
Jadsa e João Milet Meirelles começaram a revelar a próxima fase do duo Taxidermia nessa sexta-feira, no auditório do Museu da Imagem e do Som, mas ainda com os dois pés em sua primeira fase, ainda trazendo o clima de apocalipse industrial – que parece começará a dissipar-se a partir do disco de estreia, Vera Cruz Island, anunciado essa semana. Com imagens feitas por Gabriel Rolim, luz da Cris Souto e som da Alejandra Luciani, a dupla baiana encarou-se de frente para mostrar uma música de rua que soa tanto periférica quanto central, cutucando feridas e atordoando expectativas com bordoadas eletrônicas, samples acelerados, beats implacáveis, sussurros, versos e berros inquisidores, colocando uma sensação baiana na tomada e eletrificando sentimentos e sensações na marra. Além de tocar “Clarão Azul”, o primeiro single do novo álbum, que é uma uma boa amostra do que vem por aí.
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Depois eu falo do disco novo da Taylor Swift, agora só consigo ouvir o disco novo do João Gilberto que acaba de chegar às plataformas digitais. Live in San Francisco 2003 é uma edição com o material que o heroico fã Pedro Fontes (que reúne material que encontra sobre João online em seu perfil no YouTube, Esqueleto Lavrador) encontrou há um mês no Internet Archive com 55 canções dos dois shows que o mestre fez nos dias 25 e 26 de julho de 2003 no San Francisco Jazz Festival, disponibilizado pelo próprio festival. Abaixo, duas playlists: a original que Fontes reuniu em seu canal e o disco recém-lançado por uma tal Ipanema Discos que acaba de chegar às plataformas, misturando clássicos do repertório de João (como “Bolinha de Papel”, “Ave Maria no Morro”, “Corcovado”, “Bahia com H”, “Caminhos Cruzados”, “Meditação” e “A Felicidade”) e versões inéditas ao vivo para “Você Vai Ver” de Tom Jobim e “Sem Você” de Jobim e Vinicius de Moraes, além de “Samba do Avião” de Tom e “Às Três da Manhã” de Moraes Moreira, que ele nunca gravou em estúdio. Coisa finíssima, claro: Continue

E depois da aula corre pro Porta Maldita que estava lotado para ver dois talentos em ascensão da música local tocar suas músicas delicadas com acompanhamentos sutis. Primeiro foi a vez de Luiza Villa fazer sua primeira apresentação solo, quando mostrou suas primeiras composições além de versões para músicas alheias, indo de Gilberto Gil à sua familiar Joni Mitchell, passando por uma versão deslumbrante para “If a Tree Falls in Love with a River”, de Lau Noah e Jacob Collier, quando abriu vozes com sua irmã Marina, e “Tristeza do Jeca”, que dividiu com o dono do segundo show da noite, Lucca Simões.
Depois Lucca subiu ao palco para mostrar suas delicadas canções, conduzidas por sua voz suave e guitarra clara. Suas composições cresceram ainda mais com a bela banda que reuniu, com Eduarda Abreu nos teclados, Chico Bernardes na bateria e Lucas Gonçalves no baixo, partindo do folk e da MPB que impulsiona sua criação abraçando ao mesmo tempo tanto um rock setentista quanto uma pitada de jazz elétrico. Bem bonito.
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Foto: Gabriel Rolim (divulgação)
O Taxidermia está prestes a sair caminhando. Duo formado pelos baianos Jadsa e João Milet Meirelles, o grupo eletrônico já existia antes da pandemia mas só conseguiu dar seus primeiros passos fonográficos durante aquele período tenso de isolamento social. De lá pra cá, lançaram dois EPs e começaram a se apresentar ao vivo, mostrando que a apresentação ia muito além do formato Live PA que a distribuição de funções – vocalista e instrumentista toca com produtor de música eletrônica – parecia propor, explorando ambiências e sensações para além do repertório mais voltado pra pista de dança. Às vésperas de lançar seu primeiro álbum, Vera Cruz Island, ainda sem data de lançamento, eles começam a mostrar a nova fase nessa sexta-feira, quando lançam o primeiro single do disco, batizado de “Clarão Azul”, que eles mostram em primeira mão aqui no Trabalho Sujo, e fazem uma apresentação no projeto Stereo MIS, do Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, a partir das 21h. Mais solar e tranquilo que as apresentações ao vivo do Taxidermia até então, o single ainda traz dois convidados: a vocalista sergipana Tori e o multiinstrumentista e produtor Pedro Bienemann. “‘Clarão Azul’ prepara o público para o universo do álbum”, explica João, que também é integrante do grupo BaianaSystem. “Trata sobre a ilha de Vera Cruz e nossa relação cheia de afetos por esse espaço. Estabelece o ambiente imagético que queremos trazer para nosso trabalho.” Jadsa completa: “A gente já vinha correndo atrás de soar um tanto mais orgânico, o que já parece fora da curva pelo fato de tocarmos música eletrônica e na maioria das vezes o timbre acompanhar o conceito, mas esse single tem muito uma necessidade natural de ser crua e o que mais nos inspirou foi o disco Flying Away, de 1997, da banda Smoke City”. E assim a dupla sai da primeira infância caminhando com passos firmes.
