Nossa querida Courtneyzinha transforma um lamento sobre o sentido da vida confundido com tentativa de suicídio em uma oportunidade de estar com seus amigos e compadres ao estilo Saturday Night Live – e assim o clipe de sua “Elevator Operator” é um desfile de participações especiais que incluem o trio Sleater-Kinney e o líder do Wilco Jeff Tweedy como personalidades mais conhecidas, mas também inclui uma série de nomes famosos em sua terra-natal Austrália mas semidesconhecidos (ou simplesmente anônimos) para o resto do mundo. Gostei de ver que ela chamou os líderes de duas bandas de seu país que eu acompanhei em momentos distintos da vida: o Tim Rogers da banda You Am I (fãs de Big Star podem ir atrás) e o Vincent Vendetta do Midnight Juggernauts (minha banda favorita da cena dance local que deu ao mundo nomes como Cut Copy, Miami Horror, Bag Raiders e Van She).
Abaixo, a lista das participações especiais em ordem de aparição, como ela mesma colocou na descrição do clipe:
Sleater-Kinney
Glory! Bangs
Courtney Barnett
Bones Sloane & Dave Mudie
Magda Szubanski
Tim Rogers
The Finks
Tweedy
The Drones
Garret & Will Huxley, Gabi Barton
Sunny Leunig
Vincent Juggernaut
Tain Stangret
Izzi Goldman and John
Nicholas & Thea Jones
Batpiss
Loose Tooth
Camp Cope
Jo Syme (Big Scary)
East Brunswick All Girls Choir
Paul Kelly
Michael Leunig
Meaghan Weiley, Jess Tyler, Thommy Taranto (Milk! Records)
Jen Cloher
Fraser A. Gorman
Ouch My Face
Marni Kornhauser & Radar Rad
A superposição do “Concertino for 4 Percussion & Wind Ensemble”, de David R. Gillingham, tocada pela Banda Sinfônica do Estado de São Paulo aos protestos pró-impeachment de quase um ano atrás e à música “Ó” de Rômulo Fróes – tudo registrado no mesmo 16 de agosto do ano passado – dá a esse curta Barulho Feio, de Miguel Antunes Ramos, apresentado em primeira mão no Trabalho Sujo, um tom meio fantasmagórico e descrente sobre o Brasil em 2016. O próprio Miguel descreve o que quis fazer:
“No começo havia uma vontade de filmar essa coisa maluca que foram as passeatas pró-impeachment, que nos parece uma coisa até hoje pouco compreendida pela esquerda, tendo sido muito facilmente ridicularizada e ignorada, como se não fosse o surgimento de algo terrível e no entanto duradouro, que agora assumiu de vez o poder.
Depois percebemos que em um mesmo dia haveria o concerto na Sala São Paulo e o show do Rômulo Fróes no Teatro de Arena, e nos pareceu que a associação entre as três coisas poderia revelar alguma coisa sobre o momento confuso que vivemos.
Filmamos tudo de forma direta, uma câmera e um tripé, e o resultado é esse que pode ser visto em Barulho Feio.”
Os papas do maximalismo (do you remember?) voltam a dar notícias depois de cinco anos sem lançar música inédita – e chegam em 2016 tentando fazer a ponte entre o Daft Punk de Random Access Memories e o Currents do Tame Impala, entre a disco music clássica e a psicodelia de pista de dança. A irresistível “Safe and Sound” pode ser ouvida abaixo e baixada gratuitamente no site da dupla francesa e não antevê nenhum disco novo…
…por enquanto.
A atriz de Azul é a Cor Mais Quente tá um pouco atrasada, mas a galera no Facebook tá fazendo o que pode para atualizá-la das novidades.
Mais uma edição de minha coluna Tudo Tanto na revista Caros Amigos que republico atrasado por aqui, esta é sobre o novo disco de João Donato, que pude ver ao vivo no começo do ano (e os vídeos vêm a seguir). A coluna saiu na edição de abril.
