
Para encerrar sua autoproclamada Temporada do Medo no Centro da Terra, a dupla Test praticamente não esteve no palco na última segunda-feira do mês, quando em vez de encarar mais uma vez o público em outra versão deformada de seu Disco Normal, preferiu chamar dois trios formmados de baixo, vocal e bateria para encarnarem o Test Fantasma. A única aparição física do guitarrista João foi no início da apresentação, quando subiu pelo alçapão do teatro para o palco, ainda com as luzes acesas, para logo em seguida assumir a iluminação da noite, enquanto seus convidados iam chegando pouco a pouco, começando por Sarine, que pilotava uma das baterias, seguido por Berna, que assumiu o baixo elétrico um pouco antes de Flavio Lazzarini assumir a segunda bateria e Alex Dias erguer seu contrabaixo acústico, tocando as mesmíssimas músicas que o Test tocou nas três noites anteriores, só que com novos arranjos, igualmente extremos. Logo depois os dois vocalistas da noite – Tomás Moreira e Chris Justino – começaram a urrar as letras das canções, fazendo a apresentação ganhar camadas de improviso e ruído que ficaram em algum lugar entre a formação da apresentação anterior – que já teve muita interferência eletrônica, desta vez capitaneada por Berna, Sarine e Flavio – e o épico formato Test Big Band, em que o grupo ultrapassa a dezena de cabeças no palco. O baterista Barata, por sua vez, assistiu à toda apresentação em uma das poltronas do teatro e só subiu ao palco depois que a noite terminou, quando foi cumprimentar os músicos convidados, provando que a banda pode existir sem mesmo ter a presença de seus dois integrantes. Um fecho brilhante para uma temporada intensa.
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Sexta passada, Bob Dylan deu início ao festival em movimento pelos EUA Outlaw Music, turnê que também traz shows de Willie Nelson (que, por motivos de saúde, não pode comparecer aos shows de abertura) e do ex-vocalista do Led Zeppelin Robert Plant – ressuscitando sua parceria com a cantora Alisson Krauss -, além de nomes mais novos (como John Mellencamp e as cantoras Brittney Spencer e Celisse, que tocam em diferentes datas da turnê de trinta datas). As primeiras apresentações ocorreram na cidade de Alpharetta, no estado da Georgia, e Dylan surpreendeu todos ao mudar radicalmente seu repertório: não houve nenhuma música de seu disco mais recente, Rough And Rowdy Ways, e em vez disso preferiu tocar músicas da década de 50 que o inspiraram, fazendo versões para músicas Willie Dixon (“My Babe”), Chuck Berry (“Little Queenie”), dos Fleetwoods (“Mr. Blue”), Hank Williams (“Cold, Cold Heart”) e Sanford Clark (“The Fool”), que nunca havia tocado ao vivo em sua vida. Da própria lavra, preferiu priorizar seu disco de 2012, Tempest, ao tocar “Early Roman Kings”, “Long and Wasted Years”, “Pay in Blood” e “Scarlet Town” (e colocando camisetas da turnê deste disco à venda no dia do show) e ainda puxou “Beyond Here Lies Nothin'”, faixa de abertura de seu disco de 2009, Together Through Life. As únicas faixas próprias do século passado foram “Simple Twist Of Fate” (de 1975), “Under The Red Sky” (de 1990) e “Things Have Changed”, gravada para a trilha sonora do filme Garotos Incríveis, de Curtis Hanson, lançado no ano 2000. Como na turnê que vinha fazendo do disco anterior, Dylan tocou mais piano e gaita do que guitarra e ao ser realizado no formato festival, permitiu que fãs registrassem em vídeo as apresentações (praticamente impossível anteriormente, menos por restrições ao público e mais por tocar na penumbra). Ele também trouxe mudanças na formação da banda, ao chamar o guitarrista Donnie Herron, que não tocava em sua banda há quase 20 anos, e o baterista Jim Keltner, que o acompanhou em sua fase gospel, no século passado. Mesmo octagenário, o velho não para de mudar – e fica aquele fiapo de esperança que ele possa vir ao Brasil em um futuro próximo.
