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O antigo Hotel São Pedro, inspirador do quinto disco do Cidadão, Fortaleza, visto da varanda do hotel entre pancadas de chuva, fumaça e planos mirabolantes

O antigo Hotel São Pedro, inspirador do quinto disco do Cidadão, Fortaleza, visto da varanda do hotel entre pancadas de chuva, fumaça e planos mirabolantes

Renata Simões, que fez a mediação da primeira edição do Spotify Talks desse ano, é minha comadre velha de guerra e pediu licença para publicar aqui no Trabalho Sujo mais um de seus Rolezinhos, a série de matérias que retratam cidades e lugares e sua relação com as pessoas e com a cultura – como ela explica melhor aqui. Desta vez o destino foi Fortaleza, quando do acontecimento do cada vez mais importante festival Maloca Dragão, que, na edição deste ano, recebeu show do BaianaSystem, homenagem-relâmpago ao recém-falecido Belchior (a notícia, como conta Renata, chegou no meio da edição), da primeira celebração do Cidadão Instigado de seus 20 anos de travessia, em sua cidade-natal e do projeto Praia Futuro. E eu sou besta de não deixar? Fala Renata!

Fortaleza te recebe com 27 graus de temperatura às duas da manhã. O mar do outro lado da janela do hotel promete um frescor que o clima não entrega. Estou na cidade para o Maloca Dragão, festival de artes integradas do Centro Cultural Dragão do Mar (melhor nome de lugar ever).

Os shows, gratuitos, acontecem em palcos montados pelas ruas do bairro da Praia de Iracema, semelhante à Virada Cultural paulistana, mas ao redor do tal Dragão do Mar, que normalmente é o centro de atividades culturais na região da capital. Atrações locais, nacionais e internacionais, da música eletrônica ao teatro experimental, se espalham por vinte palcos. Na lista do “quero ver” o show que celebra os vinte anos do Cidadão Instigado, BaianaSystem, As Bahia e a Cozinha Mineira, Horoyá, Nego Gallo, e mais umas coisas que a turma local indicou. Certeza da vontade de ouvir Praia Futuro, projeto instrumental lançado pelo selo Nublu que não vi no Sesc, ano passado.

Caminhando pela orla, de longe dá para ouvir a guitarra, o baixo, a bateria. De perto, Fernando Catatau (Cidadão Instigado), Dengue (Nação Zumbi) os dois de bermuda e chinelo de dedo, passam o som junto com Kalil, o sexto integrante do Cidadão. Praia Futuro, o disco, foi gravado na cidade, no estúdio Totem, “em janeiro ou fevereiro de 2016, acho, foi antes do Maloca (do ano passado)”.

Kalil estreia nos palcos depois de assinar gravação e mixagem de discos e shows do Cidadão Instigado, Otto, Arnaldo Antunes, entre outros. “Toco bateria desde os onze anos. Quando fui pra São Paulo estudar áudio, vi a possibilidade de estar com todos os instrumentos na minha mão, de sair do ritmo para ter uma banda inteira.” Dengue, pilar do Praia Futuro, convenceu Kalil a tocar: “Foi muito simples, fui enchendo o saco dele e ele foi tocando”.

https://soundcloud.com/nublu/sets/praia-futuro-1

O projeto começou sem nome, depois do show do Central Park nova-iorquino que comemorava os vinte anos do disco Afrociberdelia, da Nação Zumbi. “Eu conheço o Ilhan (Ersahim, músico e dono do selo Nublu) desde 2000. A gente sempre se falou e nunca falou de trabalho. Nesse dia surgiu esse assunto, e sobre como seria, algo de dub. Acabou que Praia Futuro não tem nada de rótulo, tem coisa de praia”, conclui Dengue.

Formatado como um trio com Pupilo, também da Nação, Dengue e Ilhan, o grupo sofreu alterações na escalação porque o baterista da Nação Zumbi estava envolvido com produção do disco Tropix de sua parceira Céu, e a direção musical do show de Gal Costa. Kalil foi para a bateria e Catatau escalado na guitarra para reforçar as melodias: “Cheguei dentro do estúdio, gravando. Caí de paraquedas e fui cortando as tiras do paraquedas. A gente é amigo, se entende mentalmente tirando som, sempre tocou junto”, explica o guitarrista.