De volta à eletricidade
João Donato volta ao vigor de seus anos 70 com o disco Donato Elétrico
João Donato aceitou o convite de Ronaldo Evangelista para voltar à eletricidade. O jornalista – meu amigo pessoal, não preciso esconder isso – já vinha apontando sua transição do texto para o estúdio ao se propor o desafio de transformar seu projeto Goma Laca – em que artistas recriavam pérolas esquecidas da música brasileira que só foram registradas em compactos de 78 rotações – em um disco. Sua primeira produção reuniu nomes de peso como Karina Buhr, Lucas Santtana, Russo Passapusso e Juçara Marçal para recriar músicas com quase um século de idade. O próximo estágio seria produzir um disco de um único artista e aproveitou a aproximação com Donato para fazer sua estréia como produtor em grande estilo.
Foi um lento processo de convencimento, sem pressa nem pressão, bem ao estilo do velho músico. Donato é destes alicerces da música brasileira que poucos prestam a devida atenção – ele se adequa à expressão inglesa que o qualifica como um “musician’s musician”, um músico apreciado mais por outros músicos do que pelo grande público, não sem razão. Mestre da suavidade e do sossego, é uma das claras inspirações da bossa nova, tendo influenciado tanto João Gilberto quanto Tom Jobim quando estes ainda começavam suas carreiras. Depois teceu uma carreira paralela entre o Brasil e o exterior, levando a música brasileira embalada a uma latinidade própria sua, que foi desenvolvendo e curtindo com o passar dos anos.
O primeiro disco de inéditas de João Donato deste século começou com um acerto de contas com o passado, quando Ronaldo conseguiu uma boa desculpa para fazer o músico voltar aos instrumentos elétricos, essência de sua sequência de discos clássicos dos anos 1970. Descobriu que o disco Quem é Quem, lançado em 1973, não teve um show de lançamento de fato e resolveu aproveitar o aniversário do disco para finalmente lançá-lo. Para isso cercou-o dos músicos do grupo paulistano Bixiga 70 e convocou amigos do arranjador para subir ao palco – além do veterano compadre Marcos Valle, que produziu o disco original, também chamou as cantoras Tulipa Ruiz e Mariana Aydar para cantar os clássicos do disco do mestre, que incluem canções como “A Rã”, “Cala Boca Menino”, “Me Deixa”, “Amazonas” e “Cadê Jodel?” No ritmo de Donato, o show só foi acontecer no início de 2014, em duas apresentações emocionantes no Sesc Pinheiros.
Era o primeiro passo para uma impressionante aproximação entre o buda do groove brasileiro e a fina flor da nova música instrumental brasileira. Além de músicos do Bixiga, que incluem o baterista Décio 7, o baixista Marcelo Dworeck, os guitarristas Cris Scabello e Maurício Fleury (que também toca teclado no Bixiga mas preferiu não chegar perto do instrumento do mestre), o naipe de metais formado por Cuca Ferreira (sax e flautim), Daniel Nogueira (sax), Douglas Antunes (trombone) e Daniel Gralha (trompete) e os percussionistas Rômulo Nardes e Gustavo Cecci, o disco contou com outras presenças de peso, como o baterista Bruno Buarque (que tocava com a Céu e hoje toca com Anelis Assumpção), o saxofonista Anderson Quevedo, os percussionistas Mauro Refosco e Guilherme Kastrup (este idealizador do disco mais recente de Elza Soares, Mulher do Fim do Mundo), o guitarrista Gustavo Ruiz (irmão de Tulipa, que toca com ela), o trombonista Richard Fermino, o vibrafonista Beto Montag e o baixista Zé Nigro (que toca com Curumin) e um quarteto de cordas formado por Aramís Rocha, Robson Rocha, Daniel Pires e Renato de Sá, que em uma das músicas seguiu os arranjos de Marcelo Cabral, baixista que toca com Criolo e com o Metá Metá.