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“Pra ser honesto, foi amor à primeira vista, como parceiro, músico e amigo”, lembra o octegenário Marcos Valle de seu encontro com o músico e produtor norte-americano Leon Ware, que faleceu em 2017. “Imediatamente, eu e Leon sabíamos que tínhamos que escrever algo juntos – era muito natural.” Às vésperas de lançar mais um disco solo, este batizado de Túnel Acústico, Valle pinça uma faixa composta ao lado do saudoso parceiro quando se conheceram, no final dos anos 70, e que ainda seguie inédita até hoje para lançar no início do próximo semestre. A demo de “Feels So Good”, que nunca foi lançada, foi encontrada em uma prateleira na casa de Marcos Valle quando seu autor entregou ao amigo e produtor Daniel Maunick para refazê-la. Tirou o vocal cantarolado que ocupava a segunda parte, cuja letra foi escrita e cantada por Valle neste ano, acrescentou vocais (a cargo de Paula Alvi), percussão (dele mesmo e Ian Moreira), deixando os vocais de Ware e os teclados de Valle gravados num estúdio em Los Angeles em 1979, quando o brasileiro ainda morava nos EUA. A deliciosa “Feels So Good” foi mostrada nessa sexta-feira pela gravadora inglesa Far Out, que lançará o single em uma versão limitada de 500 discos de vinil (já à venda), tornando-se a quarta faixa composta e tocada pela dupla – e juntando-se a “Rockin’ You Eternally” e “Baby Don’t Stop Me” (esta com Laudir De Oliveira do grupo Chicago) lançadas no disco de Ware de 1981 e a faixa-título do disco Estrelar, que Marcos Valle lançou em 1983. “Foi uma deliciosa parceria que eu prezo muito, muito”, continua Valle, ao falar sobre a nova música, “sinto muita falta dele e estou muito feliz que temos essa nova música juntos.
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O sumo-sacerdote do noise Thurston Moore veio lançando singles desde o início do ano e agora acaba de formalizá-los no lançamento de mais um álbum, o nono lançado com seu nome e sexto desde o fim de sua banda, o fundamental Sonic Youth. Flow Critical Lucidity reúne as três músicas que lançou desde o ano passado — “Isadora” (cujo clipe foi dirigido pela Sky Ferreira) “Hypnogram” e “Rewilding” – a outras cinco faixas, uma delas lançada nesta quinta-feira. Enquanto as três primeiras carregam sua assinatura musical clássica, misturando o vocal quase falado a melodias dissonantes sobre ritmos marcados, a nova, composta em parceria com Lætitia Sadier, do Sterolab, conduz a musicalidade para outro hemisfério: hipnótico, repetitivo e delicado, com os vocais de Thurston superpondo aos de Laetitia – e dando ao disco, que já está em pré-venda e será lançado no dia 20 de setembro, uma nova coloração. Veja a capa, o nome das músicas e ouça a faixa na íntegra abaixo: Continue

Kendrick Lamar abalou as estruturas do hip hop nesta quarta-feira, ao apresentar o show The Pop Out: Ken and Friends no The Forum, em Los Angeles. A apresentação foi uma celebração à Califórnia, mais especificamente ao rap de Los Angeles, quando contou com a participação de ícones da história do gênero misturando-se com sua própria biografia, visitando quase todos seus discos e com aparições surpresas de nomes como seu supergrupo Black Hippy (chamando os integrantes originais Ab-Soul, Jay Rock e ScHoolboy Q para o palco) e ninguém menos que Dr. Dre, que trouxe dois de seus clássicos, “Still D.R.E.” e “California Love”. Ele reuniu todos os compadres – inclusive os líderes das gangues historicamente rivais da área, Bloods e Crips – para uma foto histórica: “Isso tudo tá me deixando emotivo, estamso na merda desde que Nipsey (Hussle, rapper morto em 2019) morreu, desde que Kobe (Bryant, jogador de basquete, morto em 2020) morreu”, bradou o rapper, “isso é o melhor moemnto dessa unidade, perdemos muitos manos nessa vida de música, nessa vida de rua, por isso para todos que estão no palco, isso tudo é especial.” E como a celebração da união angelena não fosse o suficiente, Kendrick aproveitou a oportunidade para firmar os pregos que faltavam no caixão de Drake, ao cantar as músicas que fez destruindo o rapper e encerrar com a última delas, “Not Like Us”, cantada cinco vezes seguidas no final da apresentação, com o público assumindo o vocal aos berros. O show inteiro ainda tá no YouTube, corre pra ver antes que tirem!
