O calor da Chama

Mais uma edição do Chama maravilhosa, quando pude, ao lado do compadre Arthur Amaral, da Porta Maldita, mostrar alguns dos melhores shows que temos na nova cena independente brasileira que cada vez mais tornar-se mais forte, intensa e plural – e sem delírios de grandeza. Reunir Felipe Vaqueiro, Jovita, Tubo de Ensaio, Besta Fera, Gastação Infinita, Boia e Thalin – e seus respectivos convidados, numa mesma noite fez o público viajar em sete universos musicais distintos e dispostos a expandir seus trabalhos, mas sem perder a vibração comunitária e a sensação de estar assistindo a uma transformação cultural que vai para além da música.
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Felipe Vaqueiro abriu o festival mostrando não só que é um dos melhores compositores de sua geração como um dos grandes instrumentistas e se já bem isso na guitarra dos Tangolo Mangos, sobe um degrau acima ao abraçar o violão, que toca de forma exuberante, puxando suas inéditas, algumas compostas com Sophia Chablau no ótimo Handycam do ano passado e algumas de sua banda. Ao chamar Marina Nemesio para acompanhá-lo com sua voz e violão delicados e o compadre de banda Bruno Fechine na percussão, ele conseguiu fazer o clima intimista de uma apresentação acústica preencher o palco maior da Rockambole. Depois foi a vez do groove psicodélico da zona leste do Jovita transformar seu show em álbum conceitual ao chamar diversos convidados para criar diferentes fases: uma com o saxofonista Caetano Farias, outra com os rappers Mefiues e De Freitas e depois com a dupla de vocalistas Aria Onírica e TinyBear.
E se o Jovita fez um show expandido, o prog jazz rock da Tubo de Ensaio tornou-se um disco quádruplo com capa em 3D, quando o sexteto apresentou-se com um naipe de metais (formado por Reginaldo 16 Toneladas, Renato Quirino e Jez Sax), Giba tocando theremin e Barulhista entre o xilofone e o computador, com a duende Manu Cestari hipnotizando o público dançando frevo, soltando bolhas ou pintando um quadro durante o show, que ainda contou com performance de dança, luz e equilíbrio da dupla Luma Matavelli e LC. No palco menor, a Besta Fera atropelava os sentidos ao chamar o homem Patife Band Paulo Barnabé com seu pós-punk de compassos ímpares e “O Poema em Linha Reta” de Fernando Pessoa.
De volta ao palco maior, os capixabas do Gastação Infinita fez jus ao nome e chamou, em diferentes momentos, a Dupla 02, o vocalista da banda conterrânea Maré Tardia Gustavo Lacerda, Felipe Vaqueiro (quando tocaram “Armadura Armadilha”, dos tangolos) e quase todo Naimaculada para mostrar o single que gravaram juntos. Encerrando a programação do palco menor, a banda Boia achou dois parceiros perfeitos, quando o tangolo mango Bruno Fechine puxou a percussão (e a ótima “Dominó”, que gravou com sua banda) e o flow de Kim Cortada, que temperaram a MPB do grupo mostrando novos horizontes e possibilidades musicais para além da sonoridade que estão criando – além do carisma e voz insuperáveis da vocalista Luli Mello.
E o grand finale veio com o Thalin sempre incansável e guerreiro, fazendo seu sempre grandioso show solo, esteja com banda ou apenas acompanhado do Caio Colasante e do DJ Shirts, como fez no final do festival. Entre esporros e carinhos no público, ele tirou todo mundo do show, comemorou o aniversário de dois anos do disco Maria Esmeralda cantando várias músicas do novo clássico e encerrou a noite com uma dose dupla de emoção, primeiro ao contar o vínculo de “Todo o Tempo do Mundo” com a história de seus avós e depois ao chamar a própria namorada para subir no palco e pedi-la oficialmente em namoro, com direito a anel e tudo! Thalin é uma das melhores pessoas dessa nova cena, não tem jeito. E não só como artista: ele transpira generosidade e exercita seu talento do jeito certo, sempre em atividade, fazendo conexões e pontes em diferentes turmas e cenas, sem preconceito, sorriso aberto e plena disposição. Foi uma honra vê-lo encerrar o Chama com tal carga de emoção e entrega, enchendo os olhos e abrindo o sorriso de todos os presentes num encerramento histórico.
Mesmo assim, o melhor de fazer o Chama não são só os shows inacreditáveis que os artistas convidados se dispõem a fazer no festival, mas perceber, caminhando entre o público, a força e vibração de uma nova geração artística, com vários integrantes de várias outras bandas e da cena indie paulistana trocando ideia, se conhecendo e assistindo aos shows juntos. É muito foda e se fosse só isso o festival já valeria a pena… E fica a pergunta: quando é o próximo?
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