Chamado de Donato Elétrico, o disco foi gravado no ano passado no bunker do Bixiga, o estúdio Traquitana que sedia as sessões de alquimia musical do coletivo paulistano de groovezeira, localizado no bairro que batiza o grupo, mas só viu a luz do dia no início deste ano. É um inevitável reencontro de Donato não apenas com instrumentos que havia deixado de lado – teclados Rhodes, Farfisa, Clavinet e até um Moog – mas com uma espontaneidade que solta faíscas. Há a clara vibração de discos como A Bad Donato, Quem é Quem e o clássico Donato/Deodato, em que encontrou-se com outro monstro maestro brasileiro, Eumir Deodato. Mas ela tem uma luz mais clara que a daqueles discos, que são propriamente carregados. O novo disco não é parte de uma evolução natural de sua musicalidade como aconteceu nos anos 70 e sim um reencontro com uma essência jovem que talvez tivesse dada como perdida. Donato vinha tranquilamente apresentando-se ao lado de um baixista acústico e um baterista, quando muito chamando uma vocalista ao encontro, e de repente viu-se cercado de músicos com sangue nos olhos, secos para deitar e rolar ao lado do mestre. João, envolto em sua tradicional névoa branca, com seus bonés e tênis coloridos escancarava o sorriso nas apresentações ao vivo com o grupo de novos músicos, alheio aos seus mais de oitenta anos de idade.
Pude vê-lo em ação duas vezes nesta nova fase. Uma delas, no ano passado, tocando para pouquíssimos num palco menor daquele shopping center chamado Rock in Rio, pérolas aos porcos que esperavam na fila para cantar no karaokê de uma marca de refrigerante. Em outra, no lançamento do disco, toda a choperia do Sesc Pompeia lotada, reverenciava o encontro do mestre com os pupilos. Em ambas apresentações, em dado momento Donato levantava-se do banquinho de trás dos teclados e brincava com os botões dos sintetizadores, explorando efeitos, transformando melodia em ritmo, claramente divertindo-se e divertindo o público.
Começa nesta quinta-feira extensa turnê de lançamento de meu primeiro livro, ao lado de seu próprio personagem. Pra quem ainda não sabe, fui chamado pra escrever o livro do primeiro YouTuber brasileiro – o PC Siqueira – com a intenção de ambas partes de não ser um ghost-writer nem escrever a “história de vida da pessoa humana” que seria Paulo Cezar Siqueira. Optamos por uma ficção que é uma colagem de referências sobre a personalidade do sujeito e PC Siqueira Está Morto está saindo pelo selo Suma de Letras, da Companhia das Letras. O primeiro lançamento acontece hoje em São Paulo, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, a partir das 19h, e também é a primeira vez que o PC aparece em público depois da cirurgia para corrigir seu estrabismo, saca só:
É só colar lá.
O grupo cínico de glam rock de Alex Turner e Miles Kane mandou uma versão inacreditável para “Moonage Daydream” do falecido David Bowie em sua apresentação no Glastonbury deste ano. Saca só:
Em outro momento do festival, o líder dos Arctic Monkeys foi flagrado curtindo o show do Tame Impala, do lado do palco, nesse microvídeo:
Alex é fãzaço do grupo australiano e há dois anos gravou uma versão do hit “Feels Like We Only Go Backwards” em um programa de rádio no país de Kevin Parker, com sua banda oficial, o Arctic Monkeys.
Sempre piro na possibilidade dos dois armarem de fazer algo juntos. Imagina…
Alan Moore tinha razão:
“Europe is lost, America lost, London lost”, canta Kate Tempest, “still we are clamouring victory”. Se alguém quiser traduzir a letra, posta nos comentários que eu republico aqui.