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Bem bonita a apresentação que Paulo Ohana fez nesta terça-feira no Centro da Terra, antecipando o disco Língua na Orelha, que será lançado no fim deste mês ao tocar pela primeira vez com a banda com a qual gravou o disco: Bianca Godoi (bateria), Ivan “Boi” Gomes (baixo) e Ivan Santarém (guitarra), infelizmente desfalcada do saxofonista e flautista Fernando Sagawa, que não pode comparecer. Além de músicas do seu disco anterior – O Que Aprendi com os Homens -, ele mostrou a íntegra do disco ainda inédito e contou com a participação do cantor e compósitor Gabriel Milliet, que participou da apresentação pilotando um sintetizador e, primeiro só os dois e depois com a banda, passaram por “Grande Hotel São João”, do próprio Milliet, e pela bela “Ojos de Video Tape”, do excelente Clics Modernos do argentino Charly Garcia.
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“Escrever canções e ter um catálogo de discos dos quais todos nós nos orgulhamos, que está aí para todo o mundo pelo resto do tempo, é sem dúvida o aspecto mais importante do que fizemos como uma banda. Em segundo lugar, conseguimos fazer isso durante todas essas décadas e continuar amigos. E não apenas amigos, mas queridos amigos. Amigos pra sempre”, disse Michael Stipe ao aceitar a entrada do R.E.M. ao Songwriters Hall of Fame, cuja cerimônia, que aconteceu nesta quinta-feira, viu o grupo voltar a tocar juntos depois de anos longe dos palcos. “Somos quatro pessoas que desde muito cedo decidiram que seriam donos das nossas próprias fitas masters e dividiríamos igualmente nossos royalties e créditos de composição”, continuou o vocalista. “Éramos todos por um e um por todos. E então começamos a fazer nosso trabalho desta forma. Funcionou bem, às vezes ótimo, e que viagem que foi. Realmente significa muito para nós que você nos reconheçam esta noite e por isso agradecemos por essa honra incrível.” O grupo aproveitou o barulho para ressuscitar uma playlist em que cada um de seus integrantes escolhe suas dez músicas favoritas, fazendo o próprio Top 40 da banda. E aproveitando a cerimônia, o programa CBS Mornings disponibilzou os 40 minutos da entrevista com o grupo no canal do YouTube da emissora norte-americana. Veja o discurso, a entrevista e a relação das músicas da playlist – e quem escolheu o que abaixo: Continue

Tô falando disso há um tempo: há uma nova geração de músicos e bandas vindo aí que está vindo com mais força e criatividade do que podemos esperar. E nesta sexta-feira, reuni dois exemplares desta nova safra, quando o palco do Inferninho Trabalho Sujo recebeu as bandas Skipp is Dead e Tangolo Mangos. Liderado e concebido pelo amapaense Alejandro de Los Muertos – o próprio Skipp, que também faz os flyers do Picles, entre outras mil atividades -, o Skip is Dead mistura indie rock do início deste século com trilha sonora de videogame e guitarradas do norte do país e rotulando-se como space pirate synth rock e ainda conta com o baterista Marco Trintinalha, o guitarrista Colinz, o tecladista Leon Sanchez (sintetizadores) e o baixista Vinicius Scarpa. Mas o show foi além dos músicos no palco e com uma direção de arte afiadíssima, ainda mais para os padrões do Picles, elevou a apresentação para o nível de espetáculo, com uma instalação que incluía dois telões, figurino e maquiagem num show multimídia que ainda contou com a participação da Yma em uma das canções.