O nome veio de Kalil: “Isso aqui é uma coisa muito louca, é meio relax, o clima é meio praia, e aí foi a minha inspiração: a volta pro início. Voltei pra praia, voltei a tocar bateria como tocava na adolescência na praia do Futuro (em Fortaleza).” Ilhan, que chegaria na cidade às dez e meia da noite, não passou som, perdeu as ondas batendo na orla e o cheiro do mar que invadia o palco.

Eles seguem para o hotel para se trocar, enquanto no Centro Dragão do Mar acontece o Conexões Maloca: produtores, artistas, contratantes, jornalistas, empresários brasileiros e gringos são convidados pelo festival para conhecerem a cena local. Numa espécie de speed date, cada artista apresenta seu trabalho em três minutos para os responsáveis do Circo Voador (no Rio), do Lincoln Center (em Nova York), e de festivais como o Psicodália (em Santa Catarina), a SIM (de São Paulo) e o BR 136 (no Maranhão). O Ceará é o terceiro estado do Brasil em geração de empregos na área da cultura, segundo o IBGE, atrás apenas de São Paulo e do Rio, e com o esquema do Conexões, todas as atrações se favorecem.

Circulando pelos shows, a responsável pelo festival de Cabo Verde assistiu BaianaSystem e articulou uma possível visita da banda ao país. A trupe visitou também o Totem Estúdio para uma audição de Praia Futuro com direito a comidinhas do Uhuuu, restaurante de Marcelo Diógenes que além de rangos incríveis (e do nome inspirado no terceiro disco do Cidadão), produz os melhores discos de Fortaleza.

No primeiro dia de festival deu pra ver Isabel Gueixa, Nego Gallo e Fortal La Mafia representado o hip hop local, e a cantora Nayra Costa. Na Praça Verde, dentro do Centro Cultural, o palco aberto com parte de arquibancada de arena abrigou a celebração dos vinte anos do Cidadão Instigado. A banda está pela primeira vez acompanhada de naipe de metais, com trompete, sax e trombone. Catatau entra sem a guitarra a tiracolo, numa pequena performance. Vinte anos apresentados em uma viagem cronológica pelos álbuns da banda que segue em turnê pelo Brasil.

O hotel é próximo. Sou alertada, pela terceira vez no dia, que melhor não voltar andando, mulher, sozinha e com equipamentos. “Fortaleza tem muito assalto, é muita desigualdade”, repetiam. Da desigualdade e da violência, nós em todas as grandes cidades, sabemos como é. Aceitei a carona de volta entre inesperadas trombas d’água.

Amor encontrado nas esquinas de Fortaleza

Amor encontrado nas esquinas de Fortaleza

Desse tipo de viagem o melhor é o que não está no cronograma: um monte de gente junta que gosta de música na praia falando besteira. Um cachorro deita embaixo do guarda-sol e disputa a sombra com a responsável pela programação do Lincoln Center e nosso ponto de referencia pela tez branca. Melhor coisa de ter gringo no rolê é que você nunca perde o grupo.

Na segunda noite, depois da apresentação d’As Bahia e a Cozinha Mineira e um pedaço do show dos trinta anos da Tribo de Jah, ficamos sabendo que Ilhan ainda não tinha aterrissado em Fortaleza. O show previsto para uma da manhã, atrasa. Quando todos sobem ao palco, começa a viagem instrumental que tem momentos diversos. “É um som astral, tem as partes abertas que a gente pode improvisar bastante”, começa Catatau. “A gente gira ao redor dos temas, olha um no outro, se dá o espaço, é uma coisa muito educada musicalmente falando “ completa Dengue. É surpreendente e leve. “É meio relax, o erro está valendo”, define Kalil. No show, além dos artistas convidados, Lenna Beauty Gadelha, mulher do baterista e bailarina profissional, fez duas participações dançando.