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Foto: Ágatha Flora (Divulgação)
Queridinhos da casa, a banda de Juiz de Fora Varanda lança seu último trabalho antes de começar a produzir seu primeiro álbum ao fundir duas músicas num mesmo single. “Leva e Vem” ainda é da primeira fase da banda e é uma das músicas mais densas de seu repertório e ganhou uma faixa irmã que mantém a mesma atmosfera – e junto com “Vá e Não Volte” as duas músicas registram essa nova cara musical do grupo no mundo fonográfico. A vocalista Amélia do Carmo explica que as duas faixas apresentam esse “lado mais soturno do nosso som em contraponto com os últimos singles, estamos animados para explorar esse e outros novos caminhos de sonoridade no nosso álbum”. O baixista Augusto Vargas concorda, inclusive sobre a qualidade do som: “Acho que essas duas canções são as mais porradas, até agora, muita guitarra, muitas camadas de som. Bê e Mario conseguiram chegar em uma mix excelente, que foi muito bem finalizada com a master do Paulo, que vai produzir nosso disco!”, explica, se referindo aos outros dois integrantes da banda, o guitarrista Mario Lorenzi e o baterista Bernardo Merhy, que mixaram a faixa no estúdio da banda, o Estúdio LaDoBê, agora no mês passado, entregando que o baixista Paulo Emmery, que masterizou as duas faixas, é o produtor do primeiro disco da banda. O single duplo chega às plataformas à meia-noite desta quinta-feira, mas os mineiros fizeram mais uma preza aqui pro Trabalho Sujo e dá pra assistir ao clipe gravado na estrada em primeira mão.
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Ao propor um jogo musical, literário e cênico cujas regras não estavam definidas, Juliana Perdigão conduziu com seu clarinete e palavras um grupo formado pelos teclados de Chicão, pelo contrabaixo acústico de Ivan “Boi” Gomes e os eletrônicos do produtor Barulhista a um universo em que som e palavra fundiam-se numa mesma coisa. O espetáculo-experimento Fraga?, que aconteceu nesta terça-feiro no Centro da Terra, abriu com Perdigão lendo o início do poema-livro Odisséia Vácuo de Renato Negrão, cheio de pausas e lacunas, como se fosse música, para depois passear por seu próprio texto Dúvidas (base de seu disco de 2020) e depois por versões deste mesmo texto feitas pela autora através do Chatgpt. E enquanto ela lia os textos, os instrumentos musicais trabalhavam como se estivessem construindo uma base que ficava entre o ambient e o jazz de improviso ao mesmo tempo em que soavam como se estivessem falando – fossem sozinhos ou conversando entre si -, criando uma atmosfera de sonho surrealista que seduzia, hipnotizava e ninava o público para algum lugar entre o consciente e o inconsciente, algo que era reforçado pelas projeções sutis e sombrias de Filipe Franco. Foi mágico.
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O título da noite era Samba no Tablado e Thiago França, Rômulo Froes e Rodrigo Campos foram literais ao colocar a mesa da roda de samba no palco do Centro da Terra, colocando cadeiras ao redor da mesa e puxando o público para participar da celebração junto com eles no palco – quem não quisesse poderia assisti-los das poltronas, assistindo aos poucos os outros integrantes da audiência cantarolar os sambas, bater palmas e acompanhar os la-la-laiás típicos deste formato. Os três donos da temporada dividiam os vocais com quatro convidadas, as já anunciadas Victória dos Santos, Fernanda Sangirardi e Bia Falleiros e a convidada surpresa Mari Tavares. Enquanto Thiago e Rodrigo puxavam harmonias com os cavaquinhos, Mari e Victória revezavam-se entre instrumentos de percussão enquanto o grupo desfilava clássicos eternos do samba (“Diz Que Fui Por Aí” do Zé Keti, “Ainda Mais” e “Argumento” do Paulinho da Viola, “Mora Na Filosofia” de Monsueto, “O Sol Nascerá” de Cartola e “Luz Negra” de Nelson Cavaquinho), reverenciavam as grandes damas Dona Ivone Lara, Clara Nunes, Beth Carvalho e Clementina de Jesus (“Na Linha do Mar”, “Na Hora Da Sede”, “Acreditar”, “Sonho Meu”. “Alguém Me Avisou” e “Vou Festejar”) e novos clássicos do pagode (“Malandro”, “Eu e Você Sempre” e “Tendência” de Jorge Aragão, “Será Que É Amor” de Arlindo Cruz, “Conselho” e “Trilha do Amor” do grupo Revelação e “Ainda É Tempo Pra Ser Feliz” de Zeca Pagodinho), além de passar por Gil e Caetano (“Desde Que o Samba É Samba”) e uma do próprio Campos (“Fim da Cidade”). A empolgação da roda teve de chegar ao fim devido ao horário do teatro e a falta de cerveja no palco, mas tinha tudo pra varar horas de samba.
