Antes do feminismo do século 21, antes de Beyoncé, Rihanna e Taylor Swift evocarem o girl power das Spice Girls com tons menos coloridos, antes até mesmo do girl power das Spice Girls e da ironia antimachista de Alanis Morrissette havia Liz Phair. Uma das principais artistas da gravadora independente Matador nos anos 90, ela peitou o establishment do rock’n’roll da época lançando Exile on Guyville em 1993, um marco na história do rock, do rock independente e do rock feito por mulheres por responder, à altura, cada uma das faixas de Exile on Main St., dos Rolling Stones. 25 anos depois de sua obra-prima, ela volta a visitá-la em uma edição de luxo do disco com sete vinis e três CDs, além do material que ela lançou antes de assumir seu próprio nome, quando gravava fitas cassetes com o nome Girly-Sound. Nestas fitas ela testou parte do material que viria aparecer em Guyville, entre elas “Divorce Song”, que ela lançou como aperitivo da caixa de discos:
Girly-Sound To Guyville: The 25th Anniversary Boxset reúne as três fitas do Girly Sound (Yo Yo Buddy Yup Word To Ya Muthah, Girls Girls Girls e Sooty) além de uma versão remasterizada para o disco de estreia de Liz Phair e um livro com a história oral desta parte de sua biografia. O box chega às lojas no início de maio e já está em pré-venda. A cantora e compositora também anunciou uma turnê pelos EUA que começa no fim de maio, tocando apenas músicas de sua fase Girly Sound.
A inglesa Lily Allen – a Lorde dos tempos do MySpace, você lembra – começa a dar novos sinais de vida fonográfica ao anunciar seu quarto álbum, No Shame, para o próximo mês de junho. Ela segue sua sina de cronista dos tempos modernos, sintonizando seu pop quase inofensivo com o R&B desta década e letras que falam sobre sua recente crise de identidade após o fim de seu casamento. Ela lançou o primeiro single “Trigger Bang”, uma parceria com o rapper inglês Giggs em janeiro…
…e agora mostra mais duas novas canções, a gostosinha “Higher”…
…e a balada “Three”.
As três mostram que ela ainda mantém sua verve intacta. Resta saber se ela ainda é relevante em 2018.
A banda curitibana Cora anuncia seu primeiro álbum, El Rapto, ao assumir uma nova sonoridade a partir do single “Tulpa”, que elas antecipam em primeira mão para o Trabalho Sujo. É a primeira vez que elas compõem e cantam em português – e, como o nome não deixa de entregar, a letra tem inspiração lyncheana: “Veio do Twin Peaks sim, sempre muito presente nas nossas criações e performances”, explica uma de suas mentoras, a vocalista Kaíla Pelisser. “Quando descobrimos toda a simbologia da Cora, usávamos samples das intros da Log Lady nos shows. Já a Tulpa foi um nome que caiu como uma luva pra essa música, que fala exatamente sobre ser tomado por um alterego que se materializa e toma conta da situação, deixando seu ‘verdadeiro’ eu preso, só assistindo. Esse tipo de distúrbio de despersonalização é bem comum que seja engatilhado por uso de alucinógenos, o que é um paralelo mais uma vez com o mito da Cora, que estava colhendo narcisos ao ser raptada – os narcisos teriam deixado ela doidona e suscetível ao rapto e à cisão dela em duas, Cora e Perséfone.”
Kaíla continua, se aprofundando sobre o mito grego que batizou a banda: “Essa alegoria criada pelos mitos e o que eles simbolizam levam muita coisa que está incrustada na nossa cabeça e a gente nem sabe de onde vem. Foi muito louco descobrir quem era a Cora da mitologia e o que ela significava, foi a verdadeira epifanóia. Ela simboliza exatamente essa busca por entender mais profundamente o que tem dentro, da verdade, da auto-aceitação e da aceitação do outro como ele é, da consciência das próprias limitações e dessa dualidade que acontece no processo de amadurecimento. Você tem um pé cá, outro lá, várias vezes se orgulha da autossuficiência e da própria capacidade, e outras vezes fraqueja e acaba cometendo os mesmos erros de sempre.”