Praia Futuro é também psicodelia visual. Lenna Beauty Gadelha dança no meio da apresentação da banda

Praia Futuro é também psicodelia visual. Lenna Beauty Gadelha dança no meio da apresentação da banda

Findo o show seguimos para o Canuto, mais conhecido como “o bar do reggae”, um lugar sem portas que não fecha nunca e abriga com música, bebida e pastel. O bar vai enchendo sem hora para esvaziar. Na manhã seguinte, a cidade acorda com a notícia da morte de Belchior. Correria para montar uma homenagem ao filho pródigo do Ceará, para fechar o festival depois de (mais um) avassalador show do BaianaSystem. Nayra Costa voltou para cantar “Como Nossos Pais”, Soledad fez “Apenas um Rapaz Latino-Americano” e João do Crato “Hora do Almoço”. O público dança, chora, e canta a plenos pulmões.

O protetor do Bar do Reggae

O protetor do Bar do Reggae

Naquela noite novamente o célebre Bar do Reggae recebe músicos, técnicos, jornalistas `a medida que acabam as atividades. Esticam ao máximo à noite, até ela virar dia. Fortaleza tem um frescor encantador no jeito de levar a vida, mesmo que o calor abafe a temperatura.

Foto: Carina Zaratin (Divulgação)

Foto: Carina Zaratin (Divulgação)

“Tenho visto e ouvido coisas emergentes na música e no cenário onde a praticamos. Novos grupos revelando novos caminhos. Outras atitudes. Outros ângulos sonoros. A música em si será como sempre foi; feia ou bonita dependendo de quem a ouve. Mas a maneira de ser dessa tribo que está ocupando espaços, traz um ar novo, animador e importante: conteúdo com a qualidade alguns pontos acima” – quem descreve este cenário é Renato Teixeira, ícone vivo da música de raiz brasileira, que acaba de encontrar-se com a banda de rua Mustache e os Apaches para um encontro ao redor de uma de suas canções, “Rio Abaixo”.

A conexão entre as duas gerações foi feita pela filha de Renato, Antônia, amiga pessoal do grupo. “‘Rio Abaixo’ é uma das músicas do Renato que a gente mais gosta”, explica o vocalista da banda, Pedro Pastoriz. “E chegamos nela em uma conversa muito rápida. A princípio é uma música que o Renato não toca muito nos shows, é de um repertório antigo e a composição é de Geraldo Roca e Paulo Simões.”

Renato continua: “A música por ser invisível e inodora, repousa na gravidade da terra eternamente. As clássicas, por exemplo, continuam soando mais belas a cada dia enquanto gerações inteiras vão passando por ela. Reinventar, renovar-se, ampliar horizontes, qualificar a vida dos humanos, são missões musicais. Ouvir música, qualquer uma, é praticar auto ajuda. Os tempos mudam o comportamento conforme a humanidade evolui e é dentro dessa lógica que a arte se orienta para também avançar. Sem ter que ser obrigatoriamente um caleidoscópio de possibilidades nunca vistas de sonoridades inimagináveis, a arte musical jamais se comprometeu com qualquer tendência para ser eficiente. Basta ser do agrado de todos e o assunto estará resolvido. Uma banda como Mustache e os Apaches, a canção do Roca e do Simões, aquele arranjo certeiro que o Sergio Mineiro criou lá nos porões dos anos oitenta mais a vivencia que as canções adquirem com o passar dos anos, tudo isso somado, possibilitou que descontraidamente a gente revisitasse a canção numa manha sol na serra da Cantareira e nos divertíssemos muito com ela.”

“‘Rio Abaixo’ tem lá uma certa ironia, como quase tudo que passa pelo Roca. Tem também um que de deboche que o Simões gosta de camuflar nos seus dizeres. Quando ouvi pela primeira vez, achei que Elis iria gostar; marquei uma visita do Roca na casa dela. Elis ouviu mas não se ligou; então eu gravei no meu disco Garapa. Ficou lindo. Espero que esse numero musical venha agora trazer uma gostosa reflexão filosófica sobre a vida vivida nesse pais tropical onde ‘Rio Abaixo’ é o nome de uma determinada afinação da viola e serve também de dizer popular, quando a gente vê a viola em cacos e nao pode mais deter a evolução dos fatos”, empolga-se o velho compositor.