Depois deles foi a vez do grupo baiano Tangolo Mangos mostrar seu disco de estreia Garatujas pela primeira vez em São Paulo e o público era formado por um verdadeiro quem é quem de nomes dessa mesma novíssima geração, entre cantoras, instrumentistas e agentes culturais que estão se conhecendo e reconhecendo como uma mesma turma à medida em que fazem seus trabalhos. Liderados pelo carismático guitarrista Felipe Vaqueiro, o Tangolo era nitidamente uma inspiração para essa parte do público que também é artista e idolatrado pelo pequeno mas firme fã-clube que ergueram em São Paulo, que não só sabia as letras do grupo de cor como estavam prontos para sair quebrando tudo ao menor sinal da banda. Esta, além de Vaqueiro, ainda conta com o baterista João Antônio Dourado, o baixista João Denovaro e o percussionista Bruno “Neca” Fechine, exímios músicos versados tanto em rock clássico, MPB, indie rock e música baiana e a fusão destes gêneros musicais aparentemente contraditórios encaixava-se como um quebra-cabeças a cada nova canção que o grupo mostrava. Com o paulista Caio Colasante fazendo a segunda guitarra como convidado, a banda ainda contou com participações especiais durante a noite, como o pernambucano Vinícius Marçal (da banda Hóspedes da Rua Rosa), o conterrâneo Matheus Gremory (mais connhecido como Devil Gremory, cujo trabalho musical mistura trap e heavy metal) e a mineira Júlia Guedes, neta de Beto Guedes, que também está preparando seu primeiro trabalho solo e tocou teclado com o grupo reverenciando sua linhagem, quando a Tangolo passeou por dois clássicos compostos quando o grande Lô Borges ainda era da sua faixa etária: “Trem de Doido”, do clássico disco Clube da Esquina, e “Você Fica Melhor Assim”, de seu mitológico disco de estreia. Uma noite marcante que ainda contou com duas estreias: a da jornalista Lina Andreosi como DJ, que tocou antes das duas bandas, e a da quase-parente Pérola Mathias dividindo a discotecagem comigo na pista do Picles – quando seguimos o fervo misturando Stevie Wonder com Slits, Beyoncé com Jamiroquai, Gloria Groove com Can, Rita Lee com (claro que não podia faltar) Mariah Carey. Quem foi sabe: a nova geração está chegando!
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E os quatro integrantes do R.E.M. voltaram a tocar juntos nesta quinta-feira, depois de entrarem para o panteão do Songwriters Hall of Fame, no palco do hotel Marriott Marquis, em Nova York, onde aconteceu a cerimônia. A quinta-feira começou com o grupo afirmando em cadeia nacional nos EUA que não voltariam a tocar juntos de novo no programa CBS Mornings, em entrevista ao jornalista Anthony Mason. Quando foram perguntados ao final do programa o que seria preciso para que o grupo voltasse a tocar juntos, o baixista Mike Mills respondeu que seria necessário “um cometa”, mas todos concordaram que não acontecerá uma volta de fato, porque confirmaram que continuam se dando bem uns com os outros justamente por terem terminado na hora certa. Mas na cerimônia da noite, os quatro deram uma palhinha e tocaram “Losing My Religion” – e vale assistir à entrevista que deram ao telejornal matutino, especialmente quando o baterista Bill Berry assume, às lágrimas, que se arrependeu de ter saído da banda no meio dos anos 90, e é imediatamente consolado por seus ex-companheiros de banda.
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Quinta foi dia de dar um pulo no Jazz Factory para ver duas atrações em ascensão na cena paulistana – e as duas atrações mostraram sua versão mais jazz à brasileira. A sensacional Orfeu Menino aos poucos vem mostrando suas músicas novas, mas ainda divide seu repertório com músicas alheias, temperando Marina Lima (“Fullgás”) com Orlandivo (“Tudo Joia”) – e o quinteto tira onda naturalmente, com uma suingueira pesada conduzida pelo carisma inescapável de sua vocalista, Luiza Villa. Cada vez melhor. Depois foi a vez de Ana Spalter assumir a noite com suas músicas autorais, acompanhada de um quarteto da pesada (Johnny Accetta esmerilhando na guitarra, Michael O’Brien nos teclados, Pedro Petrucci no baixo e Léo de Braga na bateria), e mostrando uma groovezeira bem diferente do som introspectivo que faz quando toca só ao piano, que ainda contou com a participação do vocalista dos Fonsecas, Felipe Távora (que também toca com Ana), que dividiu os vocais quando ela apontou o microfone para a plateia. Foi bonito.
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