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Coisa séria a apresentação que reuniu Arnaldo Antunes e Vítor Araújo neste fim de semana no Sesc Pinheiros. Comemorando o lançamento da edição ao vivo do tocante Lágrimas no Mar, a dupla voltou a se encontrar num dos primeiros palcos que viu este espetáculo, trazendo algumas novidades. O fato de contar com apenas um músico e instrumentista no palco – e deste ser o prodígio erudito pernambucano – e dos dois estarem trajando ternos e gravatas pretos aumenta a tensão de recital da apresentação, fazendo o público ficar mudo e maravilhado por quase uma hora e meia, quebrando o silêncio apenas com as palmas entre as canções. O espetáculo reúne faixas de diferentes fases da carreira de Arnaldo, que ficaram conhecidas tanto em sua voz (seja na carreira solo – “Contato Imediato”, “Se Tudo Pode Acontecer”, “No Fundo” e “Alta Noite” – quanto com os Titãs – “O Pulso” e “Saia de Mim”) quanto na de outros intérpretes, como Erasmo Carlos (“Manhãs de Love”), Marisa Monte e Carminho (“Vllarejos”), Cássia Eller (“Socorro”) e Maria Bethânia (“Lua Vermelha”, parceria com Carlinhos Brown), com maior ênfase nas recentes “O Real Resiste”, “Na Barriga do Vento” e “João” e, claro, nas canções pinçadas para o registro em disco, como “Longe” (composta com Betão Aguiar e Jeneci), “Umbigo”, “A Não Ser”, “Enquanto Passa Outro” e a faixa-título, além de versões para “Fim de Festa” (de Itamar Assumpção e Naná Vasconcelos) e “Como Dois e Dois” (de Caetano Veloso, interpretada ao lado da diretora de arte do show, Márcia Xavier, que também assina as belas projeções da noite). Claro que o texto das canções ajudava a desanuviar o rigor que o ar de recital dava à noite, ainda mais pontuada pelos poemas curtos e diretos de Arnaldo (“A Boca Oca”, “Um Deus”, “O Corpo”, “Saga”, “O Mar”, “O Buraco do Espelho” e “Bacanas”) que interligavam as canções, mas a entrega de Vítor ao piano, que enfatiza o aspecto percussivo do instrumento ao mesmo tempo em que toca suas cordas por dentro ou grava loops para criar camadas de si mesmo sobre as canções (além de tocar a versão bachiana para “O Trenzinho Caipira”, de Villa Lobos, e a luz densa e implacável de Anna Turra, mantém o clima austero e sisudo na noite, mas sem nunca perder o calor.
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E outra atração do fim de semana foi o primeiro show de volta do No Doubt, que aconteceu no primeiro fim de semana do Coachella, o mesmo que viu o encontro de Lana Del Rey com Billie Eilish no dia anterior. Além de desfilar hits de diferentes fases da banda, Gwen Stefani ainda proporcionou o encontro com outra atração surpresa, desta vez Olivia Rodrigo, com quem dividiu os vocais em “Bathwater” – mas o dueto não provocou o mesmo frisson que o da sexta-feira. Não dá pra dizer o mesmo do momento em que a vocalista incitou o público a cantar junto a imortal “Don’t Speak”. Que beleza.
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Escalada para a fechar a primeira noite dos dois fins de semana do Coachella, Lana Del Rey encerrou a primeira sexta-feira feira do festival norte-americano recebendo ninguém menos que Billie Eilish no palco. Ela já havia anunciado a presença de convidados ilustres, como seu produtor Jack Antonoff e o multiinstrumentista Jon Baptiste (ambos com apresentações individuais no evento), mas ninguém contava com a presença de Billie, que surgiu ao final da apresentação para dividir vozes com Lana em uma faixa de cada, não por acaso seus primeiros respectivos sucessos: cantaram “Ocean Eyes” de Billie e “Video Games” de Lana e depois ficaram trocando sorrisos, olhares e elogios. “É a voz da nossa geração, a voz da sua geração e estou grata pra cacete que ela está aqui ao meu lado cantando minha música favorita”, comemorou Lana. Billie, por sua vez, não mediu palavras pra celebrar sua heroína: “Eis a razão da existência de metade de vocês putos – incluindo eu! Lana Del Rey, caras, vamo lá!”
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