uma banda quando eu tinha 14 anos que se chamava Ultra Leve. Entrei na banda já formada que tocava rock nacional e tinha algumas composições próprias. Fizemos duas apresentações e depois parei de tocar pra andar de skate. Depois do skate surfei de bodyboard e foi a época que conheci o Regis Damasceno e o Junior Boca. Quando ouvi as músicas do Boca eu achei que tínhamos que ter uma banda e assim montamos a Companhia Blue. A banda durou quatro anos, entre 90 e 94, até que eu e Boca viemos para São Paulo. Daí o Boca teve que voltar pra Fortaleza e foi nessa época que eu comecei a compor as músicas que dariam origem ao Cidadão Instigado.

Como a banda começou? Qual era a primeira formação?
Morei um ano em São Paulo e um ano no Rio entre 1994 e 1995. Nesse período eu fiquei muito tempo só compondo e imaginando a banda. Em 1996 eu voltei pra Fortaleza e montei a primeira formação do Cidadão. Lembro que fui chamando alguns amigos que eu conhecia e todos ficavam meio intrigados com as músicas mas iam topando pela amizade. A primeira formação era eu na voz e guitarra, Rian Batista no baixo, Marcos P.A. na zabumba, Otto Junior na percussão, Amaury Fontenele no teclado, Danilo Guilherme e Ludmila Mourão nos vocais.

Como essa formação evoluiu da original para a da primeira demo?
No começo, tivemos muitas formações, até porque era um momento de testes e tentativas, e como eu era muito obsessivo ficava testando todo tipo de instrumentação e arranjos. Naturalmente, algumas pessoas iam saindo e outras entrando pois manter uma banda em Fortaleza não era uma tarefa muito fácil naquela época. Aos poucos os amigos mais antigos foram se aproximando. Um dia vi o Fil que fazia nossa arte gráfica tirando um som e disse que ele ia tocar zabumba. No começo ele recusou mas depois aceitou a proposta e ficou com a gente até o Ciclo da Dê.Cadência. Dustan (Gallas) que tinha acabado de voltar da gringa entrou tocando caixa e prato e o Danilo Guilherme que fazia vocais começou a tocar percussão. Essa foi a formação do EP.

Depois você veio morar em São Paulo e lançou o disco com o Instituto, O Ciclo da Dê.Cadência. Como aconteceu esse encontro?
Eu voltei pra morar em SP em 2001. Nós já tínhamos todas as músicas do Ciclo bem ensaiadas e massacradas. Passamos muito tempo tocando elas até serem gravadas. Quando chegamos pra tocar em São Paulo pela primeira vez foi no projeto Nordestes no Sesc Pompéia. Lembro que quem fechava a noite era o Otto e foi nesse dia que conheci a banda e o Daniel Ganjaman. Trocando uma idéia com o Ganja sobre gravação ele me falou sobre o estúdio da família dele. o El Rocha. Daí me organizei pra gente ir gravar lá. Ao mesmo tempo que o disco ficava pronto o Ganja estava abrindo um selo, o Instituto, junto com o Rica e o Tejo, e nos convidaram para lançar por eles.

Depois veio o Método Tufo de Experiências. Conte a história desse disco.
Na época do Método foi um período bem complexo. Eu já não aguentava mais o que vínhamos fazendo. Entrei em uma grande crise existencial e com o Cidadão Instigado e pensei em acabar a banda e montar meu projeto solo que se chamaria Fernando Catatau e o Método Túfo de Experiências. Em vez de acabar a banda resolvi transformar nosso som e mudar o caminho que a gente vinha traçando. “Minha Imagem Roubada” que foi a ultima música que fiz pro Ciclo já me levava pra outros rumos. Nessa época, em 2001, eu me mudei novamente pra São Paulo e mais uma vez passei por um período de adaptação difícil que foi se refletindo nas músicas. Foi um disco de cortes radicais na vida, dores de amor… É por isso tem varias músicas cheias de emoção. Ficava ouvindo Roberto Carlos, Bee Gees, Genival Santos e varias músicas do meu passado pra tentar resgatar um pouco das minhas lembranças de Fortaleza pra esse novo momento em São Paulo.

