
Assim Lorde recepciona os ouvintes de seu quarto álbum, Virgin, que sai na próxima sexta, mas já teve sua faixa de abertura revelada uma semana antes. “Hammer” segue a mesma linha de crescendos dos dois singles anteriores, mas puxa mais pelo primeiro, “What Was That” (eletrônica classuda que aos poucos vai criando clima de pista), do que pelo segundo, “Man of the Year” (mais dramática e épica), estabelecendo um padrão que possivelmente repete-se pelo disco, saindo de climas intimistas para mais expansivos, sempre tratando de temas ao mesmo tempo íntimos e maduros – “não sei se é amor ou ovulação”, canta logo na abertura. O clipe tá aí embaixo: Continue

Don L conseguiu de novo e subiu o sarrafo de 2025 ao lançar, sem aviso, seu melhor disco e sério candidato ao título de grande disco do ano. Com o segundo volume de sua série Caro Vapor – tecnicamente seu quarto disco solo -, o MC (“favorito do seu favorito”, como reza seu adágio) se supera novamente e lança mais um disco contundente e… pop. Em Caro Vapor II: Qual a Forma de Pagamento?, ele retoma o disco original, de 2013, à luz do ano que marca o fim do primeiro quarto do século 21, mencionando todos os problemas que atravessam nossas rotinas, a brutalidade das ruas, a ilusão babilônica e a tormenta mental e emocional desvirtuada de cada um nessa idade das trevas pós-pandêmica, tudo filtrado por paixões pautadas pela confusão entre sucesso e fama, influenciadores, reality shows, Trump, bets, likes e algoritmos. Mas em vez de tornar o clima pesado, prefere lembrar que somos brasileiros e sublinha essa tensão com uma leveza que traz pérolas musicais únicas, que além de citar Itamar Assumpção, Milton Nascimento, o disco clássico do Pessoal do Ceará e a primeira música (“Morra Bem, Viva Rápido”) do primeiro volume dessa série, ainda consegue arregimentar um elenco que reúne o melhor do pop brasileiro que está fora do radar do mainstream, como Fernando Catatau, Anelis Assumpção, Thiago França, Luiza Lian, Terra Preta, Alt Niss, Giovani Cidreira, Alice Caymmi, Terra Preta, entre outros, todos conduzidos pela produção de Iuri Rio Branco (que equilibra samples, bases eletrônicas e instrumentos tocados ao vivo com maestria) e do grande Nave (que produz três faixas). Diferente de seu disco mais recente (Roteiro Pra Aïnouz, Vol. 2, lançado em 2021), Caro Vapor II tem um caráter menos aguerrido, mas não por isso menos revolucionário – o dedo segue no gatilho e a mira segue na cabeça da serpente, mas L desta vez prefere seduzir e fazer dançar do que apontar o dedo na cara. “Se eu não consegui me derrubar, cês não vão” – estamos vendo, Don.
