
O primeiro instrumentista da geração original do rock’n’roll a tornar-se sem precisar cantar uma sílaba nos deixou neste sábado. Duanne Eddy popularizou um estilo de tocar guitarra conhecido até hoje como o som “twang”, que inspirou artistas tão diferentes quanto os Ventures, George Harrison e Bruce Springsteen, eternizado em músicas instrumentais como “Rebel Rouser”, “Cannonball”, “Because They’re Young” e o tema do seriado Peter Gunn, talvez seu número mais lembrado. Morreu em casa, cercado da família, após passar por um longo período com câncer.

E a véspera de feriado me fez cair no Picles como público e não administrador de clima, mas era um motivo mais que nobre: Rafael Castro tocaria seu SEGUNDO show depois de um hiato de quase uma década sem lançar discos. Felizmente seu vigésimo disco, Vaidosos Demais, o colocou de volta aos trilhos da música, por isso cada novo passo desse monstro sagrado deve ser saudado, mesmo que ele tenha repetido exatamente o mesmo show que fez no Inferninho Trabalho Sujo ao celebrar sua Paixão de Castro na Sexta-feira Santa – só que com novas piadas. E daí? Vamos celebrar que Rafael está de volta aos palcos, tocando, cantando e contando piadas em frente a seu público, algo que nunca poderia ter deixado de acontecer. E mais uma vez subiram ao palco os convidados Vanessa Bumagny e André Mourão, que dividem faixas com ele no disco, além de chamar a figurinista Luiza Mira para acompanhá-lo nos vocais do irresistível krautnóia “Fiscal de Foda”. Sempre um prazer!
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O saxofonista Kamasi Washington libera mais uma faixa de seu próximo álbum, Fearless Movement, desta vez apontando para o outro extremo de seu espectro musical. Se na primeira faixa mostrada, “Dream State“, em que dividia os holofotes com o rapper e agora flautista Andre 3000, do Outkast, ele preferiu explorar as fronteiras do jazz abstrato, desta vez ele convoca ninguém menos que o mestre do P-Funk George Clinton para segurar o groove em “Get Lit”, uma faixa menor se comparada com a anterior, mas que ganha um brilho a mais graças à participação sagaz do rapper D Smoke. O disco de Kamasi será lançado nessa sexta-feira.
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Bonito ver o nascimento de um projeto no palco, ainda mais em se tratando de duas artistas que conheço desde o início de suas carreiras e marcando a confluência entre duas escolas aparentemente distantes. Quando Anna Vis e Jeanne Callegari vieram me falar que haviam se conectado durante semanas de retiro artístico que se submeteram ao lado de outros artistas no mês de março, tinham na cabeça que o Centro da Terra seria um bom início de parceria ao vivo; E quando o lado poético e experimental de Anna, musicista e senhora da canção, pôs-se à frente do lado musical da poeta e performer Jeanne (imersas na luz etérea de Letícia Trovijo), a faísca inicial começou a acender pontos em comum, deixando-as livres para explorar este recém-nascido projeto Fogo Fogo. A apresentação foi justamente uma lenta fogueira de sons distorcendo-se entre cantos e palavras ao mesmo tempo em que usavam elementos discretos externos que ancoravam o texto, que horas era melodia, noutras poesia e em vários momentos algo híbrido dessas duas escolas. Queimai.
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Tá chegando a hora…
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Chegou ao fim nesta segunda-feira a jornada que Thiago França, Rômulo Froes e Rodrigo Campos se propuseram ao encarar a temporada 3 na Ribanceira que tomou conta das segundas de abril no Centro da Terra – e a quarta noite foi de pura celebração, com os três lembrando diferentes momentos de suas carreiras ao mesmo tempo em que recebiam dois cúmplices de encruza, ninguém menos que Juçara Marçal e Marcelo Cabral. A apresentação começou com Thiago segurando a respiração do público com seu mantra de fôlego circular no saxofone, abrindo caminho primeiro para Rômulo (com sua “Pra Comer”), depois para Rodrigo (que entrou com sua “Meu Samba Quer Se Dissolver”) e os três tocaram a marchinha “Adeus Saudade”, feita para um dos primeiros desfiles da Charanga do França. Depois entrou Cabral, tocando baixo elétrico, para acompanhá-los primeiro numa versão pagode para “Muro”, de Rômulo, e depois com a faixa-título do primeiro disco do baixista, Motor, esta já com a presença da segunda convidada, Juçara. Juntos os cinco, passaram por “Três Amigos” (do Metá Metá), “Ladeira” (do trio Sambas do Absurdo), “Queimando a Língua” (do primeiro disco da Juçara), “Presente de Casamento” e “Espera” (de Rômulo), “Califórnia Azul” e “Velho Amarelo” (de Rodrigo). A ausência da noite foi Kiko Dinucci, que não pode comparecer por questões pessoais e foi lembrado quando tocaram a bela “São Paulo de Noite”, do Thiago – ou “Dinucci”, como brincaram. Também foi sentida a ausência de qualquer canção do grupo Passo Torto, que tinha 3/4 de sua formação no palco. Entre as músicas o tom era de conversa de bar, com Thiago brincando que Juçara tinha o colocado no time dos saxofonistas compositores ao lado de Milton Guedes e Jorge Israel enquanto Rômulo fazia a genealogia de cada uma das canções. Ele ainda brincou que estava chegando na beira da ribanceira, “olhando o precipício e ele olhando de volta” pouco antes de um deslize de memória (quem viu viu) que veio antes do encerramento da noite e da temporada, quando emendaram “Fim de Cidade” e “Mulher do Fim do Mundo”. Uma noite especial – e Juçara ainda soltou um spoiler do que vem por aí…
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Maravilhosa a apresentação de Amaro Freitas no Sesc Pompeia, quando tocou seu recém-lançado Y’Y depois de uma turnê intensa pela Europa. Primeira vez que o vejo sozinho ao piano, o jovem erudito pernambucano não economizou sons ao explicar a opção por trabalhar o piano preparado de John Cage à brasileira, misturando referências culturais que vão de texturas pré-gravadas, loops eletrônicas, uma kalimba, chocalhos e apitos, além de percutir as cordas do piano por dentro. Em alguns momentos mais virtuose, em outros mais à vontade, ele chegou ao equilíbrio entre as duas partes quando, no bis, mostrou a inédita “Gabrielle”, composta para sua companheira, a artista Luna Vitrolira, presente na plateia, cujo nome de batismo é o título da canção. Uma apresentação forte e delicada na mesma medida.