Foi a partir dessa época que a formação se estabeleceu, certo?
Foi mais ou menos por essa época. Até o Método ainda tínhamos o lance da bateria desmembrada em caixa e prato e zabumba e quando mudei pra São Paulo e ainda na transição Ciclo/Túfo eu conheci o Clayton que tocava com o Júpiter Maçã e o chamei pra tocar na banda. Na primeira vez que o convidei ele recusou dizendo que não gostava muito desses sons regionais… Eu achei engraçado. Conhecendo ele hoje, sei que era só da boca pra fora. Na mesma época conheci o Mauricio Takara que é irmão do Ganja que chamei pra tocar zabumba. Com o tempo o Takara desistiu da zabumba e tentamos adaptar as musicas pra bateria e o Clayton assumiu. Nessa época o Regis decidiu vir morar em Sao Paulo também e aos poucos a banda foi se reestruturando.

Cinco anos depois vocês lançaram o Uhuuu!, um disco bem mais pra cima e solar. Conte a história desse disco.
Esse foi um disco que eu considero de renascimento pra mim. Depois de passar por esse período bem intenso da minha vida, eu começei a me reerguer e buscar uma vida mais leve e de reconexão com os amigos e principalmente com Fortaleza, daí as músicas que eu ia fazendo vinham com esse espírito. Até o Uhuuu!, o Dustan, que tinha sido na época do Ciclo ainda não tinha voltado e foi nesse clima de reconexão que ele voltou pra banda. Considero um retrato bem sincero desse momento de astral maresia despreocupado.

Entre Uhuuu! e Fortaleza vocês tiveram a fase do Dark Side of the Moon. Como foi esse período?
Na real a fase Dark Side foi no fim do Fortaleza. Já estávamos no fim das gravações do Fortaleza quando o Ramiro nos chamou pra fazer o disco Dark Side of the Moon do Floyd na integra pro projeto 73 Rotações. A priori eu recusei pela responsabilidade ser muito grande e por eu não me garantir de cantar em inglês mas quando os meninos falaram que eles cantariam eu fui mudando de opinião. Foi aquele momento em que já estávamos exaustos com as gravações do disco, com os shows repetidos do Uhuu! daí recebemos a proposta como algo massa. Aprender a tocar esse disco que é um dos mais marcantes na nossa vida foi o melhor presente de todos.

Finalmente, Fortaleza. É o disco de vocês que mais levou tempo para sair. Ele reflete uma maturidade da banda?
A demora foi além de tudo um processo natural. Aquela tentativa de se transformar. Eu sentia que não podíamos fazer outro Uhuu! e sair daquela sonoridade não foi nada fácil. O Uhuu! foi um começo de reconexão com Fortaleza. Com o lado praiano, dos amigos, da maresia, do astral… Já no Fortaleza eu sinto que foi o reconhecimento de um outro lado. Talvez o nosso verdadeiro lado dark side que é o de uma cidade enraizada no coronelismo, cheio de pessoas talentosas mas que são eternamente podadas, das grades, dos prédios, das diferenças sociais, da marginalidade. A realidade é que sempre foi muito difícil aceitar essas lado torto de Fortaleza, mas essa é a realidade da cidade e não da pra fugir. Quando comecei esse processo de reconexão tudo foi exposto e isso se refletiu nas musicas do Fortaleza. Aceitar, caminhar com essas diferenças e principalmente tentar de alguma maneira melhorar essas situações fazem bem mais sentido hoje pra mim. Mais do que se distanciar.