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Bira Presidente, fundador do bloco Cacique de Ramos, que nos deixou na passagem do sábado para o domingo, felizmente pode desfrutar do merecido reconhecimento de sua importância na história da música brasileira, tanto como agente fundamental na transformação e evolução do samba (onde sempre foi reverenciado) como um dos principais artífices da popularização desta mudança, que mexeu na cara da música brasileira dos últimos cinquenta anos. Bastaria seu papel como fundador de um bloco de samba que saiu de sua vizinhança para ganhar o Rio de Janeiro e que até hoje segue firme e frutífero como o principal bloco carnavalesco da cidade que seu nome já teria motivos para figurar em nossa história. Mas se lembrarmos que, além de ter convivido com os pais-fundadores Donga, João da Baiana, Pixinguinha, Carlos Cachaça e Aniceto do Império, este filho de um sambista do Estácio (a primeira escola de samba) com uma mãe de santo não apenas deu abrigo para músicos que revolucionariam o samba ao transformá-lo em pagode na virada dos anos 70 para os 80 (fundando, por sua vez, com a benção e um empurrãozinho de Beth Carvalho, o grupo Fundo de Quintal, maior fenômeno coletivo da história do samba) como reinventou seu instrumento, o pandeiro, neste novo ambiente musical, misturando qualidades como protagonista, músico, agitador cultural e testemunha viva da história. É um nome que confunde-se com a própria tradição do samba, o samba personificado que seu codinome, cargo vitalício no bloco que fundou, poderia fazer reverência ao seu papel de líder nato. Fico feliz de poder ter dado palco para um encontro histórico do Fundo de Quintal no Centro Cultural São Paulo, quando era curador de música daquele espaço e convidei Leandro Lehart para celebrar o Fundo de Quintal na mítica sala Adoniran Barbosa, palco caríssimo para a história de Leandro (que anos depois seria diretor daquele mesmo CCSP), que nunca havia se apresentado lá. Lehart saudou o grupo com a presença de quase todos seus mestres e o mais feliz deles era o próprio Bira, que havia completado 81 anos no dia anterior àquela apresentação, em março de 2018, e foi ovacionado pelo público que lotou o palco mágico do CCSP, feliz de estar sendo reverenciado por sua importância. Obrigado, Bira!
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Quis o destino que o vigésimo sétimo disco do grupo australiano King Gizzard & the Lizard Wizard saísse na mesma semana da morte de Brian Wilson. O disco recém-lançado de um dos principais nomes da psicodelia desse século é uma homenagem consciente ao salto dado pelo líder dos Beach Boys na música pop dos anos 60 ao mesmo tempo em que culmina o trabalho de uma década e meia de um dos grupos mais prolíficos e criteriosos que se tem notícia. Se o intuito do grupo é sempre lançar um disco completamente diferente do anterior, sempre querendo superar-se em termos de qualidade e ousadia musical (o mesmo abismo que quase levou Brian Wilson para longe da gente), em Phantom Island eles chegam ao seu auge. Segundo disco que gravam com uma orquestra, eles fazem Flight b741, lançado no ano passado, parecer um rascunho se comparado ao trunfo que conseguiram neste novo disco. Contando com um maestro pianista que entrou totalmente na frequência da banda como arma secreta (o britânico Chad Kelly, que mora na Austrália desde 2021), eles levam sua obra a um patamar de excelência que converge tanto as melhores viagens do coletivo Elephant Six (do Olivia Tremor Control, Neutral Milk Hotel e Of Montreal), a precisão perfeccionista do Steely Dan em estúdio (outro fruto direto dos esforços de Brian Wilson), as melodias camerísticas do pop de Burt Bacharach, a fase Disney dos Flaming Lips, os delírios megalomaníacos do Grateful Dead e o transe barroco do Mercury Rev na virada do milênio a uma mesma partitura épica, elevando o conceito de rock clássico a um novo parâmetro. Facilmente o melhor e mais palatável disco da banda, ao mesmo tempo em que fortíssimo candidato a melhor disco do ano, Phantom Island é uma obra-prima psicodélica que ainda não foi vista nessa década. Inacreditável. Pare tudo que estiver fazendo e ouça-o agora, pelo amor de Brian Wilson!
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“Uma música tem que mudar pra continuar viva”, escreveu Lykke Li para anunciar seu novo EP, Covers, lançado de surpresa nessa sexta-feira, “estou cantando essas músicas entre gravações, no chuveiro, para me acalmar do pesadelo de 100 horas em scroll, tudo que não posso dizer está na música”. Com apenas três músicas, o disco traz versões deslumbrantes e minimalistas para clássicos do pop como “Stand by Me” (de Ben E. King, regravada por John Lennon) e “Love Hurts” (dos Everly Brothers, regravada por Roy Orbison e pelo Nazareth) e o hino semirreligioso “Into My Arms”, de Nick Cave. “Adeus por enquanto”, despediu-se anunciando um novo disco, “mixar é um buraco de coelho, mas deus queira que o álbum irá sair, mesmo que toda esperança tenha acabado”. Esperamos.