Europe is lost, America lost, London lost
Still we are clamouring victory
All that is meaningless rules
We have learned nothing from historyPeople are dead in their lifetimes
Dazed in the shine of the streets
But look how the traffic’s still moving
The system’s too slick to stop working
Business is good. And there’s bands every night in the pubs
And there’s two for one drinks in the clubsAnd we scrubbed up well
We washed off the work and the stress
Now all we want’s some excess
Better yet; A night to remember that we’ll soon forgetAll of the blood that was bled for these cities to grow
All of the bodies that fell
The roots that were dug from the earth
So these games could be played
I see it tonight in the stains on my handsThe buildings are screaming
I can’t ask for help though, nobody knows me
Hostile, worried, lonely
We move in our packs and these are the rights we were born to
Working and working so we can be all that we want
Then dancing the drudgery off
But even the drugs have got boring
Well, sex is still good when you get itTo sleep, to dream, to keep the dream in reach
To each a dream
Don’t weep, don’t scream
Just keep it in
Keep sleeping in
What am I gonna do to wake up?I feel the cost of it pushing my body
Like I push my hands into pockets
And softly I walk and I see it, this is all we deserve
The wrongs of our past have resurfaced
Despite all we did to vanquish the traces
My very language is tainted
With all that we stole to replace it with this
I am quiet
Feeling the onset of riot
Riots are tiny though
Systems are huge
The traffic keeps moving, proving there’s nothing to doIt’s big business baby and its smile is hideous
Top down violence, a structural viciousness
Your kids are doped up on medical sedatives
But don’t worry bout that, man. Worry bout terroristsThe water levels rising! The water levels rising!
The animals, the elephants, the polarbears are dying!
Stop crying. Start buying
But what about the oil spill?
Shh. No one likes a party pooping spoil sportMassacres massacres massacres/new shoes
Ghettoised children murdered in broad daylight by those employed to protect them
Live porn streamed to your pre-teen’s bedrooms
Glass ceiling, no headroom
Half a generation live beneath the breadlineOh but it’s happy hour on the high street
Friday night at last lads, my treat!
All went fine till that kid got glassed in the last bar
Place went nuts, you can ask our Lou
It was madness, the road ran red, pure claret
And about them immigrants? I can’t stand them
Mostly, I mind my own business
They’re only coming over here to get rich
It’s a sickness
England! England!
Patriotism!And you wonder why kids want to die for religion?
It goes
Work all your life for a pittance
Maybe you’ll make it to manager
Pray for a raise
Cross the beige days off on your beach babe calendarThe anarchists are desperate for something to smash
Scandalous pictures of fashionable rappers in glamorous magazines
Who’s dating who?
Politico cash in an envelope
Caught sniffing lines off a prostitutes prosthetic tits
And it’s back to the house of lords with slapped wrists
They abduct kids and fuck the heads of dead pigs
But him in a hoodie with a couple of spliffs –
Jail him, he’s the criminal
Jail him, he’s the criminalIt’s the BoredOfItAll generation
The product of product placement and manipulation
Shoot em up, brutal, duty of care
Come on, new shoes
Beautiful hairBullshit saccharine ballads
And selfies
And selfies
And selfies
And here’s me outside the palace of ME!Construct a self and psychosis
And meanwhile the people are dead in their droves
But nobody noticed
Well some of them noticed
You could tell by the emoji they postedSleep like a gloved hand covers our eyes
The lights are so nice and bright and lets dream
But some of us are stuck like stones in a slipstream
What am I gonna do wake up?We are lost
We are lost
We are lost
And still nothing
Will stop
Nothing pausesWe have ambitions and friendships and courtships to think of
Divorces to drink off the thought ofThe money
The money
The oilThe planet is shaking and spoiled
Life is a plaything
A garment to soil
The toil the toil
I can’t see an ending at all
Only the endHow is this something to cherish?
When the tribesmen are dead in their deserts
To make room for alien structures
Develop
DevelopAnd kill what you find if it threatens you
No trace of love in the hunt for the bigger buck
Here in the land where nobody gives a fuck
É um dia sombrio não só para a Inglaterra e para a Europa, mas para todo o planeta.
Lá se vai o mestre das teclas do P-Funk, um maestro do groove, que ensinou os Talking Heads a dançar.
Ah, essa música, esse clipe, esse disco, essa mulher…
Preciso escrever sobre esse Lemonade. Aliás, tenho tentado, mas é tanto pra falar…