E como vocês começaram a pensar nos 20 anos da banda?
Quando percebemos que estávamos fazendo 20 anos de banda ja pensamos automaticamente em comemorar. Estarmos juntos por tanto tempo e levando as coisas como a gente sempre quis é uma vitória. Então não tinha como não comemorar. Somos amigos, tocamos juntos desde adolescentes, agora somos uma banda com uma discografia completa em LP e o melhor de tudo: ainda gostamos muito do que fazemos. Vamos comemorar!

Fale sobre a caixa de vinis.
O lance da caixa foi algo muito especial pra gente. O João que é dono do selo EAEO resolveu bancar a discografia inteira pensando na nossa comemoração de 20 anos. Eu nem tenho nem palavras pra dizer o quanto ficamos felizes com isso tudo, é como se agora fizesse um pouco mas de sentido. Somos todos de uma época em que comprar um LP era algo muito especial. Eu ficava olhando a capa, os detalhes, era um tempo de romantismo musical e agora termos todos os LPs de uma só vez, o EP em cassete… Emociona a galera das antigas…

E esses shows do Sesc Pompeia, passam por todas as fases?
Esse show tá sendo uma doidêra. Tivemos que ouvir os discos antigos pra conseguir entrar em todos os climas de emoção de cada época e confesso que me trouxe a tona várias coisas que faziamos e que tinhamos deixado de lado, principalmente na época do EP e do Ciclo. Vamos passar por todas as fases e se aprofundar bastante em cada uma delas. Tá sendo massa se redescobrir depois de tanto tempo.

Vocês entram agora no modo comemoração dos 20 anos, mas já estão pensando num próximo disco?
Já tenho muitas músicas feitas mas isso é pra pensar daqui um tempo. Agora é focar nesse show. Em breve passamos a pensar em algo novo.

Que música melhor reflete o Cidadão Instigado vinte anos após sua formação?
“Um Nordestino no Concreto”.

O CCSP na Virada Cultural 2017

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Eis a programação de música da Virada Cultural no Centro Cultural São Paulo​. É a primeira vez que o CCSP vira 24 horas durante a programação da Virada e esse foi o pessoal que a gente escolheu pra tocar nesse fim de semana- e tudo é de graça.

Sala Adoniran Barbosa
18h – Juçara Marçal​
19h30 – Mariana Aydar​
23h – Bárbara Eugênia​
1h – Tiê​
2h30 – Anelis Assumpção​
4h – Cidadão Instigado​
12h – Mahmundi​
14h – Curumin​
16h – Karina Buhr​
18h – Siba​

Jardim Suspenso – lado 23 de maio
11h – Lucas Vasconcellos​

Além de música tem teatro, dança, cinema, infantil, circo, artes visuais e até ioga com música indiana quando o sol raiar (mais informações aqui). O restaurante e o metrô vão funcionar direto. Nada mal, hein?

As 10 músicas mais importantes do indie brasileiro para o Mancha

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Neste domingo acontece a segunda edição do festival Fora da Casinha, que o compadre Mancha Leonel – o Mancha, da Casa do Mancha – levanta na raça e na unha, sem patrocínio e reunindo o filé da produção musical brasileira independente. Na edição do ano passado ele bateu na tecla do indie rock brasileiro, crucial em sua formação e na história da casinha. Na edição 2016, ele aponta para o perfil atual do estabelecimmento e seus passos futuros, incluindo ícones do rock independente nacional e novos sabores da atual cena pop brasileira, reunindo dez apresentações (Hurtmold, Jaloo, Mauricio Pereira, Cidadão Instigado, Anelis Assumpção & Dustan Gallas, Luiza Lian, Kiko Dinucci, Maglore, As Bahias e a Cozinha Mineira, Ventre e Juliana Perdigão) em três palcos a partir das quatro da tarde. Como no ano passado, eu, Luiz e Danilo representamos a SUSSA – Tardes Trabalho Sujo, tocando apenas música independente brasileira na área comum, que conta com área de alimentação, feirinha de publicações independentes, lançamento do livro Cena Musical Paulistana dos Anos 2010, do Thiago Galletta, e exibição do documentário Música ao Lado” sobre as pequenas casas de shows em São Paulo. O evento acontece na Unibes Cultural, do lado do metrô Sumaré (mais informações aqui), e eu pedi pro Mancha escolher as dez músicas do indie brasileiro que foram mais importante em sua formação. Sugiro dar play no vídeo e abaixar o volume para ouvir a música comentada ao fundo da explicação da escolha para cada faixa.