“Renato é uma figura engraçada, cheio de histórias”, continua Pastoriz. “Ele tava muito curioso pra saber como funcionava essa coisa nossa de tocar na rua, enfim, passamos um dia muito gostoso entre amigos. No final do dia gravamos a música num por do sol incrível com todas aquelas araras, micos e tucanos da Cantareira. Espero que a gente toque juntos algum dia ao vivo, seria legal no futuro gravar mais algumas coisas, veremos!” O próprio Renato vai além e já traça planos: “Pensei inclusive em regravar um dos meus primeiros discos, o “Paisagem” com os Mustaches.”

glassbox

A terceira temporada de Twin Peaks já é uma das melhores coisas de 2017 e é nítida a sensação de que David Lynch está espalhando as peças de um quebra-cabeças em nossa frente para montá-lo subitamente, incluindo pedaços das duas primeiras temporadas e do filme Twin Peaks – Fire Walk with Me, mas não só. Repare nestas duas cenas dos episódios 1 e 3, sincronizadas por um espectador detalhista.

Como é? Repara:

Aposto que tem muito mais pra acontecer – e bem debaixo do nosso nariz… Como eu já disse, tente não entender – assim o efeito do passe de mágica vai ficar mais incrível.

everythingnow

“Creature Comfort” é mais uma música do novo disco do Arcade Fire (que já está em pré-venda aqui) e a primeira música boa de fato das que já apareceram até agora.

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O grande Lee Ranaldo, o cientista louco do Sonic Youth, segue desbravando o território da canção e acaba de anunciar mais um disco solo. Electric Trim, que só será lançado no meio de setembro, foi gravado com a mesma banda com quem gravou seu disco mais recente, Last Night on Earth de 2013, os mesmos The Dust (formados pelo ex-baterista do Sonic Youth Steve Shelley, o guitarrista Alan Licht e o baixista Tim Luntzel), mas ainda conta com participações especiais de Neils Cline, do Wilco, e Sharon Van Etten, que faz vocais em seis canções. “Eu estou bem animado com esse disco, representa novos caminhos e direções para mim e não vejo a hora de voltar para a estrada e tocar essas músicas ao vivo”, ele disse em um post no Facebook. O velho Lirra abre os trabalhos do disco revelando a capa (feita pelo mesmo Richard Prince que fez a capa do disco Sonic Nurse, do Sonic Youth) e a ordem das músicas, além do primeiro single (“Circular (Right As Rain)”), todos abaixo:

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“Moroccan Mountains”
“Uncle Skeleton”
“Let’s Start Again”
“Last Looks (feat. Sharon Van Etten)”
“Circular (Right As Rain)”
“Electric Trim”
“Purloined”
“Thrown Over the Wall”
“New Thing”

O disco já está em pré-venda, pela gravadora Mute.

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A banda cearense Cidadão Instigado encerrou o ciclo do disco Fortaleza no show que fizeram na Virada Cultural do Centro Cultural São Paulo – e a partir deste fim de semana começa a comemorar duas décadas de atividade com dois shows no Sesc Pompeia, nesta sexta e sábado (mais informações aqui), que devem se espalhar para outras cidades em breve. Além dos shows, que prometem músicas de todas fases da banda, toda discografia do grupo foi lançada em vinil numa caixa luxuosa bolada pelo selo EAEO (que está nas últimas unidades!). Hoje o Cidadão firmou-se em uma formação que reúne o líder, criador e guitar hero Fernando Catatau, o baterista Clayton Martin e os multiinstrumentistas Régis Damasceno, Rian Batista e Dustan Gallas, além do sexto elemento – que pilota o som da banda de fora do palco – Yuri Kalil. Conversei com o Catatau sobre estas duas décadas instigadas.