“Quanto mais a gente pesquisa sobre esse mito mais ‘coincidências’ com o nosso trampo vamos achando: ao cheirar a flor, que teria agido como um narcótico – narciso e narcótico tem o mesmo radical grego, a palavra narkés, que significa entorpecido -, ela teria ficado vulnerável à captura”, continua a guitarrista Katherine Zander. “Encontramos muitas coincidências com o Twin Peaks também, por um tempo usamos a Log Lady como nosso arquétipo: louca porém realista e sábia. Tem uns lances com o chão preto e branco também e outras surpresas que você vai encontrar no álbum que foram diretamente inspiradas na série.”
A nova fase da banda chega com uma nova sonoridade, mais obscura e triste que o indie pop com guitarras do EP Não Vai Ter Cora, um dos grandes lançamentos do ano passado. “As músicas que lançamos ano passado no single já são muito antigas, de 2013, 2014. Demoramos muito no processo de gravar e lançar”, explica Kathe. “Já as músicas do disco novo são de 2017/ 2018. Então essa transição foi bem progressiva até.” “Já estávamos caminhando pra chegar nessa sonoridade, que seguiu o mesmo conceito que pensamos para a concepção do disco: o rapto da Cora, símbolo da inocência, e a entrada dela no mundo obscuro do inconsciente. O estalo foi mesmo a descoberta e a vontade de explorar o próprio nome da banda, que vem desse mito grego da Cora, que ao ser raptada se transforma em Perséfone e passa a viver um período no inferno e outro junto da mãe na terra/Olimpo. Seguindo o conceito, pensamos que o som também tinha que parecer mais escuro e denso, com elementos que expressassem esses momentos de inferno e céu, morte e ressurreição, que é todo bem carregado e dramático”, conclui Kaíla.
Pergunto se esta nova fase está ligada à redescoberta do sagrado feminino que tem acompanhado o feminismo do século 21. “Essa questão do sagrado feminino passa perifericamente ao conceito do álbum, então é difícil de responder”, responde Kathe. “Mas com base nas coisas que temos observado, os arquétipos femininos e o que eles representam ganham mais força quando as energias masculinas estão muito intensas, como momentos de guerra e terror. E levando em consideração que estamos passando por um retorno do conservadorismo e totalitarismo, faz muito sentido a consequência de uma nova onda feminista para contrapor essa força masculinista.”
Um dos maiores nomes da história da música popular do século passado, o tecladista Herbie Hancock quer mostrar que seu legado sobrevive no novo século colaborando com alguns de seus principais filhotes musicais. É o que ele contou para o jornal San Diego Tribune, ao revelar que seu próximo disco terá participações de nomes de peso como Kendrick Lamar, Flying Lotus, Snoop Dogg, Kamasi Washington, Common e Thundercat, além de chamar o ás da guitarra africana Lionel Loueke, o mestre indiano da tabla Zakir Hussein e o velho compadre Wayne Shorter. O disco, ainda sem título, está sendo produzido pelo tecladista e saxofonista Terrace Martin, que já gravou com Kendrick Lamar e Snoop Dogg, além de outra lenda-viva da música, Stevie Wonder.
“Tenho aprendido bastante com os jovens com quem venho trabalhando”, contou o tecladista à reportagem do jornal. “Porque eles constróem novas estruturas, com a mídia social e toda esta arena, e isso afeta a forma como você traz as coisas para o público para deixá-lo sabendo que você está trabalhando em algo. Então ainda estou aprendendo e fico muito feliz com isso. Nunca quis parar de trabalhar. Eu nem penso mais em termos de: ‘vou fazer esse disco, lançá-lo, promovê-lo, fazer uns shows e em algum ponto começo a trabalhar em outro disco’. Hoje em dia você pode lançar duas faixas e então mais tarde elas podem se conectar com outras duas. O limite é determinado pelo artista. É uma nova era.”
Uma nova era que ele ajudou a inaugurar quando, no início dos anos 80, ousou descer dos pedestais do jazz para abraçar o hip hop ainda bebê, com o clássico “Rockit”.
Você colhe o que você planta.
E aos poucos vem chegando a hora. “Liberdade, A Filha do Vento” é o primeiro single do retorno do grupo pernambucano Cordel do Fogo Encantado, que retomou suas atividades ao anunciar o lançamento súbito de seu quarto disco, Viagem ao Coração do Sol. A faixa conta com a participação do produtor do álbum, Fernando Catatau tocando teclados e guitarra, e dá pistas sobre a temática do novo trabalho, que será lançado no dia 6 de abril. “Essa música nasceu com os primeiros contatos para o retorno da banda e traduz o sentimento do nosso novo disco”, resumindo o vocalista Lirinha. O vídeo abaixo é exclusivo para o Trabalho Sujo.