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Bonifrate – “Cantiga da Fumaça”

Pullovers – “Tudo Que Eu Sempre Sonhei”

PELVs – “Even if the sun goes down”

Astromato – “No Macio, No Gostoso”

Bazar Pamplona- “Faixa Bônus”

Thee Butchers Orchestra – “Sugar”

Motormama – “Coração Hardcore”

Wado e o Realismo Fantastico – “Tormenta”

Apanhador Só – “Não Se Precipite”

Superguidis – “Malevolosidade”

Tudo Tanto #017: A volta do protesto

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Fiquei sem atualizar minhas colunas da Caros Amigos desde o início do ano, por isso vou começar a compartilhá-las aqui. A primeira do ano foi sobre a aproximação da nova música brasileira a um novo protesto, que começava a surgir nas ocupações das escolas que aconteceram no ano passado e que anteciparam os protestos deste tenso 2016.

A volta do protesto

Há um tempo que a música brasileira não protesta. Uma conjunção de fatores diferentes fez a voz dos descontentes perder eco na música no início deste século. A derrocada das gravadoras fez que boa parte dos artistas passassem a depender de empresas e do poder público para gravar discos e fazer shows e, com isso, temáticas como provocação, cobrança e vingança desapareceram do cancioneiro nacional no início do século. A ótima fase econômica que o país atravessou na década passada ativou o sempre alerta otimismo brasileiro, que também ajudou a desligar as ganas da contestação. O rock deixou de ser a voz do contra e mesmo bandas de hardcore começaram a falar de amor. E a crise que o hip hop nacional enfrentou após incidentes violentos no meio dos anos 00 o fez repensar todo aquele sangue nos olhos.

Tudo isso transformou a temática da música brasileira do início do século em algo menos agressivo, incisivo, contestador. O amor assumiu de vez o papel de principal tema, abrindo espaços para outras platitudes – e os artistas que antes falavam apenas de amor começaram a falar de sexo no lugar. E logo a música brasileira para as massas se referia mais à pegação, balada e vida noturna, tanto em gêneros que sempre apostaram nestes temas (como a axé music e o funk carioca) até em estilos mais tradicionais (como o sertanejo e o samba).

Mas do mesmo jeito que essa conjunção de fatores fez diminuir o clima de contestação na década passada, ela foi se desfazendo à medida em que entramos na década atual. As chamadas jornadas de junho de 2013, a crise econômica no País, a insatisfação com o governo Dilma, os protestos contra a Copa do Mundo e os nervos à flor da pele nas redes sociais tornaram o país mais belicoso e agressivo. O brasileiro voltou a tomar às ruas como não acontecia há muito tempo e as pautas destes protestos eram – e são – as mais díspares possíveis.

E aí que parte daquela geração que cresceu à sombra dos artistas que falavam de amor e outros assuntos menos sérios começou a botar suas manguinhas de fora. Artistas que já vinham falando de temas menos óbvios e mais interessantes, buscando horizontes musicais mais amplos e desafios pessoais através da arte. Foi justamente a safra que culminou no ótimo 2015 que eu comentei na coluna anterior. Uma rápida audição em cada um daqueles álbuns deixam claro um clima de descontentamento, de não aceitação, de exigência – cada um à sua maneira, cada um do seu ponto de vista.