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Kim Gordon atualiza o cartão de visitas de seu mais recente disco solo para se encaixar no clima de pesadelo que paira sobre seu país. A bordoada “Bye Bye” ganha uma versão “Bye Bye 25” que chega às plataformas de áudio nessa sexta-feira, acompanhado de um clipe que clona o clássico clipe do Dylan para sua “Subterranean Homesick Blues”. O alvo, claro, é Trump – mas sem precisar dizer seu nome.
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O grupo norte-americano Yeah Yeah Yeahs começou uma nova turnê esta semana, priorizando apresentações intimistas em teatros e aproveitando essa oportunidade para resgatar músicas que nunca tocaram ao vivo (ou que não tocam nos palcos há anos) e fazer versões que canções que admiram. A turnê Hidden in Pieces começou na terça passada, quando o grupo apresentou-se no Fox Performing Arts Center, na Califórnia, e além de tocar “Little Shadow”, “Mars” e “Let Me Know” pela primeira vez ao vivo (e resgatar para os palcos “Mystery Girl”, “Warrior” e “Isis”, que tocaram pela última vez há quinze anos), também aproveitaram para saudar Björk em uma versão deslumbrante para “Hyperballad”, com direito a cordas. De chorar.
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Luedji Luna acabou de lançar disco novo e, do nada, lançou um outro álbum nessa sexta-feira. Antes Que a Terra Acabe é o sonhado disco de jazz que ela queria lançar e inclui participações ilustres como Seu Jorge, Alaíde Costa, Arthur Verocai, a saxofonista britânica Nubya Garcia, o pianista norte-americano Robert Glasper, entre outros. Nada mal…
Assista ao teaser que ela fez para o disco abaixo: Continue

Na terça desta semana aconteceu a premiação da Associação Paulista de Críticos de Arte no teatro Sérgio Cardoso, quando os agraciados de todas as categorias contempladas pela associação foram receber seus troféus em público. E durante a categoria música popular, da qual faço parte da comissão julgadora, tivemos a honra de reunir, num mesmo palco, Alaíde Costa (que recebeu o merecido primeiro aplauso de pé da noite), Amaro Freitas, os grupos Black Pantera e Boogarins, representantes dos Racionais MCs e de Hermeto Pascoal e os autores do disco Maria Esmeralda, que aproveitaram a oportunidade para apresentar uma das músicas do disco (a excelente “Todo o Tempo do Mundo”) ao vivo. Além de mim também participam da comissão de música popular Adriana de Barros (Mistura Cultural), Bruno Capelas (Programa de Indie), Camilo Rocha (Bate Estaca), Cleber Facchi (Música Instantânea), Felipe Machado (Times Brasil), Guilherme Werneck (Canal Meio), José Norberto Flesch (Canal do Flesch), Marcelo Costa (Scream & Yell), Pedro Antunes (Tem um Gato na Minha Vitrola) e Pérola Mathias (Poro Aberto).
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Apesar de ser um garoto da praia per se, a única vez que o público viu Brian Wilson surfar foi num especial de TV que os Beach Boys fizeram em agosto de 1976 para a emissora norte-americana NBC na tentativa de atingir um público mais novo. O programa Beach Boys: It’s Ok! misturava cenas de shows, entrevistas e quadros cômicos como este em que os dois irmãos cara-de-pau John Belushi e Dan Aykroyd, desta vez passando por policiais, dão uma batida na casa de Brian para obrigá-lo a voltar para a praia. Não foi só Brian quem atuou nestes esquetes, seus irmãos Carl (pilotando um avião) e Dennis (como jurado de um concurso de beleza) também fizeram suas aparições, mas obrigar Brian a subir em uma prancha (depois que Aykroyd manobra o mar para sua entrada) segue como um dos momentos clássicos da teledramaturgia do rock.
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