O que você fazia antes de criar o Cidadão Instigado?
Essa é uma pergunta bem abrangente… Fiz muitas coisas antes de montar o Cidadão. Em termos musicais eu toquei em uma banda quando eu tinha 14 anos que se chamava Ultra Leve. Entrei na banda já formada que tocava rock nacional e tinha algumas composições próprias. Fizemos duas apresentações e depois parei de tocar pra andar de skate. Depois do skate surfei de bodyboard e foi a época que conheci o Regis Damasceno e o Junior Boca. Quando ouvi as músicas do Boca eu achei que tínhamos que ter uma banda e assim montamos a Companhia Blue. A banda durou quatro anos, entre 90 e 94, até que eu e Boca viemos para São Paulo. Daí o Boca teve que voltar pra Fortaleza e foi nessa época que eu comecei a compor as músicas que dariam origem ao Cidadão Instigado.

Como a banda começou? Qual era a primeira formação?
Morei um ano em São Paulo e um ano no Rio entre 1994 e 1995. Nesse período eu fiquei muito tempo só compondo e imaginando a banda. Em 1996 eu voltei pra Fortaleza e montei a primeira formação do Cidadão. Lembro que fui chamando alguns amigos que eu conhecia e todos ficavam meio intrigados com as músicas mas iam topando pela amizade. A primeira formação era eu na voz e guitarra, Rian Batista no baixo, Marcos P.A. na zabumba, Otto Junior na percussão, Amaury Fontenele no teclado, Danilo Guilherme e Ludmila Mourão nos vocais.

Como essa formação evoluiu da original para a da primeira demo?
No começo, tivemos muitas formações, até porque era um momento de testes e tentativas, e como eu era muito obsessivo ficava testando todo tipo de instrumentação e arranjos. Naturalmente, algumas pessoas iam saindo e outras entrando pois manter uma banda em Fortaleza não era uma tarefa muito fácil naquela época. Aos poucos os amigos mais antigos foram se aproximando. Um dia vi o Fil que fazia nossa arte gráfica tirando um som e disse que ele ia tocar zabumba. No começo ele recusou mas depois aceitou a proposta e ficou com a gente até o Ciclo da Dê.Cadência. Dustan (Gallas) que tinha acabado de voltar da gringa entrou tocando caixa e prato e o Danilo Guilherme que fazia vocais começou a tocar percussão. Essa foi a formação do EP.

Depois você veio morar em São Paulo e lançou o disco com o Instituto, O Ciclo da Dê.Cadência. Como aconteceu esse encontro?
Eu voltei pra morar em SP em 2001. Nós já tínhamos todas as músicas do Ciclo bem ensaiadas e massacradas. Passamos muito tempo tocando elas até serem gravadas. Quando chegamos pra tocar em São Paulo pela primeira vez foi no projeto Nordestes no Sesc Pompéia. Lembro que quem fechava a noite era o Otto e foi nesse dia que conheci a banda e o Daniel Ganjaman. Trocando uma idéia com o Ganja sobre gravação ele me falou sobre o estúdio da família dele. o El Rocha. Daí me organizei pra gente ir gravar lá. Ao mesmo tempo que o disco ficava pronto o Ganja estava abrindo um selo, o Instituto, junto com o Rica e o Tejo, e nos convidaram para lançar por eles.

Depois veio o Método Tufo de Experiências. Conte a história desse disco.
Na época do Método foi um período bem complexo. Eu já não aguentava mais o que vínhamos fazendo. Entrei em uma grande crise existencial e com o Cidadão Instigado e pensei em acabar a banda e montar meu projeto solo que se chamaria Fernando Catatau e o Método Túfo de Experiências. Em vez de acabar a banda resolvi transformar nosso som e mudar o caminho que a gente vinha traçando. “Minha Imagem Roubada” que foi a ultima música que fiz pro Ciclo já me levava pra outros rumos. Nessa época, em 2001, eu me mudei novamente pra São Paulo e mais uma vez passei por um período de adaptação difícil que foi se refletindo nas músicas. Foi um disco de cortes radicais na vida, dores de amor… É por isso tem varias músicas cheias de emoção. Ficava ouvindo Roberto Carlos, Bee Gees, Genival Santos e varias músicas do meu passado pra tentar resgatar um pouco das minhas lembranças de Fortaleza pra esse novo momento em São Paulo.

