
A colombiana Kali Ucchis vinha anunciando o lançamento de seu disco novo, Orquídeas, mais um cantado todo em espanhol, para o início deste 2024 – e resolveu mostrá-lo ao mundo ao mesmo tempo em que revelou-se gravidaça, prestes a parir sua cria ao lado do rapper norte-americano Don Toliver. Além do disco ser uma maravilha – coalhado de hits prontos pra pista (ouça abaixo) -, o mais impressionante é como ela conseguiu esconder a gravidez ao mesmo tempo em que seguia divulgando o novo trabalho, ainda mais nessa época em que todo mundo compartilha tudo sobre tudo. Palmas para ela, que além de ter feito mais um grande disco só aumentando sua reputação (depois de lançar o ótimo Red Moon in Venus, um dos melhores discos de 2023) e firma-se como uma das artistas mais importantes da América Latina que fala espanhol, ainda revela-se uma jovem mestra na forma de lidar com a própria imagem pública. Não é fraca.
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Começamos os trabalhos do Inferninho Trabalho Sujo nesta quinta-feira, quando recebemos lá no Picles mais uma vez a Xepa Sounds do Thiago França, que passou por tudo quanto é tipo de hit – teve desde “Total Eclipse of the Heart” até “Hotline Bling” – antes que eu e a Fran incendiássemos a pista para começar a aquecer os trabalhos da festa neste novo ano. E como bem lembrou a Fran, já já completamos um ano de discotecagem em dupla, quando tocamos juntos pela primeira vez, justamente num show do Thiago, só que com sua Charanga. Deu muito certo, né?
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Mais uma noite linda nesta quinta-feira, quando Cacá Machado e Laura Lavieri apresentaram sua versão para o disco de 1973 de João Gilberto no Sesc Pompeia. É a segunda apresentação que os dois fazem do disco, que continua no próximo sábado, com outra noite dessas no Sesc Jundiaí. Foi bonito ver a ideia original que tivemos – eu que apresentei Cacá para Laura, que procurava alguém para realizar o sonho que era fazer esse disco ao vivo – florescer ainda mais lindamente do que o ótimo show que já havíamos feito na Casa de Francisca, há exatos dois meses. No novo palco, o silêncio era palpável e os dois burilavam as texturas musicais de seus instrumentos – voz e violão, a epítome de João – acompanhados mais uma vez dos efeitos especiais delicados da percussão cirúrgica e orgânica de Igor Caracas, que deveria ser efetivado como terceiro integrante de fato da apresentação. Juntos, os três suspenderam o tempo e a respiração de todos os presentes, imersos na sensível grandeza pautada por outro trio, há cinquenta anos, quando a produtora Wendy Carlos e o baterista Sonny Carr envolveram a realeza do maior artista de nossa cultura de uma forma única e precisa em sua carreira.
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Às vésperas do lançamento de seu terceiro álbum (se contarmos o disco ao vivo gravado em Montreux), o trio The Smile lança mais uma música de seu próximo trabalho, Wall of Eyes, que será lançado no próximo dia 26 (e está em pré-venda faz tempo). A balada “Friend of a Friend” leva a experimentação sonora do grupo formado pelos líderes do Radiohead Thom Yorke e Jonny Greewood (ao lado do baterista Tom Skinner, do grupo Sons of Kemet) para outros horizontes e o clipe abstrato e fluido, dirigido, mais uma vez, pelo cineasta Paul Thomas Anderson, reforça esse novo lugar sonoro dos três, com cores tingidas pela Orquestra Contemporânea de Londres e pelo saxofonista Robert Stillman. O novo single vem junto com o anúncio de uma pré-estreia do novo trabalho que acontece em cinemas de onze países. Wall Of Eyes, On Film é uma sessão de cinema que trará os clipes para “Friend of a Friend” e “Wall of Eyes”, além de clipes do Radiohead (“Dadydreaming” e duas gravações de Jonny e Thom na época do A Moon Shaped Pool, tocando “Present Tense” e “The Numbers” – podia ter os dois tocando “The Rip” do Portishead, da mesma época, hein…) e do Anima de Thom Yorke, todos dirigidos por Paul Thomas Anderson em versões em 35 milímetros e som surround. O evento ainda terá uma audição na íntegra do segundo disco de estúdio do grupo e imagens que o cineasta fez durantes as gravações do disco – e quem for ainda pode comprar merchandising exclusivo da banda, como fitas cassetes, camisetas e um fanzine. Infelizmente a sessão não passa pelo Brasil – o mais perto da gente é a Cidade do México… A relação dos locais que receberão essa sessão e o clipe da nova música você pode ver abaixo: Continue