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Otto lavou a alma – a própria e a de centenas de pessoas – neste sábado no Cine Joia quando revisitou o intenso Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos, seu quarto álbum, que está completando quinze (!) anos. À frente de uma banda pesada e concisa (Guri Assis Brasil e Junior Boca nas guitarras, Meno Del Picchia no baixo, Ilhan Ersahin no sax, Beto Gibbs na batera, Yuri Queiroga nos teclados e o eterno comparsa Malê na percussão), ele entregou-se à emoção do disco, principalmente por ter levado dois amores ao palco, sua namorada Lavínia Alves cantou as partes que no disco que eram de Julieta Venegas e a filha Bettina, que chamou para dividir os vocais da triste “Naquela Mesa”. Bettina é filha de Otto com Alessandra Negrini, que foi a motivação para o disco, quando terminou seu relacionamento com o cantor pernambucano – e ela esteve presente no sábado, segundo relatos. Lirinha foi outro que marcou presença repetindo sua participação no disco em “Meu Mundo Dança” O disco inteiro foi cantado a plenos pulmões não só por seu autor, mas pelo público, que sabia todas as letras de cor. Álbum de duração enxuta, o disco foi seguido de uma sequência de hits de Otto que, por mais que tenham animado o público presente, não teve a intensidade do disco de quinze anos atrás ao vivo. E corre à boca pequena que ele fará mais shows voltando a esse álbum – ou seja, se você perdeu essa noite histórica, é só ficar atento que em breve deve ter mais.
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E lá estava eu de novo no Centro Cultural São Paulo para ver outra grande banda deste século. O Mombojó baixou na mitológica sala Adoniran Barbosa e botou todo mundo pra dançar ao mostrar seu recém-lançado tributo a Alceu Valença, Carne de Caju, em que revisitam pérolas menos lembradas do mestre pernambucano (como “Chuva de Cajus”, “Amor que Vai”, “Sino de Ouro” e “Pétalas”) mas sem deixar de lado hits como “Como Dois Animais”, “Tomara”, “Coração Bobo” e, claro, “Morena Tropicana”. O grupo teve que fazer o show num intervalo reduzido de tempo, por isso submeteu o público a uma sessão de seus próprios sucessos, como “Antimonotonia”, “Papapa”, “Cabidela”, “Faaca” e “Deixe-se Acreditar”, esta última com a presença do MC Lucas Afonso. A banda está espalhada em três lugares diferentes do Brasil, mas consegue manter a química como se ensaiasse semanalmente – e o público saiu satisfeito, mesmo com o show curto.
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“I floated on the water/ I ate that ocean wave/Two weeks after the slaughter/I was living in a cave/They came too late to get me/But there’s no one here to set me free/From this rocky grave/To that snowed-out ocean wave”. Tudo é uma surpresa quando falamos de Neil Young – e não foi diferente nesta quarta-feira, quando voltou a fazer shows iniciando a turnê de lançamento de mais um novo álbum, Fu##kin’Up, quando apresentou a nova formação de seu Crazy Horse – com Micah Nelson no lugar de Nils Lofgren e sempre com Ralph Molina e Billy Talbot – e aproveitou esse primeiro show para revelar um verso perdido do épico “Cortez the Killer”. A música, com quinze minutos ao vivo, trouxe o longo verso de conclusão que não coube na versão original gravada no clássico Zuma, como o próprio Young havia revelado em uma entrevista para os fãs há pouco. O show realizado no Cal Coast Credit Union Open Air Theatre em San Diego, na costa oeste dos Estados Unidos, ainda trouxe versões ao vivo para clássicos como “Cinnamon Girl”, “Don’t Cry No Tears”, “Down By The River”, “Everybody Knows This Is Nowhere”, “Powderfinger”, “Love And Only Love”, “Comes A Time”, “Heart Of Gold” e “Hey Hey, My My (Into The Black)” (assista a algumas músicas filmadas pelo público abaixo), entre outras canções. O velho canadense cruza os EUA com sua Love Earth Tour, que terá 30 datas até setembro. Por favor, venha pro Brasil! Continue