Foi a partir dessa época que a formação se estabeleceu, certo?
Foi mais ou menos por essa época. Até o Método ainda tínhamos o lance da bateria desmembrada em caixa e prato e zabumba e quando mudei pra São Paulo e ainda na transição Ciclo/Túfo eu conheci o Clayton que tocava com o Júpiter Maçã e o chamei pra tocar na banda. Na primeira vez que o convidei ele recusou dizendo que não gostava muito desses sons regionais… Eu achei engraçado. Conhecendo ele hoje, sei que era só da boca pra fora. Na mesma época conheci o Mauricio Takara que é irmão do Ganja que chamei pra tocar zabumba. Com o tempo o Takara desistiu da zabumba e tentamos adaptar as musicas pra bateria e o Clayton assumiu. Nessa época o Regis decidiu vir morar em Sao Paulo também e aos poucos a banda foi se reestruturando.

Cinco anos depois vocês lançaram o Uhuuu!, um disco bem mais pra cima e solar. Conte a história desse disco.
Esse foi um disco que eu considero de renascimento pra mim. Depois de passar por esse período bem intenso da minha vida, eu começei a me reerguer e buscar uma vida mais leve e de reconexão com os amigos e principalmente com Fortaleza, daí as músicas que eu ia fazendo vinham com esse espírito. Até o Uhuuu!, o Dustan, que tinha sido na época do Ciclo ainda não tinha voltado e foi nesse clima de reconexão que ele voltou pra banda. Considero um retrato bem sincero desse momento de astral maresia despreocupado.

Entre Uhuuu! e Fortaleza vocês tiveram a fase do Dark Side of the Moon. Como foi esse período?
Na real a fase Dark Side foi no fim do Fortaleza. Já estávamos no fim das gravações do Fortaleza quando o Ramiro nos chamou pra fazer o disco Dark Side of the Moon do Floyd na integra pro projeto 73 Rotações. A priori eu recusei pela responsabilidade ser muito grande e por eu não me garantir de cantar em inglês mas quando os meninos falaram que eles cantariam eu fui mudando de opinião. Foi aquele momento em que já estávamos exaustos com as gravações do disco, com os shows repetidos do Uhuu! daí recebemos a proposta como algo massa. Aprender a tocar esse disco que é um dos mais marcantes na nossa vida foi o melhor presente de todos.

Finalmente, Fortaleza. É o disco de vocês que mais levou tempo para sair. Ele reflete uma maturidade da banda?
A demora foi além de tudo um processo natural. Aquela tentativa de se transformar. Eu sentia que não podíamos fazer outro Uhuu! e sair daquela sonoridade não foi nada fácil. O Uhuu! foi um começo de reconexão com Fortaleza. Com o lado praiano, dos amigos, da maresia, do astral… Já no Fortaleza eu sinto que foi o reconhecimento de um outro lado. Talvez o nosso verdadeiro lado dark side que é o de uma cidade enraizada no coronelismo, cheio de pessoas talentosas mas que são eternamente podadas, das grades, dos prédios, das diferenças sociais, da marginalidade. A realidade é que sempre foi muito difícil aceitar essas lado torto de Fortaleza, mas essa é a realidade da cidade e não da pra fugir. Quando comecei esse processo de reconexão tudo foi exposto e isso se refletiu nas musicas do Fortaleza. Aceitar, caminhar com essas diferenças e principalmente tentar de alguma maneira melhorar essas situações fazem bem mais sentido hoje pra mim. Mais do que se distanciar.

E como vocês começaram a pensar nos 20 anos da banda?
Quando percebemos que estávamos fazendo 20 anos de banda ja pensamos automaticamente em comemorar. Estarmos juntos por tanto tempo e levando as coisas como a gente sempre quis é uma vitória. Então não tinha como não comemorar. Somos amigos, tocamos juntos desde adolescentes, agora somos uma banda com uma discografia completa em LP e o melhor de tudo: ainda gostamos muito do que fazemos. Vamos comemorar!