Em mais uma colaboração para o site da revista Trip, escrevi sobre a Universal Maurício Orchestra, formada por seis Maurícios da pesada: Fleury, Tagliari, Pereira, Bussab, Badê e Takara:
As gravações aconteceram no final de 2015 e início de 2016. A tônica do som também vinha do sonho de Tagliari. “Foi tudo bem aberto, ninguém trouxe nada pronto, a gente se encontrou e começou a tocar”, lembra Takara. “Tinha essa referência sugestiva ao Miles elétrico, [do álbum] In a Silent Way, e, no fim das contas, a formação, que é bem inusitada pra mim, refletia um pouco isso, a coisa do sax soprano, da percussão”, completa.
“A linha era cada um ficar à vontade naquilo que gosta, sabendo que estávamos inseridos dentro de um coletivo”, completa Badê. “A ideia do Tagliari era fazer uma coisa mais viajandona, instrumental, como o Miles Davis do sonho dele. A gente não ficou discutindo, apertava o rec e saía tocando”, lembra Fleury.
“Não lembro de ter combinado nada. Na real, olhando em retrospecto, foi meio mágico: muito som, muita risada, pouca conversa e a música fluindo. Tanto que quando você escuta o disco todo, vê que cada faixa tem uma onda muito diferente. Foi fruto mesmo de um encontro de vários backgrounds musicais e muita generosidade, um lance bem fraternal”, completa Tagliari. “O disco é isso, música espontânea, sem parar muito pra pensar, sem nada escrito antes, feita muito das influências sonoras que a gente tem, tipo pegar uma ideia que aparecia e brincar em cima dela”, emenda Pereira.
A conexão maurícia — termo cujo significado vem da mesma palavra que dá origem ao termo “mouro” e quer dizer “de pele escura” — não terminou no som. Depois de brincarem com a possibilidade de pedir a capa ao Maurício de Souza, o pai da Mônica e do Cebolinha, lembraram de outro Maurício que não era reconhecido pelo prenome, o DJ e ilustrador MZK, que aceitou prontamente a tarefa de fazer a capa.
A íntegra do texto você lê aqui.
Enquanto esperamos por seu novo disco, Tell Me How You Really Feel, nossa musa australiana Courtney Barnett declara mais uma vez seu amor por seus conterrâneos do INXS ao regravar a balada “Never Tear Us Apart” para uma campanha da Apple.
Não é a primeira vez que ela celebra a banda do falecido Michael Hutchence: em 2014 ela fez um show inteiro em homenagem à banda, regravando o clássico Kick, de 1987.
O som sossegado e a vibe ensolarada dão a tônica do novo single do produtor pernambucano Paes, que está prestes a lançar seu segundo disco solo, que antecipa em primeira mão para o Trabalho Sujo com o single “Mais Além”, com clipe dirigido pelo artista gráfico Raul Luna. “Quando musiquei este poema (da atriz, poeta e fotógrafa Camila van der Linden), construí com bandas distintas, arranjos bem diferentes. O primeiro – ainda com Barro, Rapha B e Rafael Gadelha na banda – era uma espécie de brega modernoso. O segundo momento – já com Cassio Sales nas baquetas – se tornou um pop rock tribal, por conta dos tambores da bateria marcantes. Testamos ela em shows. Quando comecei a gravar meu novo disco com Arthur Dossa e Cássio, desenvolvemos um arranjo mais minimalista, preciso e direto, como segue todo o mood do álbum.” O disco completo sai ainda este mês
Em menos de um mês teremos mais um disco do Yo La Tengo entre nós e depois de mostrar quatro faixas do ainda inédito There’s a Riot Going On, o trio de Hoboken revela mais uma nova canção, a deliciosa pérola “For You Too”:
Que beleza…
O produtor carioca Alexandre Kassin lançou seu terceiro álbum, Relax, no Japão em 2017 – e agora prepara-se para mostrá-lo por aqui, puxando o lançamento, com a versão que fez ao lado de Clarice Falcão para “Something Stupid” – imortalizado nas vozes de Frank e Nancy Sinatra -, na versão feita nos anos 60 pela dupla Leno e Lilian. O disco ainda conta com participações do soulman Hyldon e da banda portuguesa Orelha Negra e tem previsão de ser lançado por aqui no final de março, pelo selo Lab 344.