A movimentação dos integrantes do grupo inglês Xx está um pouco mais ativa do que o normal há uns dois anos. Sem lançar nada desde janeiro de 2017, o trio vem se movimentado com mais regularidade, especificamente pensando que não fizeram nada coletivamente após a pandemia. Mas individualmente estão indo bem: Oliver Sim lançou seu disco primeiro solo (Hideous Bastard) em setembro de 2002 e Romy Madley Croft lançou o seu (Mid Air), exatamente um ano depois – ambos discos com os dedos do terceiro integrante e produtor musical do grupo, Jamie Xx. Este, por sua vez, lançou dois singles no ano passado (“Let’s Do It Again” e “Kill Dem“) e acaba de lançar mais um, o ótimo “It’s So Good” (ouça abaixo), desta vez sob encomenda para o desfile da Chanel na Semana da Moda de Paris. E para confirmar o que estava sendo cogitado como rumor, Romy, que vem mostrar seu trabalho solo em abril por aqui, como uma das atrações do C6Fest, antecipou para o NME que o grupo está preparando sua volta. E comenta que têm conversado, já no estúdio, sobre os projetos que fizeram separamente: “‘O que aprendemos? O que devemos fazer agora?'”, contou a vocalista ao velho semanário inglês, “acho que estamos muito abertos e é animador estar começando de novo, de alguma forma. Começamos a fazer algumas músicas e estou realmente animada.” Continue

Nesta segunda-feira, David Bowie completaria 77 anos se estivesse vivo e entre as várias celebrações a um dos papas da cultura pop contemporânea, o grupo Wilco acaba de revelar a versão que fez ao vivo para o primeiro hit do ícone inglês, “Space Oddity”. A versão é a primeira faixa revelada da coletânea Live On Mountain Stage: Outlaws and Outliers, que reúne apresentações ao vivo de diferentes artistas que passaram pelo programa Mountain Stage da emissora de rádio pública norte-americana NPR. O grupo optou por uma versão acústica da canção existencialista que Bowie lançou quando o homem pousou na Lua, em 1969, com Jeff Tweedy sussurrando a letra original enquanto a banda constrói, delicadamente, o arranjo original. A coletânea será lançada no dia 19 de abril (que já está em pré-venda) e reúne outros artistas norte-americanos como Jason Isbell, Indigo Girls, Steve Earle, Lucinda Williams, entre outros. Ouça a versão do Wilco para “Space Oddity” abaixo: Continue

Ao completar três décadas em atividade, o Pato Fu talvez seja o exemplo mais improvável do que é o pop brasileiro. Sem ancorar-se em cânones já estabelecidos, o grupo mineiro traça sua própria linhagem ao enfileirar canções que fogem daquilo que se espera quando falamos do mercado de música para as massas no país ao mesmo tempo em que cria uma sonoridade única, que bebe de diferentes fontes musicais sem parecer derivado deste ou daquele gênero musical ou linha genealógica. Em mais uma bateria de shows celebrando seus três fins de semana abrindo a programação musical do ano do Sesc Pinheiros, o grupo formado por Fernanda Takai, John Ulhoa e Ricardo Koctus lotou três datas no teatro Paulo Autran e enfileirou quase duas horas de hits que, em sua maioria, são tão reconhecíveis e radiofônicos (seja lá o que isso queira dizer hoje em dia) quanto experimentais e ímpares. Amparados pelo baterista Alexandre Tamietti e pelo tecladista Richard Neves, o trio recapitulou o próprio cancioneiro lembrando também de sua história audiovisual, usando um telão para lembrar dos clipes que filmaram em sua trajetória, sincronizando a imagem dos vídeos às canções que estavam sendo tocadas na hora, ao mesmo tempo em que no palco estão em ponto de bala, afiadíssimos tanto no ponto de vista instrumental quanto nas piadas infames trocadas entre os três, exercitando dois pontos específicos da cultura belorizontina (a excelência instrumental e o humor que se finge de bobo). O show foi maravilhoso e desfilou hits inevitáveis (“Sobre o Tempo”, “´Água”, “Antes que Seja Tarde”, “Depois”, “Menti Pra Você”, “Canção Para Você Viver Mais”, “Made in Japan”), versões de sucessos alheios (“Ando Meio Desligado”, “Eu Sei” e “Eu” – esta última com a participação surpresa de BNegão, que saiu da plateia direto para o palco -, canções solitárias na primeira pessoa feitas por artistas tão ímpares quanto o próprio Pato Fu) e clássicos que há tempos o grupo não visitava ao vivo (“Spoc”, “Vida Imbecil”, “Capetão 66.6 FM”, “O Processo de Criação Vai de 10 a 100 Mil”), incluindo uma inacreditável versão ao vivo para a faixa-título do primeiro disco do grupo, Rotomusic de Liquidificapum, que usaram para encerrar a apresentação, exibindo no telão a foto que era a capa da primeira fita demo do grupo (a infame Pato Fu Demo, que guardo até hoje). Um excelente show para começar os trabalhos de 2024. Vida longa ao Pato Fu!