Fale sobre a caixa de vinis.
O lance da caixa foi algo muito especial pra gente. O João que é dono do selo EAEO resolveu bancar a discografia inteira pensando na nossa comemoração de 20 anos. Eu nem tenho nem palavras pra dizer o quanto ficamos felizes com isso tudo, é como se agora fizesse um pouco mas de sentido. Somos todos de uma época em que comprar um LP era algo muito especial. Eu ficava olhando a capa, os detalhes, era um tempo de romantismo musical e agora termos todos os LPs de uma só vez, o EP em cassete… Emociona a galera das antigas…

E esses shows do Sesc Pompeia, passam por todas as fases?
Esse show tá sendo uma doidêra. Tivemos que ouvir os discos antigos pra conseguir entrar em todos os climas de emoção de cada época e confesso que me trouxe a tona várias coisas que faziamos e que tinhamos deixado de lado, principalmente na época do EP e do Ciclo. Vamos passar por todas as fases e se aprofundar bastante em cada uma delas. Tá sendo massa se redescobrir depois de tanto tempo.

Vocês entram agora no modo comemoração dos 20 anos, mas já estão pensando num próximo disco?
Já tenho muitas músicas feitas mas isso é pra pensar daqui um tempo. Agora é focar nesse show. Em breve passamos a pensar em algo novo.

Que música melhor reflete o Cidadão Instigado vinte anos após sua formação?
“Um Nordestino no Concreto”.

qotsa2017

“O título Villains não é uma declaração política. Não tem nada a ver com o Trump ou quaisquer dessas merdas. É simplesmente 1) Uma palavra fantástica e 2) um comentário sobre as três versões de todas as situações: a sua, a minha e o que realmente aconteceu… Todo mundo precisa de alguém ou de algo para se contrapor – seus vilões – como sempre. Você não pode controlá-los. A única coisa que você pode controlar de verdade é quando você cede.”

Assim Joshua Homme apresenta o novo disco de sua banda, o Queens of the Stone Age, que não lança discos desde Like Clockwork, de 2013. Villains será lançado no final de agosto (já está em pré-venda) e além da capa e das músicas do novo álbum, a banda também antecipa o primeiro single, a contagiante “The Way You Used to Do”:

Eis a capa e mais informações sobre o disco:

villains

“Feet Don’t Fail Me”
“The Way You Used To Do”
“Domesticated Animals”
“Fortress”
“Head Like A Haunted House”
“Un-Reborn Again”
“Hideaway”
“The Evil Has Landed”
“Villains Of Circumstance”

E como se não bastasse, a produção do álbum é de Mark Ronson.

mmgl-ccsp

Gabriela Deputski lança seu ótimo Cosmos, o primeiro disco da banda que lidera, nesta quinta-feira, de graça, no Centro Cultural São Paulo (mais informações aqui). O detalhe é que nesta apresentação a formação inclui a Larissa Conforto, do Ventre, na bateria… Vai ser demais!

The War on Drugs A Deeper Understanding

Eis a capa do novo disco do War on Drugs, A Deeper Understanding, que deve ser lançado no final do mês de agosto. O grupo voltou a dar notícias no Record Store Day, quando lançou o excelente single “Thinking of a Place” e mantém o mesmo clima vintage em mais uma nova canção, “Holding On”, que chega junto com um belo clipe sobre encontros e reencontros pela vida.

A Deeper Understanding já está em pré-venda e esta é a ordem das músicas no disco que, em vinil, é duplo:

“Up All Night”
“Pain”
“Holding On”
“Strangest Thing”
“Knocked Down”
“Nothing To Find”
“Thinking of a Place”
“In Chains”
“Clean Living”
“You Don’t Have To Go”

spotifytalks-renatasimoes-manobrown-tassiareis-kondzilla

Foi ótimo o papo sobre as diferenças e semelhanças entre a rua e a internet e como ambas influenciam de forma complementar padrões de comportamento neste novo século. A conversa teve a mediação da querida Renata Simões e reuniu um trio sensacional: Mano Brown, Tássia Reis e Kondzilla.

E o próximo Spotify Talks, nem te digo…