Assim, o Fortaleza do grupo cearense Cidadão Instigado é um desabafo agoniado sobre a forma como sua cidade-natal foi consumida pela violência, pelo consumismo e pela especulação imobiliária, usando-a como metáfora para esse estilo de vida de jecas brasileiros se sentindo melhores que seus conterrâneos porque falam inglês errado. O mesmo sentimento atravessa o fantástico De Baile Solto do pernambucano Siba, um disco feito em protesto contra a lei de segurança pública que proibiu o maracatu de tocar até o sol raiar – quando a própria definição de maracatu pressupõe a noite virada e o sol raiando. Dois discos feitos às próprias custas, sem gravadora, incentivo fiscal, apoio cultural, nada – justamente para não ser acusado de ter o rabo preso com alguém.

Os discos de Emicida e Karina Buhr são bombas-relógio que partem de dois temas – racismo e feminismo, respectivamente – mas que vão aos poucos mostrando a presença de ambos em diferentes aspectos de nossas rotinas. Outros discos abordam a política em nossos gestos, hábitos e comportamento, longe de siglas, ideologias e líderes – TransmutAção de BNegão e seus Seletores de Frequência fala sobre a mudança interior, o autoestranhamento de Rodrigo Campos em Conversas com Toshiro, A Terceira Terra dos Supercordas é sobre como passar para o próximo estágio da vida em sociedade, Estilhaça do Letuce transforma problematiza a vida a dois como uma tensão em busca de um equilíbrio e o Violar do Instituto pressupõe um incômodo, algo que destoa e desarmoniza. Até o instrumental do Bixiga 70 também “fala” isso, seja nos títulos de suas músicas ou no andamento mais pesado de seu terceiro disco.

Até os trabalhos mais experimentais do ano passado carregam esse tom. Discos como Niños Heroes de Negro Léo, o improviso interminável de Abismu de Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thomas Harres, o encontro de tirar o fôlego entre a mesma Juçara e Cadu Tenório, a alma livre e torta do Voo do Dragão do trompetista Guizado e até o transe telúrico de Ava Rocha em seu disco de estreia Ava Patrya Yndia Yracema – estão todos alinhando-se com o coro dos contrários, cada um vindo de uma direção diferente. Bárbara Eugenia e Tulipa Ruiz vão pelo caminho oposto, fingindo-se de pop em seus respectivos Frou Frou e Dancê para falar sério sem que a gente perceba.

Essa produção artística toda culmina no instigante Mulher do Fim do Mundo, que Elza Soares gravou com alguns dos músicos acima citados e que parece sintetizar o clima de descontentamento atual que todos os discos acima sublinham. Mas mais do que celebrar o encontro de Elza com uma geração mais nova, 2015 talvez tenha sido importante por mostrar para essa geração mais nova que uma geração ainda mais nova pode ser seu novo público.

Foi o que se viu no início do mês de dezembro do ano passado, quando a atual geração da música brasileira resolveu entrar de cabeça na luta das ocupações das escolas públicas de São Paulo, realizadas por adolescentes alunos das mesmas. Revoltados contra a decisão unilateral do governador Geraldo Alckmin de fechar escolas, os alunos foram lá e tomaram conta das instituições, assumindo a gestão e a rotina de mais de 200 escolas em todo o estado. E os artistas mais velhos se reuniram para fazer shows para arrecadar mantimentos para essa nova geração rebelde.

Pude assistir a uma de várias destas apresentações ao ar livre e gratuitas que aconteceram na cidade. Artistas como Céu, Cidadão Instigado, Bárbara Eugênia, Vanguart, Criolo, Maria Gadu, Tiê e até veteranos como Paulo Miklos e Arnaldo Antunes se reuniram num domingo em uma praça no Sumaré para celebrar esse novo momento de resistência – e aos poucos criava-se uma conexão improvável entre adolescentes que não conheciam uma geração mais velha de artistas que se dispunha a fazer shows de graça para eles. Um elo que parece ingênuo e frágil à primeira instância, mas que pode fazer com que estas duas gerações cresçam juntas, se respeitando e construindo um país melhor do que esse que tentam nos empurrar entre anúncios comerciais.