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Acabou de sair, de surpresa: um teaser perfeito para segunda temporada de uma das melhores séries no ar atualmente que nem anuncia a tão esperada data de estreia, mas cutuca uma de suas questões centrais, que também funciona como uma boa provocação para começarmos o ano novo (e assistir à primeira temporada de Severance a tempo): você sabe o que faz?
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Há duas semanas Patti Smith nos deu um susto ao passar mal durante sua turnê europeia e cancelar apresentações por recomendações médicas. Ela até postou no Instagram que estava melhor, agradecendo aos funcionários do hospital em Bolonha, na Itália, em que esteve internada. Felizmente foi só um susto e nossa matrona comemora seu aniversário de 77 amos com dois shows no Brooklyn Steel, em Nova York. E o segundo está acontecendo neste sábado, que e a data de seu aniversário. No show de sexta ela já mostrou estar ótima, como dá pra ver pelos vídeos que alguma boa alma filmou da plateia, olha só:

Em mais apresentações no Theatro Municipal de São Paulo, Tim Bernardes pôs em prática um plano que acalentava desde que saiu em carreira solo: tocar seus discos ao vivo exatamente como são em estúdio, com toda pompa orquestral. Mas diferente de alguns de seus mestres (como Brian Wilson, Paul McCartney ou Lô Borges), autores de discos clássicos na tenra idade que não puderam transpô-los em shows, colocando-os em prática apenas décadas mais tarde, Tim conseguiu adaptar um disco cheio de cordas, harpa e metais no ano seguinte de seu lançamento. Tá certo que, aos 32 anos, Tim é mais velho que seus precursores (Paul e Brian tinham 24 anos quando compuseram seus Sgt. Pepper’s e Pet Sounds e Lô tinha só 20 no disco do tênis) e isso fez com que ele tivesse foco para materializar o que poderia ser só um delírio passageiro. E assim fez por quatro sessões neste fim de semana, quando, à frente de uma pequena orquestra regida por Ruriá Duprat e ancorada pelos compadres Arthur Decloedt e Charlie Tixier, mudou a regra de seu próprio jogo. Se até então a apresentação ao vivo de seu disco era mero segundo (e verde) capítulo do show de seu disco de estreia, este novo momento o leva a outro patamar. Batizado de Raro Momento Infinito (de cor roxa), a nova versão ao vivo de Mil Coisas Invisíveis coloca o vocalista d’O Terno como um meticuloso autor de pop de câmara. Espetáculo que abre novas portas para seus dois discos solo, ele pode dar uma sobrevida à carreira solo de Tim Bernardes como uma realidade paralela à existência de sua banda original, que retoma as atividades em 2024, ainda mais se continuar em outros palcos sem ser apenas um especial de fim de ano. Ao fugir do formato rock e propor uma extensão instrumental ao seu virtuosismo solo, Tim eleva o sarrafo da apresentação ao vivo pop para outra esfera, entre a música erudita, a canção orquestrada e as trilhas sonoras de musicais. O momento em que puxou sua “Esse Ar” citando “A Lenda do Abaeté” de Dorival Caymmi após contar uma longa e tocante história sobre a canção foi só uma pequena amostra da porta que ele está abrindo para um novo pop brasileiro. Bravo, Tim!
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